A palmada que não veio – Final

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Continuamos a história que envolveu a grande rivalidade entre Ayrton Senna e Alain Prost nas temporadas de 1988 até 1990, chegamos na parte 5 e final, releia as partes anteriores clicando nos links abaixo

A palmada que não veio – Parte 1

A palmada que não veio – Parte 2

A palmada que não veio -Parte 3

A palmada que não veio – Parte 4

 

Em 1990, no mesmo cenário, teríamos uma reedição deste episódio. Então, uma vez mais, era Prost quem se encontrava na frente, mas sem o beneficio que um acidente lhe havia proporcionado o ano anterior. Uma vez mais, dada a largada, Prost, incompreensivelmente, se desvia um pouco à esquerda e deixa um grande espaço à sua direita antes de entrar na primeira curva. Isso é visto por Senna como um convite que logo aceita, e com o carro de Ayrton já à altura do eixo traseiro do Ferrari de Prost, este volta para a direita, fechando a “porta na cara” de Senna. O brasileiro, uma vez mais e de maneira instintiva, trata de esquivar o francês, mas, com duas rodas já fora da pista… A colisão, novamente, resulta inevitável e a corrida acaba ali mesmo para os dois.

Aqui vale recordar que, segundo o regulamento, numa reta o piloto que defende a posição, pode mudar de direção, inclusive ocupando toda a largura da pista… Desde que esteja completamente à frente do piloto atacante. Contudo, uma mudança de direção justo antes, ou já na zona de frenagem de uma curva, se considera extremamente perigosa, pois deixa o piloto de atrás sem ter aonde ir e se descreve como uma “mudança anormal de direção”. Em ambos os acidentes, Prost não estava à frente… Nem Senna tinha aonde ir !

De imediato, e de acordo a uma interpretação materialista, se atribuía a Prost e Senna uma ânsia por conseguir o campeonato mediante aqueles acidentes, e foi essa ânsia a que de soer se apresentava nos debates da época como a motivação principal e, à primeira vista, não estava isenta de razão. No entanto, acredito que houvesse algo mais profundo que ia alem disso. Algo mais subjetivo e referente à condição humana, e a todas as suas debilidades.

Jean Sage, quem conhecia bem Prost de quando esteve com ele na Renault diria a respeito do acidente de 1990:

 “Eu digo que foi meio a meio, porque Prost abriu um pouco a porta e Prost sabe que Senna é um pouco arriscado e, normalmente, Prost é muito sábio e não faz coisas assim.”.

Neste caso era Prost quem mais tinha a perder, no entanto não fez nada por evitar o acidente, como fazia Hamilton. Com isso ele mesmo estava renunciando à possibilidade de derrotar Senna e continuar aspirando ao titulo. Prost não devia ter se arriscado tanto sabendo que Senna era quem mais tinha a ganhar com um acidente, muito menos dar tanto espaço ao brasileiro, como também havia feito o ano anterior na chicane. Acaso não sabia ele que não se lhe podiam conceder a Senna tantas facilidades !

Outro dos argumentos trazidos à tona na época foi o referente ao que haviam dito tanto Prost quanto Senna, antes dos incidentes, como se as suas palavras fossem provas irrefutáveis de suas intenções. No entanto, como todos sabemos, quando estamos submetidos a tensão, em estado de raiva ou simplesmente como uma forma de intimidar a outra parte, todos tendemos a dizer coisas que nunca diríamos em outras circunstâncias e que nem mesmo temos a intenção real de levar a cabo.

Só assim se entende que Senna, até o ultimo instante, tentasse evitar o choque, pois naquele circuito o mais provável é que se sentisse seguro de poder bater Prost… Como já o havia feito antes. Deste modo creio que nem um nem outro realmente tinham intenção de por em pratica as suas ameaças e diria até que apenas tratavam de intimidar o adversário para condicionar seu comportamento. Creio que ambos os acidentes foram fruto mais de uma reação do que uma intenção. Caramba, ninguém que pretenda cometer uma infração… A divulga aos quatro ventos por antecipação !

Ao meu modo de entender, quem melhor soube interpretar a situação de Prost foi James Hunt quando disse:

“Prost queimou seu cérebro por causa de Senna. Antes de a corrida começar ele sabe que está derrotado.”

Hunt captou muito bem o estado de animo de Prost em seu enfrentamento com Senna, o que se confirma dando uma olhada nas suas estatísticas daqueles três anos, e que nos mostram a dimensão da surra que estava levando:

Nesse período de três anos, das vinte vitórias de Senna, nos quinze GPs em que ocuparam as duas primeiras posições, o brasileiro esteve na frente em treze deles, e nas outras sete Prost havia abandonado ou não estava em condições de disputar ditas vitórias. Por sua parte Prost venceu em dezesseis ocasiões, sendo que em catorze delas Senna havia abandonado ou estava retrasado. Se nos circunscrevemos aos seus anos na McLaren, temos catorze vitórias de Senna, com apenas três havendo Prost abandonado, por onze vitórias do francês, das quais em nove ocasiões Senna havia abandonado ( 7 ) ou não tinha condições de disputar-lhe a vitória ( 2 )

Uma representação gráfica nos permite ver melhor a trajetória de ambos naqueles três anos e, como curiosidade temos que, ao longo de suas carreiras, as vitórias de Senna sobre Prost representam 31,7% de todas as suas vitórias ( 41 ), enquanto que as vezes em que Prost terminou atrás de Senna representam 37,1% de todos os seus segundos lugares ( 35 ).

Com estes números não é estranho que Prost se sentisse ”derrotado”, pois todas as suas artimanhas e intrigas, que tão bom resultado lhe havia dado anteriormente com outros companheiros (e depois com Mansell na Ferrari), não lhe haviam servido para nada com o brasileiro, que mantinha uma mentalidade ganhadora inabalável, além de uma determinação que, em vez de minguar, parecia crescer com cada manejo do francês.

Como digo, creio que em ambos os casos, Prost apenas reagiu ante a iminência de outra derrota sem sequer pensar em nada mais… Nem mesmo no título. Só assim se explica o seu comportamento nos dois acidentes, apesar de que implicavam consequências totalmente opostas. No primeiro caso ainda existia o beneficio do titulo ao seu favor, mas não acredito que esta fosse a sua motivação. No entanto, no segundo caso as probabilidades estavam em contra sua, e me resisto a pensar que Prost tivesse a intenção de fazer algo que pudesse beneficiar Senna.

Enquanto a Senna duvido sequer que pudesse imaginar que Prost fosse tão obstinado na defesa da sua posição, sabendo que um acidente só lhe prejudicaria. Tampouco imagino o francês a ser tão ingênuo para pensar que Balestre lhe prestaria sua “mão amiga” outra vez em base ao que havia dito Senna antes da corrida, pois isso mesmo havia feito Prost o ano anterior, de maneira que foi o francês quem havia estabelecido o standard a seguir. Assim, Balestre estava com as mãos atadas e se limitou a declarar que os fiscais lhe haviam dito não contar com indícios suficientes para desclassificar o brasileiro.

Dentre as características de personalidade de alguém como Prost, o orgulho costuma estar presente e temo que a formalidade de acudir ao pódio uma vez mais como perdedor, era algo que lhe resultava insuportável. Depois de sua derrota em 1988, precisamente em Suzuka, onde Senna se sobreporia a uma má largada e brindando-nos uma recuperação formidável, a imagem daquele pódio era algo que ele não queria repetir; muito menos depois de liderar toda a prova, portanto essa imagem era algo que ainda lhe devia de corroer o ego.

Assim, em 1990, chegaríamos novamente a Suzuka com os dois dirimindo o titulo entre eles. Porem, como havia dito Hunt, Prost era um homem “derrotado” antes mesmo de começar a corrida, pois ao longo da temporada, só havia podido vencer quando Senna não teve condições de lhe disputar a vitória. Deste modo, e apesar de ainda ter possibilidades de ser campeão, Prost “jogou a toalha” naquele acidente, tendo ainda toda a corrida pela frente. Porem, para seu ego, a lembrança de estar naquele pódio um degrau abaixo de Senna, era algo que a Prost todavia não lhe devia de resultar muito agradável.

