Reta final

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Meu pai gostava de dizer que percebia a chegada do final do ano quando começava o Horário de Verão (mesmo o Ceará raramente incluído nele) e terminava a temporada da F1. Hoje em dia o Horário de Verão não existe mais e ao contrário de outras épocas, a F1 não termina mais em meados de outubro, como falarei mais tarde. A temporada 2021 passará por uma verdadeira maratona nessa reta final com seis corridas nas próximas oito semanas, onde se definirá o esperado campeão desse ano.

O meu parceiro/irmão Marcel Pilatti já demonstrou em sua última coluna o porquê, independentemente do campeão ser Lewis Hamilton ou Max Verstappen, que nesse ano teremos um campeão histórico numa temporada histórica, na qual Max e Lewis têm vários motivos para querer terminar o ano como o número um. E superar o seu rival.

O início dessa maratona se dará no belo circuito de Austin nesse final de semana, um dos poucos acertos de Hermann Tilke em seus inúmeros autódromos insossos construídos nos últimos vinte anos. Porém, o traçado cheio de subidas e descidas, com referências à vários circuitos no calendário da F1, teve uma passagem nada memorável da MotoGP poucas semanas atrás. Os pilotos de moto chegaram a levantar a possibilidade de suspender a corrida por falta de segurança pelas várias ondulações em curvas chaves do circuito, causando um grande perigo para eles. A F1 já está de olho no que pode ser um final de semana problemático, num asfalto que não foi totalmente recapeado desde que Austin entrou no cenário do esporte a motor nove anos atrás.

Lewis Hamilton é o verdadeiro dominador na pista de Austin com cinco vitórias no Texas, além de contar com a evolução do motor Mercedes que causou uma verdadeira dor de cabeça para Christian Horner, Helmut Marko e seus blue caps. Marko chegou a falar que a Mercedes tinha uma vantagem de 15 km/h nas retas em Istambul e que até o momento a Red Bull não teria uma resposta para deter essa evolução da Mercedes nas últimas corridas. Porém, o time de Toto Wolff não se aproveitou de forma plena dessa ligeira vantagem e por isso Verstappen ainda lidera o campeonato pela frágil margem de seis pontos. Se a Mercedes confirmar a sua força em Austin, Hamilton tem boas chances de chegar ao México líder do campeonato.

Na briga dos escudeiros, Valtteri Bottas está correndo bem mais solto desde que se definiu seu futuro e a vitória incontestável na Turquia mostrou bem o potencial do nórdico. Pena que exibições como as da Turquia sejam mais exceções do que a regra. Mais importante para Bottas e também para a Mercedes é que ele vem tendo uma temporada bem mais sólida do que Pérez, que após a Red Bull praticamente apelar aos céus que o mexicano marcasse bons pontos em Istambul, Checo voltou ao pódio após longo e tenebroso inverno. Numa briga tão apertada pelo título de pilotos, ficar próximos dos protagonistas pode fazer a diferença e até o momento Bottas vem fazendo bem o seu papel, enquanto Pérez ainda patina, mesmo tendo feito uma ótima defesa de posição contra Hamilton na Turquia, que ajudou bastante a estratégia da Red Bull. No Mundial de Construtores, a diferença que Bottas faz está mais nítida com a Mercedes cada vez mais próxima do oitavo título consecutivo.

Nas duas últimas corridas a Ferrari trocou o motor dos seus pilotos para colocar na pista uma nova versão. E o resultado foi bem interessante. Leclerc e Sainz fizeram boas corridas de recuperação e manteve a Ferrari próxima da McLaren na briga pelo terceiro lugar no Mundial de Construtores. Enquanto a Ferrari tem uma dupla de piloto forte e separada apenas por meio ponto no campeonato, a McLaren sofre com a inesperada má temporada de estreia de Daniel Ricciardo pela equipe. Mesmo tendo vencido em Monza, Ricciardo está levando um verdadeiro banho do ótimo Lando Norris, que vai praticamente levando a McLaren nas costas.

Mais atrás Alpine, Aston Martin e Alpha Tauri brigam pelo quinto lugar, com vantagem no momento para os franceses, que tem uma dupla muito forte e homogênea com Alonso e Ocon, enquanto Aston Martin e Alpha Tauri têm claramente um piloto líder (Vettel e Gasly respectivamente) e bem melhores do que seus respectivos companheiros de equipe (o riquinho Stroll e o mal educado Tsunoda).

