Pilotos e Jogadores

As Voltas
27/06/2012
Bobby Deerfield
04/07/2012

O texto a seguir é apenas uma livre comparação entre alguns dos maiores jogadores de futebol e os maiores pilotos de todos os tempos. Não se trata de nenhuma verdade absoluta e incontestável.

Particularmente, gosto muito de comparações entre diferentes esportes. Ao longo dos anos, tornou-se muito comum ouvirmos a expressão fulano é o “Pelé do atletismo, do vôlei, do MMA”, etc. Edson Arantes do Nascimento, premiado como o ‘Atleta do Século’, tornou-se referência em todos os esportes. E isso sempre me intrigou: “quem seria, por excelência, o Pelé da F-1?” – quem seria o Dunga da Fórmula 1 eu já respondi, dois anos atrás.

Se fôssemos pender somente para o lado dos números teríamos respostas certas e sem maiores questionamentos, mas Pelé no futebol não tem os maiores números, pelo menos não em sua totalidade: são 3 copas, sim, mas numa delas uma participação muito breve e inicial. Duas copas foram vencidas e lideradas por Meazza e Garrincha, por exemplo. Os mil gols, mito maior da mídia, é uma marca atingida por outros jogadores. Em jogos oficiais, Romário supera Pelé. A artilharia em copas é de Ronaldo. Cafu é o único a jogar 3 finais de Copa. E outros atletas, como Messi, conquistaram mais por clubes.

No entanto, Pelé conseguiu no futebol atingir algo improvável, que talvez somente Roger Federer tenha conseguido no tênis: ser, na pior das hipóteses, um “integrante do pódio” em talento, conquistas, reconhecimento externo e influência interna no esporte praticado.

Há alguns anos Flavio Briatore e Felipe Massa teceram comparações entre jogadores de futebol e pilotos de Fórmula 1. Curiosamente, ambos falaram que Ayrton Senna seria o “Maradona da F-1”, mas divergiram quanto a Schumacher: para o ex-chefe, Schumy é Van Basten; para o ex-companheiro, Pelé. Não é preciso dizer o quanto tais comentários geraram reações infelizes, tanto a favor quanto contra as declarações.

Obviamente, tais comparações, como quaisquer outras, serão sempre subjetivas e devem ser vistas muito mais como uma brincadeira do que como uma verdade absoluta. Portanto, caro leitor, não leve tão a sério os comentários que farei aqui, traçando paralelos entre grandes nomes da história do futebol e da Fórmula 1, ok?

Outra coisa: não quero aqui determinar rankings, até porque não, necessariamente, teremos as comparações pelo que julgo ser a posição dos atletas na história. Por exemplo: acho que Puskas tem uma posição muito mais alta no futebol do que Moss na Fórmula 1.

Divirtam-se!

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Respondendo à grande questão: o Pelé da Fórmula 1 é Juan Manuel Fangio. Não há como não ser.

Se Schumacher superou Fangio em números totais, nem o alemão e nenhum outro conseguirá bater Fangio nas médias: vitória em metade dos GPs, pole em mais de 50%. 7 campeonatos disputados, 5 títulos e 2 vices. Aproveitamento absurdo. Como o Pelé de 4 Copas e 3 taças, e de 0,93 gol/jogo.

Mas mais que isso, os dois são os ‘standards’ de suas áreas. Senna sempre falou que seu sonho era igualar o argentino. E qualquer jogador, por melhor que seja, sabe que Pelé é o objetivo máximo a ser alcançado. E até no sentido negativo são usados como termos de comparação: ‘naquele tempo era mais fácil’, ‘não havia preparo físico’, etc.

Os dois se aposentaram “por cima”, sem que o mundo visse suas artes padecerem: Fangio se retirou das pistas logo no quarto GP (de 11) de 1958. Pelé foi pra Nova York, brincar de soccer no Cosmos.

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Ayrton Senna foi comparado a Diego Maradona – e creio que isso fizesse sentido tendo em vista quão ídolo ambos são em seus países e até por coincidências incríveis – mas vejo que é com outro argentino que seu papel mais se assemelha: Alfredo Di Stefano.

Di Stefano, assim como Senna, obteve marcas incríveis no futebol: ganhou 5 (!) Ligas dos Campeões da Europa e foi por duas vezes o Bola de Ouro. Assim como Ayrton, Di Stefano também é por muitos considerado o melhor jogador que já passou pelo mundo: pergunte a qualquer madridista, ou a algum argentino ou europeu da velha guarda.

Mas a Di Stefano, assim como a Senna, ficou faltando aquela chance de consagração definitiva: se o brasileiro morreu quando caminhava para igualar Fangio, Di Stefano finalmente teve em 1962 sua primeira chance de disputar (e vencer) uma Copa do Mundo: mas antes que o torneio começasse, a “flecha loira” sofreu uma contusão.

