
Repito aqui as palavras que escrevi para nossas redes sociais: a Toyota conseguiu nesta 94ª edição das 24 Horas de Le Mans uma vitória maiúscula e merece todo o devido reconhecimento.
Sim, estou começando o texto pela conclusão, e não pela hipótese. E toda afirmação categórica, assertiva, necessita fundamentalmente de embasamento e comprovação, como nos ensinam quaisquer manuais de método científico decentes já em suas primeiras linhas.
Ao partir com essa premissa em mente, torna-se mais fácil entender o porquê dos meus efusivos elogios à equipe japonesa. Foi uma vitória extensamente planejada e muito bem construída, focada atentamente aos detalhes.
Foi a maior vitória da Toyota em Le Mans. E isso está longe de ser pouca coisa.

O Toyota 7 e o trio vencedor, Kobayashi / Conway / De Vries
Palmas e mais palmas para o Toyota 7, vencedor com o trio Mike Conway / Nick de Vries / Kamui Kobayashi, que chegou 10s à frente do BMW 20 de Robin Frijns / René Rast / Sheldon van der Linde; e palmas para o Toyota 8, de Sébastien Buemi / Brendon Hartley / Ryo Hirakawa, terceiro colocado, carro que liderou boa parte da corrida e se atrasou com um problema de freios, chegando apenas 20s atrás – caso contrário, seria este o carro vencedor.
Ainda teríamos outros quatro carros a completar a corrida, em 381 giros (quase 5.200km), na mesma volta do vencedor: O Cadillac 12 (Délétraz / Nato / Stevens), a Ferrari 51 (Calado / Giovinazzi / Pier Guidi), o Alpine 35 (Félix da Costa / Habsburg / Milesi) e a Ferrari 83 amarela (Kubica / Hanson / Ye) – vencedora da edição do ano passado, a lembrar que a Ferrari vinha também de vitórias em 2023 e 2024.
Tudo isso é indício de uma corrida novamente muito apertada e disputada, em que a Toyota superou diversos rivais mesmo longe de parecer favorita. Vamos aos elementos que fizeram da Toyota a vencedora.
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1) A Toyota promoveu uma ótima atualização de seu carro.

A Toyota correu com suas “roupas” de 1998, usadas no lendário TS020 “GT-One”
Este ano, a Toyota renovou seu já cansado GR010 de 2021, transformando-o em TR010, usando “coringas de evolução” permitidos pelo regulamento atual da WEC: revisaram toda aerodinâmica da dianteira e redesenharam laterais, tampa de motor e asa traseira, que ganhou formato curvado.
Aproveitaram a ocasião para abandonar o elegante visual preto, mas por uma boa causa: usaram a mesma pintura de 1998 do belo Toyota TS020, que em nossas mentes e corações permanece conhecido como GT-One – saudades, Gran Turismo 2! O carro, que impressionava tanto pelo seu visual quanto pelo seu desempenho, foi um daqueles diversos casos de quase-vitória da Toyota em Le Mans.
Os resultados foram imediatos: eles ganharam as 6H de Imola, a etapa de abertura da WEC 2026, quanto o Toyota 8 derrotou a Ferrari 51, enquanto o Toyota 7 completou o pódio. Se mostraram um pouco fora de forma nas 6H de Spa-Francorchamps, onde tivemos uma dobradinha da revigorada BMW. E em Le Mans, ao menos antes da largada, também pareciam carta fora do baralho.
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2) A Toyota venceu Le Mans longe de parecer favorita.

Cadê a Toyota? Nem aparece. A largada teve protagonismo de BMW e Cadillac…
Carro renovado, pintura vintage… mas ter feito 14º e 15º lugares no grid de largada para Le Mans não parecia ser exatamente um resultado animador. Estavam atrás de um monte de gente, a começar por BMW e Cadillac, que se digladiaram pela pole. E a lista de carros mais rápidos também incluía Alpine, Aston Martin, Ferrari e até da estreante Genesis, marca de luxo da Hyundai. Só ficaram à frente dos carros da Peugeot (que jura que vai atualizar seu carro pra 2027) e da Ferrari amarela que tanto gosto.
A Toyota afirmava, no entanto, que não tinham foco na qualificação em si. E, convenhamos, isso soa mais como uma desculpa esfarrapada para quem não estava com carros suficientemente rápidos do que uma escolha técnica.
Baixada a bandeira francesa, cronômetro rodando e os primeiros minutos foram de intensa batalha entre Cadillac e BMW. Quando os times se aproximaram da primeira de muitas rodadas de pit stop é que o plano da Toyota de escalar o pelotão começou a acontecer – e a fazer todo o sentido.
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3) Promoveu uma tática à la F1.

