Batalha dos bodes

Sensação de merecimento
22/11/2021
Grazie, Dottore
29/11/2021

Como diria o personagem “Capitão Nascimento”, em Tropa de Elite, o cenário que está sendo montado tem tudo pra dar

A Red Bull parece estar vivendo um dilema (longe de uma escolha de Sofia, mas ainda assim complicado): troca o motor propositalmente e perde 5 posições nos treinos da Saudiarabia, mas garante uma potência importantíssima para a última prova (onde as chances de ultrapassagem são menores e uma pole tende a ser ainda mais decisiva), ou tenta explorar o máximo possível do que tem, para, pelo menos, garantir uma performance semelhante à do Qatar, podendo chegar a Yas Marina ainda na liderança?

Talvez aí estará a chave decisiva. Confesso a vocês, no entanto, que estou com uma sensação muito parecida àquela do pós-GP da China de 2006: tudo apontava para um domínio de Schumacher-Ferrari, com uma estagnação de Alonso e Renault. Naquele momento, Schumy já tinha assumido a ponta pelos critérios de desempate…

Quem é o maior de todos os tempos?

Pergunta irrespondível, que todo fã de F1 (e esportes em geral) ama odiar, ou odeia amar — como disse Pablo Alabarces a respeito da relação entre brasileiros e argentinos. A alcunha de GOAT (acrônimo para Greatest Of All Time, “Maior de Todos os Tempos”, em português), cuja grafia é também a mesma de “bode”, passou a ser utilizada a torto e a direito por fãs brasileiros, e Lewis tem sido o alvo desse “batismo” na modalidade F1.

Há alguns meses, fiz um video (25 minutos) explicando a origem do termo e indo a fundo na distinção que deve ser feita entre Great, Big (ambos traduzidos significam “grande”) e Good (bom) e seus superlativos.

Lewis não é o GOAT – o GOAT é aquele a quem ele homenageou em Interlagos. Mas aquele a quem ele homenageou em Interlagos não é “melhor” que o senhor que ele sempre evocou.

A briga de Hamilton é com Schumacher – quem venceu mais e quanto esse “a mais” significa. Quem é o biggest? Ainda voto no alemão.

Reconheço, porém, quanto um eventual título na temporada 2021 pode (des)embaralhar essas cartas, especialmente se a Red Bull conseguir se recolocar em paridade de desempenho nos próximos dois GPs, valorizando ainda mais a performance de Hamilton. Trata-se de uma disputa franca, que coloca em choque duas gerações, como eu evoquei no meu mais recente texto, “Como Nossos Pais“, comparando o embate de Lewis e Max àqueles entre Lauda e Prost, em 1984, e Schumacher e Alonso, em 2006 — 1994, com Ayrton e Michael, poderia ter sido e não foi.

No entanto, em sua última coluna, Márcio trouxe uma perspectiva interessantíssima sobre a temporada 2021 com analogias a outros esportes e momentos absolutamente históricos: há uma motivação maior para essa disputa ser levada aos limites que estão sendo colocados agora. Marcio menciona a temporada de 1990 como a última (talvez pudéssemos incluir 2007 e 2016 nesse sentido?) onde se sentia esse “cheiro” no ar.

Acho formidável esse “clash”, mas, particularmente, também tenho um interesse muito grande por esportistas e histórias que mostram o oposto: Márcio citou Bjorn Borg e Nico Rosberg, mas também me lembro de nomes como Zidane – Zeca Baleiro faz um belo artigo publicado em seu livro “Bala na agulha”, no qual reflete sobre o ato reprovável de Zidane na final da Copa de 2006, dizendo que ali o francês mostrava que “a honra é maior que a glória” -, que se aposentou logo após o principal torneio de seleções e não fez nenhum esforço para buscar o que seria o recorde de prêmios de Melhor do Mundo, à época (ele e Ronaldo dividiam 3), ou de Roberto Baggio (sugiro que acompanhem o filme disponível na NETFLIX), o jogador que enfrentou aquilo que por muitos é considerado o maior fracasso desportivo e se tornou um verdadeiro ícone da resiliência.

Me lembro também de George Foreman – que se retirou dos ringues defendendo um dos mais impressionantes cartéis de qualquer lutador em qualquer categoria e época, só retornando 10 anos depois -, de Niki Lauda em seus diversos momentos de idas e voltas: (“me pagam pra correr, não para me atirar da janela”, em Fuji 1976, seu épico retorno e o tri em 1984, seguido por um 1985 de tranquilidade e paz) ou de Jackie Stewart oficialmente comunicando seu adeus após a partida de François Cevert.

Sobretudo, me emociono com a nobreza do caráter de Fangio, sua serenidade, humildade, entendimento dos tempos e gerações, reconhecimentos dos grandes sucessores e seu enorme feeling: “Sempre há quem te diga que você é o melhor, que és imbatível, e o perigo é acreditar nisso“.

Talvez seja esse o perigo que Max e Lewis estejam ignorando – e provavelmente é isso que os motiva a ir até o final do fim, para nossa sorte.

Marcel Pilatti
Marcel Pilatti
Chegou a cursar jornalismo, mas é formado em Letras. Sua primeira lembrança na F1 é o GP do Japão de 1990.

3 Comments

  1. MarcioD disse:

    Com relação à Hamilton x Schumacher concordo com a opinião do Fernando: considero Hamilton superior. Por que? Porque ambos conseguiram médias de resultados parecidas, mas Schumacher em seu período áureo, 94-06, conseguiu seus números lutando contra adversários externos e companheiros de equipe inferiores quando comparado à Hamilton.

    Contrapondo-se ao fato do maior domínio da Mercedes 14-20 contra Ferrari 00-04 lembremo-nos de que na Ferrari tudo era feito em função de Schumi, não se permitindo lutas internas, ao contrário de Mclaren e Mercedes.

