
Há textos que parecem escritos especialmente para você. Este é um deles, numa coluna publicada originalmente em setembro de 2011
Conheço o Marcel Pilatti há anos e admiro muito o que ele carrega: uma cultura automobilística profunda, um olhar sensível e a rara capacidade de transformar dados históricos em emoção genuína. Ele não escreve sobre a F1 — ele escreve dentro dela.
“O Filme de 93” me tocou fundo. Sigo a Fórmula 1 há mais de 50 anos, e 1993 ocupa um lugar muito especial na minha memória. Ver aquela temporada retratada com esse cuidado — a primeira volta de Donington, o duelo interminável com Prost em Silverstone, a frase definitiva de Jo Ramirez sobre aquele ter sido o melhor Senna de todos — é como rever um filme que você amava e descobrir que ele é ainda melhor do que lembrava.
Marcel, você fez jus ao título. Isso para mim é inesquecível.
Com voces o filme que merece um Oscar
abraços
Mário
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1993 não tem roteiro estabelecido para se tornar filme, ainda que aquela temporada já tenha sido muito bem retratada no documentário sobre Ayrton. E diferentemente de 1976, não teve uma reviravolta inimaginada no meio da trama, levando a um final surpreendente: na verdade, 1993 terminou justamente como se pensava que iria terminar.
Porém, como no filme Rocky, a vitória acabou sendo o que menos importou.
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Eu não sei ler japonês. Muito menos, como diria o grande compositor, poeta e filósofo Djavan, “japonês em braile”. E acredito que muitos dos que frequentam esse site também não o saibam. Porém, todos nós conseguiríamos compreender a linguagem transmitida numa charge publicada no Japão, em 1993: nela, se vê Ayrton Senna cabisbaixo, com o macacão da McLaren na forma de um manto, e o carro MP4/8 na forma de uma cruz.
A Honda havia se retirado da Fórmula 1 ao final de 1992 e, assim, a McLaren, que usava os propulsores desde 1988, e Senna, que vinha trabalhando com os japoneses desde 1987, teriam de usar novos motores. O “escolhido” foi o Ford.
Porém, havia um pequeno problema: a Benetton usava esses motores desde meados dos anos 80, e já era uma “sócia” da empresa. Já a McLaren acabou optando pelos mesmos somente no início do ano. Assim, o time de Ron Dennis ficou com a “versão cliente”, que tinha por volta de 30 cavalos a menos que a “versão sócia” usada pela equipe italiana.
E aí a menção da figura da cruz na charge do jornal: por mais que se diga que o McLaren de 1993 tinha diversas vantagens eletrônicas, não se pode dizer que aquele fosse algo além de o terceiro equipamento do grid.
Mesmo assim, Senna fez toda a diferença. Nas primeiras 6 corridas, venceu três e foi duas vezes segundo. Por quase três meses, liderou um campeonato que, desde o início, tinha as cartas marcadas para uma vitória folgada de Alain Prost e da Williams, quando o francês assinou um contrato durante seu ano sabático (1992) com uma simples cláusula: Senna não podia ser contratado.
httpv://www.youtube.com/watch?v=AXQpEgZuWt4
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Sua vitória no Grande Prêmio da Europa, em Donington Park, é até hoje lembrada como uma das mais fantásticas de sua carreira, e também uma das exibições mais extraordinárias de um piloto na Fórmula 1. A primeira volta, em que sai do 5º para o primeiro lugar, superando carros superiores ao seu – com a exceção da Sauber de Wendlinger, a quem aplicou uma das ultrapassagens mais insanas da F1 moderna – ocupa lugar especial no coração de fãs, críticos, e pilotos de todas as épocas.
Porém, Ayrton teve duas outras exibições tão galantes quanto a de Donington mas que, talvez porque não tenha vencido, são menos lembradas.
A primeira dessas corridas notórias de Senna foi o Grande Prêmio do Canadá, quando conseguiu apenas a 8ª colocação no grid. Porém, logo na largada tratou de pôr as coisas em ordem: naquela primeira volta, passou três pilotos; na segunda, mais dois, e voltas mais tarde superaria também Damon Hill. O show valeu: a ultrapassagem sobre Jean Alesi foi descrita por Murray Walker como sendo “sem dúvida, a melhor manobra do ano”.
httpv://www.youtube.com/watch?v=Eut-9j3B_LQ
Já na metade da corrida, com um ótimo segundo lugar, seu excelente carro quebrou.
Mas talvez a cena mais emblemática daquela temporada foi o GP da Inglaterra. Ayrton largou em 4º, e passou Schumacher e Prost. Passadas algumas curvas, a diferença de carro começou a aparecer, e o francês foi o primeiro a pressionar Senna. Ayrton o segurou o quanto pôde. Essa briga durou seis voltas. Somente ao final da sétima é que Prost ultrapassou Senna.
Depois, foi a vez de Schumacher tentar passar Senna de todas as maneiras. Acabou conseguindo duas voltas mais tarde, curiosamente (ou não) no mesmo lugar em que o Williams superara o McLaren.
De todo modo, aquelas primeiras cincou ou seis voltas ficariam marcadas como uma das grandes demonstrações do talento de Senna e de sua famosa aceleração em curvas (“bombeava o pedal, a um ritmo médio de cinco impulsos por segundo, para não ter de frear forte“, como descrito em ‘Ayrton – Herói Revelado’, p. 232).
httpv://www.youtube.com/watch?v=YR9fRJFZ6Ps&feature=fvwrel
Ayrton estava em terceiro lugar quando, na última volta, sofreu uma pane seca no maravilhoso carro.
Outra exibição acima da média do brasileiro aconteceria no GP da Austrália, onde, pela única vez no ano e a primeira vez nas últimas 25 corridas, um carro que não a Williams faria a pole-position. E a vitória viria, sem ser na chuva – como acontecera em 3 corridas anteriores – ou em Mônaco.
httpv://www.youtube.com/watch?v=6cLCIr7z84A
Pode-se dizer que aquela cena de Senna e Prost juntos no pódio de Adelaide, voltando a se falar depois de um longo inverno, marca o fim definitivo de uma era da F1: teríamos a volta do reabastecimento, a aposentadoria definitiva de Prost e, alguns meses depois, a morte de Senna.
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No apagar da vela de 1993, Senna terminou o campeonato como vice-campeão do mundo, com 73 pontos, 4 a frente da Williams de Damon Hill – que seria seu companheiro de equipe na Williams e maior adversário de Schumacher nos anos posteriores.
Uma imagem bastante ilustrativa sobre 93 aconteceu no Estoril, onde Senna testaria os motores Lamborghini como possível fornecedor para o ano seguinte (a McLaren ficou com os Peugeot). Com o Ford é que não dava p’ra ficar. Ainda mais porque Senna estava de mudança para a Williams.
Mas a melhor definição sobre como foi aquela temporada e o desempenho de Senna foi dada por Jo Ramirez: “Quando tivemos o motor Ford, creio ter sido o melhor ano da carreira dele, mesmo não tendo sido campeão, pois ele realmente mostrou ao mundo o que podia fazer, vencendo carros muito mais potentes e competitivos que o nosso”.
Quem ainda não sabia do que Senna era capaz, ficou sabendo naquele ano.