Um outro caso Dreyfus – 2ª parte

Colunas Inesquecíveis: Desaparece um campeão e nasce outro
03/06/2026

A primeira parte desta coluna você lê aqui:

Um outro caso Dreyfus – 1a parte

Nossa conversa imaginária com René Dreyfus, no restaurante Le Chanteclair, na Nova York dos anos 50, continua. Ele vai falar, agora, da sua vitória no 2º GP de Mônaco, em 1926:

Você: God damn it! Por favor, me conte como foi isso… em detalhes!!!

René: Está bem, mas não deixe de apreciar seu prato. Minha equipe tem muito orgulho da nossa gastronomia, assim como minha equipe de pistas.

Bem, esta segunda edição do GP de Mônaco ainda não atraía a equipe de fábrica da Alfa, que era fortíssima, com Nuvolari e Varzi. Mas a equipe oficial da Bugatti estava lá, com Chiron, “Williams”, vencedor do primeiro GP de Mônaco, Guy Bouriat, todos com T35C, a última versão, 2,0L, 8 cilindros em linha. Tinha mais dois Bugatti T35C, independentes, pilotadas por Philippe Etancelin e Hans Stuber, campeão suíço de subida de montanha. Esta versão, com cilindrada menor, era 15HP menos potente, mas mais ágil, portanto mais adequada ao circuito. E consumia um pouco menos combustível.

Além de mim, com o carro 22 (foto que abre esta coluna), havia mais quatro T35B independentes, pilotadas por Georges Bouriano, Juan Zanelli, Marcel Lehoux e Goffredo Zehender. A minha foi inscrita pela Ecurie Friedrich e com ela eu tinha vencido as provas de St. Raphäel e La Turbie, pouco antes. Ernest Friedrich era o revendedor Bugatti em Nice, tendo sido antes mecânico da marca. E mais duas Bugatti T37A, 1,5L, 4 em linha, pilotadas por Ernst Günther Burgaller e Michel Doré.

A Maserati veio com 2 26B, uma 2,1L a outra 2,0L, 8 em linha, pilotadas por Luigi Arcangeli e Baconin Borzacchini.

Havia uma Mercedes SSK, 7,1L, pilotada pelo Graf Max Arco-Zinneberg. Hans Stuck, que depois veio a ficar muito famoso, pilotou uma Austro-Daimler ADM-R de 3,6L, 6 em linha.

A Scuderia Materassi inscreveu uma Talbot 700, 1,5L, 8 em linha, para Clemente Biondetti.

Eu tive um sonho, dias antes, em que vencia a corrida com um tanque adicional. E aí fui fazer as contas e descobri que se levasse 30 litros a mais de combustível não precisaria parar para abastecer e assim poderia livrar vantagem sobre a equipe Bugatti.

Friedrich instalou um tanque no lugar que seria do passageiro – naquela época todos os carros de corrida eram de dois lugares lado a lado. Essa modificação só foi notada quando passamos pela vistoria técnica. A equipe oficial da Bugatti estava tão confiante que apenas achou graça.

Nos treinos, Bouriano virou em 2m10s, Chiron 2m12s, “Williams” 2m13s e eu 2m14s. Arcangeli marcou o mesmo tempo que eu, e Baconin 1s a mais.

O grid foi formado assim: “Williams”, Baconin e Stuber na primeira fila. Bouriat, Chiron, Zanelli na segunda. Lehoux, Zehender, Doré na terceira. Eu, Arcangeli e Etancelin na quarta. Biondetti, Stuck e o Conde Max na penúltima. Bouriano e Burgaller fechavam.

Lembro que o Chiron, favoritíssimo, usava macacão azul e capacete Herbert Johnson de metal, que ele tinha trazido de Indianápolis no ano anterior. O resto de nós usava capacete de couro ou de pano.

Dada a largada, Chiron assumiu a ponta na subida do Casino, fechando a volta em 2m21s.

Era seguido por “Williams”, Stuber, Baconin, Bouriat, Zanelli, Zehender, eu, Lehoux, Stuck, Etancelin, Bouriano, Arcangeli, Doré, Biondetti, Burgaller e o Conde Max, que obviamente não conseguia repetir a performance do Rudolf Caracciola no ano anterior, com outra SSK. Coitado, na volta seguinte uma pedra atingiu seus goggles e quebrou os vidros, dentro do túnel. Sem poder enxergar direito ele bateu em uma parede na saída do túnel e teve que deixar o carro por ali. Felizmente só teve um pequeno ferimento acima de um dos olhos.

Chiron continuou dando o máximo e na volta seguinte quebrou o recorde, marcando 2m13s, abrindo do Willy. Bouriat passou Baconin, Stuck passou Lehoux e Bouriano passou Etancelin.

Na terceira volta Chiron continuava dominando, Willy, Bouriat, Stuber, Baconin, Juan, Goffredo,  eu… Na volta 4, Arcangeli bateu o recorde, 2m12s. As Maserati se mostravam competitivas porque Baconin passou Stuber.

Willy teve um problema no magneto na volta 7 e perdeu 4 voltas. No final da volta 8 Louis já estava alcançando o último colocado, Burggaller. Bouriano andava bem e subiu de 11º para 3º em 7 voltas.

Na altura da 10a. volta a ordem era Chiron, Bouriat, Bouriano, Baconin, Stuber, Juan e eu em 7º, seguido por Goffredo, Lehoux, Arcangeli, Etancelin e Burgaller.

Na volta 12, Stuck foi para os boxes e ficou lá por um bom tempo. Bouriano baixou o recorde para 2m11s mas, ao tentar passar Bouriat, errou e acertou as barreiras. Ficou lá por 4 voltas. Retornou, mas com o sistema de direção danificado teve que desistir. Baconin estava tendo problemas com os freios, que o obrigaram a parar umas 3 vezes, caindo para o fim do pelotão. Ao tentar a remonta, entrou rápido demais numa curva e também bateu, mas teve que abandonar na hora. Arcangeli, que estava bem atrás, parou para dar uma carona.

Com Willy também sofrendo com problemas mecânicos, eu fui subindo e na volta 16 estava em terceiro. Louis seguia na frente, baixando o tempo de volta para 2m10s.

Na volta 20 atrás de mim só Juan e Stuber estavam na mesma volta.

Na volta 30, só tinha 11 carros e só os 3 primeiros, Chiron, Bouriat e eu, estávamos na mesma volta. 2 Bugatti oficiais e eu.

Chiron estabilizou seu ritmo em 2m10s/2m11s, e se distanciava. Eu também estava nesse ritmo e acabei passando Bouriat, ficando a 2m02s do líder. Na volta 40 só nós dois estávamos na mesma volta. Bouriat, Zanelli, Stuber e Etancelin tinham tomado uma volta, Goffredo 2 e assim por diante.

Fiquei um pouco mais próximo de Louis, mas o boxe sinalizou e ele aumentou o ritmo, chegando a virar em 2m09s. Mesmo assim fui reduzindo a distância. Na volta 60 estava a 1m25s dele, sabendo que não iria precisar parar para abastecer. Mas virando 2 segundos por volta mais rápido, mesmo com mais combustível, o que era excelente, não iria bastar para assumir a ponta.

Na volta 70 apenas 7 carros estavam na pista e na volta anterior eu também tinha virado em 2m09s. Na 72 Chiron baixou para 2m08s. A essa altura todas as atenções estavam concentradas no nosso duelo. Na volta 83 Chiron finalmente parou, perdendo 50 segundos, também trocando as velas. Quando saiu dos boxes eu estava 10 segundos atrás.

Mas o público, que não estava a par que eu não iria parar para abastecer começou a se dar conta disso, porque não havia nenhum movimento nos meus boxes.

Logo a emoção aumentou.

Era comum a gente beber algum líquido quando parava para abastecer. Então eu tinha preparado uma garrafa térmica e ia bebendo quando podia guiar com uma mão só. Como meu motor era 2,3L, eu sabia que tinha margem para ultrapassar o monegasco.

E assim fui aumentando meu ritmo. E Louis ficando pressionado, porque tinha problemas com seu acelerador. Eu percebi isso quando ele acelerou na saída do grampo do Gasômetro.

Ele percebeu o perigo e, num impulso, arrancou seu capacete e jogou fora, na subida do Cassino.

Na volta 85 consegui passar por ele e abrir três carros de distância. 3 voltas depois virei em 2m07s, média de 90.142km/h. Mas Louis não era um rival que desistia fácil, ele foi conseguindo se aproximar e na volta 90 estava a apenas 2 segundos atrás.

Bouriat, o terceiro colocado, já tinha tomado 3 voltas.

Chiron voltou a ter problemas com o acelerador e da minha parte, os goggles estavam tão sujos que só conseguia enxergar diretamente à frente. As palmas da mão estavam cheias de bolhas, sangravam e doíam, mas mesmo assim na volta 95 estava 10 segundos à frente.

Completei as 100 voltas em 3h41m02.6 segundos, média de 86.317km/h, quebrando o recorde de Willy, sob aplausos da platéia. Afinal, eu também era da região. Louis passou 22 segundos depois.

Você: Extraordinário! Estupendo! Quero saber mais!

René: Com prazer, mas primeiro escolha sua sobremesa.

Concluímos nosso encontro com Dreyfus no final de junho.

Bom final de semana a todos

Carlos Chiesa

Carlos Chiesa
Carlos Chiesa
Publicitário, criou campanhas para VW, Ford e Fiat. Ganhou inúmeros prêmios nessa atividade, inclusive 2 Grand Prix. Acompanha F1 desde os primeiros sucessos do Emerson Fittipaldi.

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