O rei está nu

Colunas inesquecíveis: Brasil 85: outros tempos  
11/03/2026

Quem já prestou vestibular ou tomou parte em algum concurso cujo conteúdo programático incluísse redação sabe bem que o maior risco neste tipo de avaliação é fugir ao tema proposto. De fato, um texto pode ter problemas, expressar opiniões polêmicas e, ainda assim, salvar pontos em determinados critérios de avaliação. Por outro lado, mesmo que o texto esteja tecnicamente perfeito, ainda assim estará sujeito à nota zero caso escape ao que foi pedido no enunciado. Pois bem, pedindo licença a Marcel Pilatti pela analogia, penso que ela se aplique em grande medida ao que estamos vendo na Fórmula 1 neste início de 2026. E explico meus motivos.

A Fórmula 1 – sabemos bem disso – concentra alguns dos melhores cérebros disponíveis no mercado em diversas áreas de atuação, incluindo aí a pilotagem, naturalmente. Ao longo da História, muitas vezes vimos tal banco de competências dar conta de cumprir diretrizes ou metas mais ou menos estapafúrdias estabelecidas por dirigentes – estes muitas vezes eleitos ou alçados aos respectivos cargos por razões não técnicas -, salvando-os de possíveis vexames ou de situações de colapso esportivo.

Da mesma forma, também estamos cansados de saber que o esporte a motor, sobretudo em suas categorias de topo, não se presta apenas ao esporte em si, mas também ao desenvolvimento tecnológico e a dar visibilidade a parceiros técnicos com seus próprios interesses comerciais, de tal modo que algum grau de conexão com nossos veículos de rua, mesmo que indo pouco além da dimensão das marcas envolvidas, não é apenas bem-vindo, mas necessário. Ok, não somos ingênuos aqui. Alguém precisa pagar essa conta, e tais investimentos pressupõem contrapartidas. (As fotos desta coluna, a partir do alto, registram cenas dos boxes da Ferrari, Cadillac, Alpine e Aston Martin, na manhã de ontem, 12/3, na China)

Lembro, todavia, de ter ouvido Ayrton Senna expressar, em mais de uma ocasião, que o êxito de todas as mais diversas áreas nas quais sua vida vinha se envolvendo dependia, em última análise, de seu desempenho nas pistas. Seu sucesso nos negócios, sua renda direta como piloto, seu valor imagético… Tudo, enfim, era impulsionado por sua performance quando em competição. Tal compreensão estruturou sua rotina de tal forma que sua pilotagem estivesse sempre protegida, seus treinamentos, sua rotina de preparação, nada pudesse ser afetado por outros compromissos, uma vez que tudo estava interligado, e tudo se sustentava sobre este pilar fundamental.

Fiz toda esta introdução apenas para manifestar meu entendimento de que, nesta radical mudança de regulamento que marca o início da temporada 2026, os dirigentes parecem ter perdido de vista a lição ensinada por Senna. Em meio a todas as atribuições e funções que integram a Fórmula 1, aparentemente esqueceu-se que a base, o pilar fundamental, é – e precisa ser – a qualidade do esporte, e que limites para os objetivos paralelos precisam ser respeitados sempre que entrarem em rota de colisão com o que foi capaz de sustentar a categoria ao longo de quase um século e verdadeiramente nos trouxe até aqui.

Voltando agora à metáfora da redação de vestibular, a determinação de que os carros deveriam ser empurrados por dois conjuntos motrizes de igual relevância – um movido à combustão e outro elétrico, que por definição é flutuante – surge diante de meus olhos como um caso paradigmático de fuga do tema, passível, portanto, de anulação e nota zero.

A intenção aqui pode ter sido boa: assegurar, quem sabe, algum papel de vanguarda ou relevância à categoria em meio à tendência global de transição energética. O erro, contudo, foi inverter a escala de prioridades, fazendo com que o esporte se adaptasse a tal premissa, e não o contrário. É simplesmente inaceitável que um Grande Prêmio, instituição sagrada que dá continuidade a uma história escrita por Nuvolaris, Fangios e Clarks, seja definido pelo tempo em que um piloto pode contar com a totalidade da potência ou apenas metade dela. Não é assim que a Fórmula 1 deveria ser, não é assim que uma corrida deveria ser. Fugiram ao tema.

Não chega a surpreender, a esse respeito, que a comunicação da Liberty não tenha ruborizado ao comparar o número de ultrapassagens registradas no GP australiano em 2025 e 2026, surfando nessa misteriosa corrente que insiste em metrificar a qualidade de uma corrida através do número de mudanças de posição, sem qualquer consideração quanto ao valor real de ver dois carros pateticamente alternando 50 km/h entre si ao sabor da carga de suas respectivas baterias.

De igual modo, não parece razoável esperar que narradores ou comentaristas a serviço de veículos que investiram fortunas por direitos de transmissão – e precisam de retorno por este investimento – depreciem o próprio produto dizendo o óbvio, que o rei está nu.

O que verdadeiramente assusta – e aí, talvez o problema esteja comigo, ao não aceitar que já não integro mais o público-alvo da categoria – é ver fóruns sérios, de pessoas com conhecimento histórico aprofundado, se empolgando com o caos fabricado, com fogos de artifício e perfumarias, enquanto pilares tão sagrados do esporte quanto a definição de resultados a partir dos riscos assumidos no processo de explorar os limites de aderência são dinamitados diante de nossos olhos.

Não, por tudo que já vimos no passado, não tenho dúvidas de que o corpo técnico da Fórmula 1 será capaz de em pouco tempo fazer o atual regulamento funcionar de maneira minimamente satisfatória, e ninguém jamais verá minha voz fazer eco a alarmistas que tantas vezes já bradaram “A Fórmula 1 morreu! A Fórmula 1 acabou!”. Como negócio, afinal, ela vai muito bem, obrigado.

Por outro lado, no entanto, penso ser importante e necessário que nós, fãs de longa data dos GPs, estabeleçamos nós mesmos limites quanto ao que estamos dispostos a aceitar e engolir, sob pena de vermos o esporte que amamos ser transformado numa loteria caótica, uma espécie de Mario Kart da vida real.

Encerro onde comecei. De nada vale a um texto ter sido bem escrito, se no frigir dos ovos ele fugir ao tema proposto.

Abraço a todos

Márcio Madeira
Márcio Madeira
Jornalista, nasceu no exato momento em que Nelson Piquet entrava pela primeira vez em um F-1. Sempre foi um apaixonado por carros e corridas.

2 Comments

  1. GUILHERME GUIZI disse:

    O Domenicali, para mim, é um grande picareta. Para ele, não existe decisão ruim e quem reclama (como os pilotos têm feito) não deveria fazer isso, segundo ele mesmo. Ou seja, para ele 125 ultrapassagens são sim um belo indicativo que o regulamento está no caminho certo e quem não concorda é porque está preso ao passado (acho até que ele já fez uma declaração a respeito disso).
    Eu concordo com a sua opinião Márcio, F1 desse jeito está se distanciando do tema e afastando a competição como a que ela mesmo definiu ao longo do tempo.

Deixe um comentário para Márcio Madeira da Cunha Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *