Um outro caso Dreyfus – 1a parte

Colunas Inesquecíveis: Um pouco de história
28/05/2026

Vamos supor que você é um americano. Do centro-oeste, passando uns dias em New York em algum ano dos anos 50. Interessado em corridas, você coleciona até os anúncios das velas Champion que reproduzem todos os vencedores da Indy 500. Um amigo novaiorquino sugere que você vá jantar em um restaurante francês na 49th Street com Madison Avenue, Le Chanteclair.

Como ele foi um tanto insistente, você se programa para ir lá.

Bastou entrar no restaurante para perceber que seu amigo tinha indicado por outro motivo além da gastronomia. O tema da decoração era automobilismo. Europeu, essencialmente. Outro mundo. As jarras d’água tinham o formato do mítico radiador Bugatti, assim como os cinzeiros, por exemplo.

Você é acomodado em uma mesa e, criando coragem, pergunta porque escolheram esse tipo de ambientação. Com forte sotaque francês, o cidadão que o atende diz:

– Oh, meu irmão René era piloto de carros de Grand Prix na Europa, antes da guerra.  Se você gosta do assunto, posso chamá-lo aqui.

Claro que você se interessa por esse tema, não importa o lado do Atlântico. E pouco depois um senhor elegante, sorridente, na altura dos 50 anos de idade, se apresenta:

– René Dreyfus.

O aperto de mão é vigoroso. Compatível com alguém que segurava aqueles grandes volantes com a borda revestida de madeira sem nenhum tipo de servo-assistência, por horas a fio, em provas como Targa Florio. Você vagamente acha que ele pode ter participado de alguma Indy 500 e começa por aí a conversa.

René (foto que abre esta coluna, com um Bugatti Type-37. A foto foi tirada nos anos 80) – Oh, participei sim, foi uma experiência e tanto.

Você: O senhor se incomoda de contar?

René: De forma alguma. Estávamos em 1940. Hitler já tinha invadido a Polônia e estava claro que haveria uma guerra. Eu servia no exército francês, pilotando caminhões. Mas havia uma americana muito rica, que adorava competições automobilísticas, Lucy O’Reilly Schell. Ela tinha uma escuderia, Ecurie Bleu, baseada na França.

Mesmo vivendo na Europa, ela resolveu montar uma equipe para competir na Indy 500, como extensão da sua Ecurie Bleu. Comprou duas Maserati 8CTF, chassis 3030 e 3031, contratou Luigi Chinetti como mecânico-chefe, Jean Trévoux, René Le Bègue (foto abaixo) e a mim como pilotos, além de seu filho de 19 anos, Harry Schell.

Estando no exército deveria ir para o front, mas ela conseguiu uma licença especial para que eu pudesse lutar pela França de outro modo, em outro lugar. (vocês dois sorriem)

Eu me classifiquei, mas fui penalizado. Não falava uma palavra de inglês e assim não entendia as regras, daí a punição. Le Bègue e eu decidimos dividir a Maserati nº 49, porque eu tinha sido desclassificado. Então largamos em 31º lugar. Terminamos em 10º, mas só ele conta para os registros, de acordo com aquelas regras, porque foi ele quem fez o primeiro stint.

Eu pilotei da volta 46 até a 97 e da volta 151 até a 192.

Tínhamos boas possibilidades porque o vencedor, Wilbur Shaw, pilotou uma Maserati.

Você: Extraordinário! E aí o senhor voltou para a França?

René: A essa altura não adiantava mais, a França já estava vencida. Sabe, Dreyfus é um nome

judeu comum lá portanto meu futuro seria em algum campo de trabalho forçado ou de extermínio. Precisava sobreviver e, sem corridas, consegui comprar um pequeno restaurante em New Jersey. Preciso dizer que fui extremamente bem recebido pelos americanos. Eu não era propriamente desconhecido no ambiente de corridas e com isso muitos entusiastas se dispuseram a ajudar. Tendo vindo apenas para participar das 500 milhas deixei o que tinha de mais precioso na França. Eles me ajudaram a encontrar esse primeiro restaurante, a conseguir um empréstimo para fechar negócio, a encontrar um agradável bangalô para morar, me levaram ao Canadá e me trouxeram de volta, de modo que pudesse conseguir a cidadania.