E o mundo ficou sem saber se Di Stefano era o rei do futebol. Mas o próprio Pelé chegou a dizer que ele é. Alguma semelhança com a declaração de Fangio sobre Senna não é mera coincidência.

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No mundo do futebol, talvez o jogador mais ‘talentoso’ na acepção da palavra tenha sido o grande Mané Garrincha. E só por isso já valeria compará-lo a Jim Clark, seu equivalente no mundo do automobilismo.

Além de ambos possuírem um bicampeonato mundial na conta, guardam uma imagem de respeito com o público: claro que Garrincha e Clark, fora de campo e pistas, foram completamente diferentes, mas os dois eram dotados dum carisma nada forçado, algo bastante natural. Pouco ou nada se ouviu de quem falasse mal dos dois.

Também por razões diferentes, não puderam transformar suas conquistas em números mitológicos. Mas não há dúvidas de que poderiam. Há?

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Sei que muitos não gostam – e não há motivo para isso -, mas Diego Maradona está para o futebol como um brasileiro para a F-1: Nelson Piquet.

Além de suas declarações externas (que, nos dois casos, sempre percorreram a linha tênue que separa humor de ofensa), sempre aparentaram – nas pistas e nos campos – poder render mais do que de fato fizeram. Avessos a treinos, a preparações físicas, etc, protagonizaram momentos antológicos: se Maradona teve seu gol contra a Inglaterra votado o mais bonito da história das copas, é quase unânime entre fãs de F-1 que a ultrapassagem de Hungria-86 foi a melhor da história da categoria.

Tem argentino que jura de pés juntos que Maradona foi melhor que Pelé? Bom, no Brasil há quem jure Piquet ser melhor que Fangio, Senna e todos os outros.

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Quantos pilotos da Fórmula 1 poderiam ter um filme sobre suas vidas? Claro, muitos deles. Mas a vida/carreira de quantos pilotos é, por si só, um roteiro de cinema? Talvez somente a de Niki Lauda. No futebol, um personagem extremamente semelhante é o do brasileiro Ronaldo.

Chamado fenômeno pela mídia italiana, Ronaldo tem em comum com Lauda as hollywoodianas “voltas por cima”: Niki Lauda sofreu o pavoroso acidente de Nurburgring 1976 e no ano seguinte era campeão mundial pela segunda vez. Ronaldo sofreu aquela chocante lesão, e voltou para ser campeão de uma Copa do Mundo.

Não bastasse, três anos após o acidente, Lauda se aposentou. Retornaria três anos mais tarde e, com mais duas temporadas, era campeão mundial pela terceira vez em cima de Alain Prost. Ronaldo sofreria nova e gravíssima lesão 6 anos após seu título mundial. E no ano seguinte era campeão pelo Corinthians marcando o mais belo gol de sua carreira.

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O baixinho Romário sem a menor dúvida deixou sua marca na história. Poucos sabem – há pouco interesse na mídia – mas ele foi o jogador que, em jogos oficiais, mais marcou gols, superando os tentos de Pelé. Romário também ganhou a única Copa do Mundo da qual efetivamente participou. E foi o único jogador a ser campeão da Copa, melhor jogador do torneio e melhor do mundo da FIFA no mesmo ano.

Por isso tudo, ele é o Michael Schumacher do futebol. Quantos jogadores conseguiram tudo que o Baixinho conseguiu?… Mas o comparativo entre os dois também cabe pelo fato de terem mais jogos/corridas/campeonatos que todos os outros grandes, e por nunca terem conquistado a opinião pública da forma que seus números provavelmente merecessem: “Schumacher correu contra ninguém” é uma frase gêmea de “Romário conta gols até em futevôlei“.

Por fim, também temos outro fato: o Romário dos idos de 2006-07 (que jogava na Austrália, em Miami e no Campeonato Carioca), está muito parecido com esse Schumacher versão 2010.

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Se há um piloto que pode comprovar que os números não são a verdade absoluta na Fórmula 1, este alguém é Stirling Moss: com triunfos em diversas categorias, e na F-1 com uma média de vitórias igual à de Vettel, só não tem um título mundial no seu currículo. E não porque não pudesse: de 1955 a 58 foi o vice-campeão. No entanto, foi o jogo de equipe adversário e até mesmo uma manobra ilegal que o impediu de triunfar, principalmente em 1958.

Seu equivalente no mundo futebolístico é, portanto, Ferenc Puskás. Puskas conquistou uma medalha de ouro olímpica quando não existia essa história de “sub-23 + 3”. Conquistou diversos títulos pelo Real Madrid. Foi um dos maiores artilheiros da história do futebol, e o jogador com a melhor média de gols numa seleção em todos os tempos. Mas não ganhou a Copa do Mundo. E passaram-se muitos anos até que se revelasse o que aconteceu naquela final de Berna.

Ademais, se Moss teve o ‘azar’ de ser contemporâneo de Fangio, Puskas dividiu suas glórias com Di Stefano.

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Por fim, o mítico, único Gilles Villeneuve. Gilles foi de um talento gigantesco, desproporcional – como disse Márcio Madeira, ele era “diferente de nós“.  Difícil, pois, pensar num jogador que se assemelhasse a uma versão futebolística do canadense.

Mas ele talvez tenha nascido no Maranhão: José Ribamar de Oliveira, ou simplesmente Canhoteiro.  O atleta, ídolo do São Paulo FC, era conhecido como Garrincha da ponta esquerda. Mais que isso, na opinião de muita gente (inclusive do gigante Zizinho), era melhor que o próprio Mané.

Canhoteiro, como Gilles, apesar de demonstrar talento absurdo, falhou quando teve suas grandes oportunidades: disputou 16 partidas pela seleção e marcou apenas um gol, não sendo convocado para a Copa de 1958, quando provavelmente entraria para a história mundial. Gilles, no grande momento em que teve totais condições de ser campeão do mundo, foi vice para Jody Scheckter.

E os dois deixaram os aficionados muito cedo: Gilles sofreu um trágico acidente com apenas 30 anos. E aos 29 Canhoteiro sofreu uma lesão gravíssima no joelho, tendo de ser operado duas vezes, e nunca mais foi o mesmo.

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Na minha próxima coluna, retorno falando sobre quem seria o Beckenbauer, o Messi, o Zidane, e outros monstros do futebol, na Fórmula 1.

Tenham todos uma ótima semana.

Marcel Pilatti
Marcel Pilatti
Chegou a cursar jornalismo, mas é formado em Letras. Sua primeira lembrança na F1 é o GP do Japão de 1990.

9 Comments

  1. alexandre disse:

    Eu acho que Schumacher deveria ser comparado a Beckenbauer, pela liderança, pois construiu a Ferrari campeã de 2000 a 2004. Brabham para mim seria como Obdulio Varela, capitão do Uruguai de 50, pois construiu um improvável campeão. E Barrichello é o Roger (ex-Cruzeiro) da F1: talentoso, técnico, mas sem a garra de um campeão.

  2. Sandro disse:

    João Havelange = Bernie Ecclestone…

  3. Fernando Marques disse:

    Marcel,

    as comparações estão muito boas … e que tal comparações dos perebas … tipo Vittorio Brambilla ou Andrea de Cesaris ( segundo Piquet um perigo constante) … hehehehehe

    Vovô Xaruto

    • Marcel Pilatti disse:

      Hehehe, boa Fernando. Quem sabe o De Caesaris seja um Junior Baiano e o Brambilla um Martin pallermo? hehehehe

    • alexandre disse:

      O Palermo ganhou muita coisa pelo Boca. Seria um Alan Jones, para mim: um brucutu eficiente.

  4. wladimir duarte sales disse:

    Então, baseado nisso, Alain Prost e Zidane tem tudo a ver: Imorais, trapaceiros, arruaceiros e com mais títulos que realmente merecem. Vide copa de 1998 e campeonatos de f1 de 1985 e 1989.

    • Marcel Pilatti disse:

      Caro Wladimir, me desculpe, mas não posso concordar de modo algum. Quanto a Prost, sim, mas não quanto a Zidane.
      Zidane tem de fato em sua carreira uma “mancha” de ter sido expulso várias vezes, mas ele não pode ser enquadrado na linha de trapaceiros, pelo contrário. Aliás, acho difícil algum jogador que se enquadre nesse padrão (talvez Maradona, pelos episódios emblemáticos do gol de mão, etc, mas se assim fosse eu poderia listar uma galera – de Romário a Nilton Santos, passando por Rivaldo, Túlio…)
      Zidane, na verdade, tinha um estilo de jogo clássico, uma forma de jogar fina, que o enquadraria com Alain Prost somente nesse sentido (mas poderia ser alinhado a Graham Hill, a Jackie Stewart…).
      E de que modo podemos questionar suas conquistas? foram tantas, e de modo tão completo, que acho injusto rebaixá-lo a isso. Era um jogador extremamente talentoso, e que teve uma das maiores exibições individuais da história: contra o brasil, em 2006.
      Sua figura, esportivamente e humanamente falando, é superior à de Prost.
      Abraços!

  5. Ótima coluna… concordo com todas as comparações, fazem sentido sem serem piegas…Perfeito!

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