Personalidade

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Em Cingapura, a prova que circuitos e pilotos com personalidade garantem uma boa corrida.

E eis então que Vettel leva a Ferrari à pole position com larga margem, cinco anos após a última vez em que a equipe havia conseguido isso em condições normais de disputa – desconsidero aqui a pole de Alonso na Alemanha em 2012, obtida sob condições climáticas variáveis –, girando praticamente 1,5s mais rápido do que o conjunto Hamilton-Mercedes, praticamente imbatível até então.

Alguém que não tenha visto a qualificação – e no Brasil certamente muitos não viram, uma vez que a tevê aberta transmitiu apenas os últimos três minutos da Q3, preparando em definitivo a transição para não mais transmiti-los no futuro próximo – poderia ser perdoado ao imaginar que o grid teria sido definido por batidas, falhas mecânicas, chuvas, punições, macumba, mau olhado ou sabotagem. Mas não, simplesmente Vettel e a Ferrari foram (muito) mais rápidos mesmo, na pista, no braço, na moral.

Ora, afinal de contas, como explicar isso?!

A grande pergunta do fim de semana admite, a rigor, duas respostas igualmente válidas. A primeira, técnica, irá dizer que o conjunto chassis-suspensões da Ferrari foi capaz de aquecer os pneus de forma muito mais rápida e efetiva que a Mercedes na noite de Cingapura. Já a segunda, filosófica, afirma simplesmente que o resultado foi diferente porque a pista citadina asiática – goste-se dela ou não – abriga um traçado de personalidade. Possui características próprias, premia qualidades específicas e não segue o padrão monocórdico dos autódromos tilkeanos que cada vez mais preenchem a pequena lista de praças capazes de atender às atuais exigências da FIA no que se refere a segurança, e de Bernie no que diz respeito a glamour para seus vips.

É isso. Pistas com personalidade são capazes de proporcionar naturalmente, sem interferências apelativas mais ou menos disfarçadas, a tão desejada alternância de desempenhos entre os principais conjuntos.

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Uma das qualidades que Cingapura sabe premiar é justamente a habilidade natural de Sebastian Vettel para administrar a transferência de peso no acelera-freia-acelera de suas esquinas. O jovem tetracampeão foi sempre muito mais rápido que Räikkönen, e com sua dominação incontestável conseguiu superar, antes de Hamilton, a emblemática marca das 41 vitórias de Ayrton Senna. Foi seu terceiro triunfo no ano e, não fosse aquele pneu estourado na Bélgica, Vettel poderia ser agora, com todos os méritos, o vice-líder do mundial.

Aliás, parece existir mesmo algo de espiritual ligado a esta marca. É conhecida a superstição japonesa segundo a qual o número 42 (cuja pronúncia, shini, equivale a morte) estaria relacionado a infortúnios, acidentes, período de azar, inferno astral. Todos se lembram, afinal, que Ayrton Senna faleceu quando encaminhava-se para alcançar essa marca, e que o fiscal de pista Paolo Ghislimberti, então com 33 anos, foi a óbito após ser atingido por um pneu da Jordan de Frentzen no mesmo GP em que o heptacampeão igualou o número de vitórias do brasileiro. Desta vez, felizmente, o gaiato que invadiu a pista não tentou nenhuma graça, e conseguiu deixar o traçado da mesma forma que entrou, sendo preso em seguida.

Por sinal, Não deixa de ser perturbador imaginar que alguém possa invadir tão tranquilamente a pista em pleno GP, num traçado urbano. De se lamentar apenas que Rubens Barrichello não estivesse no grid, para manter a tradição de vencer sempre que algum maluco altera o andamento da corrida, conforme os precedentes de Alemanha 2000 e Grã-Bretanha 2003.

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Interesse notar como, em apenas duas corridas, o grid da F1 já se adaptou ao novo formato de largada. Após duas provas com várias trocas de posições e alguns pilotos patinando em excesso, o que se viu em Cingapura foi uma típica largada de tempos com controle de tração. Nada de fumaça, nada de ultrapassagens, arranques praticamente idênticos para todo mundo.

