Que despedida!

Rápido demais…
20/08/2026

Zandvoort é um palco histórico da F1, estreando no calendário da categoria em 1952, entrando e saindo da F1 ao longo dos anos, com algumas variações de traçado. O retumbante sucesso de Max Verstappen trouxe a pista neerlandesa de volta à F1 em 2021, mesmo com um traçado travado e bastante estreito. De difíceis ultrapassagens, as corridas em Zandvoort em sua passagem pela F1 moderna ficaram marcadas pela enorme festa da torcida nas arquibancadas, principalmente nas vitórias de Verstappen. Porém, a ambição desmedida da Liberty Media fez com que Zandvoort anunciasse a despedida da F1 em 2026, mesmo sendo um sucesso de público.

A corrida bem mais ou menos na Sprint Race no sábado diminuiu as expectativas no domingo, mas acabamos por ver uma excelente prova de despedida de Zandvoort, mesmo que a torcida local tenha saído chateada com o prematuro abandono de Verstappen. Quem estava vibrando na bandeirada era Lando Norris, que lutou arduamente contra Andrea Kimi Antonelli para vencer pela segunda vez em 2026 e colocar uma pequena pulga atrás da orelha de Toto Wolff, com a segunda vitória consecutiva (e de forma convincente) do atual campeão do mundo.

As três semanas sem F1 foram de algumas definições e do aniversário de 25 anos do GPTotal, no qual faço parte dessa equipe sensacional desde 2016 e que tenho muito orgulho de estar presente nesse momento tão especial do site.

Mesmo com Carlos Sainz bastante insatisfeito em seu segundo ano na Williams, o espanhol acabou renovando com a equipe, muito provavelmente por falta de oportunidades em outras equipes, o mesmo acontecendo com Alex Albon. Na véspera das primeiras atividades de pista em Zandvoort, Max Verstappen anunciou que renovou por mais dois anos com a Red Bull, ficando nas glebas austríacas pelo menos até 2030.

O declínio técnico da Red Bull somado ao péssimo regulamento técnico deixou a permanência de Max na Red Bull e na própria F1 em dúvida. Novamente Verstappen foi visto em companhia de Toto Wolff nas férias de verão, alimentando rumores de uma ida para a Mercedes. E como Andrea Kimi Antonelli estava junto de Toto, a ‘vítima’ seria bem clara…

No entanto Wolff foi pragmático. O austríaco nunca escondeu seu descontentamento em lidar com a rivalidade entre Lewis Hamilton e Nico Rosberg e provavelmente Toto farejou que ter Max e Kimi juntos poderia ser bastante explosivo. Russell ainda pode ser útil na equipe, mesmo como um segundo piloto à Barrichello, ou seja, não muito satisfeito com a situação. Já para Verstappen ficar na Red Bull significará um compasso de espera para observar o que acontece ao seu redor. A Mercedes não parece uma porta atraente no momento, então olhar para outras equipes e ver o que acontece é uma opção mais segura, enquanto a Red Bull, que segue perdendo pessoas importantes no lado técnico, tenta um ressurgimento.

E falando em perdas na Red Bull, a equipe sofreu mais uma para o final de semana em Zandvoort, mesmo que de forma pontual. É de conhecimento geral que Isack Hadjar gosta de praticar esportes de luta e enquanto treinava boxe num saco de areia, Hadjar sofreu uma fissura no punho direito, fazendo com que o francês, que conseguiu seu único pódio na F1 até agora nos Países Baixos ano passado, ficasse de fora da prova neerlandesa, substituído por Liam Lawson, que por sua vez cedeu seu carro na Racing Bulls para Yuki Tsunoda, que disse que recebeu a notícia que voltaria a F1 enquanto curtia uma praia na Grécia.

A morna corrida da Sprint, com vitória de Russell (foto acima), alertou ainda mais as equipes para a importância da classificação, realizada poucas horas depois. Desde seu acidente em Suzuka que Oliver Bearman não teve o mesmo bom desempenho de antes e ele foi a surpresa negativa ao ficar pelo caminho no Q1, superado pelo cada vez mais ameaçado Ocon. No pelotão intermediário, a Alpine trouxe um grande pacote de updates para o carro de Gasly, mas o francês acabou ficando por muito pouco no Q2, superando Colapinto com boa margem. A briga pela quinta força ficou novamente entre Audi e Racing Bulls. Com Tsunoda fazendo um bom final de semana, mas eliminado no Q2, a Racing Bulls apostou tudo em Lindblad, que não decepcionou e novamente foi ao Q3, tendo a companhia de Bortoleto, que mais uma vez superou Hulkenberg com certa margem. E Gabriel superou Arvid no Q3.

A briga pela ponta tinha Mercedes e McLaren, com a Ferrari correndo por fora. A Red Bull se conformou rapidamente em ser a quarta força e nem mesmo a genialidade de Max Verstappen, correndo em casa, pôde mudar essa situação. Leclerc fez uma ótima Sprint, sendo o único a largar com pneus macios, mas o monegasco não repetiu o mesmo desempenho na classificação e com Hamilton errando várias vezes na famosa Curva Tarzan, a primeira de Zandvoort, ambos ficaram fora da briga pela pole.

Piastri andava próximo de Norris, enquanto Antonelli parecia em clara desvantagem frente à Russell. Para completar a chuva deu as caras no final do Q3, fazendo todo mundo antecipar os trabalhos na pista e Norris conseguiu uma bela pole, superando a dupla da Mercedes por pouco. No fim, Antonelli mostrou seu talento e quase superou Russell quando mais importava, enquanto Piastri continua sua má fase e ficou apenas em quarto.

Durante a semana do Grande Prêmio dos Países Baixos, a previsão do tempo indicava clima instável em todo o final de semana em Zandvoort, mas a chuva acabou aparecendo sempre na hora errada. Se no sábado a precipitação aconteceu logo depois da Sprint Race e também nos minutos derradeiros do Q3, no domingo a chuva veio com certa força antes da largada, no que poderia ser a primeira sessão da F1 com os carros atuais em pista molhada.

No entanto, o sol já brilhava no momento em que o Rei dos Países Baixos acompanhava o belo hino do seu país ser cantado e todos os pilotos largaram com pneus slicks, mesmo com alguns pontos úmidos no asfalto. E foi justamente num desses pontos que a corrida de Max Verstappen acabou de forma abrupta. A largada viu novamente George Russell sair muito mal a ponto de atrapalhar Oscar Piastri e quem se aproveitou disso foi Antonelli, que pulou para segundo. Mais atrás Max chegou a ficar lado a lado com seu companheiro de equipe Liam Lawson e quando ambos chegaram na última curva, a Arie Luyendyk, Verstappen perdeu o controle do seu carro e bateu com força em ambos os muros.

A pancada foi forte, mas felizmente Max emergiu do seu carro sem problemas, o mesmo não podendo dizer a torcida, que novamente lotou as arquibancadas para torcer para Verstappen, mas no início da segunda volta viu Max ir para os boxes a pé. Logo depois as câmeras mostraram uma cena até mesmo mais perigosa. No mesmo ponto de Max, Gabriel Bortoleto perdeu o controle do seu carro e o brasileiro contou com os reflexos em dia de Nico Hulkenberg para não ser acertado em cheio pelo companheiro de equipe.

A bandeira vermelha consequente fez com que alguns pilotos trocassem seus pneus e de estratégia. A relargada, com os carros parados, viu Norris manter a escrita de sempre perder a pole, fazendo com que Kimi assumisse a ponta e as notícias para o italiano ficariam ainda melhores poucos metros depois, quando Oscar Piastri, que relargou com pneus duros, ultrapassou Russell na briga pelo terceiro lugar.

A corrida começou com Antonelli e Norris (foto acima) abrindo uma boa diferença para Piastri, que por sua vez segurava Russell e a dupla da Ferrari. Preso atrás de Piastri, Russell tomou a iniciativa de sair do tráfego e fez sua primeira parada ainda na volta 17, abrindo caminho para as duas Ferraris, com Leclerc na frente. Tendo colocado pneus duros e com um ritmo razoável, era esperado que Piastri ficasse mais tempo na pista, mas a McLaren resolveu proteger a colocação do australiano e chamou seu piloto para trocar pneus novamente, porém, a equipe errou em seu pit-stop e quando retornou à pista, Piastri estava atrás de Russell.

Antonelli e Norris fizeram suas primeiras paradas na mesma volta e mesmo a Mercedes dando um ligeiro vacilo, o italiano retornou à frente e ainda teve que ultrapassar Hamilton, que postergou sua parada ao máximo para causar a primeira polêmica da corrida mais tarde.

Porém esse não era o maior obstáculo para Antonelli. Com pneus duros o ritmo de Kimi caiu claramente e se antes da parada a diferença entre os dois líderes era de 2s, Lando baixou essa diferença para menos de 1s e pressionava o italiano, que parecia desconfortável em seu Mercedes. Pior estava a Ferrari. Hamilton se aproximou de Leclerc, que pressionava Russell e com o passar das voltas entrou no rádio pedindo passagem. Para evitar uma troca de posições na pista, a Ferrari optou por chamar Leclerc para os boxes, já que a segunda janela de pit-stops já havia iniciado com a dupla da Mercedes parando junta na volta 40. Charles percebeu a manobra e desobedeceu a Ferrari por duas voltas antes de realizar a sua parada, para desespero de Hamilton, que esbravejou via rádio. E o motivo ficaria claro mais tarde.

Ao contrário do esperado, a McLaren não respondeu de imediato à manobra da Mercedes e deixou Norris mais algumas voltas na pista. Quando Lando fez sua segunda parada, ele estava 3,5s atrás de Antonelli, mas num ritmo muito mais rápido do que o de Andrea, chegando a tirar 1,5s numa única volta. O queixume de Hamilton voltas antes ficaria nítido quando ficou claro que Lewis tentaria completar a corrida com uma única parada.

Não demorou para Antonelli encostar em Hamilton e Lando colar nos dois. Numa manobra belíssima, Hamilton se defendeu de Antonelli, enquanto Norris colocou por fora do italiano assumindo a segunda posição. Com pneus em melhores condições, Lando Norris tomou a liderança ainda na mesma volta para não mais perdê-la. Contudo a corrida ainda teria mais lances de emoção e polêmica.

Logo após Antonelli tomar o segundo lugar de Hamilton, o carro de Esteban Ocon apareceu parado e o Virtual Safety Car deu as caras, no que Antonelli, Hamilton, Leclerc e Piastri aproveitaram o ensejo para irem aos boxes colocar pneus macios para as voltas finais. Norris chegou a questionar a McLaren o motivo de não ter parado, mas quando se aproximava da entrada dos pits, a bandeira verde foi mostrada. Outro que permaneceu na pista foi Russell, que com isso subiu para segundo, mas com pneus duros desgastados, seria facilmente atacado por Antonelli e a dupla da Ferrari.

Porém, George não parecia muito disposto a ceder sua posição de forma tranquila, mas a Mercedes impôs uma troca de posições e Russell deixou Antonelli passar e quando estava prestes a perder o pódio para Hamilton (foto acima), o VSC entrou em cena novamente na antepenúltima volta. George conseguiu segurar a posição, enquanto a dupla da Ferrari quase bateu entre si na penúltima volta.

Mais do que a segunda vitória consecutiva de Lando Norris, a forma como o inglês da McLaren venceu em Zandvoort mostrou que o campeonato, que parecia nas mãos da Mercedes, pode estar sofrendo uma ligeira reviravolta. Norris mostrou um ritmo avassalador, muito superior ao da Mercedes com pneus duros e a bonita ultrapassagem sobre Antonelli mostrou que ele era bem mais rápido do que o italiano. O próprio Norris já declarou que ainda está cedo para pensar no campeonato, mas como se diz no futebol, ‘estão deixando Lando sonhar’. O mesmo não se pode dizer de Piastri, que após o erro de pit-stop da McLaren simplesmente desapareceu da corrida e recebeu a bandeirada numa opaca sexta posição. Oscar precisa de um psicólogo.

Outro recado dado foi feito pela Mercedes. Com a McLaren mostrando o mesmo nível de evolução dos anos anteriores, provavelmente a Mercedes terá que escolher alguém para lutar pelo título e a troca de posição entre Antonelli e Russell indicou quem Toto Wolff escolheu. Russell poderia ter se imposto e marcado ‘posição’ dentro da equipe Mercedes, porém, cedeu a posição para o companheiro de equipe candidamente, cedeu também mais alguns pontos e muito provavelmente a chance de ser campeão em 2026 ou até mesmo em outro ano.

Russell foi mais rápido do que Antonelli em praticamente o final de semana inteiro, mas acabou dominado na corrida e viu sua desvantagem aumentar, com Lando Norris, claramente o primeiro piloto da McLaren, se aproximando dele. Enquanto Antonelli vai tomando as rédeas da Mercedes e viu sua liderança aumentar.

Já no reino de Frederic Vasseur, a reunião pós-corrida da Ferrari deve ter sido bem animada. Hamilton poderia ter conquistado pelo menos um pódio, mas quando Leclerc se recusou a sair de sua frente quando Lewis tinha pneus melhores, o inglês perdeu um tempo precioso. Cada vez mais à vontade dentro da Ferrari, Lewis Hamilton reclamou bastante da estratégia da Ferrari e, claro, do seu companheiro de equipe. Por sua vez, tido e havido como um piloto criado dentro da Ferrari para ser campeão e com o contrato renovado, Charles Leclerc não quer perder a posição de piloto principal da equipe, mesmo correndo ao lado de um heptacampeão mundial. Política sempre fez parte da gestão de pilotos da Ferrari. Fica surpreso quem quer, mas talvez isso seja uma das explicações da Ferrari não produzir um piloto campeão na F1 a quase vinte anos.

Com Max Verstappen de fora logo na primeira volta, a Red Bull viu Liam Lawson levar seu carro até o fim sem maiores arroubos no sétimo lugar, ficando o time austríaco como a quarta força isolada em Zandvoort.

O pelotão intermediário teve inúmeras brigas e punições, com Nico Hulkenberg marcando pontos pela segunda corrida consecutiva com o oitavo lugar e mostrando que a Audi tem condições de brigar com a Racing Bulls pelo quinto posto do Mundial de Construtores, mas o grande destaque foi mesmo Fernando Alonso. Com a Honda trazendo um motor praticamente novo para Zandvoort, a dupla da Aston Martin reclamou de problemas de noviciado do motor e seus pilotos ficaram no Q1, mas Alonso parecia satisfeito com o potencial do carro. Mesmo ainda sofrendo com a potência do carro, Alonso (foto abaixo) arriscou para fazer uma parada a menos e se aproveitando do caos ao redor, levou à Aston Martin ao seu melhor resultado até o momento em 2026 com um honroso nono lugar, ficando à frente de Gasly, com seu Alpine com várias atualizações.

A Racing Bulls viu Lindblad ser punido e Tsunoda fazer uma corrida de reestreia decente, mas fora dos pontos. A rodada na primeira volta depois de outra largada ruim deixou Bortoleto fora dos pontos a prova inteira. Depois da corrida Gabriel falou de problemas antes mesmo da largada. A Haas abandonou com seus dois carros, a Cadillac viu o novo chefe Marcin Budkowski se orgulhar de que nenhum carro se desfez na pista e a Williams… Bom a Williams viu seus dois pilotos baterem entre si no final da corrida (foto abaixo) quando ambos brigavam pelas últimas posições. James Vowles terá muito trabalho.

Zandvoort deixa a F1 com sua melhor corrida em seu retorno ao calendário e já deixando saudades. A torcida neerlandesa pode ter saído do autódromo frustrada pelo acidente de Max, mas os fãs da F1 viram uma grande corrida e o que pode ser o início de um novo campeonato, com a ascensão da McLaren.

Norris (foto acima) pulou para quarto no campeonato e ainda está mais oitenta pontos atrás de Andrea Kimi Antonelli, mas os últimos campeonatos mostraram que o final de uma temporada pode ser bem diferente do seu início. Toto Wolff mostrou hoje que já abriu o olho para essa situação. Mais confiante com seu título conquistado, Lando Norris está crescendo no momento certo. Antonelli que se cuide!

Abraços!

João Carlos Viana

 

 

JC Viana
JC Viana
Engenheiro Mecânico, vê corridas desde que se entende por gente. Escreve sobre F1 no tempo livre e torce pelo Ceará Sporting Club em tempo integral.

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