Driven, 20 anos

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Nos últimos dez anos, os amantes de automobilismo e cinema foram agraciados com dois clássicos instantâneos: Rush e Ford vs Ferrari. Os dois filmes baseados em fatos reais foram sucessos de público e crítica, com vários prêmios recebidos e de alguma forma sucedendo os míticos Grand Prix e Le Mans, filmados nos idos da década de 1960. Houve outros filmes baseados no mundo das corridas nesse intervalo de cinco décadas, como o bom Dias de Trovão, mas vinte anos atrás era lançado um filme que traumatizou boa parte dos fãs de automobilismo.

Driven ou, como foi batizado aqui, Alta Velocidade foi um filme baseado no mundo da Indy que gerou muitas expectativas para quem curte cinema e corridas, mas o filme é tão ruim, que acabou entrando para o folclore dos cinéfilos e também para os que gostam de automobilismo.

 

Sylvester Stallone era um dos produtores e a ideia inicial era que a película fosse baseada no mundo da F1, fazendo o veterano ator visitar várias corridas e negociar seriamente com Bernie Ecclestone, porém, naquela época a F1 e suas equipes eram tão fechadas quanto uma seita secreta, acabando por inviabilizar o filme. Ainda com o projeto na cabeça, Stallone cruzou o Atlântico e acertou que o seu novo filme fosse baseado no mundo da Indy. Provavelmente até hoje Bernie Ecclestone deve respirar aliviado de ter se livrado de tamanha bomba.

 

Driven foi filmado durante a temporada 2000 e lançado nos Estados Unidos em 27 de abril de 2001, chegando ao Brasil no dia 18 de agosto do mesmo ano. O filme tem um roteiro mais fraco que caldo de bila, como se diz no Ceará. Se você ainda não assistiu Driven, aviso que haverá spoilers a partir desse momento.

O jovem novato Jimmy Bly (Kip Pardue) surpreendeu o mundo da Indy e liderava o campeonato na sua metade, desbancando o piloto dominante Beau Brandenburg (Til Schweiger). Contudo, Bly era uma pessoa imatura, insegura e muito dependente do seu ambicioso irmão Demille Bly (Robert Sean Leonard). Quando Jimmy sofre um acidente e perde pontos preciosos, o dono de equipe, Carl Henry (Burt Reynolds), decide chamar seu antigo piloto Joe Tanto (Stallone) para ajudar Bly a segurar a onda. No meio disso tudo, Brandenburg briga com a sua noiva Sophia (Estella Warren) e logo em seguida ela cai nos braços de quem? Jimmy Bly. Enquanto Tanto tenta se aproximar de Bly, Sophia e Brandenburg fazem as pazes, deixando Bly furioso a ponto de pegar um carro da Indy e dar uma volta pelas ruas de Chicago com a naturalidade de quem vai dar uma voltinha na Av Beira-Mar aqui na capital alencarina. Tanto tem uma conversa bastante ‘produtiva’ com Bly após literalmente correr atrás do companheiro de equipe com outro carro da Indy e ambos se tornam bons amigos, mas de forma surpreendente Carl Henry saca Tanto da próxima corrida na Alemanha, colocando o antigo piloto, o brasileiro que fala espanhol Memo Moreno (Cristian de la Fuente). Memo acaba sofrendo um sério acidente e é salvo por Bly e Brandenburg, que também se tornam amigos. Na última corrida em Detroit, Bly derrota Brandenburg por pouco e é campeão em seu primeiro ano, deixando todos felizes para sempre. Sensacional, não?

Driven nem de longe empolgou e foi um fracasso de público, rendendo prejuízos à produtora. Com personagens rasos, diálogos cheios de clichês e uma história fraca, o filme foi uma grande decepção para os fãs de corrida. As cenas de ação eram tão inverossímeis, que acabavam sendo grotescas. A produção pecava a cada minuto do filme, com cenas de corrida em circuitos de rua, mas com carros acertados para ovais. E vice-versa. Carros que acabavam de se envolver em acidentes apareciam intactos na cena seguinte. E falando em acidentes… As várias cenas de acidentes foram o ponto fraco de um filme demasiadamente fraco. Os ‘acidentes’ desafiavam todas as leis da física e da gravidade, gerando cenas absolutamente toscas e que simplesmente não enganava a ninguém, muito menos assustar ou emocionar.

