A mais importante das coisas menos importantes

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Prafraseando Arrigo Sacchi, "A Fórmula 1 é a coisa mais importante dentre as menos importantes".

O futebol é a coisa mais importante dentre as menos importantes”. Essa frase foi dita pelo grande treinador italiano Arrigo Sacchi. Para ele, vice-campeão da Copa do Mundo de 1994, é necessário saber separar a relevância que o esporte tem no curso da humanidade da importância que tem no entretenimento: no primeiro caso, influência quase nula; neste último, total.

Já discorri, na coluna “Afinal, isso é esporte?”, sobre a eterna pergunta que nós, fãs da F1, temos de volta e meia responder. Naquele texto, expus razões e motivos pelos quais, sim, o automobilismo – e a F1 como seu expoente máximo – é e merece ser considerado um esporte, e sobre as incoerências inerentes às acusações daqueles que questionam sua validade no mundo desportivo.

Pontuei, ali, momentos específicos do passado e do então presente da categoria que legitimavam não apenas a qualidade da modalidade, mas sua imensa beleza: “mesmo com toda a tecnologia e as discrepâncias de equipamento, a Fórmula 1 ainda assim nos proporciona momentos de magia dos quais só mesmo o ser humano é capaz”, escrevi.

Como vocês bem sabem, em nossa página do facebook costumamos relembrar datas que envolvam a F1 de alguma maneira: pilotos aniversariantes, falecimentos ou provas ocorridos no dia. Raramente falamos de treinos, pois. Mas mês passado se completaram 14 anos desde o GP de San Marino de 2000.

Nas duas temporadas anteriores, Schumacher e Häkkinen duelaram acirradamente do início ao fim: em 1998, o título só foi decidido na última etapa; em 1999, até sofrer o grave acidente em Silverstone Schumacher fazia jogo duro com Mika, e após seu retorno continuou brigando pela ponta com o finlandês. Com o bicampeonato de Mika, o jejum pessoal de Schumacher aumentava e o da Ferrari se eternizava.

2000 parecia ser a hora da virada: aquela temporada vinha muito parecida com a de 1994, em seu começo: nas primeiras duas corridas, um mesmo piloto fez a pole, Schumacher completou a primeira fila, Schumacher venceu e o pole abandonou. Assim como em 1994, a F1 chegava a San Marino com um placar de 20 a 0 em favor de Schumacher.

Agora correndo em casa, Schumacher queria manter sua hegemonia não apenas na tabela, mas também nas classificações. Houve algumas alternâncias entre os dois, mas já no minuto final da sessão Schumacher fez uma volta limpa, perfeita, superando o finlandês por 25 milésimos. Parecia não haver dúvidas de que a pole ficaria com o time italiano.

Então, com poucos segundos para o encerramento da sessão, Häkkinen abre a volta…

Na primeira parcial, ele fica 0.085 acima do tempo final estabelecido por Schumacher, mostrando o quão eficiente fora a volta do alemão, uma vez que Mika tinha pista livre e, visualmente, não cometeu qualquer tipo de erro. Provavelmente o rádio da McLaren mandou um frio “not enough for pole” ou, ainda, mencionou o tempo perdido.

No início do segundo trecho, os narradores – bastante confiantes – lembram que Mika “andou forte no segundo setor”, e portanto aquele menos de um décimo parecia plenamente recuperável. No entanto, más notícias: ele passa 0.089 acima da segunda parcial de Schumy! Ok, não parece bom, mas a confiança segue: “são apenas 8 centésimos”, diz a transmissão.

Próximo da conclusão, Mika erra: na variante alta, o carro vai além das zebras, tocando a terra e fazendo a poeira subir. Aí já era demais: “acabou”  e “fim da linha para Häkkinen” são as frases ditas. Narrador e comentarista, em tom de comiseração, citam até mesmo a torcida ferrarista: “os tiffosi estão vibrando”, lamentam.

Eis que, então, a mágica acontece.

Citando a descrição do brother Lucas Giavoni sobre os últimos segundos da volta, “[Häkkinen] faz a Rivazza e a Variante Bassa de modo insano, com direito a derrapagens controladas com pneus não projetados para isso e chicoteada em retomada de tração”. Lucas define de modo simples e direto o que acabamos de ver: “Absolutamente maravilhoso”.

Prestem atenção especial para o quase milagre que Mika opera na altura dos 1min59 do vídeo, aos 2min12 e, principalmente, aos 2min16: a sequência do som dos giros do motor, o visual do carro balançando freneticamente na entrada da reta e os gritos enlouquecidos do pessoal da TV são de arrepiar.

