Crônica do GP: Bahrein 2020

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Para quem me conhece, sabe que sou defensor do conceito de que o tempo é linear, mas a história é cíclica. Sempre há por aí acontecimentos históricos que se assemelham com algo já visto no passado, com vários graus de associação e também de (im)previsibilidade. Com o esporte isso parece ter ainda mais intensidade, pois se trata de uma das poucas “editorias” em que olhar para o passado é um exercício saudável – e recomendável.

Mesmo para quem assiste a F1 há pouco tempo, aquela bola de fogo logo aos 26 segundos de corrida não podia ser outra coisa senão algo muito, muito grave. Para confirmar ainda mais essas suspeitas, a direção de TV resolveu ficar longe daquele fogo todo. Nada bom.

VEJA AS IMAGENS DO ACIDENTE

Houve uma espera interminável até termos aquela cena de puro alívio ao ver Romain Grosjean (a esta altura já se sabia que o acidentado era ele), sentado no banco traseiro do Medical Car, com cara de assustado, mas inteiro. Só então, ao saber que ele estava relativamente ileso, tivemos a real noção do acontecido com sua Haas. Foi o tipo de acidente que pensamos que a F1 não iria mais vivenciar, ainda mais nesta fase de cuidado extremo com segurança e de Tilkódromos em que seria possível até mesmo promover corridas de caminhão-cegonha.

Graficamente falando, foi o acidente mais impactante desde que Gerhard Berger passou reto na Tamburello e incendiou sua Ferrari no GP de San Marino de 1989. Desde aquela ocasião a F1 não experimentava um acidente com incêndio por impacto. E as associações com o passado começam aí.

RELEMBRE A BATIDA DE BERGER EM 1989

No de Berger, o fogo foi debelado em 16 segundos, para, apenas depois disso, o austríaco ser retirado do carro. Já no caso deste domingo, Grosjean ficou exposto às chamas por 28 segundos e teve que sair sozinho, literalmente através do fogo e sem enxergar muita coisa, já que a viseira do capacete derreteu parcialmente e ficou carbonizada, tal como no acidente de Niki Lauda em Nürburgring em 1976.

Estes 28s viraram a capa do L’Equipe, uma daquelas que todo mundo vai lembrar quando aparecer pela frente.

Uma coisa é possível garantir: para explodir um F1 assim, só um impacto envolvendo quantidade absurda de energia. Tanto que o carro partiu em dois, no ponto de fixação do motor ao chassi, tal como no acidente de John Watson em Monza 1981.

RELEMBRE WATSON RACHANDO O CARRO AO MEIO EM MONZA 81

Grosjean estava a aproximadamente 230 a 250 km/h no momento do impacto. Esta fratura principal, inclusive, foi responsável por dissipar uma quantidade considerável de energia na hora do impacto. Imaginem se todo o peso do carro se enterrasse no rail. Esta fratura, portanto, foi determinante para que Grosjean pudesse ficar consciente dentro do carro e com possibilidade de sair sozinho daquelas chamas.

Ainda assim, estamos falando de uma senhora pancada que teve pico de 53 Gs: uma desaceleração de impressionantes 519 metros por segundo, sem lesões graves e sem qualquer osso quebrado – foi descartado fratura de costelas. O recorde de Gs envolvendo um acidente em F1 ainda é de David Purley, Silverstone 1977.

Nos treinos, Purley bateu sua Lec-Ford literalmente de frente a um rail encostado num barranco quando o acelerador travou. A batida foi de inacreditáveis 179 Gs, mas resultou em uma série de ossos quebrados e um enorme tempo de recuperação, para um piloto que não voltaria mais para a F1. E houve caso pior, quando Kenny Bräck rasgou todos os livros de recordes ao experimentar 214 Gs e sobreviver a seu acidente da etapa do Texas em 2003. É até hoje a maior (des)aceleração experimentada por um ser humano.

RELEMBRE O ACIDENTE DE BRACK EM 2003

Caso Grosjean tivesse sido nocauteado dentro do carro, não morreria queimado como Roger Williamson em Zandvoort 1973 ou Lorenzo Bandini em Monte Carlo 1967, dado que o uniforme de hoje aguenta vários segundos expostos à combustão. A principal preocupação seria de danos severos aos pulmões pela aspiração de gases venenosos, combinados à falta de oxigênio disponível – fator que quase levou Lauda à morte e que acabou sendo determinante no falecimento de Elio de Angelis em seu acidente durante testes em Paul Ricard 1986.

