Pioneiros 3/3

Respeito máximo
14/02/2026

Aqui você lê a coluna anterior desta série: https://gptotal.com.br/pioneiros-2-3/

Segundo a versão que conta Brian Lisles, ele disse haver ouvido rumores de que, durante aquele teste, um membro da equipe Brabham (talvez David Cox) viu o carro enquanto os mecânicos trabalhavam nele, elevado sobre cavaletes, o que alimentou a teoria de que ele teria passado a informação a Murray. No entanto, outras versões sugerem que, antes desse teste, a Tyrrell estava procurando contratar um engenheiro de pista e, entre os cerca de 80 candidatos, seis deles foram convocados para uma entrevista na fábrica da equipe, entre os quais estava Cox, que, enquanto dava uma volta pelas instalações, viu os projetos do 008 com ventilador.

Ele não conseguiu o emprego, continuando como consultor independente da Brabham, cargo que mantinha desde depois de ver a apresentação do novo BT46 em agosto de 1977 com os trocadores de calor. Foi então quando Cox entrou em contato com Ecclestone para avisá-lo que, segundo seus cálculos, os trocadores de calor não seriam capazes de atender às necessidades de refrigeração do motor. Cox era especialista em termodinâmica, portanto, sabia do que falava.

Essa relação com a Brabham é a que se esgrime para sustentar a teoria de que Cox teria passado a informação do ventilador a Murray. O próprio Cox, porém, quando o assunto saiu à luz, admitiu que, durante a sua visita à Tyrrell, viu os planos de um carro com ventilador, o que lhe chamou muito a atenção, pois ele mesmo disse haver brincado com essa ideia anos antes. Também contou que Philippe ficou muito chateado ao vê-lo dando uma olhada naqueles planos, mas que acabaram conversando amigavelmente sobre a matéria sob seu compromisso de não divulgar nada ao respeito, mantendo tudo em segredo. Cox disse, inclusive, haver advertido Philippe que o sistema, tal como estava projetado, não arrefeceria o motor.

No final e como havia dito Cox, a ideia foi descartada por não ser possível resfriar o motor da maneira como estava concebida e, embora Philippe pensasse em voltar ao assunto no futuro, com o surgimento do BT46B e a posterior proibição dos ventiladores, tudo foi descartado.

No início da temporada de 1978, na Argentina e no Brasil, a Brabham participa com seu saudoso BT45, já que Murray ainda estava tentando resolver o problema de como refrigerar o motor do BT46, enquanto a Tyrrell apresenta seu 008 com os radiadores convencionais que, finalmente, permaneceriam durante todo o campeonato. Enquanto à Brabham, seria na África do Sul quando o BT46 se apresenta, mas com radiadores frontais integrados nos aerofólios, como solução provisória de emergência, o que arruinava a penetração aerodinâmica da forma de flecha que Murray havia buscado com aquele desenho.

Naquela altura do ano e depois de considerar várias alternativas, Murray havia encontrado a que parecia ser a solução definitiva: colocar um radiador plano sobre o motor e um ventilador atrás para criar um fluxo de ar através dele. Porém, e tal como Philippe havia pensado antes, o sistema serviria também para extrair ar de debaixo do carro. Assim, pouco depois e com a ideia já bem definida, Murray chamou Cox para encomendar-lhe a tarefa de calcular as características que precisaria o ventilador para arrefecer o motor… E algo mais.

Com seus conhecimentos de termodinâmica, Cox estabeleceu o tamanho, número de pás e seu ângulo e rotações às que devia trabalhar o ventilador. O carro foi finalmente apresentado no GP da Suécia e o curioso é que várias equipes logo reclamaram ostensivamente do conceito do ventilador… Entre elas, a própria Tyrrell, ainda tendo trabalhado na mesma ideia!

Para cumprir as normas que permitiam ventiladores desde que sua função principal fosse o resfriamento, aproximadamente 60% do fluxo de ar do ventilador passava pelo radiador e o restante era considerado um efeito colateral, embora neste caso fosse um efeito desejado.

Como podemos ver, acredito que se Cox tivesse informado Murray sobre o 008 e seu ventilador imediatamente após ver os planos ou o teste, Gordon não teria demorado tanto para resolver os problemas do BT46, portanto, com base na cronologia dos eventos, tendo a acreditar que Cox cumpriu sua palavra com Philippe. Assim como com o Padre Roberto e Fessenden, também acredito que todos estavam trabalhando sem saber o que os outros faziam e chegaram aos mesmos resultados.

A conclusão a que podemos chegar é que, embora Fessenden e Murray sejam reconhecidos por suas respectivas realizações como os precursores em suas respectivas ideias, devemos dar crédito ao Padre Roberto e a Philippe por serem os verdadeiros pioneiros.

Grande abraço e sejam bons.

Manuel Blanco

Manuel Blanco
Manuel Blanco
Desenhista/Projetista, acompanha a formula 1 desde os tempos de Fittipaldi É um saudoso da categoria em seus anos 70 e 80. Atualmente mora em Valência (ESP)

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