Dia da virada

Foto-Legendas – A saga do Ford GT 40 em Le Mans
18/05/2022
Endurance
27/05/2022

Normalmente a expectativa para o Grande Prêmio da Espanha nunca é alta. O histórico da pista de Montmeló não é das melhores no quesito emoção, com corridas em sua maioria decidida na largada, com pouco ou nenhuma emoção ao longo de uma hora e quarenta minutos. Em 2022, com o novo regulamento e várias equipes estreando pacotes técnicos, vimos uma corrida mais movimentada do que o normal, mas bem longe de ser ‘espetacular’ ou ‘animadíssima’, como exclamou Sergio Maurício nas voltas finais desse domingo.

Mais do que o novo regulamento, o grande causador da agitada corrida em Barcelona foi o forte calor registrado hoje na Catalunha, com o asfalto chegando aos 50°C, causando um verdadeiro reboliço na estratégia das equipes.

Maior reboliço causou a Ferrari no campeonato, com a infeliz quebra de Charles Leclerc quando o ferrarista liderava impávido, praticamente entregando a vitória e a liderança do campeonato para Max Verstappen, que até receber a bandeirada, saiu da pista, discutiu asperamente com sua equipe via rádio e ainda contou com a ajuda de Sérgio Pérez para vencer pela terceira vez consecutiva e atingir a importante marca de 24 vitórias, colocando Max ao lado de ninguém menos do que Juan Manuel Fangio no ranking histórico de vitórias na F1. Mesmo com o neerlandês precisando de praticamente o triplo de corridas…

Tradicional local dos testes de pré-temporada da F1, Barcelona também é palco de vários novos pacotes técnicos das equipes, que chegaram à Espanha com várias novidades em seus carros. Quem chamou a atenção foi a Aston Martin, com um carro não apenas bem diferente do visto nas primeiras provas do ano, como bem parecido com o bólido da Red Bull.

Recentemente Lawrence Stroll tirou do time dos energéticos vários engenheiros, incluindo o atual diretor técnico da equipe verde, Dan Fallows. Antes dos carros irem à pista, a Red Bull chiou bastante, mesmo com o sinal verde da FIA. Bastaram os carros entrarem na pista para que a Red Bull diminuísse as reclamações.

Mesmo copiando um carro vencedor pela segunda vez em três anos, a Aston Martin não conseguiu sair da mediocridade atual.

Após a corrida em Melbourne, quando Leclerc venceu com imensa facilidade e Verstappen abandonou, havia um pensamento que a Ferrari partiria como grande favorita para o resto do campeonato, mas a Red Bull iniciou uma grande reação em Ímola, com um carro mais amigável com os pneus, além de muito forte nas retas. Verstappen venceu na Emilia-Romagna e em Miami, tirando pontos importantes de Leclerc. Mesmo tendo praticamente a mesma idade e terem sido renhidos rivais no kart, Verstappen e Leclerc tem níveis de experiência distintos na F1 e Max vem de uma disputa histórica para bater Hamilton e a Mercedes. Leclerc nunca esteve numa luta pelo título na F1, enquanto a Ferrari já encara um incomodo jejum de quinze anos.

Leclerc deu uma boa resposta sobre sua reação ao crescimento de Verstappen com uma bela pole e uma largada agressiva, onde se colocou bem na frente de Max, não dando chances ao piloto da Red Bull tentar algo na freada da primeira curva. Sabedor que a sua Ferrari trata pior os pneus do que a Red Bull, sem contar o calorão em Barcelona, Leclerc fazia uma prova cirúrgica, onde não forçou em demasia os pneus e ainda se viu numa ótima situação quando Verstappen cometeu um raro erro e saiu da pista na curva quatro. Max retornou bem no meio da briga entre a sensação George Russell e Checo Pérez. Porém, numa geração de pilotos que estão cada vez mais acostumados com o DRS, quando Max se viu sem o aparato em alguns momentos, o neerlandês explodiu, com várias reclamações via rádio. Por mais que estivesse mais rápido do que Russell, Max parecia impotente frente a boa velocidade de reta da Mercedes, não restando à Red Bull outra alternativa do que mudar a estratégia de Verstappen, o colocando numa estratégia de três paradas.

Enquanto isso, lá na frente Leclerc teve o luxo de postergar sua primeira parada e com a dupla da Red Bull se engalfinhando com um resiliente George Russell, o monegasco já abria 10s de frente. Podia ligar o rádio e colocar o braço para fora.

Porém, se Leclerc não sentiu a pressão de Verstappen, talvez a Ferrari tenha sentido o bafo da Red Bull em suas costas. Numa cena desesperadora, Charles gritou ‘no, no, no’ pelo rádio. Era a velha expressão de ‘no power’, um eufemismo para o motor que abriu o bico. Não restava nada para Leclerc fazer a não ser recolher seu carro aos boxes e lamentar um zero ponto no pior momento possível. Tendo se livrado de Russell na estratégia, Max Verstappen estava com o caminho livre para a sua terceira vitória consecutiva. Ou não? Provando ser um piloto mais de corrida do que de classificação, Pérez fazia outro prova sólida e após ataques infrutíferos a Russell, o mexicano não se furtou a deixar Max passar e ser Verstappen a atacar a Mercedes. Porém, quando foi solicitado o retorno, a Red Bull fez ouvido de mercador e não deixou Verstappen ceder a posição para Pérez, quando este tinha pneus em melhores condições. Na verdade, Christian Horner e seus blue caps pediram novamente para Pérez deixar Max ultrapassar e vencer, com um infeliz Pérez completando a dobradinha da Red Bull.

Com o infeliz abandono de Leclerc e três vitórias consecutivas, Verstappen transformou 49 pontos de desvantagem em seis pontos de vantagem, virando o campeonato e, sem nenhuma dúvida, estando num viés de alta frente ao piloto da Ferrari. Para piorar as coisas pelos lados de Maranello, mesmo correndo em casa Carlos Sainz teve outra corrida esquecível em 2022. Antes de Max sair da pista na curva 4, Sainz já havia passeado no local, só que perdendo ainda mais tempo e com o assoalho danificado, o espanhol esteve longe de fazer uma corrida de recuperação empolgante, só ficando em quarto por causa do problema com Hamilton no finalzinho da prova. Com os poucos pontos amealhados por Sainz, a Ferrari também perdeu sua imensa vantagem no Mundial de Construtores. E a visão de que a Ferrari tem a dupla mais sólida do grid vai caindo por terra.

Um dos pontos altos da corrida foi a disputa lado a lado de George Russell com Max Verstappen nas quatro primeiras curvas logo após a parada de ambos. Se antes a Mercedes tinha problemas de velocidade de ponta, em Barcelona esses problemas ficaram para trás e em ritmo de corrida, a Mercedes tirou muita da desvantagem que tinha para Red Bull e Ferrari. Provavelmente não será o suficiente para uma luta pelo título, mas beliscar uma vitória poderá acontecer em breve pelos lados de Brixworth.

Mas se para Russell tudo para dar certo, Hamilton está naquela de que ‘numa chuva de Xuxa no meu colo cai Pelé’. O multi-campeão largou bem, mas foi atingido por um animado Kevin Magnussen, que furou o pneu da Mercedes. Então Hamilton mostrou a todos seu estado de espírito, sugerindo à Mercedes um abandono para poupar o motor. Uma das grandes expectativas para 2022 é ver o comportamento de Hamilton sem um carro dominador e sua declaração via rádio nesse domingo mostrou que Lewis não está lidando muito bem com essa nova situação. Que se mostrou extremamente desnecessária! Hamilton fez uma corrida magnífica, pulando de 19º para quarto sem nenhuma intervenção de SC. Ele estava apenas 12s atrás de Russell quando seu Mercedes teve um problema de vazamento de água e Hamilton, que acabara de ultrapassar Bottas e Sainz, teve que abrandar o ritmo e se contentar com a quinta posição.

Porém, a bela corrida de Hamilton foi eclipsada por outra grande exibição de Russell, que subiu ao pódio e está num ótimo quarto lugar no campeonato, tendo um quinto lugar como pior resultado até o momento. Antes de melhorar seu carro, Hamilton primeiro terá que superar seu novo e motivado companheiro de equipe.

No calor quixadaense que fez em Barcelona, a maioria das equipes optaram por três paradas para seus pilotos, com exceção de Valtteri Bottas, que estava em quarto tendo visitado os pits duas vezes, antes de ser engolido por Sainz e Hamilton, com pneus novos. Ser o piloto mais experiente pela primeira vez na F1 de uma equipe está fazendo bem à Bottas, que lidera a Alfa Romeo num belo campeonato dos italianos, hoje com o melhor carro do pelotão intermediário. McLaren e Alpine ainda patinam com desempenhos irregulares dentro dos finais de semana, enquanto a Haas começa a perder o fôlego, o mesmo acontecendo com a Alpha Tauri, que se salvou com Tsunoda, num mau dia de Gasly.

A F1 vai para Monte Carlo com Max Verstappen se mostrando um piloto cada vez mais forte e sólido, mesmo com a Red Bull ainda apresentando alguns problemas aqui e ali. A Ferrari precisa de uma reação urgente e a próxima corrida não é das melhores para isso, com Leclerc tendo uma relação com sua corrida caseira bem parecida com o que Barrichello tinha com Interlagos e Jacques Villeneuve tinha em Montreal.

A virada de Max e da Red Bull pode se tornar decisiva rumo ao bicampeonato de ambos, mas com um regulamento novo a muito ainda a ser explorado, a F1 ainda poderá ver outras viradas ao longo de 2022.

Abraços!

João Carlos Viana

JC Viana
JC Viana
Engenheiro Mecânico, vê corridas desde que se entende por gente. Escreve sobre F1 no tempo livre e torce pelo Ceará Sporting Club em tempo integral.

2 Comments

  1. Fernando Marques disse:

    JC,

    sua análise sobre o GP da Espanha está excelente … sem se tratando de GP da Espanha até que a corrida foi legal e com certeza a melhor disputada nlá nesses ultimos anos … A RBR levantou poeira Ferrari e agora nós vamos saber pra que veio mesmo a Ferrari em 2022 … a Mercedes também melhorou muita coisa …
    Agora uma pergunt não quer me calar

    Leclerck líder até então me parecia muito soberbo nas suas palavras … e agora qual vai ser o discurso dele ?

    Domingo promete mutas emoções:
    GP de Mônaco de Formula 1
    GP da Italia na Moto GP
    500 Milhas de indianapolis

    Pra quem curte o cardápio está perfeito

    Fernando Marques
    Niterói RJ

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *