Quando a derrota é mais importante

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A crônica das 24 Horas de Le Mans de 2016, que subverteu a lógica. A derrota da Toyota foi fato mais importante que a vitória da Porsche

Traduzir o sentimento da vitória é tarefa corriqueira do jornalismo esportivo. Mas é doce, muito doce. A vitória tem um simbolismo poderosíssimo. A vitória consagra, a vitória é salvadora, a vitória é glorificante, a vitória purifica, a vitória eleva, a vitória sobrepõe, a vitória sobrepuja.

A vitória é o ápice do trabalho recompensado, a vitória é um elogio natural ao esforço, à determinação, e que acaba por se transformar no grande e máximo prazer dentro de um esporte de competição: a explosão da emoção dentro de um sempre longo processo de tensão – o jogo, o duelo, a partida, a corrida.

A vitória é a que passa para os livros, para as capas de jornal e de revistas. Nós jornalistas, ao descrevermos esses feitos, acabamos por indiretamente fazer parte daquilo. É algo prazeroso. “Eu escrevi sobre aquela bela vitória” é uma frase que faz parte da memória de qualquer cronista esportivo.

O que aconteceu nas 24 Horas de Le Mans de 2016, porém, não foi a crônica de uma vitória. Foi a crônica de uma derrota. Assistimos a uma surpreendente subversão da importância do resultado.

A frieza dos números aponta que o Porsche 919 #2, do trio Marc Lieb / Romain Dumas / Neel Jani venceu a corrida. Mas todas as mais de 260 mil testemunhas presentes no circuito de La Sarthe, mais os milhões de telespectadores em todo o mundo, sabem que o fato mais importante que presenciamos foi a desoladora derrota do Toyota TS050 #5 do trio Anthony Davidson / Sébastien Buemi / Kazuki Nakajima.

Isso nos leva a poder afirmar categoricamente que existem situações excepcionais no esporte em que a vitória é colocada de lado. Todos os olhos, ouvidos e sentimentos estão com os derrotados, num sentimento de caridade, empatia e justiça que simplesmente não existe no esporte a motor, este esporte que tanto gostamos.

O termo “requintes de crueldade” ganhou uma nova dimensão depois dessa corrida, e por vários motivos. Os problemas de perda de potência do Toyota #5 começaram a exatos 6min38s do zerar das 24 horas, quando, dos 1440 minutos da corrida, já havia completado 99,5% – isso mesmo: faltou meio por cento. E foi ultrapassado com exatos 3min21s para o fim, justamente na abertura da 384ª e última volta.

Eu entendo perfeitamente a reação de Lieb e Dumas, se abraçando às lágrimas, diretamente para o chão, ao transformarem o sentimento de conformidade pela derrota em vitória – e vitória, reforço, que é tudo aquilo que escrevi lá em cima. Não houve, na minha avaliação, “falta de cavalheirismo”, pois aquilo foi um momento de emoção espontânea e autêntica, praticamente inevitável, sobretudo para Lieb, em sua primeira vitória.

O Toyota #5 havia tomado a ponta na 17ª hora, quando o carro irmão, o Toyota #6, que havia liderado a maior parte da corrida, sofreu atrasos pontuais. Juntamente com o Porsche #2, foram os protagonistas na luta pela vitória. Os dois Audis, #7 e #8, estavam fora de forma, com problemas, e jamais foram candidatos, enquanto que o Porsche #1, pole, saiu da batalha precocemente por um problema de superaquecimento.

Nos instantes finais, a vantagem de Nakajima chegou a ser de mais de 1 minuto, até por conta do pit extra que a Porsche promoveu, por segurança, para o carro #2.

Mas quando vi que o carro de Nakajima estava “congelado” em 200 km/h, logo percebi que não era uma simples diminuição e administração de ritmo, típicas da famosa “foto da vitória”, em que carros andam em formação nos momentos derradeiros pra imagem sair bonita na bandeirada.

A primeira coisa que pensei era que Nakajima tinha que fazer de tudo para se arrastar e manter aquele bendito carro na ponta. A Toyota já havia sofrido demais, por décadas, e certamente é a marca que mais está merecendo vencer. “Ah, não, cacete, pqp, perder assim é sacanagem”, eu pensava, entre outros impropérios que povoaram minha mente.

O TS050 é o exemplo perfeito do esforço dos japoneses. Chassi novo, novo motor biturbo que aposentou o modelo aspirado, aprimoramento dos sistemas de recuperação de energia, e aerodinâmica melhorada, depois de claramente perder terreno para Audi e para Porsche durante 2015.

Como se não bastasse perder, o carro ainda perderia o segundo lugar e seria excluído por não completar a última volta em menos de 6 minutos, como prevê o regulamento, por questões de segurança.

O choro de Hugues de Chaunac, fundador da Oreca e coordenador da equipe Toyota, foi comovente. Homem de tantos anos em Le Mans, o francês não resistiu à tamanha derrota.

httpv://youtu.be/R9h7YHeXzac

A longa história de derrotas da Toyota ganha mais um capítulo após 30 anos do ingresso oficial da marca em La Sarthe.

A história começa discretamente em 1985, com o modelo 85C, um protótipo do Grupo C com motor 4 cilindros turbo, projetado em parceria com a Dome. Entre os pilotos, o popular Satoru Nakajima, e Masanori Sekiya, aquele que seria o primeiro japonês a vencer Le Mans, a bordo da McLaren F1 em 1995, em parceria com JJ Lehto e Yannick Dalmas.

Foram evoluindo e aprimorando aos poucos o desenho, ano a ano. Claro, é o jeito Toyota de trabalhar. Quando, em 1989, eles conseguiram marcar com o 89C o segundo melhor tempo nos treinos, finalmente ficaram em nível para disputar a vitória.

A primeira bola na trave veio em 1992, com o novo modelo TS010, na nova configuração de carros aspirados de 3,5L com motor V10, em derrota para a Peugeot. Dois anos depois, com um 94C-V Turbo, originário do agora extinto grupo C, novo segundo lugar em 1994, perdendo para um Dauer 962 LM, que nada mais era do que um clássico Porsche 962 repaginado em usa milésima encarnação.

Vieram então duas tentativas com o belíssimo Toyota TS020, mais conhecido como GT-One. Em 1998, num começo fortíssimo, a sorte parecia sorrir para os japoneses, sobretudo quando os dois carros mais fortes da concorrência, da Mercedes, quebraram ainda nos primeiros instantes.

Mas problemas de confiabilidade nos três carros acabaram minando as chances. A vitória ficaria para o menos veloz, porém mais sólido Porsche, nas duas horas finais, quando o #29 do conhecido Thierry Boutsen teve um fatal problema de câmbio quando estava na ponta.

Para o ano seguinte, o GT-One estava em ainda melhor forma, inclusive começando na pole cravada por Martin Brundle. Novos problemas, sobretudo de pneus, que causaram acidentes fortes, fizeram com que apenas um carro ficasse na disputa nas horas finais. Mas um furo no carro #3 impossibilitou uma caçada final e a vitória ficou nas mãos da BMW.

Em 2003, Allan McNish, um dos pilotos da Toyota em 1999, foi entrevistado e disse “E não se iluda imaginando que a Toyota ficou desapontada por não vencer em Le Mans [com o GT-One]. Por mim, acho que ela ainda não desistiu”.

Não desistiu mesmo. Após o malfadado projeto de F1, retornaram seus esforços em Le Mans e no novo campeonato WEC em 2012, bem no momento em que a Peugeot se retirou.

No referido ano, com o Toyota TS030 Hybrid já provava ser um rival à altura do Audi R18. Perto da sexta hora, Anthony Davidson sofreu aquele famoso e forte acidente em que deu uma pirueta no ar, o que exigiu Safety Car. A batida ocorreu no EXATO instante que o outro Toyota finalmente tomava a liderança.

httpv://youtu.be/huQ1M_ihiFY

Em seguida, na bandeira verde, carros de todas as categorias estavam embaralhados. E no trânsito, Kazuki Nakajima acabou esbarrando num retardatário e avariando a traseira do carro, o que decretaria fim de jornada horas depois e mais uma vitória acachapante da Audi, que reinou nos outros três quartos de prova.

Para 2013, mais um vice com o TS030, ao chegar atrás do Audi de Tom Kristensen, que estabelecia o recorde de 9 vitórias no circuito. No ano seguinte, o TS040 surgiu como bicho-papão. Foi campeão da WEC, vencendo a maioria das corridas do calendário… mas perdeu em Le Mans como sempre.

O carro #8 saiu da disputa ao ser moído num acidente estabanado por Nicolas Lapierre [que seria demitido do time, mas que deu a volta por cima: neste ano, ele ganhou a categoria LMP2 com um lindo protótipo Alpine]. Já o Toyota #7, que vinha com mais de um minuto e meio de vantagem na ponta, teve uma pane elétrica fatal na 14ª hora, encerrando as chances.

E finalmente tivemos em 2015 uma Toyota fora de forma, sem chances de alcançar nem a Audi, nem a vencedora Porsche, o que foi o embrião do novo TS050 para este ano.

O resumo é de, até agora, de três vices, e outras três quebras com carros na liderança.

Antes dessa mais recente derrota, o episódio mais famoso entre viradas surpreendentes foi a edição de 1969, em que Jacky Ickx, a bordo de um Gulf Ford GT 40, ultrapassou o Porsche de Hans Herrmann na última volta para vencer, o que seria o quarto e último triunfo do lendário carro, e que, de quebra, negou aquela que poderia ser a primeira vitória da Porsche em La Sarthe.

No ano seguinte, 1970, tanto Herrmann quanto a Porsche finalmente alcançaram a glória, escrevendo lindos capítulos. O piloto alemão finalmente conseguia uma grande vitória na carreira, para se aposentar feliz e satisfeito, enquanto a Porsche se encaminharia para um brilhante futuro como a grande marca da história da corrida.

Uma repetição dessa história envolvendo a Toyota em 2017 renderia, sem dúvida, uma belíssima crônica. Akio Toyoda, presidente da gigante automotiva, já garantiu que o time estará lá, para tentar vencer. Mais uma vez.

Quando a Toyota finalmente vencer em Le Mans, e isto vai acontecer, todos vão lembrar de todo o esforço passado. Sobretudo no que aconteceu “naquela corrida de 2016 que eles perderam na última volta”, um clássico instantâneo.

De todas as derrotas amargas, esta foi em dúvida a mais amarga que já vi no automobilismo. Mas há diversas vitórias dentro de todo esse amargor. A Toyota conseguiu o respeito de público e rivais que apenas os vencedores já haviam conseguido. Afinal, como eu disse, a derrota foi maior que a própria vitória.

Esse respeito é visto em publicações como a da Porsche. “Competimos juntos por 24 horas. Cabeça a cabeça por 24 horas. Ganharam nosso respeito para sempre”. Numa publicação francesa, declararam: “O valor de uma vitória se mede pela qualidade dos adversários. A Porsche vence as 24 Horas de Le Mans pela 18ª vez, e para a Toyota, nosso respeito para sempre”.

Abração!

Lucas Giavoni
Lucas Giavoni
Mestre em Comunicação e Cultura, é jornalista e pesquisador acadêmico do esporte a motor. É entusiasta da Era Turbo da F1 e das 24 Horas de Le Mans.

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