Aliás, gostaria de agradecer ao leitor Eduardo Costa, que enviou o link com as legendas em inglês: depois de anos (re)vendo esse vídeo, finalmente consegui entender as palavras proferidas por narrador e comentarista. Mas aquele “MMMMika” ao final é compreensível em qualquer idioma.

Curtam!

Na corrida, tivemos uma disputa duríssima entre o futuro campeão e vice, com vitória de Schumacher por menos de 2 segundos de vantagem. Naquela época, a Ferrari era simplesmente impecável em suas estratégias de box e, com a estupenda técnica do piloto alemão nas voltas antecedentes ao pitstop, Schumy retornou à frente após a segunda parada.

Ao final daquela corrida, Schumacher tinha uma vantagem gigantesca de 30 a 6 para Mika (Seria assim, em 1994?…). O tri, dessa vez, iria acontecer, mas aquele ano ainda reservaria muitas surpresas, com o finlandês chegando a retomar a liderança do mundial na Hungria e ampliando-a após uma vitória mítica em Spa, com direito a uma das mais lembradas ultrapassagens de sempre. Depois, Schumacher voltaria à liderança em grande estilo, igualando a marca de Senna e então retirando a Ferrari de uma fila de 21 anos.

No entanto, se eu tivesse de definir a temporada 2000 em apenas um lance, seria naquela classificação em San Marino. Vou além e digo que aquela volta em Imola está para Häkkinen assim como a ultrapassagem na Hungria, 1986, está para Nelson Piquet ou como a primeira volta de Donington, 1993, está para Ayrton Senna: é sua assinatura na F1, sua obra-prima.

Lembrando desses momentos, sou obrigado a tomar emprestada a máxima de Sacchi e dizer: “A Fórmula 1 é a coisa mais importante dentre as menos importantes”.

Abraços a todos.

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Leia também:
“Biografia de uma ultrapassagem”, de Márcio Madeira.

Marcel Pilatti
Marcel Pilatti
Chegou a cursar jornalismo, mas é formado em Letras. Sua primeira lembrança na F1 é o GP do Japão de 1990.

6 Comments

  1. wladimir duarte sales disse:

    Alemães e finlandeses no topo da f1 da atualidade fazem lembrar a grande fase dos franceses nos anos 70 até final dos anos 80 com os últimos títulos de Prost. Todos os pilotos da França na época vinham do volante shell. E conseguiam performaces memoráveis.

  2. Ronaldo de Melo disse:

    Foi naquele fim de semana que eu entendi a graça de ficar em frente à TV assistindo às classificações. Não eram tão movimentadas quanto hoje, que as pessoas já criticam por ser paradas demais. Muito pelo contrário, cansei de ficar quinze, vinte, até trinta minutos ouvindo Galvão e Reginaldo falando, enquanto Minardis, Arrows e Fortis da da vida poluiam o monitor. Aquela volta me ensinou muito, mesmo que por aqui não tenhamos tido a mesma compreensão ao vivo que os narradores do vídeo.

    Mas nada naquele ano foi como a ultrapassagem em Spa. Foi o maior momento do Zonta na F1!
    De 2000 também lembro com muito carinho da vitória do Rubinho. Acho que fora isso não foi lá um ano dos mais movimentados, estou certo?

  3. Mauro Santana disse:

    Belíssimo texto!

    Eu já havia torcido para o Mika ser campeão em 98 e 99, e em 2000, eu torci muito, mas muito para o Mika chegar ao Tri e deixar o Schumacher mais uma vez na fila, pois nunca gostei da Ferrari, e nunca fui com a fuça deste alemão vigarista, mas infelizmente a batalha final em Suzuka foi vencida pelo vigarista, e a gerra estava terminada.

    Essa volta foi realmente VOADORA, e junto com a ultrapassagem em Spa, realmente, não era para o Mika ter perdido este caneco, era sim pra ele ter se tornado TRICAMPEÃO!

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

  4. Rafael Carvalho disse:

    Essa pole do Mika eu vibrei como se fosse um gol! Foi inacreditavel o que ele fez! E a cara do Schumi depois…

  5. Fernando Marques disse:

    Muito bom relembrar esta volta maravilhosa.
    Mika Hakkinen foi realmente espetacular.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  6. Ballista disse:

    Essa volta de Hakkinen é ESPETACULAR. Ainda mais se levarmos em conta que ele tirou toda a desvantagem pro Schumacher somente no último trecho da pista, que normalmente depende mais do motor do que do piloto.

    Já conhecia o vídeo, mas nunca tinha visto a versão “legendada”. Mesmo assim, a reação dos narradores dispensa qualquer tradução! É como ver as últimas voltas de Mônaco-92 com a narração da TV japonesa.

    E o que dizer da cara do Schummy quando viu o resultado? Só faltou o Mutley dando a risadinha do lado!!!

    Abraços

    Ballista

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