Em nome do pai

A mais importante das coisas menos importantes
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A rivalidade da dupla da Mercedes não é nenhuma novidade: e vem de muito antes da Fórmula 1.

Março de 2008, GP da Austrália, abertura da temporada: Lewis Hamilton vence a corrida e comemora com entusiasmo também o terceiro lugar do colega Nico Rosberg que, correndo pela Williams, conquista seu primeiro pódio na Fórmula 1. Abraço fraterno, tapinhas nas costas, sorrisos sinceros. A cena não deixava dúvidas de que, ali, estavam dois amigos celebrando o sucesso mútuo. Alguns anos antes, a dupla Ebony & Ivory fazia sucesso no kart, correndo com apoio da AMG. Hamilton, à época, já era piloto da McLaren e venceu o campeonato de 2000 em cima do companheiro de equipe. Por caminhos semelhantes, ambos chegaram à Fórmula 1. O pódio em Melbourne, naquele ano, foi pura celebração.

Maio de 2014, GP da Espanha, quinta corrida da temporada: Hamilton conquista sua quarta vitória no ano, chegando pouco mais de meio segundo à frente do agora companheiro de equipe, Rosberg, consolidando um domínio avassalador da escuderia Mercedes neste início de temporada. Cinco vitórias em cinco provas (uma de Nico, quatro de Lewis), quatro segundos lugares (todos de Nico). Na antessala do pódio, Hamilton sisudo, Rosberg fazendo cara de paisagem. Ar de satisfação, mesmo, só do terceiro colocado, Daniel Ricciardo, que está sempre com um sorriso tão largo em todas as imagens que é o caso de se pensar se ele é mesmo tão feliz ou sofre de contração muscular.

O detonador do aparente mal-estar na Mercedes parece ter sido a diferença de estratégias entre Hamilton e Rosberg. Com um jogo de pneus macios no final da prova, o alemão esteve muito perto de ameaçar a liderança do companheiro de equipe. Durante a corrida, já nas voltas finais, Hamilton discutiu asperamente com seu engenheiro, pelo rádio. Apesar da vitória e da pole position, marcada no dia anterior, foi um fim de semana tenso para o inglês.

Reclamou do carro no início do treino classificatório e teve de perpetrar uma daquelas voltas zero-erro para tirar a pole do companheiro. Não falou claramente, mas pareceu incomodado com o fato de o time escolher estratégias diferentes para cada um dos pilotos, como se o fato de ter conquistado a pole lhe garantisse a primazia na disputa, anulando qualquer ameaça do colega de box. Este era mesmo um tipo de acordo tradicional nas equipes, especialmente quando se dispunha de pilotos de um nível parecido. No entanto, não parece ter sido esta a opção da Mercedes no último domingo.

O domínio da equipe de Hamilton e Rosberg é dos maiores já vistos na história da Fórmula 1. Após cinco provas, tem 197 pontos no Mundial de Construtores. A segunda colocada, Red Bull, meros 84. Fosse apenas numérica a diferença, algum sinal de alerta poderia soar. Não é. As esperanças de equilíbrio na temporada parecem ter se esvaído com o início da “fase europeia”. O intervalo de três semanas entre a prova da China e a de Barcelona não foram suficientes para encurtar a distância entre a Mercedes e as demais. O sorridente Ricciardo chegou a 49 segundos da dupla prateada. Na mesma volta dos dois primeiros, apenas seis pilotos. Kimi Raikkonen, o sétimo, levou uma volta de ambos. (Raikkonen que, por sinal, corre o risco de ser a maior decepção da temporada, acumulando meros 17 pontos até agora. No ano passado, a essa altura, Felipe Massa somava 45. É certo que Alonso, na ocasião, tinha 72 e hoje, apenas 49. A Ferrari de 2014 é ainda pior que a do ano passado, mas esse fato não encobre a temporada decepcionante do finlandês.)

O desenho do atual campeonato lembra muito a temporada de 1988, com a McLaren no lugar da Mercedes, Ayrton Senna e Alain Prost no lugar de Hamilton e Rosberg. Naquele ano, a equipe inglesa só não venceu uma prova (GP da Itália). Foram quinze vitórias e dez segundos lugares. A menos que algum Adrian Newey saque uma solução genial nas próximas semanas, a Mercedes parece predestinada a dominar impiedosamente o campeonato de 2014. A comparação com Senna e Prost também não é à toa. Arrojado e voluntarioso na pista, Hamilton nunca escondeu que é fã do tricampeão brasileiro morto há vinte anos. Com estilo mais cerebral, Nico assemelha-se a Prost na eficiência com que soma pontos.

A experiência de ambos na Fórmula 1 parece, no entanto, estar lapidando outros talentos. Hamilton não comete tantos erros quanto em seu início, parecendo dosar melhor sua bravura indômita. E Rosberg tem se mostrado cada vez mais capaz de acossar o companheiro, demonstrando um estilo combativo que valorizou, de maneira especial, as vitórias de Hamilton no Bahrein e em Barcelona.

Sem – por enquanto – perspectivas evidentes da ascensão de outras equipes, a disputa entre Hamilton e Rosberg deve ser a atração principal do ano. Complementares, em muitos sentidos, os dois pilotos da Mercedes parecem se unir em um fator extra pista que talvez pese tanto ou mais para ambos que a disputa fratricida em si – a sombra do(s) pai(s). Comecemos por Nico. Carrega sobrenome famoso, de campeão do mundo. Só por isso, já começou na Fórmula 1 com pressão extra.