Apesar de baseado no mundo da Indy, Driven tinha muitas referências à F1 da época. O personagem de Beau Brandenburg era claramente inspirado em Michael Schumacher, o senhor absoluto das pistas na época, enquanto Carl Henry era tetraplégico, numa referência à Frank Williams. Porém, como tudo em Driven foi mal-feito ou excessivamente exagerado, ambos os personagens ficaram bastante caricatos e longe das pessoas que a inspiraram. Uma curiosidade foi que Maurício Gugelmin emprestou seu capacete e macacão para que Stallone desse vida a Joe Tanto, o piloto que cantava em momentos de pressão…

Jimmy Bly usou o equipamento de Mark Blundell e Juan Pablo Montoya emprestou sua indumentária para Brandenburg, piloto inspirado em Schumacher e no qual o colombiano se tornaria grande rival tempos depois na F1. No filme apareceram outras figuras carimbadas da Indy na época, como Mario Andretti, Kenny Brack, Adrian Fernández, Max Papis, Roberto Moreno e Tony Kanaan.

Como esperado, Driven foi bombardeado pela crítica. O site Rotten Tomatoes deu nota 4 (De 0 a 10) e disse que o filme ‘tem personagens subdesenvolvidos, dinâmica de enredo tola e cenas óbvias’. O filme foi agraciado com sete indicações ao prêmio Framboesa de Ouro, o anti-Oscar, incluindo de Pior Filme, Pior Diretor, Pior Roteiro e até mesmo de Pior Casal de Cinema (Reynolds e Stallone???).

Anos depois, Sylvester Stallone se diria arrependido de ter participado de Driven.

Você há de perguntar: João, não tem nada de bom em Driven? Eu respondo que sim: a bela atriz Estella Warren (longo Suspiro).

 

 

Foi com certo temor que os fãs de automobilismo receberam Rush em 2013. Ele seria uma nova bomba como havia sido Driven? Por sorte, o filme baseado na épica temporada de 1976 de F1 correspondeu positivamente e logo depois surgiu o excepcional Ford vs Ferrari para confirmar a redenção dos filmes baseados em corridas. Tanto que já está em produção um filme biográfico de Enzo Ferrari, baseado no ótimo livro ‘Ferrari, o homem por trás das máquinas’.

Vinte anos após seu lançamento, Driven ficou marcado como uma pisada de bola de Hollywood com os fãs de automobilismo. Se a F1 escapou de Driven por ser excessivamente fechada, mas ao mesmo tempo espantou produtores com seus segredos, a categoria aprenderia a lição com Drive to Suvirve e abriria suas portas para uma produção de muito sucesso. Passados tantos anos do seu lançamento, Driven é hoje muito mais um filme pastelão do que de ação, onde agora podemos rir dos seus defeitos.

Abraços!

João Carlos Viana

 

JC Viana
JC Viana
Engenheiro Mecânico, vê corridas desde que se entende por gente. Escreve sobre F1 no tempo livre e torce pelo Ceará Sporting Club em tempo integral.

3 Comments

  1. Wladimir disse:

    Obrigado por me abrir os olhos, JC! Não fosse esta resenha eu não teria percebido outras cenas desastrosas em “Driven”. Lamentável que um diretor competente como Renny Harlin tenha juntado ao seu legado outro desastre juntamente com “A ilha da garganta cortada” e “Exorcista, o início”. Certamente o saudoso Burt Reynolds esteve melhor no remake de “Golpe Baixo” do que como chefe de equipe sujo e traíra naquele arremedo de filme sobre automubilismo! Curiosamente Harlin foi melhor dirigindo Stallone em “Risco Total” de 1993. Será este o “hudson hawk” de Stallone?

  2. Pelo menos escolheram o equipamento do Gugelmin pro Stallone atuar, pois ambos são grandes e fortes. O ator Cristian de la Fuente, que fazia um papel de um piloto brasileiro, mas que só falava espanhol (mais um erro crasso da produção do filme…) era ainda mais bombado do que Stallone. Fernando, se você for assistir ao filme, prepara-se mais para rir do que para se emocionar!

  3. Fernando marques disse:

    JC,

    O filme Driven foi tão ruim que nem ouvi falar dele. Aliás lendo a sua coluna, foi a primeira vez.
    Sabia que Stallone queria fazer um filme sobre formula 1, e que não foi produzido.
    Os filmes Rush e Ford x Ferrari eu vi e gostei muito, principalmente F x F.

    Agora pensa bem, Stallone não tem um biotipo para ser piloto de formula 1 ou Indy.
    Este filme nunca daria certo. É a minha opinião.

    Mas ao contrário do filme Driven, sua coluna foi nota 10

    Fernando Marques
    Niterói RJ

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