Já é consenso apontar que o halo foi fator determinante para que Grosjean sobrevivesse. E não há como negar, isso seria brigar com os fatos. A ausência do dispositivo ia causar dano semelhante ao sofrido pelo pobre Helmuth Koinigg em Watkins Glen 1974. Ele bateu em um rail a relativa baixa velocidade, mas a precária estrutura de baixo cedeu, enquanto a de cima manteve-se firme, transformando o local em uma guilhotina assassina.

Certamente vai haver algum dedo inquisitório contra mim, já que sempre fui contra a adoção do dispositivo. Vamos então separar as coisas.

Acidentes, graves ou não, tem sempre que deixar como legado a busca por aprimoramentos e a não-repetição dos eventos. Então, é dever imediato da F1 e FIA abrir uma extensa investigação que tenha foco principalmente no uso de guard-rail em saídas para carros de serviço, como foi o caso do ponto de impacto de Grosjean.

ENTREVISTA COM A EQUIPE DO MEDICAL CAR

Parecia que o rail tinha sido atingido por um míssil, o monocoque abriu um rombo. Claro, nenhum rail é construído para suportar tamanha pancada. A esperança é que sejam instalados mais trechos com softwall, sobretudo as Safer Barrier usados nos Estados Unidos, que impedem de haver rombos na estrutura. O carro bate, o muro absorve boa parte do impacto, e ele se arrasta no muro ou é repelido por ele – sem explosões, sem carros partidos ao meio.

É neste ponto que posso dizer que continuo contra o dispositivo – ao menos como ele é apresentado, sem qualquer harmonização com o desenho do monocoque. Se o local do impacto tivesse dotado de Safer Barrier (como agora fica lógico pensar), o halo não teria esse papel preponderante. O acidente só teve tal gravidade porque o ponto de impacto foi um guard rail que não foi projetado pra uma carga como aquela. 

Mais: o halo, como é colocado hoje, se tornaria um grande empecilho a um resgate rápido a Grosjean caso ele tivesse desmaiado no carro. Daí cairíamos naquela situação de asfixia que tanto me preocupa, já que não houve um combate ao fogo tão rápido quanto no caso de Berger em Imola, por exemplo.

Então o halo foi herói do dia. Mas poderia ter sido vilão. E se não houvesse rail ali, insisto, não precisaríamos dele.

Grosjean simplesmente não viu a Alpha Tauri de Daniil Kvyatt junto a sua roda traseira. Parece bem claro que foi típico caso de ponto cego no espelho retrovisor. Claro, foi uma manobra imprudente, mas houve ali também o componente do infortúnio. Quando falamos de F1 na pista, tudo é dinâmico demais. O que podemos classificar como sorte, no entanto, foi de Kvyatt não ter se enroscado com a Haas de Grosjean. Caso isso tivesse acontecido, os dois iriam em direção ao rail, com praticamente o dobro de energia cinética.

Não quero nem imaginar o que teria sido. Mas a palavra “hecatombe” me vem à cabeça.

 

Mas ainda houve uma corrida inteira depois de tudo isso. Bem, não sem outro susto, bem menor, quando Lance Stroll viu o mundo ao contrário ao fechar a porta de Daniil Kvyatt de modo pouco prudente. Sua Mercedes Rosa virou, o piloto saiu de dentro do carro e agora sim, à corrida.

E nada a declarar senão o que interferiu na situação de normalidade e previsibilidade. Valtteri Bottas continua a afundar-se em largadas hesitantes. Nas duas (pré e pós Grosjean) houve perda de terreno, sendo que na segunda ainda rolou pneu furado para piorar ainda mais as coisas. Apesar de ter carro pra muito mais, não passou da oitava posição.

Na dianteira, Lewis Hamilton mais uma vez teve apenas que administrar sua vantagem para Max Verstappen, que simplesmente não tem carro para disputar a ponta. O último lugar do pódio foi decidido pela quebra da Mercedes rosa de Sergio Pérez, a poucas voltas do fim, abrindo vaga para Alex Albon, em recuperação com a outra Red Bull.

 

Hamilton segue sendo o melhor de sempre. Mas é o melhor de todos? A dica é assistir o vídeo do meu irmão Marcel Pilatti, em seu canal História & Esporte.

Após as boas notícias sobre Grosjean e sua evolução no hospital, a Haas confirmou que seu piloto reserva será substituto do francês na próxima corrida.

Trata-se de Pietro Fittipaldi, o quarto com este sobrenome a correr de F1. Sim, o Brasil volta a ter, ainda que provisoriamente, um piloto na F1.

