Amor de pai 1

MotoGP 2020: O campeão é Joan Mir, de Suzuki
24/11/2020
Crônica do GP: Bahrein 2020
30/11/2020

O favorecimento de familiares e amigos por parte daqueles que tem poder para tal é uma prática tão velha quanto a própria civilização. Algo que não nos deve nem pode de jeito nenhum surpreender, pois perante a possibilidade de aproveitar uma boa oportunidade e em condições de poder recorrer à ajuda de um familiar para lograr nosso objetivo, duvido que qualquer um de nós renuncie a essa possibilidade.

Na história temos muitos casos flagrantes desse favoritismo e que terminaram por fazer que isso fosse visto como algo desprezível e imoral. Porém, os casos que terminaram por dar nome a essa conduta teriam lugar nas mais altas esferas da Roma renascentista, sendo alguns Papas seus protagonistas. Perante a ausência de filhos (seu voto de castidade lhes impedia deixar descendência), chegou a ser comum que seus sobrinhos fossem os beneficiários de seus favores (ainda que em algum caso se tratasse realmente de filhos que eram apresentados como sobrinhos). Como exemplo, temos o caso de Alonso Borja que, sendo já Papa sob o nome de Calixto III, promoveu seu sobrinho Rodrigo ao cardinalato e que pouco depois também chegaria ao papado com o nome de Alexandre VI. Este, por sua vez, promoveria ao purpurado Alessandro Farnese, irmão de sua amante Giulia, quem terminaria também sendo Papa sob o nome Paulo III, quem, uma vez mais, designaria a seus dois “sobrinhos” (realmente eram seus netos) ainda adolescentes como cardeais.

Tão escandaloso favoritismo pelos “sobrinhos”, terminaria sendo popularmente conhecido como “Nepotismo”, termo tendo sua origem na palavra latina “nepos” que significa sobrinho, e se aplica desde então a todo tratamento de favor no âmbito familiar.

A Fórmula 1 tampouco está isenta dessas práticas “nepotistas”, que tão pouco entusiasmo desperta nos aficionados, ainda que essa repugnância não se manifeste sempre, nem de igual maneira. Um dos casos que atualmente mais controvérsia vem suscitando é o do jovem piloto canadense Lance Stroll.

Lance se uniu à equipe Williams em 2016 como piloto de testes, passando a ser titular em 2017, com apenas 18 anos de idade. Desde o principio, foi visto como típico filho de papai, sem cujo dinheiro nunca teria desfrutado da oportunidade que se lhe brindava. Essa percepção não estava longe da realidade, pois sem os 80 milhões que seu pai Lawrence Stroll pagou à Williams, quem sabe onde estaria Lance agora… Ou a própria Williams!

Contudo, desde sua tenra juventude, Lance vinha mostrando ter qualidades e seu histórico nas categorias de acesso assim o confirma. Ele se iniciaria nos monopostos com apenas 15 anos de idade na Florida Winter Series, com dois pódios e três 4os lugares, enfrentando pilotos como Antonio Fuoco, Max Verstappen e Nicholas Latifi (outro também criticado pelo apoio econômico que o pai lhe presta).

Verstappen seria promovido à Fórmula 1 com a equipe Toro Rosso em 2015, tendo como resultado mais destacado um  terceiro lugar no Europeu de Fórmula 3 do ano anterior, com menos experiência portanto do que Lance e sem haver conquistado nenhum título nas categorias inferiores. Lance naquele mesmo campeonato em 2015 seria o 5º classificado, sendo junto a Charles Lecrerc os “Rookie Winners” do ano, com 10 e 9 vitorias respectivamente.

Recapitulando, vemos que Stroll, após sua participação na Florida Winter Series, competiria e venceria o campeonato italiano de Fórmula 4 de 2014 com 7 vitórias e 13 pódios em 18 corridas. Em 2015, levantaria a taça de campeão na Toyota Racing Series, com 4 vitórias e 10 pódios em 16 corridas. Finalmente, em 2016, ganharia o campeonato europeu de Fórmula 3, com 14 vitórias e 20 pódios em 30 corridas. Assim, creio que Lance cumpria as condições para entrar na Fórmula 1, mesmo que fosse com a “ajuda” do pai.

E falando em ajuda de pai, antes já tivemos casos em que a ajuda do progenitor ou da família foi crucial, caso, por exemplo, de Élio de Angelis, sem cujo suporte econômico do pai, não teria chegado longe. Seu pai Giulio, grande aficionado à competição, sempre levava Élio e seus irmãos Roberto e Andrea às corridas. Com seu apoio, os três ganhariam o campeonato nacional italiano de kart, mas Giulio decidiu que só Élio, por ser o mais velho, seguiria na competição, garantindo deste modo a continuidade do negócio familiar se o pior lhe acontecia.

Assim, e depois de três temporadas nos karts, Élio passa aos monopostos em 1977, consagrando-se campeão italiano de Fórmula 3, sendo também 7º classificado no campeonato europeu, com 4 vitorias (Nelson Piquet seria 3º com 2 vitórias ), com um Chevron bancado pelo pai. Em 1978, Élio participa em vários campeonatos, ainda que só consiga uma vitória no britânico de Fórmula 3, e um 3º lugar no europeu de Fórmula 2. Finalmente, em 1978, surge a oportunidade de entrar na Fórmula 1, ainda que Élio não cumprisse as condições necessárias para obter a super licença da FIA que o habilitava para tal, licença que obteria graças à intervenção da federação italiana.

Para então, Bernie Ecclestone, põe o segundo carro da Brabham à disposição do melhor licitante e, no fim, seriam Élio e Piquet os que disputariam o lugar na equipe. Quando parecia que esse lugar seria para Élio, mercê aos 300 mil dólares oferecidos por Giulio, aparece a Brahma e aumenta a oferta, sendo Piquet o “escolhido”. Mas Giulio não se rende e entra em contato com a Shadow, chegando logo a um acordo com Don Nichols pelo qual seu filho correria a razão de 25 mil dólares por GP. Élio conseguiria chamar a atenção de Colin Chapman e de David Thieme, o extravagante milionário que patrocinava a Lotus e com quem Élio logo se deu muito bem, possibilitando ao italiano formar parte da sua equipe já para 1980, o que lhe permitiria prescindir da ajuda do pai.

Também poderíamos citar o caso de Peter Revson, piloto que também teve sua oportunidade de mostrar o talento que entesourava graças à fortuna familiar conseguida pelo pai, Martin Revson, que junto ao seu irmão Charles e a outro sócio fundaram a Revlon, que se converteria num verdadeiro império no mundo da cosmética. Como de Angelis, Revson nunca teve que trabalhar para ganhar seu próprio sustento, podendo dedicar-se sem restrições à sua paixão pelo automobilismo graças aos vastos recursos financeiros da família.

É certo que o pai de Revson, depois da morte do seu filho mais jovem Doug, num acidente durante uma corrida na Dinamarca (Doug também havia se dedicado ao automobilismo, tentando emular o irmão), decide deixar de apoiar a carreira de Peter, pois não queria perder outro filho. Porém e apesar das desavenças com o pai, Peter não tinha inconveniente em seguir “usando” os recursos familiares, pois continuava a promover os produtos da Revlip, uma das companhias do pai, com o conseguinte benefício que isso representava.

Assim, Peter segue adiante usando o fundo que o pai lhe havia habilitado para arcar com os custos dos seus estudos, além de se “deixar ajudar” pela mãe, já divorciada do marido, até estabelecer uma reputação sólida como piloto, chegando em um determinado momento que o apoio financeiro da família já não era necessário.

Tampouco podemos esquecer a Lando Norris, quem também sempre desfrutou do apoio incondicional do seu pai Adam Norris, muito bem sucedido no negócio das pensões e que com apenas 33 anos já era diretor de uma das mais importantes companhias do ramo. Em 2010 Adam fundou sua própria empresa, a Horatio Investments, cujo crescimento é constante desde então e que, entre outros negócios, se ocupa de apoiar a carreira do filho.

Esse apoio, uma vez mais, deixou em Lando o estigma de ser outro “Pay Driver” filho de papai, pois seus críticos até destacavam o fato de que, mesmo competindo na Fórmula 3, já dispunha de cozinheiro e de fisioterapeuta próprios. Contudo, Lando mostrou logo talento nas pistas de kart, vencendo o mundial de 2014, convertendo-se no campeão mais jovem, com apenas 14 anos.

Lando continuaria sua triunfal carreira, sendo 3º em sua primeira aproximação aos monopostos no campeonato Ginetta Junior desse mesmo ano, para já no ano seguinte ganhar o campeonato MSA. Em 2016, venceria os campeonatos da Fórmula Renault e a Toyota Racing Series. Em 2017 seria o campeão europeu de Fórmula 3 e em 2018 vice-campeão de Fórmula 2. Como vemos, tanto Lance quanto Lando apresentavam históricos melhores que os de Verstappen, quando entraram na formula um (inclusive o do também desprezado Latifi é melhor).

Concluo em nosso próximo encontro

Manuel Blanco

P.S.: Dedico esta coluna à memória de meu pai e à de todos os pais!

Manuel Blanco
Manuel Blanco
Desenhista/Projetista, acompanha a formula 1 desde os tempos de Fittipaldi É um saudoso da categoria em seus anos 70 e 80. Atualmente mora em Valência (ESP)

2 Comments

  1. Mauro Santana disse:

    Show Manuel!

    Essa da Brahma bancar a vaga do Piquet na Brabham, eu desconhecia.

    Que venha logo a sequência!

    Abraço!

  2. Fernando Marques disse:

    Manuel Blanco,

    será que o Brasil teve um piloto tipo “Pay Driver”

    Fernando Marques
    Niterói RJ

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *