
Em meados da década de 1970, Long Beach era uma cidade portuária sem grandes atrativos e, de certa forma, decadente. Mesmo tendo um belo cenário e estando próxima a Los Angeles, a cidade californiana teria uma mudança drástica quando Chris Pook, um antigo agente de viagens inglês, estava assistindo às 500 Milhas de Indianápolis e percebeu que Long Beach poderia ser o cenário de uma corrida de F1, sua antiga paixão.
Como resultado dessa ideia, o Grande Prêmio de Long Beach saiu do papel e se tornou um dos eventos automobilísticos mais famosos e icônicos dos Estados Unidos, tendo recebido várias categorias com sucesso de público.
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Pook chegou aos Estados Unidos em 1963 com o diploma de Vendas e Marketing pela University College London querendo fazer a América. Abriu uma agência de viagens em Long Beach, disposto a fazer algo para revitalizar a cidade. Amante de corridas desde os tempos em que morava na Inglaterra, Pook vislumbrou uma corrida naquele local com uma paisagem pitoresca. Mônaco era a referência. Em vez do Mar Mediterrâneo, o Oceano Pacífico. Em vez dos iates luxuosos, o majestoso Queen Mary. Além de um circuito de rua apertado, que seria um desafio aos pilotos.
Começou a elaborar um plano, reunindo um grupo de sonhadores com ideias semelhantes, incluindo uma figura importante do automobilismo americano, Dan Gurney, com passagem brilhante pela F1. Em 1973, Pook convenceu o Departamento de Convenções e Visitantes de Long Beach, a Câmara Municipal de Long Beach, a Câmara de Comércio e a Associação Comercial do Centro de Long Beach a construir um circuito de rua tendo como base a Ocean Boulevard e a Shoreline Drive.
O primeiro Grande Prêmio de Long Beach aconteceu em setembro de 1975, realizado com carros da F-5000 e vencido por Brian Redman, com um Lola-Chevrolet da equipe de Carl Haas. O evento foi um teste e, com um público estimado de 30 mil pessoas, Pook calava os céticos e provava que sua corrida tinha plenas condições de receber uma corrida de F1. Nessa altura, Watkins Glen era um circuito já tradicional no calendário da F1, mesmo os Estados Unidos não ligando muito para a categoria. O novo evento em Long Beach seria conhecido como Grande Prêmio dos Estados Unidos-Oeste e rapidamente entrou no gosto de pilotos e público, com mais de 45 mil pessoas presenciando a vitória de Clay Regazzoni, em corrida marcada por um incidente envolvendo James Hunt e Patrick Depailler, que fez o inglês invadir a coletiva de imprensa pós-corrida para confrontar o piloto francês.
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Mesmo com o sucesso da primeira corrida de F1 em Long Beach, não se pode dizer que os organizadores obtiveram sucesso comercial. “Em 1976, acho que o primeiro Grande Prêmio nos custou cerca de US$ 575 mil e quase falimos, além de estarmos nos matando de trabalhar”, falou Pook. Mesmo com todos os problemas financeiros, a edição de 1977 aconteceria e seria decisiva para a continuidade da prova.
Long Beach precisava desesperadamente de uma corrida de F1 de grande repercussão e conseguiu graças a uma figura extremamente popular nos dois lados do Atlântico. Mario Andretti já era uma estrela do automobilismo americano desde a década anterior, mas decidira se estabelecer na F1 e tentar sucesso no seu continente natal. Andretti largou na primeira fila ao lado de Niki Lauda e passou boa parte da corrida brigando com Jody Scheckter pela vitória. O piloto da Wolf liderava até as últimas voltas, quando teve um pneu furado. Scheckter resistiu bravamente, mas acabou ultrapassado por Andretti quando faltavam três voltas para o fim, na freada da Queen’s Hairpin, levando a torcida americana ao delírio.
Mesmo já tendo vencido uma vez as 500 Milhas de Indianápolis, Mario Andretti falou que considerava aquela vitória uma das mais importantes de sua carreira, principalmente por causa do apoio da torcida. Essa continua sendo a única vitória de um piloto americano em um Grande Prêmio em casa. “A vitória de Mario realmente mudou toda a imagem da corrida”, lembrou Jim Michaelian, sócio de Pook e recentemente falecido. “Fomos destaque no New York Times e na Sports Illustrated, e a corrida dominou os noticiários nacionais.”
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Long Beach ganhava o destaque que necessitava, ficando até 1983 no calendário da F1, com eventos marcantes. Gilles Villeneuve obteve uma vitória ousada e brilhante em 1979. Nelson Piquet venceria sua primeira corrida de F1 em 1980 (foto acima), numa prova marcada pelo acidente que deixou o vencedor da primeira corrida, Clay Regazzoni, numa cadeira de rodas. Em 1981, o então campeão Alan Jones liderou uma dobradinha da Williams, em que, pela primeira vez, dois pilotos americanos, Mario Andretti (quarto) e Eddie Cheever (quinto), marcaram pontos na F1 na mesma prova. Niki Lauda provava que seu retorno à F1 não era um blefe com sua vitória dominante em Long Beach em 1982, em prova marcada por uma disputa incrível entre Gilles Villeneuve e Keke Rosberg.
