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Quer saber como terminou esse primeiro GP de São Paulo?

Devido ao acidente e à invasão da pista somente seis carros foram oficialmente classificados:

 

1º) Carlo Pintacuda (ITA), 60 voltas, média de 104.45 km/h

2º) Attillo Marinoni (ITA), 59 voltas

3º) Manuel de Teffé (BR), 58 voltas

4º) Hellé Nice (FRA), 58 voltas

5º) Vittorio Rosa (ARG), 55 voltas

6º) Arthur Nascimento Jr. (BR), 54 voltas.

 

A acusação do mecânico de Hellé Nice não foi comprovada e Manuel foi inocentado.

De acordo com o regulamento, Marinoni deveria ser desclassificado, devido à ajuda recebida de seu colega. Mas a Comissão Esportiva levou em conta o fato dele ser um dos principais convidados e ter dado um espetáculo técnico ao longo da prova. O que mais interessava naquele momento, ainda mais com a tragédia, era dar alguma satisfação ao público. Decidiram então por uma punição muito sagaz. A maior parte de seu prêmio em dinheiro pelo segundo lugar foi destinada às famílias das vítimas.

Para o público, Pintacuda virou sinônimo de piloto hábil. “Quem você pensa que é, o Pintacuda?” se ouvia no trânsito.

Hellé Nice se tornou uma referência feminina, como comprova o número de Elenices registradas a partir dessa época.

Em outras palavras, apesar da tragédia o público tinha gostado. E Louis Sanson pôs-se a trabalhar.

Com o apoio do Automóvel Club do Brasil, ele fez um estudo detalhado de  autódromos famosos da sua época, como o antigo circuito de Tripoli (construído quando a Líbia era colônia italiana e palco de belas disputas), Monthléry (França), Brooklands (Inglaterra), Roosevelt Raceway e Indianapolis (Estados Unidos). Parece que além de visão de future, Sanson era perfeccionista e tinha paixão pelo automobilismo.

Ele projetou uma pista com uma bela combinação de retas, curvas de alta, média e baixa velocidade, explorando subidas e descidas para criar um circuito muito seletivo.

O projeto original previa ainda arquibancadas dos dois lados da pista, aproveitando as condições favoráveis de visibilidade, um estádio para competições e um estacionamento. O nome Interlagos tinha sido sugerido por sua filha, Jean Romero Sanson, como uma tradução de Interlaken.

Em 15 de abril de 1939, o autódromo ainda em obras, Manoel de Teffé mais alguns pilotos deram as primeiras voltas na pista. A inauguração oficial deveria ocorrer em 26 de novembro de 1939, com a Prova de Turismo Interlagos, para carros de turismo, o 1º GP de motos de São Paulo, aberto a todas as categorias, e o GP Automobilístico de São Paulo, para carros de corrida (categoria C) e adaptados (categoria A).

Haveria um prêmio de 200 contos de réis com patrocínio do Automóvel Club de São Paulo e a prova seria dirigida pelo Automóvel Club do Brasil. Mas… os jornais do dia 28 anunciaram: “não houve corrida e nem inauguração, por causa do mau tempo.”

A expressão “condições precárias” não definia exatamente o local. Ainda não existiam infraestrutura local nem transporte para o autódromo. O único transporte coletivo eram os bondes, que não iam adiante da Capela do Socorro. Sem infraestrutura e acesso por automóvil, ninguém iria comprar terreno nem frequentar a represa nem o autódromo.

Sanson precisava viabilizar o investimento feito nesse projeto.

Por isso pretendia completar a autoestrada Washington Luís, construir a avenida Interlagos e fazer uma ponte sobre o canal do rio Grande.

Para recuperar parte do investimento pediu e obteve do governo autorização para cobrar um pedágio, que no final dos anos 30 custava pouco mais de mil réis, a moeda da época.

A ponte e a avenida Interlagos só foram inaugurados em junho de 1945.

“Estiveram ontem no Palácio os srs. Abelardo Vergueiro César, L. R. Sanson e Isidoro A. Matos Ferreira, diretores da S. a. Auto-Estradas,  que convidaram o Sr. Interventor Federal para a inauguração da avenida, ponte e Hotel de Interlagos, a realizar-se amanhã às 13 h 30.”

Finalmente, na tarde de 12 de maio de 1940 estimadas 15 mil pessoas compareceram à pista para assistir a duas provas: uma de motos e o GP de São Paulo.

O ingresso para as arquibancadas era intencionalmente baixo, mas era preciso muita boa vontade para pagar. Não havia mais que uma cerca em volta. Não havia bilheterias, arquibancadas, boxes, banheiros, torre de cronometragem e nem mesmo local para comprar um sanduíche e um refrigerante.

Devido à falta de recursos o que estava pronto era a pista, de 7.960m. Terra batida.

Isso não era propriamente estranho. Até pouco antes da 2a. guerra era comum carros de ponta se enfrentarem em estradas de terra, como a tradicional prova de Alessandria, no norte da Italia.

A prova de motos teria 96 km (12 voltas) e foi vencida por Hans Ravache.

Os treinos de classificação confirmaram a enorme superioridade da Alfa Romeo 8C35 de Nascimento Júnior. Ele obteve a pole com nada menos que 12 segundos de diferença para o segundo melhor tempo, que foi registrado tanto por Querino Landi, irmão de Chico, quanto por Geraldo Avellar, ambos com Alfas menos potentes.

O português Vasco Sameiro, que vivia parte do ano no Brasil, e o argentino Domingo Ochoteco deram um caráter internacional para a prova.