O início, 2006, em uma Williams já decadente, serviu para lhe dar rodagem e os dois primeiros pódios. Sem assombrar o mundo com seu talento, nem decepcionar a audiência. Credenciou-se para ocupar um dos assentos da Mercedes, em sua volta à Fórmula 1, assumindo a estrutura da antiga Brawn, antiga Honda. Quando o time alemão anunciou a volta de Michael Schumacher, parecia que Nico tinha ido para o lugar certo, no momento errado. Julgamento precipitado. Rosberg foi melhor que Schumacher nos três anos em que correram juntos. A primeira de suas (por enquanto) quatro vitórias viria ainda nessa época (China, 2012).

Hoje, aos 28 anos, ostenta apenas uma vitória a menos do que seu pai conquistou na carreira inteira. O filho deve passar o pai nessa e em outras estatísticas mas, ainda que Keke seja considerado por muitos admiradores de Fórmula 1 como um “campeão menor” (“Quase foi campeão sem ganhar nenhuma corrida naquele ano”), equiparar-se também nesse quesito deve ser fator extra de pressão sobre o atual vice-líder do Mundial.

Hamilton não tem pai campeão de Fórmula 1, mas talvez seu caso seja ainda mais severo em termos de afirmação individual. Anthony Hamilton, seu pai, também gerenciou sua carreira durante 18 anos. Pelos comentários no paddock, mãe de miss perde para a ingerência de Papa Hamilton. Ainda dos tempos do kart, Hamilton, o filho, guarda histórias com um quê de trauma de infância. No dia da morte de Senna, com apenas nove anos e já competindo, Hamilton teria se escondido para chorar, com medo da reprimenda do pai-sargento.

Em 2010, romperam a relação comercial que os unia. O pai manteve-se como agente de pilotos, gerenciando, por exemplo, a carreira do escocês Paul Di Resta, e terminando a relação em um processo na Justiça, com acusações mútuas. A ida de Lewis para a Mercedes foi vista, no final de 2012, como uma opção por um salário compatível para um campeão do mundo. Prata da casa na McLaren, Hamilton queixava-se de receber um salário muito baixo, na comparação com outros colegas campeões. Já desvencilhado do pai-empresário, conseguiu o intento de engordar a conta bancária.

Mais que isso, colocou-se na equipe que parece ter iniciado o novo ciclo de dominação na Fórmula 1. O título de 2008, conquistado por um ponto sobre Felipe Massa, não deverá ficar como aquele raio que cai só uma vez em um lugar. Nessa altura de sua vida e de sua carreira, Lewis Hamilton não parece ter que provar seu talento para mais ninguém. No entanto, revertê-lo em um título conquistado sem a ingerência do pai pode ser um fator psicológico até mais decisivo que as investidas de Rosberg, na pista.

Alessandra Alves
Alessandra Alves
Editora da LetraDelta e comentarista na Rádio Bandeirantes desde 2008. Acompanha automobilismo desde 83, embalada pelo bi de Piquet e pelo título de Senna na F3.

3 Comments

  1. Fabiano Bastos das Neves disse:

    A comparação com o campeonato de 88 é inevitável, mas vejo este campeonato um pouco parecido com o de 93 também, mas só um pouco. Apenas no aspecto de que uma grande equipe, que construiu um grande carro, pode não disputar o título por falta de um motor a altura.
    Naquele ano, 93, era a McLaren que tinha feito um grande carro, mas que sofria com a pouca força do motor Ford, se comparado ao Renault que equipava as Williams. Neste ano, a Red Bull parece ter feito um excelente chassis, mas o motor Renault não lhe permite desafiar as Mercedes.
    De diferente podemos citar os pilotos. Em 93 a McLaren contava com Senna vivendo aquela que, na minha opinião, seria sua melhor temporada, guiando com velocidade e inteligência; e a Williams tinha um decadente Prost, que já não se comparava ao dos anos 80. Já este ano todos os pilotos vivem grande fase, Hamilton, Rosberg, Vettel e Ricciardo estão guiando muito, não permitindo que uma pilotagem acima da média desconte a diferença existente entre os carros, como Senna fez em várias corridas em 93. Uma pena, pois adoramos ver a capacidade humana vencendo a força das máquinas.
    Quem sabe numa prova com chuva, como o GP da Europa de 93, em Donington. Porém acho que nenhum dos quatro teria uma performance tão ruim como a de Prost naquela prova.

  2. Mauro Santana disse:

    Belo texto Alessandra!

    Como diz o ditado, “amigos, amigos, campeonatos, à parte…”

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

  3. Fernando Marques disse:

    L. Hamilton em seu primeiro ano na Formula 1 ganhou corridas e foi vice campeão. No ano seguinte ganhou corridas e campeonato. Acho que a Formula 1 nunca viu um começo de carreira no circo tão meteórico como o dele. Com certeza ele era um fenômeno a desafiar o postulante a rei chamado Alonso. Mas veio o Vettel e levantou poeira em todo mundo.
    Neste interim existe o Nico Rosberg. Um bom piloto certamente mas longe de ser um Hamilton, Alonso ou Vettel, e hoje pilotando o melhor carro da Formula 1. A sua chance de mostrar que pode ser campeão é agora. Não sabemos se ele terá outra idêntica oportunidade tão boa. O Massa teve e não aproveitou e não teve outra oportunidade.
    Alessandra se Hamilton tem dificil tarefa de provar que pode viver e se dar bem longe da saia do seu pai, acredito que a tarefa do Nico é pior pois além de provar o mesmo que o Hamilton em relação a seu pai ainda tem que mostrar que pode ser mais rápido que Hamilton na Mercedes. E a meu ver no momento isto parece ser impossivel.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

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