É verão no hemisfério norte, mas, na Fórmula 1, estamos em plena primavera.
A Ferrari voltou – não há primavera na categoria sem carros vermelhos disputando a liderança –, há jovens promessas misturando-se a um Sebastian Vettel renascido e a um Fernando Alonso que achou um jeito de atrair, merecidamente, os olhares do mundo, a RBR e o sempre simpático Daniel Ricciardo conquistaram uma vitória tão galante quanto inesperada, as velocidades cresceram – o tempo da melhor volta em Baku foi melhorado em três segundos -, França e Alemanha hospedarão GPs em breve, as tribunas parecem mais festivas e povoadas, inclusive por crianças que acabam se tornando protagonistas, como foi o caso do francesinho que cativou a todos na Espanha.
Outro ingrediente da primavera: cada um a seu modo, os Ferrari e Mercedes 2017 são lindos carros de F1. Quem me acompanha aqui no Gepeto sabe: há muito tempo não digo algo parecido.
Tudo, enfim, contribui para que uma agitação buliçosa perpasse o ambiente. Fala-se em novas equipes, em um regulamento menos complicado, em novos GPs.
A Liberty Media, nova dona da F1, chegou com o pé direito, não há como negar, fazendo marketing como deve ser feito: aproximando produto e consumidor e não o tentando enganar, como nos habituamos a definir erroneamente a atividade. O próprio afastamento de Bernie Ecclestone da categoria é um enorme benefício, pois o provecto inglês não perdia oportunidade de nos impor a sua onipresença de ditador latino-americano, sempre nos lembramos que aquilo tinha um dono e que o dono era ele. Não é legal termos esta lembrança, por mais verdadeira que seja, nos sendo esfregada na cara GP após GP. A coisa agora é outra. Não creio que ninguém na Liberty Media queira protagonizar, como Bernie o fez, uma campanha publicitária nos recomendando “pensar antes de dirigir”.
Por mais fina que possa ser a ironia contida na mensagem, Bernie que vá tecê-la em outra freguesia.
Torcemos todos para que a renascida competitividade da Ferrari, o ingrediente mais importante da primavera, siga florindo. E é bom torcermos mesmo, pois a Mercedes dá mostras de ter neutralizado a ofensiva italiana. Os alemães venceram três das últimas cinco provas e estavam na frente em Baku quando tudo aconteceu, depois de Lewis Hamilton ter colocado mais de um segundo sobre o melhor Ferrari na classificação.
Os Mercedes são superiores na gestão dos motores elétricos, o que permite a eles usufruírem da potência máxima (motor à explosão mais motores elétricos) por mais tempo ao longo da volta. Em Baku, esta superioridade pode ser vista também pela velocidade maior dos Mercedes, mais 5 km/h nos treinos. A Ferrari, comenta-se, corre para apresentar melhoramentos em seu motor em Silverstone.
Em tempo: Vettel já está usando seu quarto turbo do ano e o terceiro MGU-H, enquanto Hamilton está no segundo set dos equipamentos. A partir da quinta troca, tem punição…
Torcemos também para que a Liberty Media mantenha as aparências e não se apaixone demasiado pelo safety car, como parece estar ocorrendo, que não tente influenciar demasiado a decisão das autoridades esportivas, como parece ter feito para aliviar a pena de Vettel em Baku, e que siga buscando trazer de volta GPs como França e Alemanha, o que só pode ser explicado pelo fato de ela ter flexibilizado as suas exigências comerciais.
Torcemos por um capitalismo um pouco menos selvagem, que leve em consideração o longo prazo, não querendo ganhar todo o dinheiro já. Esta prática, tão presente nos tempos de Bernie, deve ser esquecida para sempre.
Nos momentos seguintes aos acontecimentos de Baku, envolvendo Vettel e Hamilton, lembrei de Graham Hill e Lorenzo Bandini no GP do México 64, assunto sobre o qual já falamos aqui, usem nossa ferramenta de busca.
O inglês não revidou a incorreção do italiano, limitando-se a enviar-lhe como presente de Natal um curso de direção. Vettel e Hamilton não têm o mesmo espírito esportivo, os tempos são outros, o passado é uma roupa que não nos serve mais, fazer o quê?