Trinta carros estiveram no treino. A ordem de largada foi a seguinte:

 

1º Nascimento Júnior (SP) nº 2, Alfa Romeo 8C35, 3.822cc, C, 4m09s5

2º Querino Landi (SP) 22, Alfa Romeo 8C 2300 Monza, 2.336cc, C, 4m21s5

3º Geraldo Avellar (RJ) 18, Alfa Romeo 2900, 2.905cc, C, 4m21s5

4º Francisco Credentino (SP) 4, Maserati 8CM, 2.991cc, C, 4m23s5

5º Chico Landi (SP) 6, Maserati 8CM, 2.991cc, C, 4m27s5

6º Manuel de Teffé (RJ) 8, Maserati 6CM, 1.493cc, C, 4m31s0

7º Domingo Ochoteco (ARG) 12, Alfa Romeo 2900, 2.905cc, C, 4m32s0

8º Vasco Sameiro (POR) 14, Alfa Romeo 8C 2300 Monza, 2.336cc, C, 4m37s0

9º João “Jaburu” Santo Mauro (SP) 34, Ford V-8 Adaptado, 3.622cc, A, 4m43s5

10º Irineu Ângulo (SP) 48, Ford V-8 Adaptado, 3.622cc, A, 4m44s0

11º Amaral Júnior (SP) 50, Lincoln Adaptado, 7.343cc, A, 4m44s0

12º Oldemar Ramos (RJ) 10, Alfa Romeo 8C 2300 Monza, 2.336cc, C, 4m44s5

13º Cláudio Bianchi (SP) 40, Hudson Adaptado, 4.445cc, A, 4m49s5

14º Norberto Jung (RS) 30, Ford V-8 Adaptado, 3.622cc, A, 4m52s5

15º Ary de Almeida (SP) 44, Alfa Romeo 8C 2300 Monza, 2.336cc, C, 4m53s5

16º Newton Teixeira (MG) 52, Alfa Romeo 6C 1750, 1.752cc, C, 5m01s0

17º Santos Soeiro (SP) 20, Fiat Adaptado, 1.484cc, A, 5m01s0

18º José Zazza (SP) 36, Bugatti Chrysler, 5.302cc, A, 5m02s0

19º Luiz Tavares Moraes (RJ) 56, Studebaker Adaptado, 4.104cc, A, 5m02s5

20º Ângelo Gonçalves (SP) 24, Ford V-8 Adaptado, 3.622cc, A, 5m04s5

21º Lydio Fernandes (SP) 70, Ford V-8 Adaptado, 3.622cc, A, 5m08s0

22º Gino Bianco (RJ) 62, Bugatti Chrysler, 5.302cc, A, 5m09s0

23º Miguel Violante (SP) 28, Maserati 4CM, 1.491, C, 5m09s0

24º Jamil Couri (SP) 76, Renault Adaptado, 3.189cc, A, 5m10s0

25º Luciano Bonini (SP) 54, Fiat Adaptado, 1.484cc, A, 5m16s0

26º Júlio de Moraes (RJ) 16, Wanderer Adaptado, 2.632cc, A, 5m16s0

27º Arthur Bertoni (SP) 32, Ford V-8 Adaptado, 3.622cc, A, 5m16s5

28º Luís Zeppia (SP) 68, Buick Adaptado, 4.491cc, A, 5m18s0

29º Domingos Lopes (RJ) 26, Bugatti T51, 2.262cc, C, s/tempo

30º Benedicto Lopes (RJ) 42, Alfa Romeo 8C 2300 Monza, 2.336cc, C, s/tempo

 

Como esperado, Nascimento Júnior assumiu a liderança desde a largada e foi abrindo vantagem. Querino Landi teve problemas na sua Alfa e abandonou. O motor da Maserati de Manuel de Teffé começou a ter comportamento irregular e ele também se retirou. O terceiro a abandonar entre os competidores da categoria C foi Francisco Credentino, também com problemas mecânicos na sua Maserati 8CM.

Chico Landi ultrapassou Geraldo Avellar e assumiu a segunda posição e assim seguiram até o fim. O quarto posto foi conquistada por Benedicto Lopes e o quinto por Domingos Lopes. Ambos tinham carros da categoria C, competitivos o suficiente para chegar a esses postos mas, sem ter marcado tempo nos treinos, tiveram que seguir o exemplo de Marinoni e trabalhar para escalar o pelotão. Dez carros terminaram a prova.

Nascimento Júnior recebeu a bandeira quadriculada 36 segundos à frente de Chico Landi. Foram 25 voltas, 200 km, em 1h46m44s0, media de 113,561 km/h. A melhor volta foi de Nascimento Júnior, em 4m09s1, media de 115,616 km/h.

 

Abraços

 

Carlos Chiesa

 

 

Carlos Chiesa
Carlos Chiesa
Publicitário, criou campanhas para VW, Ford e Fiat. Ganhou inúmeros prêmios nessa atividade, inclusive 2 Grand Prix. Acompanha F1 desde os primeiros sucessos do Emerson Fittipaldi.

4 Comments

  1. Thiago Valério da Rocha disse:

    Show Carlos! abraço e obrigado pela coluna 🙂

  2. Fernando Marques disse:

    Muito show de bola.
    Interlagos … pista de terra … devia ser um espetáculo pra guiar …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

    • Carlos disse:

      Também acho, Fernando. Se vc se lembra d’O mestre de Fangio, terá uma idéia de que esta prova deve ter sido similar àquelas da fase pré-pavimento. Pra mim ficou marcado o GP de Alessandria. Pietro Bordino, um dos ases da época, era dessa região e morreu nos treinos. Era comum estradas de terra serem fechadas ao tráfego mas não a… cães. Ele atropelou um, voou até cair no rio. Pietro e o mecânico morreram nesse acidente.
      Olhe na foto a aglomeração em volta dos carros na largada…

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