Campeão com asterisco

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Na coluna coletiva em que respondíamos a pergunta sobre o retorno da F1 em meio à pandemia, escrevi: “o eminente sétimo título de Hamilton terá um asterisco ainda maior que o primeiro de Schumacher ou o terceiro de Prost”. Não é preciso ser nenhum gênio para apostar (e era assim antes mesmo de o ano ter começado) em Hamilton como campeão de 2020. Como foi com Schumacher na primeira metade da década passada,  ou como era com as Williams Renault em 92/93, McLaren no fim dos anos 80 e tantas outras hegemonias, a previsibilidade é um fator muito presente atualmente.

O que difere o período atual dessas épocas supramencionadas, porém, é que praticamente todas as possibilidades de surpresa foram sendo eliminadas aos poucos: limitam-se os testes, inibem-se inovações técnicas radicais, proíbem-se ou exigem-se certas modificações no conjunto durante a corrida,  matematiza-se o formato da classificação, e assim progressivamente.

É claro que outros fatores não podem ser negados: os méritos da Mercedes ao estudar a fundo o ambiente da F1 para realizar sua investida no retorno oficial (espirito natural dos alemães em seu pensamento coletivo-corporativista) e o talento natural incontestável de Lewis Hamilton exponenciam o domínio. Some-se a isso: um companheiro de equipe com bastante velocidade, mas de pouca tenacidade e sem grande regularidade; adicione-se a confusão organizacional daquele que seria seu principal rival (traço maior do espírito italiano), e dê aos outros pretensos candidatos ao trono todo tipo de “teto”, e você tem um domínio sem nenhuma previsão de encerramento a curto prazo.

É lógico que Hamilton não terá um asterisco no hepta por ter o melhor carro, nem porque seu companheiro de equipe não é lá essas coisas: a maioria dos campeões na história da F1 teve condições similares, não é? No entanto, uma temporada em que as provas acontecem em número tão reduzido, em tal sequência, em pistas onde o conjunto do piloto é dominante (se não em 100%) em mais de 90%, e tendo passado um período de meses em que os testes, além de limitados, sequer ocorreram, sim, vai ficar aquela nota de rodapé.

Aproveitando o gancho, meu querido amigo Mário Salustiano escreveu uma série de colunas intitulada “Campeão moral”, e o epílogo foi dedicado à temporada de 2008, na qual, Mario afirma, o campeão foi Hamilton, mas deveria ter sido Massa. Os argumentos de Salu são bastante sinceros e bem colocados, mas discordo diametralmente deles:

Fernando Alonso vai retornar à F1 ano que vem. Faz muita falta, sem dúvida. Irá agregar à marca Fórmula 1, irá contribuir para a Renault… não há questionamentos a isso. Mas… Fernando precisa disso? Certamente o espanhol é o maior caso de talento desperdiçado da história da categoria.

Tivesse Alonso continuado na F1 e tido, a partir de 2014, melhores condições de equipamento — condições dignas de disputa — Hamilton seria ainda maior. Vettel foi sim um grande, mas limitado às CNTP ideais, reunidas numa determinada época. No período de domínio de Seb, Hamilton e Alonso remavam e venciam corridas, encantando mais. Depois que as condições se esvaíram, Vettel venceu determinadas corridas, mas não conseguiu realizar nem mesmo o que Alonso conseguira com uma Ferrari ainda mais fraca.

As 90 poles de Hamilton passarão de 100, tranquilamente. Provavelmente também chegar´a uma centena de GPs vencidos. Fatalmente superará os títulos de Schumacher (ele já os igualou, este ano). Mas iremos sempre lembrar que ficou, como diz a música de Djavan, “Faltando um pedaço”.

Marcel Pilatti
Marcel Pilatti
Chegou a cursar jornalismo, mas é formado em Letras. Sua primeira lembrança na F1 é o GP do Japão de 1990.

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