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O ano de 1982 foi um ano bem difícil para a Fórmula 1, a sucessão de fatos ocorridas ao longo do ano foram marcadas por tragédias, brigas e polemicas, esse ano é considerado até hoje como um dos anos mais difíceis da categoria.

1982 começa com uma briga entre a FOCA e a FIA pelo poder, que motivou a primeira greve dos pilotos da categoria nos treinos para a corrida na África do Sul, no mês de maio nos treinos para a corrida belga em Zolder o canadense Gilles Villeneuve perde sua vida num terrível acidente

Naquele ano o fundador da Lotus, o inglês Colin Chapman é acometido de um ataque cardíaco e em 16 de dezembro ele falece, tido como um dos mais geniais chefes de equipe e projetista de sua geração, Chapman trouxe ao longo dos anos inovações para os carros de corrida e foram as soluções que esse gênio criou ou capitaneou que possibilitou em boa parte a ascensão dos “garagistas” no mundo da Fórmula 1

A equipe Lotus original, que competiu na F1 entre 1958 e 1994, carrega muito carinho para os fãs do esporte, em minhas recordações a Lotus é a minha primeira equipe favorita do grid.

Durante este período, seu nome foi indiscutivelmente o mais forte em Grandes Prêmios ao lado da Ferrari.  Enquanto a equipe italiana era conhecida por seus motores potentes.  A Lotus era a equipe mais inovadora do grid, estabelecendo uma reputação por construir carros simples e leves com soluções arrojadas e inovadoras, principalmente no campo da aerodinâmica.

Durante sua existência na F1, aqui estamos computando a fase entre 1958 até 1994, a Lotus participou de 491 corridas, ganhou 79 corridas, 6 campeonatos mundiais de pilotos e 7 de construtores, sem contar o sucesso nas 500 milhas de Indianapolis nos anos 60 e na categoria de turismo britânica.

Na década de 1990, sérios problemas financeiros e a falta de patrocínio levaram ao fim da Lotus.

Foi uma tragédia dada sua rica história. Mas como eles chegaram a esse ponto?

A perda de seu fundador Colin Chapman foi o golpe que os matou?

Eles foram gradualmente ultrapassados por equipes mais enxutas e eficientes?  As demandas financeiras de pilotos como Ayrton Senna e Nelson Piquet foram demais?

Mesmo depois da morte de Chapman em dezembro de 1982, a equipe Lotus tinha muito dinheiro em caixa e um bom plantel de patrocínios, excelentes pilotos e alguns dos melhores motores, mas o sucesso anterior nunca rendeu uma participação efetiva como uma equipe postulante a um título

Embora tenha havido mais sete vitórias em corridas durante o período de 1985 a 1987, o melhor que conseguiram durante esses anos foi um distante 3º lugar no Campeonato de Construtores.

Então, ao longo de seus anos de crepúsculo no decorrer da década de 1980 em diante, eles foram aos poucos percorrendo uma ladeira abaixo até a extinção da equipe.

Levantar o que levou uma equipe tão relevante na história a essa situação mostra uma somatória de infortúnios, não existindo um único motivo.

Pouco antes de sua morte, Colin Chapman havia construído uma nova sede e fábrica em meio ao esplendor gótico de Ketteringham Hall, essa fábrica era dotada com o que havia de mais moderno para a época.

Apesar da perda trágica, a família de Chapman sentiu que era importante continuar participando do automobilismo, embora isso significasse que mudanças seriam necessárias.  A F1 estava se tornando cada vez mais competitiva com o surgimento de uma nova geração de pilotos como Alain Prost e Nelson Piquet, junto com motores turboalimentados de pesos pesados ​​da indústria automotiva, como Renault, BMW, Porsche até a Ferrari havia mudado de opinião e já contava com sua unidade turbo, esses motores elevaram os níveis de potência a alturas inimagináveis.

Paralelamente a isso, novas regras foram implementadas para 1983 que baniram a aerodinâmica do efeito solo, que a Lotus introduziu no esporte em 1977, esse golpe seria ainda mais sentido dado o vasto conhecimento que Chapman possuía nessa área e que não estaria disponível.

Este foi um momento divisor de águas porque colocou uma ênfase maior na geração de downforce via a parte superior do carro carroceria e asas, que eram menos eficazes do que os gerados pelo efeito solo.  Portanto, foi necessário que as equipes intensificassem suas operações em túneis de vento para extrair ganhos aerodinâmicos menores.

Resumindo, a F1 estava mudando de direção no início de 1983 em mais de uma maneira, a Lotus empregou designers talentosos como Gerard Ducarouge e Frank Dernie, eles construíram bons carros, ficava a sensação que a Lotus sobreviveria no admirável mundo novo da F1 sem a figura icônica de Chapman.

Peter Warr foi o homem elevado à posição de chefe da equipe após a trágica morte de Chapman, para isso houve a intervenção direta da viúva de Chapman, Hazel, que o convenceu a assumir esse papel.  Nos anos 60 Warr era oficial do Exército britânico, ele foi nomeado por Colin Chapman no final de 1969 como Gerente de Competições da Equipe Lotus na F1.

Ele ingressou na empresa inicialmente como a missão de promover e vender ativamente os produtos da empresa, lembrando que a Lotus vendia seus chassis nas fórmulas de base e para umas poucas equipes privadas na Fórmula 1.

Tendo se saído bem e rápido nesse papel, Chapman o elegeu seu braço direito também na equipe de Fórmula 1, Peter Warr foi um dos principais arquitetos por trás do Campeonato Mundial de Jochen Rindt e Emerson Fittipaldi na Equipe Lotus em 1970 e 1972, respectivamente.

No final de 1976, Warr deixou a equipe Lotus para se juntar à nova equipe criada pelo magnata canadense do petróleo, Walter Wolf.

Ele gerenciou um primeiro ano de sucesso na equipe Wolf, no qual Jody Scheckter venceu três corridas e disputou o Campeonato Mundial.  A sorte de Wolf enfraqueceu e, no final de 1979 na venda do espolio da Wolf para a equipe Fittipaldi ele se une aos irmãos Fittipaldi.

Em meados de 1981, Fittipaldi estava se encaminhando para a concordata e Chapman atraiu Warr de volta à Lotus, onde se tornou gerente de equipe em 1982, após a saída de Peter Collins.

Colin Chapman tinha muito respeito por Warr.  Ele costumava falar que o momento em que Warr se juntou a Wolf como sendo uma fase “tirando uma licença de férias”.

Peter Warr assumiu o papel de chefe da equipe, onde sua primeira responsabilidade seria motivar a equipe devastada. Warr lembrou mais tarde a situação que enfrentou na época, ele mencionou: “A única coisa que eu precisava era de uma carta branca para recompor o time, havia uma centralização enorme por parte de Colin no cotidiano da equipe e todos sentiam a sua falta”.

Com carta branca e mão firme Warr ajudava a equipe a voltar para normalidade, era uma questão diferente se ele possuía a visão do pai fundador da Lotus para levar a equipe adiante no longo prazo.

Além disso, na equipe Lotus aconteceu outra mudança importante, uma envolvia a promoção de Fred Bushell que se tornou presidente da Lotus. Fred era o responsável pelo setor financeiro e cuidava das finanças da empresa desde a década de 1960, a presença dele permitiu que Chapman e Warr se concentrassem na produção e nas competições esportivas do negócio, o danado é que a visão de Fred era muito voltada ao lado financeiro e ele diferente de Chapman tinha a mão firme para não gastar além do necessário.

Um outro ponto era que um dos principais pilares do sucesso da Lotus desde 1967 foi o uso do motor Cosworth DFV, que se tornou onipresente no esporte, todo garagista que se prezava e cresceu na Fórmula 1 usava esse motor.

No entanto, isso também mudaria em 1983, onde para a surpresa do paddock da F1, a Renault anunciou que forneceria à equipe Lotus seu motor turbo.  A Renault introduziu turbo na F1 em 1977, naquela altura da década de 80 acreditava-se que a Renault era a líder desta revolução turbo. A parceria Lotus / Renault foi bem oportuna porque a Ferrari havia vencido o Campeonato de Construtores de 1982 com seu carro turboalimentado, batendo as equipes britânicas de “garagistas”, como a Lotus, em seu próprio jogo ao construir um chassi eficaz.

A adoção de motores turbo se tornou preocupante para a Lotus e os outros “garagistas” britânicos.

Para a Renault o fornecimento também fazia sentido, fornecer a Lotus daria a eles uma chance maior de vitória e mais oportunidades de desenvolver o que até então era um motor não confiável.

No entanto, para o início de 1983, o segundo carro da Lotus permaneceria movido pelo motor Cosworth DFV aspirado, devido à falta de disponibilidade da Renault

A combinação de todos esses fatores estava no tabuleiro do jogo no início da temporada de 1983, e os seus desdobramentos na equipe Lotus é o que vamos abordar na minha próxima coluna, dia 14/2.

Até lá!

Mário

Mário Salustiano
Mário Salustiano
Entusiasta de automobilismo desde 1972, possui especial interesse pelas histórias pessoais e como os pilotos desenvolvem suas carreiras. Gosta de paralelos entre a F1 e o cotidiano.

3 Comments

  1. Luciano disse:

    Sei que serei crucificado pelo que irei dizer, mas o que levou a equipe para um caminho sem volta foi a troca de Senna por Piquet em 1988. Piquet “entregava” muito menos (basta comparar as campanhas de ambos em 1987 e 1988 em condições muito semelhantes) e cobrava muito mais, drenando todos os recursos da equipe com um contrato discrepante dos demais à época. A equipe em 1988 ainda tinha o motor Honda e patrocínio da Camel. Se tivesse canalizado seus recursos para um bom projetista (e não o desastroso Gerard Ducarouge) e para o desenvolvimento do carro em geral, ao invés de pagar milhões a um piloto que, àquela altura, queria mais “curtir a vida” e forrar os bolsos que correr, andaria na frente e poderia até fazer frente à McLaren. Dali em diante, foi perdendo tudo ano após ano. Em 1989 perdeu o motor, em 1990 perdeu o piloto que levara seu dinheiro, e em 1991 o patrocínio.

  2. Lucia Agapito disse:

    Sensacional, Mario!
    Os carros da Lótus eram muito lindos. Acompanhei a era Colin Chapman, mas tinham alguns fatos aqui narrados que eu não conhecia. Já estou aguardando ansiosa a Parte II. Parabéns!

  3. Fernando marques disse:

    Mário,

    A Lótus para mim também é a preferida da Formula 1.
    Além das conquistas, do Emerson e do próprio Collin Chapman os carros mais bonitos da fórmula 1 saíram da garagem da Lotus.

    Lembrança oportuna e mais que merecida.

    Show de bola

    Fernando Marques
    Niterói RJ

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