Até o fim

Pilotos Olímpicos – Parte 2
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Confirmando a quebra
08/11/2021

No último GP dos Estados Unidos, no Texas, tanto o vencedor, Max V., quanto seu colega Checo Perez relataram ter corrido atormentados por problemas fora do comum, um com problemas estomacais e o outro desidratado. Aplausos para o espírito de sacrifício que, felizmente, não impediu a equipe Red Bull de colher um resultado histórico.

Atos acima do cumprimento do dever, que geram medalhas no meio militar, transformam esportistas em ícones. Resiliência, não é assim que se classifica isso hoje?

Pode-se não lembrar o nome da maratonista suíça (Gabrielle Andersen) que terminou longe do pódio na prova das Olimpíadas de 1984, em Los Angeles, mas seu feito será reconhecido assim que aparecer foto ou vídeo a respeito. Ela perdeu o último ponto de hidratação e o forte calor da California cobrou seu preço. Entrou no estádio já sem controle muscular, completamente extenuada. Seu corpo estava esquisitamente torto, as passadas cambaleantes, o rumo incerto. A musculatura não tinha mais energia para obedecer ao cérebro. Imediatamente membros da organização se apressaram para cuidar do que parecia um colapso iminente.

Mas a suíça recusou ajuda. Sustentada por uma força de vontade descomunal, caminhou vagarosamente pela pista até cruzar a linha de chegada.

Um espaço de tempo que pareceu durar décadas, milhões de pares de olhos acompanhando, centenas de objetivas focadas na atleta até o momento alívio incomparável. Alguém lembraria da vencedora dessa maratona mesmo se visse a foto de sua vitória?

 

 

Vamos visitar passagens marcantes da carreira de Tazio Nuvolari sob esse prisma?

O circuito de Tigullio, palco de sua primeira vitória, era sabidamente um dos mais torturantes para os pilotos na época: 11 quilômetros de curvas sucessivas, obrigando a virar o volante ininterruptamente, enquanto se freia e acelera, freia e acelera…

Fora isso, há o vento. Esse circuito margeia parcialmente o Golfo do Tigullio, onde se encontram cidades famosas da Riviera do Levante italiano, como Rapallo, Portofino, Sta. Margherita Ligure.

Pista estreita, subidas e descidas, passando de uma montanha para outra, abismos indo direto ao mar quase o tempo todo.

Mesmo nos anos 40, quando passou a se chamar Circuito de Ferrara, era definido como “um dos mais torturantes e capazes de nivelar em modo sensibilíssimo os diversos valores”. Em palavras mais contemporâneas, o tipo da prova que separa os homens dos meninos.

Pois em 12 de abril de 1924 vai ser disputado ali o “1° Circuito Automobilistico del Tigullio“, no percurso Rapallo – Santa Margherita – San Lorenzo – Rapallo.

Tazio alinha com uma Bianchi Tipo 18, 2,0L. Natural, uma vez que era piloto da equipe de motos dessa marca, com grande êxito.

Antes da largada, ele observa uma placa de sinalização instalada em uma curva. A placa é velha, desbotada. Originalmente estava escrito “Pericoloso-Rallentare” (algo como “Perigoso-Andar Devagar”) mas com o tempo o hífen desapareceu, transmitindo significado oposto. Tazio não perdeu a oportunidade de mostrar bom humor: “Os organizadores são mesmo bons; até placa de sinalização colocaram”.

Conforme contamos em outro episódio da saga Nuvolari, ele esteve por cair nesses abismos por diversas vezes, enquanto ia tratando de assumir a liderança. “Eu parava a cinco centímetros da borda, mas era o suficiente”.

Faltando pouco para a chegada, o pneu dianteiro direito fura e o carro capota, indo parar em um fosso (felizmente não foi em algum desses precipícios). Relatório de danos: perdeu-se o assento do piloto, o volante, o carro está pronto para o ferro-velho e o mecânico que o acompanhava, como era costume na época, em choque. O público o ajuda e Tazio cruza a linha de chegada em primeiro com ao menos o aro da roda dianteira direita encostando no chão (existem versões relatando danos ainda maiores) e uma chave inglesa fazendo as vezes de volante. A vantagem que ele tinha construído era tão grande que mesmo com um carro nessas condições a vitória era sua. 20 voltas, 220km, a uma média de 52,496 km/h.

Os jornais descreveram assim o resultado: “Nuvolari chegaria em primeiro mesmo sem rodas, sem suspensão e com a carroceria destruída. Os espectadores viram passar sob seus olhos algo incrível: no lugar do piloto não havia ninguém. Tazio guiava sem assento e, em substituição ao volante, manobrava uma chave inglesa. Ao lado jazia desmaiado o mecânico, coberto de lama e óleo.”

Você diria que essa primeira vitória em carros já “causou uma impressão”, como se costuma dizer em filmes americanos?

Se quiser saber se ele também causou uma impressão em motos, leia a coluna “13” (link no final da coluna).

 

 

Agora vamos para o extremo oposto da carreira do “Mantuano Voador”.

3 de setembro de 1946. A 2a. Guerra terminou no ano anterior, deixando um rastro inédito de tristeza em escala mundial. Tazio já conta 54 anos. Seus dois filhos faleceram, por causas naturais, antes de se tornarem adultos. Ele está inscrito na Coppa Brezzi, a ser corrida no Parque Valentino, em Turim, com uma Cisitalia/Fiat D46, construída por seu amigo Piero Dusio. Não é um F1, é o que ainda se chamava categoria “voiturette”, menos potente, 1,5L aspirado, um só lugar.

Corridas nesse parque não eram uma novidade. A novidade era a, digamos, equipe Cisitalia. Assim como a Fiat, Piero Dusio tinha sua base em Turim. E ele aproveitou essa oportunidade para estrear sua D46, convidando diversos nomes conhecidos para pilotar seus carros. Entre eles o famoso às monegasco Louis Chiron.

Qual será o ânimo de Nivola, após tanto tempo? Será ainda competitivo? Terá ainda a velha disposição para buscar a vitória?

Dada a largada, é ele quem assume a ponta. Na segunda volta, cruza a reta de chegada segurando o volante com uma das mãos, enquanto dirige, como pode, com a outra. Percorre assim mais uma volta provavelmente esperando que a equipe se prepare para resolver problema tão insólito. Ao invés de abandonar, ele espera o conserto e parte novamente. Surgem outros problemas, ele volta aos boxes e acaba tendo que sair sem o capô.

Mesmo assim termina em 13º.

A imprensa naturalmente dá destaque à façanha e ele passa a ser visto como “o campeão que vencia mesmo sem volante.” Poderíamos agregar que “nunca desistia”?

Dusio venceu, Chiron foi terceiro, mas qual a foto que relembra essa corrida?

Alguém se lembra de Gilles Villeneuve com a asa dianteira de sua Ferrari levantada e posteriormente arrancada, indo até o fim da corrida sem dar nem uma paradinha nos boxes?

Não é à toa que o canadense era tão benquisto pelos tifosi.

 

 

Dois anos se passam e ele aparece em Brescia no dia 2 de maio, para assistir à largada da Mille Miglia. Esta será a mais longa Mille Miglia da história, 1830km.

Não está inscrito. Sua última corrida foi em setembro do ano anterior.

Mas… Enzo não resiste, seu piloto-referência está ali disponível e oferece a ele uma Ferrari 166SC. Esse carro tinha uma carroceria diferente do habitual, um conceito denominado “siluro” (torpedo), mas com pára-lamas e faróis separados, fixados externamente. O início de uma evolução aerodinâmica, tida como um cruzamento de carro com moto.

Mesmo aos 56 anos e sem nunca ter guiado esse carro Nivola aceita.

E mais uma vez vai mostrar que pertence a uma classe à parte. Em Pesaro, já é líder absoluto.

Em Roma, metade do percurso, a vantagem sobre o segundo colocado está em 12 minutos. Minutos! Em Livorno, ela aumenta para 20. Alcança Florença meia hora à frente mas… está com um pára lama a menos. O motor é perfeitamente acessível, uma vez que o capô também ficou pelo caminho, pouco depois de Roma. O assento não fornece mais estabilidade, após tantas curvas, freadas e acelerações bruscas e Brescia ainda está longe. Cruzando a região de Reggio Emilia um pivô de suspensão se rompe. Nuvolari quer continuar mas é o próprio Enzo que pondera ser demasiado perigoso continuar assim e põe um ponto final nessa jornada épica.

Merece um lugar entre os melhores de todos os tempos?

Abraços

 

Carlos Chiesa

 

P.S.: aqui estão os links para outras colunas recentes do autor que tratam de Tazio Nuvolari: http://gptotal.com.br/lenda-1a-parte/, http://gptotal.com.br/lenda-final/ e http://gptotal.com.br/13-2/

 

Carlos Chiesa
Carlos Chiesa
Publicitário, criou campanhas para VW, Ford e Fiat. Ganhou inúmeros prêmios nessa atividade, inclusive 2 Grand Prix. Acompanha F1 desde os primeiros sucessos do Emerson Fittipaldi.

5 Comments

  1. Pierre E. Reuter disse:

    Artigo excelente e de agradável leitura, como sempre abraços

  2. Gus disse:

    Tazio Nuvolari, antes de Fangio ou de Clark (e até depois deles) – é tido para muitos como o melhor piloto que já existiu. Nunca existirá uma resposta para esse inócua questão, mas Tazio certamente estaria no páreo.

    • Carlos disse:

      Olá Gus. Concordo 100% de que a questão é inócua. Tentar definir os 5 melhores pilotos de todos os tempos me parece uma questão sem resposta confiável, seja qual for o critério. Além das épocas, existem tantos fatores diferentes em cada contexto que a injustiça será irremediavelmente feita.

  3. Fernando Marques disse:

    Chiesa,

    fiquei aqui comigo imaginando se Tazio Nuvolari teria algum prazer pilotando os carros atuais inquebráveis com suas eletrônicas, câmbios automáticos, borboletas nos volantes, ausência de uma alavanca de marcha e pedal de embreagem …
    Qual a graça teria para ele se o volante não soltasse da coluna da direção, se a suspensão não quebrasse, se os pneus não fossem finos … e se não tivesse um mecânico a bordo de seu bólido para socorrer após um acidente …
    Sinceramente ele não sentiria nenhum prazer de pilotar os carros inquebráveis da atualidade

    Fernando marques
    Niterói RJ

    • Carlos disse:

      Bom ponto, Fernando. Nuvolari teve a sorte de exercer seu ofício em época em que os pilotos realmente faziam muita diferença. Creio que essa importância vem diminuindo a cada mudança no regulamento.

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