
Hoje vamos concluir a tocante história de uma amizade que influenciou toda uma geração e deu um novo ar a Fórmula 1 nos anos 50, releia a primeira parte no link abaixo
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Se os primeiros anos da Fórmula 1 pós-guerra foram um reflexo fiel de uma sociedade que se reerguia com a solenidade e a cicatrizes dos que sobreviveram, o período entre 1955 e 1958 representou o momento em que a juventude, enfim, com as mãos no volante assume um papel mais protagonista numa nova era. Este foi um período de transição visceral, onde o ethos da “velha guarda” – personificado pela genialidade serena e quase matemática de Juan Manuel Fangio – começou a ser desafiado por um novo espírito, mais impulsivo, humano e intensamente vital.
No epicentro desta revolução silenciosa, não estava um único herói, mas uma dupla: os britânicos Mike Hawthorn e Peter Collins. Sua amizade, tão pública quanto genuína, tornou-se a metáfora perfeita para a integração do automobilismo no turbilhão social dos “Anos Dourados”. Eles não foram apenas pilotos excepcionais; foram a personificação de uma nova atitude perante a vida, a morte e a competição.
O ano de 1955 foi um dos mais sombrios na história do esporte a motor. O desastre nas 24 horas de Le Mans, onde o Mercedes-Benz de Pierre Levegh se chocou contra a multidão, matando mais de 80 espectadores, lançou uma sombra de dúvida sobre o próprio futuro das corridas. Num primeiro momento países como Suíça, França e Alemanha baniram competições automobilísticas, o contorno dessa tragédia foi sendo assimilada aos poucos, mesmo assim, nesse ambiente de luto e questionamento, a Fórmula 1 seguiu adiante, ainda sob o domínio absoluto de Juan Manuel Fangio, que conquistaria seu terceiro título mundial com a Mercedes.
Nesse cenário, Mike Hawthorn e Peter Collins já eram figuras conhecidas, mas ainda à sombra dos gigantes. Mike Hawthorn, havia estourado na cena em 1953, com sua vitória no Grande Prêmio da França em Reims, pilotando uma Ferrari. Com seu charme inconfundível – o sorriso fácil, alto, bonito e o característico blazer de tweed –, ele era a antítese do piloto sério e contido. Por baixo dessa fachada descontraída, porém, havia um competitivo feroz e um homem que carregava o fardo de uma doença renal crônica que, frequentemente, lhe causava dores excruciantes.

Peter Collins, por sua vez, era a essência do “gentleman racer”. Alegre, destemido e com uma paixão contagiante pelas corridas, ele era amado por todos no paddock. Diferente de Hawthorn, que vinha de uma família abastada do comércio automotivo, Collins era um homem de origens mais simples, que subiu na vida através de seu talento puro e determinação. Sua amizade com Hawthorn nasceu de uma afinidade natural: ambos eram jovens, britânicos, e compartilhavam um amor incondicional pela velocidade e pela vida.

Em 1955, Collins pilotava pela Maserati, enquanto Hawthorn dividia seu tempo entre a Ferrari e algumas corridas pela Vanwall. A temporada foi difícil para ambos. Hawthorn, abalado pelo acidente em Le Mans (um trauma que o perseguiu ao longo de sua vida) e por questões de confiabilidade do carro, não conseguiu lutar pelo título. Collins, por sua vez, mostrou lampejos de seu enorme talento, mas sem a regularidade necessária. O ano terminou com Fangio campeão, mas com a sensação de que uma nova energia começava a agitar as bases do esporte.
A virada decisiva na carreira de ambos, e no fortalecimento de sua amizade, deu-se nos meados de 1955 , fortalecendo em 1957, quando se tornaram companheiros de equipe na Ferrari. Sob as asas do “Cavallino Rampante”, Hawthorn e Collins formaram uma das duplas mais carismáticas e unidas da história da categoria.