Mas se a largada foi para lá de convencional, o oposto pode ser dito da espetacular 1ª volta de Sebastian Vettel. Iniciando com tudo, o tetracampeão fez lembrar os melhores dias de Clark e Senna, abrindo incríveis 3.034s sobre Ricciardo apenas no giro inicial. Mais que isso: partindo da imobilidade, com freios e pneus fora da temperatura ideal e sem qualquer referência sobre o estado na pista em condições decorrida, Vettel virou o tempo absurdo de 1min52’’569. Para efeito de comparação, foi melhor do que a 2ª volta de todos os pilotos, exceto ele próprio, claro.

Não passariam muitas voltas, contudo, até que Seb percebesse o despropósito de acelerar daquela forma numa pista como a asiática. Não apenas porque os pneus logo iriam perder rendimento – como de fato aconteceu na fase final do 1º stint – mas também porque cedo ou tarde iria surgir alguma intervenção do carro de segurança jogando por terra toda a vantagem em relação aos rivais diretos. A partir do 1º pit stop Vettel limitou-se a permanecer na frente de Ricciardo, mostrando apenas em momentos estratégicos toda a reserva que vinha mantendo.

A vitória à frente do australiano, por sinal, não é vazia de significado. Afinal foi Daniel o responsável pela única nódoa na carreira de Vettel até agora, quando o superou em resultados no período em que dividiram os boxes da Red Bull, ano passado. Contra fatos não há argumentos, mas o futuro parece reservar a essa derrota a interpretação de que foi resultado de dificuldades pontuais de pilotagem – que ainda assim mostram um ponto fraco no tetracampeão. E também, claro, méritos de Ricciardo, que agarrou com unhas e dentes a grande chance que teve na vida.

Até mesmo porque a qualidade de Vettel é inquestionável.

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Não gosto da pista em Cingapura. Mas, além de respeitar sua personalidade, admiro o desafio de resistência que ela impõe a carros e pilotos. É válido lembrar que os pioneiros se digladiavam em Grandes Prêmios que percorriam muitas vezes 400, 500 quilômetros, ao volante de carros duros de pilotar, extremamente barulhentos e quentes, em pistas como Mônaco ou Nürburgring. Uma das maiores virtudes de Fangio, por sinal, era sua resistência prodigiosa, e o automobilismo não pode abrir mão deste ingrediente.

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Sobre os brasileiros, há pouco que dizer. Massa foi superado pelo companheiro de equipe nos treinos, e o inferno astral que enfrentou na corrida após a colisão com Hülkenberg o roubou de, no máximo, uma sexta posição. Menos mal. Ainda assim, a ótima 4ª colocação no campeonato ficou agora mais distante de ser alcançada.

Nasr, por sua vez, fez uma corrida bastante decente, e, não fosse pelos problemas que enfrentou após o 2º pit stop poderia ter levado uns pontinhos a mais em sua mala para o Japão. Ainda assim o brasiliense mostrou consistência e decisão, voltando a apresentar uma boa atuação num momento em que sua imagem começava a perder o brilho do início do ano.

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Para encerrar, impossível não dedicar algumas palavras à postura de Max Verstappen diante da ordem para ceder sua posição ao companheiro de equipe. O vigoroso “não”, repetido ao menos outra vez, provavelmente vá render uma bela bronca ao moleque, e talvez até ameace sua progressão no seio da Red Bull.

Da mesma forma, não discuto aqui méritos ou deméritos de cumprir ou desobedecer ordens de equipe. Ressalto apenas a demonstração de personalidade do garoto, que assumiu uma posição desafiadora com extrema convicção diante do mundo, passando sua mensagem ao circo da F1. Certo ou errado, Max está ali para vencer.

É isso. Pilotos com personalidade são capazes de proporcionar naturalmente, sem interferências apelativas mais ou menos disfarçadas, a tão desejada disputa humana e pessoal.

Num dia em que a Ferrari foi formalmente notificada pelo simples fato de Vettel ter exibido uma bandeira, a sensação que fica é de que a F1 precisa compreender o quanto antes que o bom-mocismo não pode ser construído jamais à custa de censura e castração.

Uma ótima semana a todos.