Porém, todos lembram da edição de 1983. Os motores turbos já estavam dominando a F1 e, ainda equipados com motores Ford Cosworth aspirados, a dupla da McLaren, John Watson e Lauda, teve que se conformar com as22º e 23ª posições no grid. No domingo, porém, tudo mudou. Com os carros turbos obrigados a reduzir a potência durante a maior parte da corrida e os pneus Michelin funcionando bem em ritmo de prova, Watson viu o seu McLaren ganhar vida.
Lá na frente, Keke Rosberg dava um 360° na primeira volta antes de acertar Patrick Tambay na briga pela ponta, destruindo a corrida de ambos. Jacques Laffite assumiu a liderança da prova, mas, incrivelmente, a dupla da McLaren vinha ganhando terreno, inicialmente com Lauda na frente, mas logo Watson ultrapassaria o companheiro de equipe. Com dois terços de prova, Watson encostava em Laffite e assumia a ponta, trazendo Lauda consigo. O norte-irlandês venceria uma das corridas mais marcantes da história da F1, se tornando o piloto que mais precisou ganhar posições para vencer um GP.
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Contudo, fora das pistas, a situação não era tão animadora. Por mais que Long Beach fosse uma etapa popular no calendário da F1, Bernie Ecclestone cobrava cada vez mais dinheiro dos promotores e, em 1983, Pook e seus associados lucraram apenas cem mil dólares num final de semana de arquibancadas lotadas. “Um dia ruim, um fim de semana ruim, e estaríamos perdidos. Então, basicamente, concordamos com Ecclestone em desfazer o acordo.”
Porém aquela não seria a última corrida em Long Beach. Pook foi procurado por Dan Gurney para uma corrida da CART e, mesmo com algumas dúvidas se a corrida teria o mesmo apelo da F1, as dúvidas foram sanadas com uma vitória dominante de Mario Andretti, em prova marcada pela estreia de Emerson Fittipaldi na Indy.
Long Beach se tornaria a corrida mais importante da Indy depois das 500 Milhas de Indianápolis e, com isso, pilotos americanos passaram a dominar a prova. Al Unser Jr. venceu a prova seis vezes, incluindo uma sequência impressionante de quatro vitórias consecutivas entre 1988 e 1991. Mario Andretti venceu três vezes (quatro, se contar a vitória em 1977 na F1) e seu filho Michael venceu duas vezes.
Em junho de 2005, Kevin Kalkhoven e Gerald Forsythe compraram a Associação do Grande Prêmio de Long Beach, garantindo que o famoso circuito à beira-mar continuasse em funcionamento, mesmo com a Indy muito mal das pernas. Em 20 de abril de 2008, o Grande Prêmio Long Beach realizou a última corrida da longa e rica história da Champ Car, com o australiano Will Power cruzando a linha de chegada em primeiro lugar.
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Com tantos pilotos lendários tendo vencido em Long Beach, Alex Palou (foto que abre esta coluna) não poderia ficar de fora. O espanhol vai escrevendo uma das mais belas páginas da história da Indy e, se Long Beach é a segunda corrida mais importante do calendário da Indy, Palou não poderia ficar sem uma vitória.
Nesse domingo, Palou fez uma corrida de almanaque. Do seu almanaque. Ainda no começo da prova, o piloto da Ganassi fez uma bela ultrapassagem sobre Pato O’Ward, assumindo a segunda posição. O poleman Felix Rosenqvist liderou dois terços da prova, mas uma bandeira amarela marota agrupou os carros. Isso foi decisivo. A maioria dos carros foi aos pits e Palou usou a eficiência da Ganassi para emergir do pit-lane na frente do sueco. Com cara no vento, Alex abriu vantagem sobre os demais até a bandeirada, vencendo com certa tranquilidade. Era a primeira vitória de Palou em Long Beach e a 22ª na carreira, se igualando a Emerson Fittipaldi. Contudo, se o brasileiro demorou dez anos para conseguir essa marca, Palou conseguiu o feito em metade do tempo. Mais uma prova do que Palou vem fazendo na Indy é algo que beira o inacreditável!
Com três vitórias em cinco corridas, o espanhol reassumiu a liderança do campeonato de 2026, superando Kyle Kirkwood, piloto da Andretti e que vai se credenciando como o maior rival de Palou em 2026, porém… quem poderá parar Palou?
Abraços!
João Carlos Viana