E, querem saber? Não me emociono com a atitude de um e outro, ainda que preferisse o savoir vivre de Hill. Sabe como é: faz parte do esporte, faz parte da vida, Hamilton repetindo pela enésima vez seus golpezinhos torpes em relargadas, Vettel perdendo a calma e partindo pros sopapos. Acho apenas que as autoridades esportivas deveriam ter a mão mais pesada nas punições para ambos, já que um erro não justifica outro.
Errar é humano, mas devemos responder por nossos erros.
Em meio à primavera, o deboche.
Em algum momento das primeiras provas do campeonato – creio que Alonso na Rússia, mas pode ter havido pelo menos mais um caso este ano –, um piloto usa o rádio para perguntar aos boxes: “o que posso fazer?”. O que Hill diria disso?
E, em Mônaco, o menor aprendiz Lance Stroll entrega a sua dificuldade em contornar a Massenet, do mesmo jeito que acontecia quando ele treinava no Playstation. Hill tavez enviasse a ele também o curso de direção…
Ah Baku!
Jardins harmoniosos, prédios imaculados que, dizem, não estão em sua maioria ocupados por ninguém, uma beleza excessivamente ordeira, a ponto de ser inatural, que me lembra Singapura, que – coincidência? – partilha com oAzerbaijão um governo autoritário com aparência de democracia.
Será esta a nossa melhor opção de futuro?
A história se escreve aos poucos, com muita paciência, juntando partes minúsculas aqui e ali.
Em entrevista a Livio Oricchio, Ross Brawn, o chefão técnico da Liberty Media contou que nas extensas discussões sobre a mudança do regulamento que levaram aos motores atuais, ninguém estava preocupado com os custos, como se o dinheiro não fosse um problema.
Unindo os pontos lançados por Brawn, entende-se por que a Mercedes batalhou desde o início pelo novo regulamento, alinhada a Jean Todt. Bancando a aposta, começou a trabalhar no projeto antes mesmo que ele fosse aprovado, garantindo confortável vantagem sobre a oposição quando as coisas se definiram.
Isso explica a supremacia da Mercedes e, talvez, justifique ao menos em parte a demissão de Luca di Montezemolo da Ferrari, pela barbeiragem política de não ter neutralizado em tempo a ofensiva alemã.
Um registro tardio: poucos dias separaram o lançamento de Sgt Pepper da estreia do Lotus 49 Ford Cosworth, um, 1º de junho de 67, outro, 4 de junho, Holanda, Zandvoort.
O verão do amor disparado pelos Beatles também teve seu desdobramento na F1.
Abraço a todos
Eduardo Correa
5 Comments
Apenas discordo quanto a considerar esses carros lindos. Talvez você tenha se acostumado…
Chiesa,
talvez o mais correto seria dizer menos feios, até por que eles estão mais largos e com mais tala nas rodas … e como sou das antigas sempre amei carros com a tala larga … não curto muito estes aros grandes … eu também não gostei muito disso que o Edu disse, mas em relação ao futuro da Formula 1, no geral entendo que podemos ter otimismo e creio que o Edu foi feliz na sua coluna …
Fernando Marques
Grande Edu!
É, vamos ver o que o futuro nos reserva com a Liberty.
Mas, pelo menos o que eles já fizeram até o momento, está sendo de muito bom grado para o bem da F1.
Abraço!!
Mauro Santana
Curitiba PR
Edu,
não seria cedo dizer que a Liberty entrou com o pé direito no circo? … O ideal não seria esperar o final do ano para uma análise melhor a este respeito?
O que eu penso e posso dizer é que até o momento a temporada de 2017 está muito melhor que as 3 anteriores … parabens a Ferrari por isso …
Fernando Marques
Niterói RJ
Eduardo,
Até o momento tenho gostado desta F1 sob gestão da Liberty Media, excetuando-se a proposta deles de se aumentar o nº de GPs para 25. Sendo eles americanos tomara que influenciem na parte técnica objetivando um barateamento da categoria, para que por exemplo, mais montadoras sejam atraídas e possam participar no fornecimento de conjunto moto propulsor. O que não pode acontecer é uma nascarização da categoria, ai vai estragar tudo.
Márcio