A Ferrari da época, comandada pelo pragmático e impiedoso Enzo Ferrari, era um ambiente de alta pressão, de manipulação descarada entre seus pilotos, onde se esperava que eles os pilotos se sacrificassem pela equipe – e, idealmente, que um deles se consolidasse como o líder incontestável.
Foi nesse caldeirão de pressões que a amizade entre Hawthorn e Collins floresceu de forma mais bela e significativa. Eles desafiaram a lógica convencional do esporte. Em vez de rivais secretos, eram cúmplices. Compartilhavam quarto de hotel, bebiam juntos, aprontavam travessuras e, o que era mais incomum, discutiam abertamente estratégias e configurações dos carros. Enquanto a velha guarda via as corridas como uma batalha solitária, eles a viam como uma aventura compartilhada.
O ápice deste espírito de irmandade ocorreu no Grande Prêmio da França em 1956, em Reims. Juan Manuel Fangio, agora na Ferrari, liderava a corrida, mas Hawthorn e Collins, mesmo em equipes diferentes, trocaram ajuda e estavam mais rápidos. A vitória estava ao alcance de ambos. Em vez de se enfrentarem em uma batalha fratricida que poderia colocar tudo a perder, os dois amigos conduziram a corrida de forma tática. No final, foi Collins quem cruzou a linha de chegada em primeiro lugar, Hawthorn terminou na décima posição. A imagem dos dois, suados e exaustos, abraçando-se e rindo após a corrida, tornou-se icônica. Era a vitória da camaradagem sobre o individualismo.
Esse gesto, porém, não era apenas esportivo; era profundamente cultural. Na década de 50, a juventude ocidental estava justamente contestando os modelos hierárquicos e individualistas de suas sociedades. A figura do “rebelde” de James Dean não era sobre solidão, mas sobre a busca por conexões autênticas em um mundo de regras falsas. Hawthorn e Collins, em suas kombis, eram os “rebeldes” das pistas. Eles mostravam que era possível ser um competidor de elite sem se tornar uma máquina insensível.
Collins terminou o campeonato de 1956 em um brilhante terceiro lugar, atrás de Fangio e Stirling Moss, enquanto Hawthorn ficou em na décima segunda posição. No ano seguinte ambos estariam juntos na Ferrari, a Ferrari agora tinha uma alma, e ela batia em uníssono no peito de dois jovens ingleses.
Se 1956 foi o ano da consolidação, 1957 foi o ano em que ambos se estabeleceram como legítimos candidatos ao título. Fangio, com uma das atuações mais magistrais de sua carreira em Nürburgring, conquistou seu quinto e último título, mas a temporada foi marcada pela consistência e velocidade de Hawthorn e Collins, mesmo sem grandes resultados, dado a fragilidade de seus carros.
O ano de 1958 prometia ser o auge. Fangio havia se aposentado, e o trono estava vago. A temporada se configurou como uma batalha épica entre os britânicos: Hawthorn e Collins pela Ferrari, e Stirling Moss pela Vanwall. Era a chance de a nova geração, finalmente, coroar seu primeiro campeão mundial.
E chegada à temporada de 1958, havia expectativa de finalmente na F1 ter um campeão inglês, e Hawthorn, em particular havia amadurecido como piloto. Sua condução, antes conhecida por ser um tanto brutal com os equipamentos, tornou-se mais calculista e eficiente. Ele venceu o Grande Prêmio da França e na disputa no GP da Grã-Bretanha em Aintree, uma vitória emocionante diante do público local. Ambos os pilotos Collins e Hawthorn terminam em dobradinha, delírio da torcida britânica
A amizade deles servia como um escudo psicológico contra as pressões internas da Ferrari. Eles eram o conforto um do outro, o ombro amigo após um dia difícil. Enquanto o mundo exterior via a Fórmula 1 como um esporte de titãs solitários, dentro do box da Ferrari, dois amigos dividiam não apenas a pressão, mas também o medo.
A Ferrari havia começado a temporada com força. A amizade entre Hawthorn e Collins estava mais forte do que nunca. Eles não eram mais apenas amigos; eram irmãos de pista, prontos para se ajudarem a conquistar o título, não importando quem vencesse. A filosofia era simples: “Se eu não puder ganhar, que seja você.”
A tragédia, porém, espreitava nas curvas do temível Nürburgring. Durante o Grande Prêmio da Alemanha, em 3 de agosto de 1958, Peter Collins, lutando pela liderança do campeonato, saiu da pista em alta velocidade na curva Pflanzgarten. Ele foi arremessado do carro e sofreu ferimentos na cabeça que lhe foram fatais. Sua morte foi instantânea.

O paddock inteiro ficou em estado de choque. Mas para Mike Hawthorn, foi um golpe devastador. Ele perdeu muito mais que um companheiro de equipe; perdeu seu melhor amigo, seu irmão. Testemunhas disseram que Hawthorn ficou irreconhecível, seu rosto marcado por uma dor profunda e incontida. A imagem do piloto extrovertido dava lugar à de um homem quebrado.
Apesar da dor, Hawthorn seguiu em frente. Impulsionado por um senso de dever e pela memória do amigo, ele continuou na luta pelo título. A batalha com Moss foi acirradíssima, indo para a última prova, o GP de Marrocos. Em uma das disputas mais dramáticas da história, Hawthorn conseguiu os pontos necessários para sagrar-se o primeiro campeão mundial britânico da Fórmula 1.

No pódio, porém, não havia alegria genuína em seus olhos. Ao receber o troféu, ele não sorriu. A vitória tinha o gosto amargo da perda. Ele havia conquistado o ápice de sua carreira, mas ao custo de sua maior amizade. Em sua declaração, foi direto: “Este é para Peter”. O título não era apenas dele; era deles.
O desfecho da história só reforça sua profundidade trágica. Em janeiro de 1959, menos de três meses após tornar-se campeão e cinco meses após a morte de Collins, Mike Hawthorn morreu em um acidente de carro em uma estrada pública na Inglaterra. Ele perdeu o controle de seu Jaguar esportivo e colidiu com uma árvore.

A geração dourada da Fórmula 1 perdia seus dois ícones mais carismáticos em uma sucessão de golpes cruéis.
O legado de Hawthorn e Collins, no entanto, sobreviveu intacto. Eles foram os pioneiros que humanizaram a Fórmula 1. Antes deles, os pilotos eram vistos como gladiadores impenetráveis. Depois deles, tornou-se possível ver o homem por trás do capacete – com seus medos, suas amizades e suas vulnerabilidades.
Sua irmandade foi o elo perfeito entre o espírito de rebeldia jovem dos anos 50 e o mundo das corridas. Eles trouxeram para as pistas a mesma energia que os “teddy-boys”, os fãs de rock and roll e os beats levavam para as ruas: um desejo de viver com autenticidade, de desafiar convenções e de valorizar as conexões humanas acima de tudo.

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A Fórmula 1 que se seguiu nos anos seguintes, com pilotos como Jim Clark, Graham Hill, Jackie Stewart, era diferente. Era um esporte onde a emoção, a personalidade e, sim, a amizade, agora passaram a ter seu lugar ao sol.
Mike Hawthorn e Peter Collins não foram apenas os primeiros heróis da geração “baby boomer” na Fórmula 1; eles foram os que plantaram a semente de que este esporte, em sua essência, é um drama humano, disputado não por máquinas, mas por homens. E, às vezes, por homens que se amavam como irmãos.
O titulo dessa coluna é baseado na forma como eles se tratavam perante as pessoas, a frase “Mon ami mate” é francesa e a tradução é “meu amigo companheiro”, eles sempre falavam um ao outro dessa forma e acredito que por si só essa frase resume a forma como eles se viam
Até a próxima
Mário Salustiano