    Além do mais Lewis teve uma estreia espetacular na F1, por pouco não se tornando campeão, confrontando dentro da McLaren um recém coroado bi-campeão Fernando Alonso, que era jovem á época, e conseguindo terminar à frente dele no campeonato. Schumi não tem um feito semelhante à esse no currículo.

    Lewis também tem um retrospecto nas categorias de base superior ao de Schumi

    • Marcel Pilatti disse:

      Oi, Marcio!

      Primeiramente, compartilho contigo o video que fiz no GP do Brasil de 2019, comparando os dois. https://youtu.be/68o9WafzEXM

      Houve mudanças importantes, desde então, mas até o momento eu manteria quase tudo. O que pode mudar acontecerá nas próximas duas semanas. Não apenas se Hamilton vencer seu oitavo título, mas se, como eu digo no texto, houver de fato uma resistência da parte da Red Bull e Max.

      No entanto, do retrato que temos até o momento, ainda acredito que Schumacher esteja à frente. Vou explicar o porquê.

      Hamilton foi, sim, melhor na base, mas tendo muito mais suprimentos – seria como comparar Messi com outros jogadores observando-se os períodos pré-profissional: um no Barcelona, com toda a academia e mentalidade coletiva, outros em clubes de segunda ou terceira divisões. É fácil entender que Messi teve um caminho mais positivo, nesse sentido.

      Foi esse o caminho de Hamilton. https://www1.folha.uol.com.br/fsp/esporte/fk2110200715.htm

      Já Schumacher, sem precisarmos dos exageros e franciscanismos, trilhou um caminho mais “brabo”, precisando de desempenhos mais notáveis para chamar alguma atenção. É verdade que teve um importantíssimo apoio da Mercedes, mas as oportunidades que foram surgindo para ele demandavam uma resposta imediata. Ha,ilton, mesmo tendo um Alonso ao lado, teve um apoio maciço e descarado da McLaren e Ron Dennis.

      Da porta de entrada para a frente, Schumacher foi muito mais piloto: de 91 a 99, venceu 35 corridas (128 GPs), enquanto Hamilton somou 22 de 2007 a 2013 — tendo disputado 129 GPs. É claro que esse comparativo precisa ser analisado com mais cautela, uma vez que a concorrência de Hamilton entre 2009 e 2013 foi maior que aquela enfrentada por Schumacher de 1996 a 99. No entanto, tudo isso se compensa de alguma maneira porque:

      1) os 38 GPs (2 vitórias) de 1991 a 93 representaram a maior concorrência enfrentada por qualquer um dos dois;
      2) o período de 1996 (16 corridas), foi o maior déficit de equipamento, maior até que o de 2009 (17 provas), embora houvesse mais equipes brigando em 09, o gap para a Williams em 96 era monstruoso)
      3) Schumacher levou dois mundiais nesse período, ficou muito próximo de outros dois e num quinto sofreu o acidente que lhe tirou da disputa; Hamilton venceu um mundial questionável (não imerecido), bateu na trave em outro, e ficava fora da disputa dos outros mais cedo ou chegava no final com “chances matemáticas”, apenas.

      Resumindo: antes dos períodos de domínio, Schumacher fez consideravelmente mais que Hamilton, tendo dificuldades maiores.

      De 2000 a 2006,, Schumacher venceu 55 provas ante 73 de Hamilton; o alemão ganha 5 mundiais e soma um vice muito próximo, o inglês soma 6 mundiais e um vice muito próximo.

      Vantagem de Hamilton, claramente: se considerarmos que Schumacher teve o carro dominante, de forma incontestável, em 2001, 2002 e 2004; teve o carro dominante em boa parte de 2003 e 2006, mas que em 2000 foi muito dividido e em 2005 era o terceiro conjunto, enquanto que Hamilton teve o carro dominante em TODAS AS temporadas (salvo alguns bons GPs em 2017 e alguns poucos em 2014 e 2018), novamente, percebe-se que Schumacher fez mais com menos, outra vez. É claro que Barrichello/Massa foram mais tolhidos do que Rosberg jamais foi, mas Bottas não ofereceu proximidade de desempenho comparável ao de Rubens, e do próprio Massa.

      No cômputo, acho tranquilamente mais impressionante os 7 mundiais de Schumi que os de Lewis.

      Abraço!

  2. Fernando Marques disse:

    Marcel,

    sei lá … este debate a respeito de quem foi o melhor ou maior nuca vai chagar a nenhum lugar comum …
    Eu não vi o Fangio correr, nem o J. Clarck … como posso afirmar que eles foram melhores que Schumacher e Hamilton? Só pelos resultados obtidos, números e estatiscas? … è um bom parâmetro mas seria uma afirmação verdadeira?
    Pra mim, não vi um piloto mais completo que Piquet. Quando ele precisava ser estratégico, era estratégico. quando precisava ser rápido, era rápido. Quando precisava mostrar que tinha braço. mostrava que tinha braço (vide a ultrapassagem dele sobre Senna na Hungria). MAs essa é apenas a minha opinião. Mas dou valor a minha opinião pois vi, ninguém me contou.
    Pelo que vi, independente dos numeros e etc … o Hamilton pra mim é mais piloto que o Schumacher.
    Com relação Vertappen x Hamilton ,,, vejo que o Holandês já está pronto para ser campeão … mas como pilotoestá muito longe do patamar do Hamilton.
    Torço pelo Hamilton conquiste seu oitavo título … mas a verdade é que o titulo de 2021 está em aberto … que vença o melhor … Vertappen merece ser campeão? sim … Mas Hamilton também merece tanto ou quanto

    Fernando Marques
    Niterói RJ

Deixe uma resposta para MarcioD Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *