Próximo da perfeição

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Recentemente Sebastian Vettel foi perguntado sobre o domínio exercido esse ano por Max Verstappen e seu imbatível Red Bull RB19. Lembrando que o próprio Vettel foi protagonista de um domínio pela mesma Red Bull e também havia quem reclamava da soberania imposta pelo alemão na F1. “Cada fase em que alguém conseguiu dominar, ou ganhar muito, provavelmente é diferente. Mas o que você precisa aprender é aproveitar. É apenas a perfeição.”, falou Vettel sobre o 2023 de Verstappen e a Red Bull.

Corrida após corrida, Max Verstappen segue esmagando a concorrência com uma pilotagem exuberante, à bordo do seu já histórico modelo RB19. Os números não mentem que a audiência da TV está caindo devido a previsibilidade da F1 atual, mas como Vettel falou, podemos também apreciar o que Max vem fazendo na presente temporada. Pode não haver a emoção de uma disputa cabeça a cabeça como houve em 2021, porém, para quem gosta de ver uma pilotagem de altíssimo nível, Verstappen vai nos mostrando isso praticamente duas vezes por mês.

Na Hungria, Verstappen esteve simplesmente imparável e numa corrida sem maiores ocorrências, o neerlandês enfiou meio minuto no piloto mais próximo e já tem mais de cem pontos de vantagem sobre o vice-líder Pérez. Já a Red Bull simplesmente quebrou o recorde da mítica McLaren de 1988, chegando a doze vitórias consecutivas, sendo que Verstappen está fazendo sozinho o que Senna e Prost construíram juntos trinta e cinco anos atrás.

Esse final de semana foi de novidades na classificação da F1, em mais uma tentativa de embaralhar o grid de forma artificial. Com a desculpa esfarrapada de ‘melhorar a sustentabilidade da F1’ diminuindo o número de pneus à disposição de cada piloto no final de semana, a F1 impôs que os pilotos deveriam disputar o Q1 com pneus duros, o Q2 com pneus médios e finalmente o Q3 com pneus macios. Inicialmente a ideia era experimentar isso em Ímola, mas as fortes chuvas no norte da Itália não deixaram.

Olhando para o grid, vimos algumas surpresas como a eliminação de Russell no Q1 e de Sainz no Q2, mas no geral, a ideia foi um fracasso. Os pilotos detestaram ter que ficar nos boxes poupando pneus durante os treinos livres e por consequência, não testaram o suficiente o acerto dos seus carros. O público se viu privado de ter carros na pista por causa da economia das equipes durante boa parte dos treinos livres.

As surpresas ocorreram muito mais por falta de adaptação das equipes ao novo experimento e não duvido que se for colocado em prática novamente, todos já estarão mais preparados para trabalhar com o novo tipo de classificação e as surpresas acabarão. Enfim, foi mais uma ideia esdrúxula que o bom senso deverá enterrar em breve.

Espero…

No começo dos anos 2000 a pista de Hungaroring era considerada um dos piores palcos do calendário da F1, por quase sempre o circuito magiar proporcionar corridas tediosas, pela eterna dificuldade de se ultrapassar. Com uma sequência interminável de curvas e bastante estreita, Hungaroring sempre foi um local de ultrapassagens difíceis, mas que com o tempo, os fãs da F1 passaram a olhar para o circuito próximo à Budapeste com outros olhos, pois Hungaroring ainda tem um pouco das pistas ‘old school’. De uns tempos para cá, com o surgimento de novos circuitos faraônicos e padronizados, passou-se a ter uma certa simpatia por Hungaroring, porém, não podemos negar que a corrida desse domingo não foi de encher os olhos.

Havia uma certa tensão na largada por causa da surpreendente pole de Lewis Hamilton, que tirou o doce da boca de Verstappen por míseros três milésimos no sábado. Mesmo com o título praticamente no bolso, Max sabia que teria ao seu lado um arquirrival do qual tem um relacionamento difícil e com um histórico de acidentes, além de que Lewis não tem nada a perder no campeonato 2023 da F1. Com um novo pacote aerodinâmico, Max sabia que se sobrevivesse às agruras da primeira curva, tudo estava favorável a ele. O detalhe era escapar tranquilamente da disputa que viria com Hamilton, que arrancou uma volta lançada como nos seus bons tempos.