A Toyota fez um undercut no estolo F1 que colocou o Toyota 8 líder ainda na 1ª hora
Há muito, as táticas de pit são inerentes à Formula 1. Na época dos reabastecimentos era comum o overcut: enquanto seu rival ia reabastecer, você ficava, fazia voltas voadoras por estar leve e voltava à frente após seu próprio pit.
E hoje, com a troca de pneus ditando a dinâmica das provas, o comum é o inverso, o undercut: parar mais cedo, pegar borracha nova e então andar mais rápido que o rival à frente, que com isso, perde a posição ao voltar dos boxes.
Em uma corrida de 24 horas, tais expedientes não parecem fazer sentido e o que vale é o melhor compromisso entre tanque cheio e correto uso dos pneus, para ficar o mínimo possível parado nos boxes.
A Toyota provou nesta edição de Le Mans que o uso de uma tática “offset”, fora da janela habitual de pits dos rivais, não apenas era possível, como foi elemento fundamental da construção dessa vitória.
Com apenas 29 minutos de ação, o Toyota 7 já seguia para seu primeiro pit, procedimento seguido no giro seguinte pelo carro irmão, 8. Não era difícil imaginar que os carros japoneses estivessem enfrentando algum problema precoce. Mas era pôquer puro.
A Toyota apenas queria correr de cara pro vento. Com pits mais curtos, passaram a virar tempos muito rápidos, em carros com menos combustível a bordo e que também tratavam melhor os pneus. Tanto que a janela normal de pits aconteceu por volta dos 50(!) minutos de prova.
Se os carros não eram, de fato, velozes para o qualify e perderiam muito tempo em batalhas diretas na pista por posição, a equipe tinham certeza de todo o potencial dos carros em ritmo de prova. Contando com trios pra lá de tarimbados e com ótimo racecraft, começaram, aos poucos, galgar as primeiras colocações de maneira silenciosa e surpreendente, com um ritmo de prova que não estava no script da concorrência.
Foi uma jogada muito, muito interessante. Inteligente e inusitada.
Ao final da primeira hora, Buemi já era líder com o Toyota 8, ainda que em janela alternativa, enquanto o Toyota 7 era quinto colocado, com uma escalada um pouco mais paulatina, atrapalhada por um furo lento na terceira hora de prova e corriam em 8º no término do primeiro terço de prova. O carro 7 se estabeleceu dentro do top-5 apenas na 12ª hora e só passou, de fato, a disputar a liderança só na 18ª hora – justamente quando o carro 8 fez um pit demorado.
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4) Mostrou confiabilidade e força contra os rivais.

Forte candidato à vitória, o Cadillac 38 abandonou, para decepção de Sébastien Bourdais
Por mais que o Toyota 8 tenha sofrido o atraso com problema de freio, ambos os carros japoneses mostraram uma confiabilidade invejável, em tempos de endurances vencidas por carros “trouble-free”, sem falhas por todo o período. A isso alia-se uma pilotagem eficiente e longe de problemas por parte dos dois trios.
Enquanto isso, rivais fortes iam ficando pelo caminho. O BMW 15 (Magnussen / Marciello / Vanthoor) que havia conquistado a pole já estava fora da prova, ao sofrer danos irreparáveis após um toque com um retardatário, bem como a Ferrari 50 campeã de 2024 (Fuoco / Molina / Nielsen), com problemas mecânicos que se revelaram definitivos na 19ª hora.
E ainda haveria o sentido abandono do Cadillac 38 (Aitken / Bamber / Bourdais), que disputou a liderança boa parte da prova até abandonar pouco depois da 12ª hora de corrida com problemas no sistema de direção. foi duro ver Sébastien Bourdais, cidadão de Le Mans que nunca conseguiu vitória por lá em 19 tentativas, sair do carro diante de tamanha decepção.
Ao mesmo tempo, na madrugada, o Cadillac 12 e o BMW 20 pareciam favoritas para a vitória, livrando distância para as Toyotas.
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5) Fez excelentes stints antes do amanhecer.

Tricampeã, a Ferrari este ano não teve fôlego para acompanhar Toyota, BMW e Cadillac
Na alta madrugada, por volta da 15ª hora de prova, com ar fresco e asfalto mais gentil com os pneus, os dois carros da Toyota passaram a pisar mais fundo. As disputas, sobretudo com o BMW 20 e o Cadillac 12 foram intensas com o Toyota 8.
Na 20ª hora, Kamui Kobayashi – que é piloto e diretor da equipe – estava tirando tudo do carro 7, em seu ataque definitivo para conquistar a ponta, juntando-se ao pelotão da frente. Faltando apenas 4 horas para a bandeirada, quatro carros estavam literalmente separados por menos de 10 segundos.
Após um brilhante stint triplo, De Vries pegou o carro 7 e nem um pit emergencial – felizmente acontecido em amarela – impediu o carro de se estabelecer na liderança na hora final, enquanto o carro 8 reportava problemas de freio e o Cadillac 12 foi punido por excesso de velocidade em bandeira amarela, o que tirou o carro do páreo. Mas o BMW 20 ainda era uma poderosa ameaça.
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6) Defendeu-se contra o ataque final da BMW

O BMW 20 representou a maior ameaça à vitória da Toyota
Faltando uma hora para o fim, a vitória parecia sorrir para o Toyota 7, que tinha Kobayashi novamente ao volante. Mas o BMW 20 estava lá para fazer uma última tentativa de força. O time, então, fez uma estratégia de defesa do carro líder. E a maneira aplicar esse plano foi sacrificar seu carro 8 – aquele mesmo, que mais havia lutado pela vitória.
O Toyota 8 passou o BMW 20 nos pits ao manter o carro por mais tempo com pneus velhos. Buemi, o mais rápido do trio, estava novamente a bordo e atrasou o quanto pôde o rival. A manobra foi decisiva para que o carro 7 recebesse a bandeirada e fizesse a Toyota reencontrar a vitória após um tricampeonato da Ferrari.
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A cruel derrota de 2016: o Toyota 5 parado, enquanto o Porsche 2 toma a liderança na volta final
Ainda dentro das caríssimas regras de LMP1, a Audi caiu fora ao fim de 2016 e, no ano seguinte, quem falava tchau era a Porsche. A Toyota ficou sozinha no parquinho. E entre este fim de regulamento e introdução do (muito mais inteligente e econômico) Hypercar, emendou 5 vitórias em Le Mans, de 2018 a 2022. Cá entre nós, a concorrência não foi das mais fortes.
Mas ninguém vê a coisa pelo lado positivo. Em todos esses anos, ela poderia ter amargado o vexame de, correndo sozinha, sofrer situações duplo abandono – o que não aconteceu em nenhuma das vezes.
Não obstante, a Toyota sempre foi uma grande competidora, que acumulou os mais inacreditáveis episódios de reveses na prova, com o apogeu de suas urucas sendo a fatídica edição de 2016, com o carro a quebrar na abertura da volta
Na época, escrevi neste mesmo site, que celebra seus 25 anos no ar, que o desenrolar da corrida foi tão intenso e surpreendente, que subverteu a lógica da cobertura esportiva: aquilo não era a crônica de uma vitória, mas sim a crônica de uma derrota.
Uma onda de empatia acabou sendo diretamente proporcional à crueldade. Todo o universo do esporte a motor se solidarizou com os japoneses, incluindo a rival Porsche, herdeira quase que involuntária daquela vitória.
Ora, não apenas a Toyota sempre foi uma forte competidora, como sua presença foi determinante para que a WEC seguisse em frente e atraíssem tantas marcas para o programa Hypercar. Sobram, portanto, motivos para enaltecer a Toyota. Ao mesmo tempo que ela exorciza questionamentos e fantasmas do passado.
Como queríamos demonstrar.
Que venham as 6H de São Paulo!
Abração!
Lucas Giavoni