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Findo o Grande Prêmio de São Paulo, Interlagos demonstra novamente toda a sua magia, com uma corrida animada, uma torcida participativa e uma primeira vitória de um piloto de futuro como George Russell, que se emocionou após sua conquista, além de ter sensibilizado toda a F1 com suas lágrimas no pódio. Isso, sem contar com a incrível pole, também a primeira, de Kevin Magnussen na sexta-feira, quando o danes esteve no lugar certo e na hora certa para conseguir uma chocante pole para a Haas.

Porém, esse final de semana em Interlagos ficará marcado pela temperatura fervente nos bastidores de Red Bull, Ferrari, Alpine e Aston Martin, com seus respectivos pilotos em pé de guerra nesse final de 2022, com direito a bastante polêmica.

Por mais que alguns países invistam milhões em circuitos faraônicos, boxes nababescos e estruturas luxuosas, tudo isso projetado por Hermann Tilke, Interlagos mantém sua aura de templo do automobilismo com sua estrutura apertada, circuito curto e datado da década de 1990. Os pilotos já chegam à São Paulo recebido por fãs no aeroporto, tem seus nomes gritados nas arquibancadas e toda essa hospitalidade transforma a corrida paulistana num dos eventos mais esperados pela F1.

Por mais que os Bahrein, Catares e Abu Dhabis da vida tenham muito dinheiro, eles não podem comprar a alma e isso Interlagos tem de sobra, mesmo com o Brasil sem nenhum representante no grid, algo que pode mudar em breve, com Felipe Drugovich e Enzo Fittipaldi confirmados como representantes de Aston Martin (piloto de desenvolvimento) e Red Bull (academia) respectivamente. Os dois brasileiros podem seguir os passos de George Russell, desde novo ligado à Mercedes e que nesse domingo conseguiu sua primeira e merecida vitória na F1.

O início de 2022 da Mercedes foi daqueles esquecíveis. O time não apenas perdeu sua majestade de equipe dominante, como se viu em meio a sérios problemas de conceito do carro no novo regulamento técnico, fazendo que o porpoising ficasse ainda mais claro nos carros prateados, chegando a fazer Hamilton sair de uma corrida com fortes dores nas costas. Uma das poucas boas notícias para a Mercedes foi o acerto na contratação de George Russell. O jovem inglês usou uma consistência incrível durante todo o campeonato e no sábado ele já tinha dado o recado ao vencer a Sprint Race, numa disputa animada com Max Verstappen. Com a Mercedes em ótima fase desde a última atualização trazida em Austin, Russell dominou a prova em Interlagos com a calma de um veterano, largando (e relargando) muito bem e não foi sequer ameaçado durante as 71 voltas do GP de São Paulo. O jovem inglês da Mercedes fez uma corrida de gente grande, não se intimidou com as situações de relargada e conseguiu sua primeira vitória na F1, dando à Mercedes sua merecida vitória em 2022. Russell saiu do carro emocionado, numa cena bem diferente da vista em Sakhir em 2020, quando a vitória dele escapou por muito pouco. Uma vitória bem representativa para a Mercedes, que começou o ano de forma muito mais modesta do que habitual e no final da temporada, conseguiu uma dobradinha dentro da pista, sem precisar de uma combinação de sorte e quebras de suas rivais.

Hamilton não teve uma corrida tão tranquila quanto do seu companheiro de equipe, mas recém conduzido a cidadão honorário do Brasil, Lewis se sentiu em casa e fez uma bela corrida em Interlagos para completar a dobradinha prateada. Porém, na sétima volta e após a primeira relargada, Hamilton se viu atacado pela dupla da Red Bull, tendo Max Verstappen à frente. Já no sábado ficou claro que Max Verstappen ainda não se recuperou de toda a tensão que se envolveu com Hamilton em 2021 e brigar com o inglês na pista faz com que Max aumente um degrau na graduação de agressividade. Hamilton se colocou por dentro na primeira curva, enquanto Verstappen tentou uma manobra audaciosa por fora, tentando se colocar por dentro na segunda perna do Esse do Senna. Hamilton percebeu a manobra e deixou o mínimo espaço para Max, fazendo com que o toque fosse inevitável. Ambos saíram da pista, com Verstappen sendo o mais prejudicado e tendo que trocar a asa dianteira, além de ter sido punido em 5s. Hamilton perdeu tempo, mas permaneceu na pista e numa boa posição para iniciar uma recuperação. Nesse momento, Russell liderava à frente de Pérez e tudo levava a crer que o mexicano sairia de Interlagos com o vice-campeonato nas mãos, pois mais atrás Leclerc se envolvia num incidente com Norris, fazendo com que o monegasco saísse da pista e batesse de leve no muro. Leclerc retornou à pista, trocou a asa dianteira e caiu para último. Porém, a batida com Hamilton não seria a última polêmica do dia envolvendo Verstappen.