E assim após o Dia da Infâmia, em 1941, como tantos jovens nascidos aqui, me alistei no exército americano para tentar retribuir essa acolhida.

A esta altura você já tinha degustado a entrada, o apéritif e o prato principal tinha acabado de chegar, junto com o vinho. Mas a fome de conhecer essa história estava longe de ser saciada.

Você: E o senhor acabou indo para o front?

René: Sim, como eu tinha tido treinamento militar na França e um certo currículo, digamos, como condutor de veículos (novos sorrisos de parte a parte), fui nomeado Staff Sargeant e encarregado de comandar uma companhia de transporte. Servi na Itália e não me sai mal, fui promovido a Master Sargeant por bom desempenho no campo de batalha. Depois da libertação da França, em 44, consegui reencontrar meu irmão Maurice e minha irmã Suzanne, que tinham sobrevivido mesmo fazendo parte da Resistência. Quando a guerra efetivamente acabou, consegui trazê-los para cá. Aí compramos outro restaurante, Le Gourmet.

Há alguns anos resolvi vender e voltar para a França, mas depois de um tempo lá senti que aqui era meu mundo. Meu mundo definitivo. Então voltamos e, em 1952, compramos um restaurante de um italiano chamado Boni e criamos este Le Chantecler.

A ideia era transformá-lo em um ponto de encontro para gente como você, que gosta de automobilismo, e funcionou. Luigi Chinetti, que se tornou o representante da Ferrari na América do Norte, vem aqui regularmente. Carroll Shelby, Phill Hill…, que você certamente conhece, quando estão em New York… Fora pessoal de outras áreas, mas que gosta de corridas. Walter Cronkite, o famoso jornalista, por exemplo, se tornou nosso amigo.

Assim como me alistei para retribuir a acolhida dos americanos, quis criar um ambiente em que pudesse resgatar minhas raízes com o automobilismo e assim retribuir as alegrias que tive nele.

Você: E está sendo vencedor aqui também! A comida é ótima e o ambiente… sensacional! Mas, conte, como o senhor começou na França?

René: Eu sou o filho do meio, meu pai era judeu, mas religião não era algo muito presente na minha vida. Nasci em Nice, na beira do Mediterrâneo. A atração por corridas veio cedo, aos 9 anos eu já me metia a dirigir o carro da família, um Mathis 750cc de dois lugares. Antes de completar 20 anos participei de minha primeira corrida, e venci. Na minha categoria, mas é bom comentar que nela eu era o único competidor. (vocês dois riem novamente)

Ajudando meu pai no negócio de papel da família consegui comprar uma Bugatti T35B, 2,3L, 8 cilindros em linha, e com ela comecei a participar de corridas.

Minha primeira vitória foi no Grand Prix de Dieppe, em 1929. Mas antes disso já tinha ido bem no primeiro GP de Mônaco, em que terminei em quinto na classificação geral, primeiro na minha categoria…  desta vez não era o único… (sorriem novamente).

Mas no ano seguinte, venci. Sou o vencedor do 2º GP de Monaco, batendo as equipes oficiais.

Você: God damn it! Por favor, me conte como foi isso… em detalhes!!!

Desculpem, mas preciso interromper. Concluo em nosso próximo encontro, sexta-feira próxima, dia 5

 Boa semana

 Carlos Chiesa

Carlos Chiesa
Carlos Chiesa
Publicitário, criou campanhas para VW, Ford e Fiat. Ganhou inúmeros prêmios nessa atividade, inclusive 2 Grand Prix. Acompanha F1 desde os primeiros sucessos do Emerson Fittipaldi.

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