Assim, insisto em que Prost não pensava em nada mais do que em evitar a toda custa outra derrota ante Senna, e reagiu em consonância e dominado por seu ego, de modo que aquelas desesperadas manobras foram próprias de alguém que se sente já vencido. Para Prost, como no caso de Kaminaga (leia a parte 1 dessa coluna) e perante as prováveis derrotas que já tinha ante si, o único que lhe restava era evitar a “desonra” de assumir ditas derrotas e, também como no caso de Kaminaga, aqueles acidentes foram como a palmada que não veio.

 

Grande abraço a todos e até a próxima !

Manuel Blanco

Manuel Blanco
Manuel Blanco
Desenhista/Projetista, acompanha a formula 1 desde os tempos de Fittipaldi É um saudoso da categoria em seus anos 70 e 80. Atualmente mora em Valência (ESP)

8 Comments

  1. Ubiratan Menezes disse:

    O próprio Senna admitiu em entrevista que bateu de propósito. Os dados da telemetria confirmam isso. Não entendo o porquê de esse assunto ainda gerar controvérsia.

  2. Fernando Marques disse:

    Manuel,

    Posso estar influenciado pelo que vi na época, de certa forma pela mídia muito pelos “relatos do Galvão Bueno. Mas achei o Mansel sincero ao opinar ” sobre este assunto , e o Piquet tbm .
    Mas confesso que me surpreendi com a parte final da sua coluna , talvez até por nunca ter lido sobre isso e sob essa ótica.

    Mais uma vez te felicito pela bela coluna

    Fernando Marques

  3. Manuel Blanco disse:

    Fernando,
    O assunto daqueles acidentes é muito controverso e provavelmente nunca haverá consenso respeito a que os provocou.
    Á época recordo haver ficado muito chateado com aquilo, pois em ambos os casos fomos privados de saber que teria acontecido se tudo se tivesse desenrolado normalmente.
    Conforme os anos foram passando, fui vendo tudo de uma forma mais desprovida de emoções e afastada das interpretações convencionalistas que sempre haviam sido feitas. Assim, tratei de me aproximar àqueles episódios com uma perspectiva desde a qual eu via os protagonistas como simples pessoas e não como os pilotos que tantas emoções nos proporcionaram. Deste modo, convenhamos que, como simples pessoas eles não devem de ser muito diferentes do resto de nós e, no caso concreto de Prost, não acredito que fosse diferente de Kaminaga.
    Talvez eu também esteja errado, mas insisto que não atribuo nem premeditação nem ação dolosa naqueles incidentes. O que vejo é a Prost impotente ante Senna que, num ato de desesperação, tenta evitar outra derrota… sem sequer pensar se as consequências dos acidentes lhe beneficiavam ou não. No primeiro podia haver beneficio, mas no segundo não. No entanto, Prost atuou de igual maneira em ambos os casos, o que me levou à pergunta que me inspirou a coluna: Por que ?

  4. Fernando Marques disse:

    Pensei que não tinha enviado o comentário e tentei refazer meu comentário …

    desculpem me

    Fernando

  5. Fernando Marques disse:

    Manuel,

    A percepção que tenho de tudo que ocorreu nas decisões em 89 e 90 penso que ficou reforçada quando Mansel esteve aqui no Brasil para gravação de um comercial da Ford junto com Piquet e juntos deram uma entrevista onde afirmam sempre jogar limpo nas pistas e que jamais jogariam um adversário para fora da pista ou provocariam uma batida de forma intencional para serem campeões mundiais na Formula 1.
    Possivelmente, até posso acreditar no seu ponto de vista, de não ter sido premeditado mas houve intenção sim na hora que ocorreram ambos acidentes. Decisões erradas por terem sido anti esportivas por mais que os dois tenham negado na ocasião … e mais manchadas pela forma como parcialmente o Ballestre foi na época … isso sim uma vergonha …