Daniel Ricciardo se envolveu num incidente na primeira volta com Kevin Magnussen, estragando a corrida dos dois e para o piloto da Haas, o sentimento era ainda pior por tudo o que tinha acontecido na sexta-feira, quando marcou uma pole miraculosa no momento em que a chuva desabou sobre Interlagos. A emoção de Magnussen contagiou a todos naquele dia, mas infelizmente o domingo de Kevin foi exatamente o oposto. A carreira de Ricciardo também pode ser classificada como um grande declínio e a saída da Red Bull em 2018 foi o grande turning point para Daniel, mas a cada dia que passa, podemos compreender a opção de Ricciardo de sair da Red Bull. Mesmo quatro anos antes dava para perceber que a Red Bull Team F1 tem um dono e não era Dietrich Mateschitz. Com todo o seu talento, Verstappen se mostrava uma grande aposta da Red Bull e não se pode negar que se pagou com seus dois títulos. Porém, sorte para quem corresse ao lado de Max. Gasly e Albon rapidamente foram defenestrados. O experiente Pérez parecia que teria um convívio tranquilo com o neerlandês, pois Checo saberia exatamente suas funções dentro da equipe. Ou não?

Segundo a imprensa da Holanda, em Monte Carlo Sergio Pérez bateu de propósito no Q3 para prejudicar Max Verstappen, que pediu (e foi atendido) uma troca de posições em Barcelona na semana anterior. Max ficou possesso com isso e as razões que ele falou pelo rádio depois da corrida de hoje se referiam a um troco pelo ocorrido no principado em maio, numa vitória de Pérez. Nesse domingo, com a luta pelo vice-campeonato ainda aberta, Pérez perdia rendimento com os pneus médios e após a relargada, foi sendo ultrapassado seguidamente. A Red Bull mandou Checo deixar Max passar na esperança do neerlandês alcançar Leclerc, mas havia uma pedra no caminho, chamado Fernando Alonso, que fez da tática da Red Bull no mínimo duvidosa. Para piorar, a equipe prometeu naquelas poucas voltas uma inversão de posições, mas Verstappen simplesmente ignorou a chamada da equipe e para quem quisesse ouvir, reclamou com o time de que não cederia posições. Pérez não deixou por menos, sendo bastante irônico em suas colocações sobre o companheiro de equipe. Um clima nada amistoso dentro da Red Bull para a última corrida e a próxima temporada se aproxima. Até mesmo Christian Horner entrou no rádio para acalmar Checo, mas a reunião pós-corrida da Red Bull não foi a única tensa no paddock em Interlagos.

Nas últimas voltas chegou a ser constrangedor a forma como Leclerc mendigava por uma troca de posição com Sainz, sendo que o espanhol andou a corrida inteira na frente, mesmo com a bela recuperação de Leclerc, que saiu da última posição para ser quarto nas voltas finais. Por sinal, Sainz também não teve uma corrida muito tranquila, pois uma sobreviseira entrou no duto de freio traseiro da Ferrari do espanhol e por isso Carlos teve que fazer uma parada a mais, mas Sainz se manteve nas posições de pódio o tempo inteiro. A Ferrari desconversava e com Sainz em terceiro, 4s na frente de Charles, os italianos deixaram seus pilotos como estavam, mas Leclerc revelou que antes da prova acontecera uma reunião que fora definido uma troca de posição caso Sainz estivesse na frente, para ajudar Leclerc na luta pelo vice-campeonato. Pérez e Leclerc tem o que reclamar de seus companheiros de equipe e vão para Abu Dhabi empatados, mas com a promessa de que serão ajudados. A conferir.