Na Alfa Romeo a expectativa fica por conta da chegada (ou não) da equipe Andretti no time a partir de 2022. Mesmo sem conquistar títulos na Indy já faz algum tempo, a Andretti vem se destacando por participar de várias categorias e sempre se mostrando competitiva. Fala-se que Michael Andretti compraria 80% da Sauber e que traria a tiracolo o talentoso Colton Herta. A verdade é que até o momento a equipe só anunciou Bottas para 2022 e que uma reunião está marcada para esse final de semana sobre a aquisição da equipe ano que vem. Seria bastante curioso ver como se comportaria a Andretti num campeonato tão diferente e complexo do que estão acostumados como a F1, além da volta à categoria de um dos sobrenomes mais tradicionais do automobilismo mundial.

Como falado mais cedo, se em 2021 a F1 terminará apenas duas semanas antes do Natal, alguns anos atrás a temporada se encerrava na segunda quinzena de outubro. No último domingo completou-se quarenta anos do primeiro título de Nelson Piquet e na última quarta-feira Ayrton Senna conquistaria seu último título trinta anos atrás.

Num período exato de dez anos, o Brasil conquistou nada mais, nada menos do que seis títulos, sem contar os vice-campeonatos ou quando Senna ou Piquet esteve na briga pelo título. Fazendo uma conta rápida, apenas em 1982, 1984 e 1985 o Brasil não esteve na briga, mas nem por isso nesses anos Senna ou Piquet deixaram de vencer pela menos uma corrida, garantindo que eles eram gigantes da época.

A boa fase continuou até 1993, sofreu a impactante perda de Senna em 1994 que causou uma entressafra de sete anos até a contratação de Rubens Barrichello pela Ferrari no ano 2000, voltando o Brasil a ter pelo menos um piloto protagonista até 2013, ano em que Felipe Massa saiu da Ferrari, após ele próprio ter substituído Barrichello. A última vitória brasileira foi no já longínquo ano de 2009 com Barrichello pela BrawnGP e desde a saída de Felipe Massa no final de 2017 (após uma “desaposentadoria”), nenhum brasileiro completou uma temporada na F1 e a perspectiva para os próximos anos não é nada animadora.

E pensar que trinta anos atrás o Brasil estava no topo do mundo da F1…

Essa semana também tem como referência, dessa vez triste, do décimo aniversário de duas percas marcantes para o esporte a motor: Dan Wheldon (Indy) e Marco Simoncelli (MotoGP). Não eram gênios, mas transbordavam carisma e competência, deixando para sempre suas marcas em suas respectivas categorias.

Austin inicia a reta final de um campeonato que será lembrado por muitos anos. Mesmo com o abismo que Mercedes e Red Bull ainda sustentam frente às demais equipes, 2021 viu até o momento seis vencedores diferentes, algo não visto desde 2012. Os olhos estarão todos concentrados no que Hamilton e Verstappen farão nesse domingo e nas próximas cinco corridas. E o que eles farão nas próximas semanas poderá entrar na história.

É a reta final.

 

Abraços!

João Carlos Viana

JC Viana
JC Viana
Engenheiro Mecânico, vê corridas desde que se entende por gente. Escreve sobre F1 no tempo livre e torce pelo Ceará Sporting Club em tempo integral.

4 Comments

  1. Fernando marques disse:

    Meu ranking dos melhores brasileiros da Formula 1:

    1) Nelson Piquet
    2) Emerson Fittipaldi
    3) Ayrton Senna
    4) José Carlos Pace
    5) Rubens Barrichello
    6) Felipe Massa
    7) Roberto Pupo Moreno
    8) Maurício Gulgemin
    9) Cristiano da Matta
    10) Raul Boesel

    Fernando Marques

  2. Fernando marques disse:

    JC,

    1) Seja lá qual for o fim do enredo, a temporada de Formula 1 2021 está excelente. A RBR enfim conseguiu fazer um carro no nível da Mercedes. Que Verstappen e Hamilton nos tragam muitas emoções nestas últimas 6 etapas. Minha torcida é pro Hamilton.

    2) Quando teremos um brasileiro brilhando novamente na Fórmula 1? Quando?

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  3. JOSE FARIAS DE OLIVEIRA disse:

    Excelente matéria João , falou tudo e muito mais.

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