    Sou apenas um leigo , talvez eu esteja errado ,
    Sou teu fã e adoro as suas colunas …

    Fernando Marques

  6. Fernando Marques disse:

    Manuel,

    uma coisa que sempre admirei aqui foram as suas colunas … você é um profundo conhecedor da Formula 1 e obvio que suas opiniões de cara serão sempre respeitadas e admiradas por mim … até por que sou apenas um leigo que adora o automobilismo, Formula 1 e claro que as colunas do GEPETO …
    A forma como se deu a decisão dos títulos de 89 e 90, por mais que o Ballestre tenha sido parcial em 89 (concordo plenamente com você), nunca foi do meu agrado … por mais que o Prost diga que não foi proposital a fechada em 89, a mesma coisa disse o Senna em 90 jurando que não teria sido uma vingança em 90.
    Essa percepção do que penso ficou reforçada quando Mansell esteve aqui no Brasil para gravar um comercial da Ford com Piquet e ambos afirmaram (numa entrevista que considero épica) que nunca precisaram jogar ninguém pra fora da pista ou provocar propositalmente uma batida para serem campeões mundiais. Sempre jogaram limpo nas pistas … algo que na rivalidade entre Senna e Prost acabou ficando marcado por essa outra face da moeda. Premeditação de ambos até concordo que não houve mas a intenção sim . Acabou pesando na hora a decisão anti esportiva … sei lá … que eu esteja errado …

    Sou te fã … ler as suas colunas são sempre um deleite para mim …

    Fernando Marques

  7. Manuel Blanco disse:

    Oi Fernando,
    Sempre amável como sempre. Obrigado!

    Na coluna apenas tratei der apresentar o meu ponto de vista sobre o comportamento de Prost nos dois incidentes. Em ambos, ele tinha a “chave” de resultado, ainda que as circunstâncias lhe fossem favoráveis num caso e desfavoráveis no outro, e isto é o que me intrigava do seu proceder similar tanto num caso quanto no outro.
    Em 1982 e 1983 Prost ainda era apenas um potencial campeão, Então ainda não havia saboreado o doce sabor do triunfo, enquanto que em 1984 a sua derrota foi ante um campeão consagrado e por exíguo meio ponto ( o segundo lugar em Mônaco, caso a prova não tivesse sido interrompida, lhe teria dado o titulo ). Com Senna a coisa foi muito diferente, pois se tratava de um jovem que chegava a uma equipe na qual Prost era o líder indiscutível.
    Como digo na coluna, não atribuo a nenhum deles premeditação naqueles incidentes. No caso de Prost, vejo só a ação desesperada de alguém impotente ante o rival. No caso de Senna, este tentou evitar o acidente nas duas ocasiões.
    Repito: no acidente, não vi premeditação, pois acho que foi uma reação, ainda que deplorável. O que me resulta imperdoável foi que Prost, uma vez viu que o acidente de 1989, não lhe havia servido de nada… recorreu a Balestre. Isto sim não tem desculpa !

  8. Fernando Marques disse:

    Manuel,

    clap !!!
    clap !!!
    clap !!!

    Suas colunas ” A Palmada que não veio” foram sensacionais … mas em discordância pelo que entendi da parte final, continuo achando e vejo que a anti esportividade de ambos (89 e 90) não foram devidamente punidas e abriram sérios precedentes na Formula 1 … enquanto uns acham como momentos históricos (até compreendo), eu penso que foram momentos negativos (já me pronunciei sobre isso aqui no GEPETO) … não é a toa que em 91 Senna disse estar feliz por ter vencido de forma limpa nas pistas, o que me dá entender que o titulo de 90 pela forma como se deu no fundo ia contra a seus princípios esportivos …

    Um observação sobre o que disse o James Hunt … Prost brigou pelo titulo em 82, 83 e 84 … perdeu todos … ser derrotado já lhe incomodava desde então …

    O que não muda o brilhantismo pela forma como você tratou tudo o ue se deu naqueles tempos na coluna …

    Clap !!!
    Clap !!!
    Clap !!!

    Fernando Marques
    Niterói RJ

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