Márcio Madeira
Márcio Madeira
Jornalista e Engenheiro mecânico, nasceu no exato momento em que Nelson Piquet entrava pela primeira vez em um F-1. Sempre foi um apaixonado por carros e corridas.

6 Comentários

  1. Rubergil Jr disse:

    Belo texto e boa análise Marcio.

  2. Fernando Marques disse:

    Vou aproveitar o espaço para fazer um comentário que não tem nada a ver com a Formula 1. Que capotagem foi aquela do Pedro Piquet? Coisa de louco!!! … Incrível, também, como os Porsches GT3 CUP são seguros.
    O Nelson Piquet falou para a mãe do Pedro que foi apenas um acidentezinho …

    Fernando Marques

  3. Mauro Santana disse:

    Belo texto Amigos Márcio!!

    Concordo com o Fernando que o Vettel tem que acreditar que pode bater as Mercedes.

    Porém, seria muito melhor pra ele se este ano o Rosberg tivesse lutando pau a pau com o Hamilton, e assim numa briga interna, poderia repetir os feitos de Prost em 1986 e Raikkonen em 2007.

    A respeito da F1, está cada dia mais complicada de ver, pois os treinos são monótonos, e sendo assim, a rede globo já está largando o osso, e os protocolos da FIA estão cada dia mais ridículos, ao ponto do Vettel não poder levar uma bandeira no pódio.

    Caramba, que mal tem nisso!?

    Foi legal de ver a emoção do Vettel e dos italianos com a vitória, e confesso que eu fiquei emocionado também, pois a F1 anda com atitudes tão frias, que momentos assim são raros de ver.

    E o Verstappen ao meu ver, fez certo em não abrir passagem, pois se ele vai ser ou não prejudicado, pelo menos já deixou claro que com ele isso não rola.

    Esse Pia tem espírito e garra de campeão.

    Abraço

    Mauro Santana
    Curitiba-Pr

    • Lucas dos Santos disse:

      Concordo contigo em relação ao Verstappen.

      Eu sempre gosto de assistir as entrevistas que os pilotos dão à imprensa e é impressionante o quão seguro de si é o garoto. É um sujeito determinado e está ali para brigar. Não acompanhei a trajetória dele nas categorias de base, mas hoje não tenho dúvidas de que se ele chegou à F1 aos 17 anos foi por puro mérito!

      Por isso não me surpreendi com a resposta dele àquele radio e gostei da argumentação dele após a corrida. O automobilismo precisa de mais pilotos assim.

  4. Concordo contigo, Fernando. Até porque a terceira posição no campeonato já está mesmo garantida. A Vettel só resta olhar para cima.
    Tarefa muito difícil, mas ele não tem nada a perder. Por tudo que já fez, a temporada já foi vitoriosa.
    Abraço, e tenha uma ótima semana.

  5. Fernando Marques disse:

    Infelizmente não pude assistir a corrida. Só vi os melhores momentos.
    Assim sendo fiquei surpreso com o resultado, tanto dos treinos que definiram o grid de largada, assim como a corrida e seu resultado final. Independente das belas justificativas dada pelo Marcio em sua bela coluna, ninguém esperava outra coisa a não ser mais um passeio das Mercedes em Cingapura. Afinal ela deu em Mônaco e poderia ter dado neste fim de semana.
    O resultado da corrida para o campeonato foi sensacional, e não resta ao Vettel acreditar que pode bater as Mercedes. A Ferrari este ano está muito melhor se comparado com as ultimas duas ou três temporadas passadas. Já é um ótimo motivo para acreditar, Fora isso não cabe ao Vettel outra postura. Tem que acreditar que pode conseguir o título pois está na briga. Ao contrário nem deveria entrar nas pistas.
    Marcio, pelo visto vamos ficar sem ver realmente, pelo menos pela TV aberta, os treinos que definem o grid de largada. Melhor seria a meu ver aposentar o Galvão Bueno que custou a ver que o carro que bateu em Massa não era do Sergio Peres e sim de seu companheiro de equipe N. Hülkenberg. O cara está ruim de vista a bessa … hehehehehe

    Fernando Marque
    Niterói RJ

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