A Ferrari vai chegar lá!

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Quem vos fala é um peregrino que tem fé, fé que a Ferrari está prestes a romper a hegemonia Lewis Hamilton-Mercedes.

Escutai, homens de boa vontade!

O Mundial 2015 da Fórmula 1 está vivo. Quem vos fala é um peregrino que tem fé, fé que a Ferrari está prestes a romper a hegemonia Lewis Hamilton-Mercedes, que tiraniza a categoria, ganhando nove dos onze últimos GPs e chegando ainda duas vezes em 2º lugar. Sim! Um bíblico aproveitamento de 95% dos pontos disputados.

Principalmente por conta disso, não proclamarei que a Ferrari e um dos seus pilotos arrebatarão para si o Mundial, fazendo a Mercedes morder o pó. Quero apenas manifestar a minha fé que teremos muitas belas corridas pela frente, como vimos domingo nas terras profanas de Sakhir.

Escrevei e cobrai-me, ô leitores, nos meses vindouros!

(E se algum engraçadinho ousar lembrar minha desastrada previsão de que Ralf Schumacher seria o campeão mundial de 2003, que vá ao raio que o parta!)

Que a Ferrari é mais do que uma loja com toda a sua mercadoria na vitrine não se discute, creio que principalmente pelo mérito de James Allison&Cia.

Eles construíram um carro brando para com os pneus, que não impõe a Sebastian Vettel os problemas com os freios eletrônicos que o atormentaram no ano passado e, ainda por cima, encaixa-se bem com o estilo de pilotagem de Kimi Räikkönnen, que gosta de carro com a dianteira colada ao chão.

No Bahrain, o Ferrari foi consistentemente mais rápido do que o Mercedes, a ponto da melhor volta de Kimi (a melhor da prova, em 1m36s311) ter sido um segundo inteiro mais rápida do que o melhor Mercedes, o de Nico Rosberg – ou Rosbeef, como tem sido chamado pelos jornalistas britânicos.

Também em velocidade máxima, ponto para o Ferrari: na corrida, Vettel chegou a 339,1 km/h, ante 336,8 km/h de Nico.

Então por que a Ferrari perdeu a corrida no Bahrein?

Pela combinação de três fatores:

1º) não foi capaz de classificar-se e arrancar na frente dos Mercedes

2º) Sebastian Vettel teve um péssimo final de semana, acumulando erros

3º) Kimi classificou-se mal e, apesar de ter ganho uma posição na largada, atrasou-se na fase inicial da corrida por ter à frente Vettel, mesmo Kimi tendo-lhe pedido, discretamente, passagem pelo rádio.

Não fora por isso e provavelmente a Mercedes teria amargado a sua segunda derrota do ano.

[O resumo da corrida pode ser visto aqui].

Mas, para se imporem, Vettel e Kimi terão de bater Hamilton.

Não vai ser fácil. O inglês só não gabaritou as etapas até aqui por um erro crasso de estratégia da sua equipe, na Malásia. Está hipermotivado, seguro de si, de bem com a vida, o contrato com a Mercedes perto de ser renovado, por dois anos, por 30 milhões de euros ao ano, mais do que o dobro do que recebe Nico.

Os problemas de freio dos Mercedes no Bahrain não parecem ter sido do mesmo tipo que acertou a equipe em alguns GPs do ano passado mas não deixam de ser um sinal amarelo, em especial no Canadá, muito exigente com os freios.

Luz amarela também para o desgaste de pneus dos Mercedes, que se acentua em pistas mais quentes, como as que se anunciam no verão europeu.

E quando menos se espera, eis que Kimi Räikkönnen acorda! Acorda e faz uma corrida excepcional, inclusive pela inventividade de fugir de uma estratégia de pneus mais óbvia. Ele descontou nada menos do que 18 segundos para Nico na fase final da corrida, praticamente forçando o alemão ao erro.

Estranho finlandês, este, imune aos apelos do resto do mundo. Parece que só corre quando quer, se sente bem com o carro, encontra pela frente uma pista de que gosta e é capaz de juntar todas as pontas sem precisar falar muito.

Gosto de pessoas assim mas não creio ser ele o melhor ferrarista a desafiar Hamilton. Kimi decididamente não corresponde à pressão de forma sustentada e regular, como certamente exigirá o campeonato deste ano. Além disso, suspeito que Maurizio Arrivabene não gosta de Kimi. Suspeito também que Kimi não saiba bem ao certo quem é Arrivabene.

Magnífica e emblemática a manobra na volta 16 do GP do Bahrain, quando Hamilton deixa os boxes metros a frente de Vettel e Nico, um fechando a porta de forma agressiva, outro pagando pra ver e ganhando a posição.

Fazia tempo que eu não pulava da cadeira vendo um GP.

A melhor volta de Kimi na prova foi 0,7 segundo mais rápida do que a melhor do GP do ano passado, 1m37s020, obra de Nico, que carrega a duvidosa marca de ter sido, espera-se que para todo o sempre, a mais lenta entre as melhores voltas da história desta pistinha (desculpa aí, Galvão, não concordar com você), o recorde eterno ainda em poder de Michael Schumacher, assinalado em 2004, 1m30s252.

Falando, parece brincadeira: sete segundos mais rápida, onze anos atrás!

Será que a Fórmula 1 não está nesta autoproclamada lama toda por ter se tornado tão mais lenta do que já foi?

Em tempo: sinceros parabéns (irônicos, ok?) ao gênio que trouxe de volta as fagulhas.

Quem sabe elas resolvam o problema de perda de interesse das gentes pela Fórmula 1.

Maldita a ditadura da comunicação de massa!

Viram o grande Jackie Stewart com as suas ridículas calças de tartan, numa breve cena da transmissão da corrida, um igualmente ridículo dignatário barenita ao lado?

Um tricampeão mundial do quilate de Stewart precisa de uma calça como aquela, que usou quando era dono de equipe, para ser identificado rapidamente? É apenas isso o que o distingue, como se nada mais do que fez na vida fosse o bastante para identifica-lo?

Abraços

Eduardo Correa

Eduardo Correa
Eduardo Correa
Jornalista, autor do livro "Fórmula 1, Pela Glória e Pela Pátria", acompanha a categoria desde 1968

6 Comments

  1. Tassios disse:

    7 segundos mais lenta… é por isso q eu acho os carros tão mais lentos.

  2. Mauro Santana disse:

    Grande Edu!!

    É, vamos ver o que vai acontecer, mas esta interessante ver a Ferrari bem próxima da Mercedes.

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

  3. Fabiano Bastos das Neves disse:

    Eduardo,

    Não há motivo para te envergonhares tanto da tua previsão equivocada para o ano de 2003. Todo mundo erra, ainda mais quando havia um sentimento forte de que algo devia mudar diante do domínio acachapante da Ferrari em 2000,2001 e 2002. Mas tivemos que aturar mais disto em 2003 e 2004.
    Mas, assim como você, movido talvez pelo desejo de mudança, creio que a Ferrari realmente encontrou o caminho para vencer as Mercedes. Mas discordo apenas sobre quem será a melhor arma para acabar com o domínio. Penso que neste momento, quando os carros estão com desempenhos tão próximos (em corrida ao menos), o melhor gerenciamento dos pneus fará diferença em favor do Kimi, piloto ascendente e cerebral. Concordo que Vettel é mais rápido que Kimi nas classificações, assim como Felipe Massa também era em 2007, mas em corrida talvez Kimi seja o piloto com melhor ritmo de todos.
    Quanto a Arrivabene não gostar de Kimi, parece que você cometeu novo engano. Afinal ele até mandou fazer o carro ao gosto do finlandês ( http://grandepremio.uol.com.br/f1/noticias/arrivabene-pediu-a-ferrari-carro-mais-ao-estilo-de-raikkonen-e-vestiu-a-camisa-vou-trabalhar-junto-com-voces ). Imagina se gostasse!
    Para finalizar, apesar da prova do Bahrein ter sido muito melhor que as anteriores, ainda estou com saudades da primeira hora da corrida do WEC transmitida pelo Sportv. O Mundia de Endurance está muito equilibrado. Pena que as corridas são tão logas, o que dificulta acompanhá-las pela TV.

  4. Fernando Marques disse:

    Eduardo,

    que os deuses do automobilismo proclamem a sua profecia!!!! …
    Uma pergunta não me sai da cabeça: O Kimi Raikkonen é o piloto nº 2 ou 1B da Ferrari? … Acho difícil o Vettel não ser o escolhido para fazer frente ao Hamilton … o mundo evolui mas a politica da Ferrari continua a mesma …
    Eu acho também que a Mercedes tem uma boa gordura guardada para ainda ser queimada caso a Ferrari chegue muito perto dela … e ainda não quis mostra-la … afinal ela ainda é mais de 1 segundo mais rápida em treinos e na atual Formula 1 largar na primeira fila e tocar o ritmo da corrida é primordial em todas as pistas …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  5. Rodolfo César disse:

    Espero que dessa vez seu tiro acerte o alvo! Pra mim, a Ferrari estar competitiva logo no começo do ano é uma surpresa e tanto… Achava que só a partir do meio da temporada que poderíamos vê-los disputando vitórias ou pódios.

    O Mesmo pensava da McLaren, mas essa aí não vai conseguir nada nesse primeiro ano com a Honda. Talvez com a pausa no meio da temporada, alcance os pontos com alguma estabilidade.

    Ótimo texto. Abraços!

    • Lucas dos Santos disse:

      Por falar em McLaren, toda vez que vejo o Alonso concedendo uma entrevista, noto algo muito curioso em sua forma de se expressar.

      A equipe está indo de mal a pior, mas ele apresenta uma expressão tranquila e relaxada, como se estivesse tudo às mil maravilhas! E ainda diz que a equipe está melhorando a cada corrida. Por muito menos, ele simplesmente “estourou” na Ferrari e na própria McLaren, em 2007, e vimos bem como isso terminou! Nunca vi o exigente piloto espanhol tão otimista!

      Talvez ele esteja blefando, tentando demonstrar que as coisas por lá não estão tão ruins assim a fim de atrair patrocinadores. Talvez ele já esperasse por toda essa má fase e resolveu simplesmente aceitá-la. Ou, o que eu acho mais provável, ele estaria sabendo de algo que não sabemos! Algum “upgrade”, cuja implementação seria apenas questão de tempo e que os tiraria do fim do grid até o término da temporada!

      Sabe-se lá o que isso significa, mas que é estranho, isso é,

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