Verstappen não vinha de largadas excepcionais recentemente, mas no apagar das cinco luzes vermelhas, Max saiu muito bem e como esperado, Hamilton não aliviou, deixando apenas um espaço exíguo por dentro, mas como Verstappen afirmou após a corrida, quando ele se viu ali, a curva era dele. Max freou o mais tarde possível, espalhando na curva, atrapalhando não apenas o contorno de curva de Hamilton, como também de Lando Norris, que largava em terceiro e ficou por fora. Nisso, Oscar Piastri viu uma brecha e colocou sua McLaren por dentro e emparelhou com Verstappen. O futuro tricampeão mundial olhou pro lado e no alto dos seus 25 anos e disse: fica na tua, moleque!

Passado a tensa primeira curva, a corrida se tornou um passeio dominical para Max, que conseguiu mais uma vitória de ponta a ponta, só não conseguindo mais um Grand Chelem pelos três milésimos no sábado. Foi outra vitória acachapante, onde numa prova sem interferências do Safety-Car, Verstappen meteu meio minuto goela abaixo de Norris ou de qualquer piloto que estivesse na posição de número dois.

Aston Martin, Mercedes e Ferrari já ficaram com a segunda força por algum momento em 2023, mas oscilaram e a primeira citada já pode ser considerada a quinta força do ano. No último mês, meio que do nada, a McLaren saiu do fundo do pelotão para ultrapassar o feudo da família Stroll, a turma de Toto Wolff e a bagunça de Maranello para se estabelecer como segunda força da F1, pelo menos nesse momento. A própria McLaren tinha certas dúvidas se conseguiria repetir o ótimo desempenho na fluída pista de Silverstone na travada pista de Hungaroring, mas o time laranja emulou a performance da quinzena anterior com seus dois carros ocupando a segunda fila do grid e rapidamente superando Lewis Hamilton, que se preocupou demais com Verstappen e se esqueceu da dupla de sua ex-equipe. Porém, foi Piastri que ficou em segundo no primeiro stint. O australiano foi bastante esperto ao ver Max, Lewis e Lando se espremendo na freada da primeira curva.

Piastri manteve uma boa vantagem para Norris, Hamilton, Leclerc e Sainz, que se aproveitou muito bem da terrível largada da dupla da Alfa Romeo e pulou de décimo primeiro para sexto. A corrida ficou um pouco estática na frente, enquanto Pérez avançava com pneus duros e ultrapassava a decadente Aston Martin de Fernando Alonso, agora longe dos pódios. Numa corrida de duas paradas e com pneus se desgastando bastante, a hora correta de parar poderia fazer bastante diferença nas colocações finais. No seio da McLaren, para evitar uma escandalosa troca de posições, tudo se resolveu na primeira parada da sua dupla, com Norris saindo na frente de Piastri e se estabelecendo na segunda posição. Hamilton não conseguia se aproximar da McLaren, enquanto a Ferrari fazia sua usual confusão, quando se atrapalhou na parada de Leclerc, jogando o monegasco para trás de Sainz. Quando as posições voltaram ao normal, foi a vez de Leclerc exagerar na entrada do pit-lane e receber 5s de pênalti. Enquanto isso, Pérez já alcançava as primeiras posições ao esticar ao máximo sua primeira parada e quando o fez, já aparecia sexto, que viraria quinto quando ultrapassou Sainz. O mexicano se aproximava de Hamilton, que se aproximava de Piastri, que não conseguiu imprimir o mesmo ritmo do primeiro stint. Quando Pérez tinha Hamilton na alça de mira, o mexicano antecipou sua parada, mas Checo não contava com Piastri, tentando melhorar seu ritmo, fazer a mesma coisa. A briga entre o veterano piloto da Red Bull e o novato da McLaren foi o melhor momento da corrida, com Pérez executando uma bela ultrapassagem sobre Piastri na curva 2. Hamilton ficou mais tempo na pista, porém, mesmo sabendo que perderia posições para Pérez e Piastri, teria pneus em melhores condições nas voltas finais. Usando a força do seu Red Bull, Pérez esboçou uma pressão em cima de Norris. A briga pelo segundo lugar prometia, mas os pneus de Pérez não seguraram a barra e o mexicano parou de avançar quando estava 3s atrás de Lando. Já Hamilton ultrapassou facilmente Piastri e engoliu a desvantagem que tinha para Pérez, chegando na última volta próximo de Checo, mas sem chances de ultrapassar. No fim, Norris e Pérez subiram ao pódio, com Hamilton logo atrás. Russell, largando apenas em 18º, fez uma baita corrida de recuperação, somando boa estratégia com um ritmo forte, atacando a dupla da Ferrari no final e terminando em sexto, beneficiado pela punição de Leclerc. Enquanto isso, lá na frente, Verstappen só soube de tudo isso enquanto via os melhores momentos da prova na antessala do pódio.

Numa F1 que não se testa e limitada pelo teto orçamentário, o feito da McLaren fica ainda mais evidente, pois o time comandado por Zak Brown saiu das últimas posições para brigar por poles e pódios. Enquanto isso, a Mercedes tenta entender seu carro, a Ferrari tenta entender sua bagunça e a Aston Martin tenta entender como conseguiu os resultados do começo da temporada.

A Alfa Romeo chegou a sonhar com um resultado melhor após um sábado de sonho, com Zhou em quinto e Bottas em sétimo no grid, mas tudo virou pesadelo quando Zhou pareceu largar com o freio de mão puxado e isso acabou por atrapalhar Bottas, que largava logo atrás. Para completar, Zhou acabou provocando o acidente que destruiu a corrida da Alpine na primeira curva, com Ocon e Gasly abandonando ao final da primeira volta. Zhou caiu para as últimas posições com a péssima largada, o incidente provocado por ele e o pênalti leve que levou, após provocar um acidente que resultou em dois abandonos.

Outra novidade foi o retorno de Daniel Ricciardo para o lugar do demitido Nyck de Vries na Alpha Tauri. O australiano parecia fadado a fazer merchandising com a Red Bull e fazer alguma graça no próximo Drive to Survive, mas Ricciardo fez um bom teste de pneus com o carro da Red Bull em Silverstone dias após a corrida na pista inglesa e Helmut Marko não teve nenhum pudor em dispensar De Vries e colocar Ricciardo em seu lugar com efeito imediato. Sabedor da curta paciência de Marko, Ricciardo sabe que terá que fazer um bom trabalho se quiser seguir na F1 e não se pode dizer que Daniel não se intimidou com o desafio.

O já experiente piloto desembarcou na Alpha Tauri praticamente sem testes e logo de cara superou Yuki Tsunoda tanto na classificação, como na corrida. Isso, após Ricciardo ser uma das vítimas da pane mental de Zhou na largada. Especulações falam que Ricciardo está sendo preparado (ou seria testado?) para tomar o lugar de Pérez na própria Red Bull em 2024. Contudo, Pérez conseguiu, finalmente, uma boa corrida na Hungria e na falta de bom equipamento para os rivais, deve ficar com o vice-campeonato, completando uma inédita dobradinha para a Red Bull nesse ano.

Contudo, a situação de Tsunoda pode ficar bem complicada no reino de Marko e companhia.

Foi outra corrida onde Max Verstappen esmagou a concorrência com outra corrida em que beirou a perfeição e o tricampeonato virou apenas uma questão matemática de quando será a festa. Se havia alguma tensão na largada, Max Verstappen só teve problemas após a corrida, quando Lando Norris derrubou e quebrou seu troféu de vencedor.

Abraços!

João Carlos Viana

JC Viana
JC Viana
Engenheiro Mecânico, vê corridas desde que se entende por gente. Escreve sobre F1 no tempo livre e torce pelo Ceará Sporting Club em tempo integral.

2 Comments

  1. I don’t think the title of your article matches the content lol. Just kidding, mainly because I had some doubts after reading the article.

  2. Fernando Marques disse:

    J.C. Viana,

    gostei muito da coluna e seu relato a respeito do GP da Hungria …
    Não discordando mas podendo parecer que sim, achei divertido os treinos classificatórios no sábado … nem sabia da regra da obrigação dos usos dos pneus no Q3, Q2 e Q1 … Zhow fechou o Q2 em primeiro … é mole ? … e a pole do Hamilton? … como não achar divertido? … Mas entendo e concordo com sua análise em relação a forma artificial para embaralhar os treinos …

    quanto a corrida só vi a primeira volta … minha esperança em ver uma corrida divertida no inicio foi pro brejo na largada … se Hamilton conseguisse sair na frente, devido as dificuldades para ultrapassar em Hungaroring, poderíamos ter visto uma boa batalha … mas … e para mim a corrida estava decidida

    Fernando Marques
    Niterói RJ

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