No sábado, a Alpine viu Ocon e Alonso largarem bem na Sprint Race, mas se estranharam já na primeira volta, com Alonso quase rodando. Mesmo fazendo a melhor volta do treino livre, Ocon não tinha rendimento e num segundo encontro entre os pilotos da Alpine, Alonso quebrou sua asa dianteira na reta dos boxes, resultando em comentários irônicos de Fernando via rádio e depois da corrida. Otmar Szafnauer ficou furioso, pois com a confusão dos seus pupilos, a dupla da Alpine largou na penúltima fila nesse domingo, mas com um baita ritmo e com Alonso num dia inspirado, a Alpine marcou pontos com seus dois pilotos, com destaque para o quinto lugar de Fernando. Porém, na última relargada, novamente Ocon e Alonso estavam juntos e foi preciso a equipe se impor para que ambos soubessem o que fazer. E principalmente não se tocarem!

Só que Alonso não deverá ter sossego em 2023, pois Lance Stroll deu uma fechada criminosa em Vettel durante a Sprint Race, que rendeu ao canadense uma merecida punição de 10s. E Stroll, filho do dono da Aston Martin, já teve contatos imediatos com Alonso, antes mesmo deles se tornarem companheiros de equipe.

Interlagos viu mais uma corrida animada de F1 e as mais de 230.000 pessoas que foram ao autódromo paulistano não estão nada arrependidas de terem ficado debaixo de sol e chuva para ver uma bela festa, criando um ambiente em que poucas corridas no calendário se vê.

SAO PAULO, BRAZIL – NOVEMBER 13: Race winner George Russell of Great Britain and Mercedes celebrates on the podium during the F1 Grand Prix of Brazil at Autodromo Jose Carlos Pace on November 13, 2022 in Sao Paulo, Brazil. (Photo by Jared C. Tilton/Getty Images)

Russell controlou a corrida com categoria e não se intimidou em ter um heptacampeão atrás de si em duas relargadas. A Mercedes deu mostras que está em viés de alta não apenas para esse final de campeonato, como também para 2023, o que pode significar um ressurgimento da equipe comandada por Toto Wolff, que no momento mantém harmonia entre seus pilotos. O mesmo não se pode ser dito pelas outras equipes.

Abraços!

João Carlos Viana

JC Viana
JC Viana
Engenheiro Mecânico, vê corridas desde que se entende por gente. Escreve sobre F1 no tempo livre e torce pelo Ceará Sporting Club em tempo integral.

2 Comments

  1. Your article helped me a lot, is there any more related content? Thanks!

  2. Fernando Marques disse:

    JC Viana,

    sem duvidas a corrida foi animada e nem precisou da chuva pra trazer as imprevisibilidades que sempre acontecem em Interlagos.
    Corridaço do Russel e do Hamilton. Le cleck e Alonso andaram super bem tbm.

    Só que uma coisa me chamou a atenção. O Verstappen deve ter algum trauma ou muita inveja do Hamilton. Infelizmente Hamilton/Mercedes não formaram um conjunto forte em 2022 e sendo assim o Verstappen ficou bonzinho e tratatou apenas de acelerar e guiar seu RBR.
    Mas bastou ele ver as Mercedes forte em Interlagos e novamente tentou tirar o Hamilton da pista na marra. Se fosse outro piloto, não tenho duvidas que ele tiraria o pé e jamais forçaria a barra.

    Com relação ao Peres, vou ser sincero, se fosse ele reclamava da equipe e não do Verstappen. A queda rendimento dele no final foi grande e pra quem ainda briga por alguma coisa nesta temporada, vejo isso como algo inadimissivel.

    Ja em relação a Ferrari, não entendo as criticas em relação a decisão de não interferir na ordem de chegada de seus pilotos. Se antes ela interferia e todos achavam esportivamente errado, por que de criticar agora ela por não ter interferido … O Leclerck poderia até estar brigando pelo titulo se não tivesse cometido tantos erros na pista como cometeu esse ano. Ou no minimo vice campeão antecipado.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

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