Semana de alta tensão

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Para quem nasceu na década de 1950, todos se lembram exatamente o que faziam quando recebeu a notícia da morte de John Kennedy. O mesmo aconteceu com a turma que nasceu na década de 1980, quando se pergunta o que fazia no dia primeiro de maio de 1994. Aquela terça-feira de manhã, dia 11 de setembro de 2001 ficou para sempre marcada para todas as pessoas que presenciaram um momento histórico na humanidade. Quem nasceu nos anos 1990 não esquece.

Naquela manhã que começava como uma qualquer, eu estava na faculdade, assim como você poderia estar no trabalho, no colégio, na cama ou vendo TV. Todos se lembram o que faziam quando o World Trade Center apareceu em chamas nos plantões da TV daquela manhã, seguido pelas notícias de outro avião atingindo o Pentágono, além dos boatos de que outros aviões estariam errantes nos céus dos Estados Unidos. Pois aquela manhã trágica e marcante está prestes a completar vinte anos, amigos.

Para o automobilismo, aquele início de semana seria a abertura de uma das semanas mais tristes de sua história.

A Indy/CART continuava sua expansão e retornava à Europa depois de 23 anos, mas ao invés de correr em Brands Hatch, a Indy teriam como sedes dois circuitos ovais novos na Alemanha (Lausitz) e na Inglaterra (Rockingham). A expectativa para essas corridas eram muito boas, mas a categoria passava por uma fase de grandes incertezas e vários problemas internos. Duas corridas tinham sido canceladas (Rio e Texas) em 2001 e além da Mercedes já ter anunciado sua saída da categoria no ano 2000, Honda e Toyota também o fariam no final da temporada. Somente a Ford permaneceria. Com os patrocinadores pressionando as grandes equipes a participarem das 500 Milhas de Indianápolis, havia rumores de que as participações de Ganassi e Penske não ficariam restritas à corrida em Indiana, mas em todo o campeonato da IRL, resultando na saída da CART.

A excursão europeia era uma das últimas esperanças para salvar o que estava sendo um ano terrível para a CART, mas os acontecimentos de 11 de setembro complicaram tudo, pois todo o espaço aéreo americano ficou fechado na terça e nos dias seguintes, sendo que muitos equipamentos ainda não haviam viajado para a Alemanha, no que seria a primeira perna da passagem da Indy pelo Velho Mundo. Foi um verdadeiro caos logístico, mas ainda havia outros problemas. As principais ligas americanas decidiram adiar suas rodadas naquele final de semana, mas a CART, já com parte do seu material na Europa, decidiu manter a corrida de última hora, mudando o nome do evento de German 500 para American Memorial 500. A CART recebeu muitas críticas por manter a corrida num momento de tanta dor do povo americano. Só que os problemas ainda não haviam terminado. O primeiro dia de treino estava marcado para quinta-feira, dia 13, mas uma insistente chuva cancelou tudo. Sem contar que houvera pilotos como Michael Andretti que chegaram na madrugada do dia 13.

Apenas um treino foi realizado, mas devido à chuva e à falta de familiaridade dos pilotos com o EuroSpeedway, a CART cancelou a classificação e o grid de largada foi determinado pela ordem dos pilotos na classificação do campeonato. Na ocasião, o pole ficou com Gil de Ferran, então campeão da CART e usando da consistência para liderar o campeonato mesmo sem ter nenhuma vitória até aquele momento, seguido de perto pelo sueco Kenny Brack e pelo companheiro de equipe da Penske, Helio Castroneves. A corrida aconteceria no sábado, para não rivalizar com o Grande Prêmio da Itália, que aconteceria naquele final de semana.

Michael Schumacher já havia garantido o tetracampeonato da F1 e acabara de bater o recorde de vitórias na categoria na época (52). Só restava festa para o alemão em Monza, reduto da Ferrari, mas com tudo o que havia acontecido naquela semana, Schumacher estava claramente abatido e pensou em não correr. A F1 mudou o horário do treino livre da sexta para participar do minuto de silêncio marcado para ser respeitado em toda a Europa, enquanto a Ferrari surpreendia com uma pintura nova dos seus carros, onde não havia patrocinadores e o bico era negro, em luto por tudo o que acontecia. Nos bastidores, havia um abacaxi para ser descascado por Bernie Ecclestone. A corrida seguinte seria nos Estados Unidos, na quinzena posterior. A pergunta que ficava era: ia ter corrida? Ecclestone, ao seu estilo, assegurava a prova em Indianápolis.

Alguns quilômetros ao norte, a Indy retornava à Europa com as arquibancadas não estando lotadas na Alemanha, mas pelo menos havia tempo bom e a corrida aconteceria.