RELEMBRE TODOS DA FAMÍLIA FITTIPALDI NA F1

Equipe Hill em Silverstone, 1975. Graham com seu staff e o piloto Tony Brise dentro do modelo GH1

O domingo marcou 45 anos desde a irreparável perda de Graham Hill, certamente um dos grandes do esporte a motor. O acidente aéreo que ceifou sua vida, num pequeno avião particular, também acabou com sua equipe Embassy Hill e seu piloto principal, o promissor Tony Brise.

A morte de Hill, em 29 de Novembro de 1975, deixou a família Hill em séria situação financeira. É por isso que muito valorizo o título de Damon em 1996. Ele pode ter passado longe de ser apontado como um grande talento e realmente ganhou com um grande carro nas mãos.

Mas Damon foi um competidor tenaz, um esportista dotado de extremo cavalheirismo e que carregou o nome Hill nas costas apenas com toda carga de responsabilidade que isso trazia, sem qualquer benefício a seu favor. Seu pai Graham não lhe deu equipe, não trouxe patrocinadores, não fez contatos importantes – apenas lhe deu um sobrenome de campeão. Damon foi em frente, não apenas carregando seu forte sobrenome, como seu capacete icônico. E chegou lá.

Quando o fantástico narrador Murray Walker confessou estar “com um nó na garganta” (lump in my throat) ao narrar a bandeirada do título para Hill, no GP do Japão de 1996, era em toda essa história que ele estava pensando.

Não se enganem, o título de Hill aquele ano teve um enorme peso. Dentro de uma temporada que poucos apontariam como favorita, aconteceu uma grande vitória de vida, de pai para filho.

E felizmente, 45 anos depois, este 29 de novembro de 2020 que vivemos e testemunhamos foi marcado por sobrevivência e não por tragédia.

Abração!

Lucas Giavoni

Lucas Giavoni
Lucas Giavoni
Mestre em Comunicação e Cultura, é jornalista e pesquisador acadêmico do esporte a motor. É entusiasta da Era Turbo da F1, da Indy 500 e de Le Mans.

4 Comments

  1. Simplesmente tocante a história de Damon Hill. Muitas vezes tratado como exemplo de campeão sem merecimento, ou de como o carro é mais importante que o piloto. Porém, poucos passaram pelo trauma de Damon, enfrentou sérias dificuldades e chegou a vinte vitórias na F1.

  2. Fernando Marques disse:

    Lucas,

    estou em quase total concordância com a sua coluna a respeito do GP do Barein … quase por que apesar de achar feio a sandália havaiana sempre achei ela necessária … houve eventos trágicos que levaram ao uso dela … e que possivelmente com ela teria evitado vitimas como o filho de Surtes e o Justin Wilson na Indy …


    Bem a meu ver não só o halo que salvou a vida do Grosjean … o macacão e capacete deram suporte para que ele saísse vivo das chamas … sei lá, o fato do carro ter partido ao meio pode ter amenizado a força do impacto … o trabalho do medico resgate e equipe de socorro foram importantes (um direcionou o extintor em direção ao Grosjean no meio das chamas e o outro no próprio francês e medico pois os macacões poderiam estar se incendiando, fruto de muito treinamento e frieza para lidar com estas situações em momento reais) … ou seja todo dinheiro que a Formula1 tem usado, e que nunca foi pouco, em pró da tecnologia e da segurança dos carros pilotos foram testados e aprovados neste acidente.


    A imagens são chocantes. Desde o acidente de Berger não se vê um acidente na Formula 1 envolvido em chamas. Possivelmente este GP do Barein dificilmente será esquecid.


    O grande vencedor da corrida foi o Hamilton. O grande vencedor do fim de semana foi Grosjean.
    O maior perdedor deste fim de semana foi mais uma vez o Valtery Bottas … não está conseguindo dar uma certa dentro
    Mas o Kuyat deve estar pensando nos acidentes que se envolveu. No de Grosjean (sem culpa) e no capotamento do Strol (segundo os comissários culpado) … fim de semana para se esquecer …


    No mais como diz o ditado há males que vem para o bem … por causa das sequelas da batida, Grosjean não participa da próxima corrida e Pietro Fittipaldi enfim poderá estrear na Formula 1 como piloto titular e não reserva como era. Ao menos por uma corrida teremos um brasileiro para poder torcer na Formula 1

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  3. Carlos Chiesa disse:

    Concordo integralmente com sua opinião sobre o halo. Excelente a homenagem aos Hill, pai e filho.

  4. Mauro Santana disse:

    Belíssimo texto, meu irmão!

    Ontem foi um GP que nos trouxe várias lembranças, como você muito bem descreveu acima, e que felizmente com um final feliz.

    Grande abraço!!

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