Confirmando a quebra

Até o fim
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Renascendo das cinzas
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No tênis, mais importante do que quebrar o saque do adversário, é confirmar a quebra na próxima vez em que você tem o saque. Em Austin, a Mercedes parecia estar por cima, mas Max Verstappen conseguiu uma vitória incrível numa pilotagem gigantesca, ‘quebrando o saque’ de Hamilton nos Estados Unidos. A prova seguinte seria no Circuito Hermanos Rodríguez, onde mesmo quando a Mercedes deixava seus rivais ariados de tanta pêia, a Red Bull conseguia ótimos resultados por causa da altitude, que faz com que o fluxo de ar sobre os dispositivos aerodinâmicos percam eficiência, fazendo com que as equipes utilizem o setup de maior downforce possível e onde a genialidade do aerodinamicista Adryan Newey sempre aparece. México é território da Red Bull.

Era a oportunidade pai d’égua para Max Verstappen ‘confirmar a quebra’ ou Lewis Hamilton ‘devolver a quebra’. Max chegou a ficar com um 15/40 após perder a pole e a primeira fila no sábado para a Mercedes, mas nesse domingo o neerlandês deu seguidos backhands para matar o ponto e abrir uma vantagem que pode ser decisiva para o campeonato de 2021.

O Grande Prêmio da Cidade do México destoou do que vem sendo a eletrizante temporada 2021. Dá para dizer que a vitória foi decidida na largada, quando Max Verstappen conseguiu uma saída digna dos gigantes da F1. O neerlandês saiu avexado no apagar dos sinais vermelhos, pegou o vácuo do pole Valtteri Bottas, emparelhou com o abestado nórdico, que ficou ensanduichado entre os protagonistas do campeonato. No longo caminho até a forte freada para a primeira curva, Hamilton estava por dentro, mas no lado sujo da pista, enquanto Max estava por fora, só que na linha ideal. Sem querer empalhar Max ou Lewis, Bottas freou mais cedo, o contrário fazendo Verstappen, que chegou na primeira curva em primeiro, com Hamilton em segundo. Bottas ficou numa situação peba, ainda mais com Ricciardo arriscando muito na primeira curva. O australiano acabou barroando em Bottas, que rodou no meio do pelotão. Pérez arrudiou pela grama para evitar ser atingido por alguma sobra do incidente e com isso voltou à pista ao lado de Hamilton, mas o mexicano logo teve que ceder a posição sem briga, para não ser punido por qualquer vantagem ganha. No meio da confusão, Esteban Ocon fez uma rata ao bater em Tsunoda e Mick Schumacher, tirando-os da corrida com as suas respectivas suspensão quebradas. Incrivelmente, Ocon saiu sem maiores prejuízos, enquanto Tsunoda e Mick ficaram pelo caminho, trazendo o que seria o único safety-car da corrida.

Quando foi dada a relargada e o posicionamento foi definido, a corrida aconteceu praticamente sem maiores brigas. Max Verstappen deu um ‘até logo’ para Hamilton e capou o gato na ponta, conseguindo, talvez, sua vitória mais sossegada na carreira, mas uma das mais importantes. Sem ter o trabalho de ter que ultrapassar a Mercedes durante a corrida, Max enfiou 16s na cabeça de Hamilton e outros dezenove pontos no campeonato, quase uma corrida completa. A Red Bull chegou a temer com o repentino aumento de velocidade em reta da Mercedes nas últimas corridas, mas nesse momento os austríacos tem o melhor conjunto da F1 e Max Verstappen está pilotando no mesmo nível de gigantes como Lewis Hamilton.

O inglês da Mercedes estava fumando numa quenga depois da corrida. Durante a prova Hamilton repetidamente lamentou não ter carro para enfrentar Verstappen e ficou nítido de que se nada for feito no feudo de Toto Wolff, o octacampeonato deverá ficar para uma próxima vez. E Hamilton ainda teve que segurar Sérgio Pérez e o que parecia todo o México empurrando Checo para cima dele. Se a corrida foi até mesmo morna dentro da pista, fora dela os mexicanos deram um show de apoio ao seu piloto durante as 71 voltas da corrida. Pérez acunhou Hamilton em vários momentos da corrida, mas não a ponto de tentar uma ultrapassagem que seria consagradora para Checo, que com o terceiro lugar se tornou o primeiro chicano a subir ao pódio no país dos astecas, superando a lenda Pedro Rodríguez, quarto colocado na sua corrida local em 1968. Após a corrida a apoteose continuou, com os mexicanos vibrando como se Checo tivesse sido o campeão da temporada. Até mesmo o frio Verstappen se contagiou com a festa mexicana. Antonio Pérez, pai de Sérgio, estava mais feliz que uma velhinha que foi tirada para dançar numa festa de terceira idade para puxar um forró acochado.