Bicampeão da CART em 1997 e 1998, Alex Zanardi retornava à categoria após uma temporada ruim na Fórmula 1 e outro ano sabático em 2000. Ele era companheiro de equipe do brasileiro Tony Kanaan na equipe Mo Nunn, e sua temporada estava sendo difícil. O melhor resultado de Zanardi era um quarto lugar, em Toronto e o italiano anunciara que se aposentaria no final da temporada. Como o grid fora decidido pela classificação do campeonato e Zanardi estava fazendo um certame miserável, ele largou apenas em 22º, mas no único treino realizado na Alemanha, a equipe Mo Nunn tinha se saído muito bem, com Kanaan sendo o mais rápido e Zanardi em segundo. Numa grande recuperação que lembrou os velhos tempos na CART, Zanardi estava na luta pela vitória com Kanaan e Brack no terço final de prova. Alex assumiu a ponta da corrida, mas ainda precisava de uma parada perto do fim. O pit-stop foi realizado sem problemas quando faltavam treze voltas para o fim, mas naquele tempo, o limite de velocidade nos ovais terminava no fim do pit-lane. Quando acelerou seu Reynard com pneus frios, Zanardi perdeu o controle do seu carro e ficou parado no meio da curva um. Sem conseguir desviar, o canadense Alex Tagliani acertou o carro de Zanardi em cheio, numa das cenas mais horríveis da história do automobilismo.

Me recordo que matei aula naquele sábado (atire a primeira pedra quem não matou aula num sábado!) para assistir a classificação da F1 e a corrida da Indy e quando vi a cena, eu que estava deitado, dei um pulo e soltei um sonoro PQP!

Era clara a gravidade do acidente, mas mesmo em tempos de Internet à vontade, não existiam Redes Sociais e as informações demoravam um pouco mais a sair. O resgaste ficou na retina de todos que presenciaram a cena e demorei a digerir a parte em que Zanardi era deslocado para uma maca já sem as pernas. Ele seria reanimado sete vezes e havia perdido três quartos do sangue, levado de helicóptero para um hospital em Berlim em estado crítico.

O mundo do esporte ficou em choque e apenas quatro dias depois dos atos terroristas do dia 11, todos se uniam para rezar ou orar para uma das personagens mais carismáticas do automobilismo.

Traumatizado pelas cenas no dia anterior, Michael Schumacher estava decidido a não correr em Monza, mas acabou convencido a participar da corrida. Conta-se que o alemão teria prometido não subir ao pódio e por isso, fez uma prova apática para terminou em quarto. Mesmo chocada com o acidente de Zanardi, que havia corrido pela equipe dois anos antes, a Williams comemorou de forma contida a vitória de Montoya, sua primeira na F1, com Ralf Schumacher em terceiro. O segundo colocado Rubens Barrichello estava com cara de choro, ele que correra com Zanardi na F3000. Fora o pódio mais triste da F1 desde o GP de San Marino de 1994.

Numa recuperação impressionante, Zanardi saiu do coma alguns dias depois e sairia do hospital em Berlim pela porta da frente após quarenta dias. E sorrindo!

Zanardi iniciaria uma recuperação marcante, retornando à Lausitz para completar as treze voltas que lhe faltaram dois anos depois, antes de retornar ao automobilismo de alto nível no WTCC com um BMW adaptado e se tornar uma lenda paraolímpica nas Hand-bikes. Zanardi passou a ser admirado em todo o mundo e se tornou um exemplo de perseverança.

A CART terminaria aquele campeonato com Gil de Ferran conseguindo o bicampeonato, mas ele não tentaria o tri, pois a Penske se mudou para a IRL em 2002, acabando por implodir a entidade. Somente anos depois a Indy, já reunificada, voltaria a ter parte da força que teve anos atrás.

Na época se falou que Schumacher estaria tão chocado com todos aqueles acontecimentos (o alemão era amigo pessoal de Zanardi), que ele poderia se aposentar, mas o alemão rapidamente se recuperaria e subiu ao pódio no Grande Prêmio dos Estados Unidos, realizado normalmente após vinte dias do fatídico 11 de setembro.

A Al-Qaeda reivindicaria os atentados de 11 de setembro, liderados por Osama Bin Laden, que seria assassinado anos depois, após uma longe caçada feita pelos Estados Unidos.

Vinte anos depois daqueles acontecimentos tão marcantes para todos os envolvidos, Alex Zanardi e Michael Schumacher hoje travam uma luta parecida: pela vida. Em 2013 Schumacher sofreu um acidente de esqui e seu estado de saúde é um segredo de estado. Já Zanardi sofreria um segundo grave acidente em 2020, desta vez de hand-bike e assim como Schumacher, luta pela sua recuperação.

Que Alex e Michael tenham uma boa vida pela frente!

Abraços!

João Carlos Viana

JC Viana
JC Viana
Engenheiro Mecânico, vê corridas desde que se entende por gente. Escreve sobre F1 no tempo livre e torce pelo Ceará Sporting Club em tempo integral.

1 Comment

  1. Fernando Marques disse:

    J.C. Viana,

    bota alta tensão nisso!!!

    E como a vida é o que tem de ser.

    Michael Schumacher sobrevive vegetando … será por sua vontade ou da Corina?

    Alex Zanardi merece com certeza viver e ser sempre campeão … ninguém passa por que ele passou se não tiver a vontade de viver e ser feliz do jeito que for … é um Herói!!! …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

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