Valtteri Bottas mostrou mais uma vez o porquê ter sido substituído por George Russell na Mercedes. Após uma pole incrível e uma volta sensacional no sábado, Bottas fez uma corrida fuleragem após ser tocado por Ricciardo e ficou boa parte da corrida atrás do próprio australiano sem conseguir ultrapassar o piloto da McLaren. Para completar, um pit-stop destrambelhado da Mercedes estragou ainda mais a corrida de Bottas, que no fim cumpriu uma última missão: tirar o ponto da melhor volta de Verstappen. Valtteri só conseguiu isso após duas paradas e dois jogos de pneus macios, mas que no fim salvou a liderança da Mercedes no Mundial de Construtores, pois foi justamente esse pontinho que mantém a Mercedes na frente da Red Bull no campeonato.

Bem longe dos primeiros colocados, lá na baixa da égua, Pierre Gasly foi o primeiro do pelotão intermediário, fez uma corrida solitária e seu quarto lugar foi importante para a Alpha Tauri, que empatou com a Alpine no Mundial de Construtores. Ainda mais com Tsunoda sendo vítima de um destrambelhado Esteban Ocon e o nipônico sendo chamado atenção pela cúpula da Red Bull após ter atrapalhado a dupla da equipe principal no sábado. Com Ricciardo atrasado pelo toque com Bottas na primeira curva, a McLaren só conseguiu um pontinho no México com o décimo lugar de Lando Norris, enquanto a Ferrari marcava bons pontos com Leclerc e Sainz em quinto e sexto. Só ficou incompreensível a troca de posições entre eles, pois as duas Ferraris também correram sozinhas, mas com o resultado de hoje abriu boa margem sobre a McLaren na luta entre as tradicionais equipes pelo terceiro lugar no Mundial de Construtores. Fechando a zona de pontuação, uma trinca sênior com Vettel, Raikkonen (seu Lunga Nórdico) e Alonso, os três marcando bons pontos para as suas equipes. Lance Stroll novamente aprontou na corrida após bater sozinho na classificação. Podem passar dez anos de desenvolvimento dedicado à Lance, Lawrence Stroll comprar a Mercedes, Ferrari e Red Bull ao mesmo tempo, que o canadense ainda não se tornará um piloto de ponta. O acidente de Stroll no sábado seria facilmente assinado por Eliseo Salazar ou Alex Yoong. Williams não teve ritmo algum no México e nem mesmo o talento de George Russell salvou a equipe de um zero na terra dos astecas, enquanto Mazepin ficou com a última colocação que lhe é habitual.

A Mercedes conseguiu uma estrutura forte o suficiente para reverter a situação atual, mas Toto Wolff e seus blue caps precisam para ontem dar uma resposta para a Red Bull. A próxima corrida do campeonato será em Interlagos semana que vem, cujo último vencedor foi Max Verstappen, numa vitória enfática. Ou seja, novamente estaremos num terreno da Red Bull. No tênis o saque volta para o rival após um game, mas dessa vez Max Verstappen e a Red Bull sacarão novamente contra Lewis Hamilton e a Mercedes. Lewis conseguirá quebrar o saque de Max?

Para quem não entendeu algumas expressões, aproveitei minha última coluna de 2021 para usar algumas gírias do chamado ‘cearencês’. Segue abaixo a legenda:

ARIADO – Desnorteado

PÊIA – Surra

PAI D’ÉGUA – Muito bom

AVEXADO – Apressado

ABESTADO – Bobo

SINAL – Semáforo

EMPALHAR – Atrapalhar

PÉBA – De má qualidade, ruim

BARROAR – Bater

ARRUDIAR – Dar a volta

RATA – Gafe

CAPAR O GATO – Ir embora

FUMANDO NUMA QUENGA – Com muita raiva

ACUNHAR – Chegar junto

ACOCHADO – Apertado

FULERAGEM – Coisa sem valor

DESTRAMBELHADO – Atrapalhado

BAIXA DA ÉGUA – Lugar distante

LUNGA – Seu Lunga é um homem que morava em Juazeiro do Norte, muito conhecido por ser muito grosseiro e mal-humorado

Antecipadamente, um Feliz Natal para todos, que tenhamos um 2022 de muita alegria, SAÚDE e luz para todos!

Abraços!

João Carlos Viana

 

JC Viana
JC Viana
Engenheiro Mecânico, vê corridas desde que se entende por gente. Escreve sobre F1 no tempo livre e torce pelo Ceará Sporting Club em tempo integral.

3 Comments

  1. Fernando marques disse:

    JC,

    Sensacional a sua análise. Nem me deixou uma resenha.
    Posso te fazer uma pergunta?
    Será que a Mercedes jogou a toalha?
    Saindo do tênis pro boxe.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

    • Obrigado mais uma vez Fernando!
      A Mercedes precisa dar uma grau (melhorar) no seu carro para ontem!
      Infelizmente para eles, não haverá muito tempo hábil para melhorias significativas, pois são três corridas seguidas e em Interlagos também dever uma administração de danos para os alemães. Resta torcer que a volta pelo Oriente Médio seja melhor para a Mercedes, ou Max Verstappen será campeão com antecedência, algo inimaginável no meio do ano.

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