Eventos fenomenais

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Imola Alagada

Os fenômenos naturais são por obvia definição, excepcionais. Inesperados, complexos e sempre avassaladores.

Por mais que diversos avisos sobre a calamidade ambiental na qual vivemos sejam feitos e sumariamente negados por uma parcela importante da população, a surpresa de quando presenciamos um evento extremo é também por si só avassaladora.

Nesse cenário caótico, o GP de Imola foi cancelado. Não há condições naturais e humanas do evento acontecer. Em uma rara atitude sensata, não foi necessário esperar até o domingo de manhã para perceberem o óbvio: manter o GP era inadmissível.

Confesso, se vocês me permitem, uma particularidade: considerava a prova de Imola a primeira da temporada pra valer.

Bahrein é uma pista safada e funciona como uma extensão dos testes. Melbourne, Arábia Saudita, Baku e Miami são pistas de rua com todas as suas particularidades e cercadas de cuidados pra não se explorar os limites e destruir carros nos muros.

Imola é uma pista de corrida clássica de Fórmula 1. Ponto final. Sem discussão.

Em uma temporada sem testes, podemos considerar que as equipes estavam testando seus carros até o momento. Agora era a hora da verdade, a hora de ver e fazer acontecer.

No processo de infantilização do paladar da Formula 1, seguimos uma jornada sem precedentes na história.

Depois da introdução, podemos dizer, “festiva” dos pilotos em Miami, a F1 reservou um novo teste para esse final de semana. Durante a classificação o querido telespectador não terá mais trabalho para entender diferenças de estratégias no fim de semana. Na primeira parte da classificação, todo mundo de pneus duros. Na segunda parte, todos de médio. E na terceira e última, todos de macio. Sem surpresas, sem estratégias diferentes. Nada pra ser explorado. Mas muito mais fácil pra ser entendido pela nova audiência global.

Essa obrigatoriedade de escolhas também vem acompanhada de uma redução da quantidade de jogos de pneus disponíveis, caindo dos atuais 13 para 11. Nesse teste cada time receberá 3 jogos de duros, quatro de médios e quatro de macios. A explicação da F1 e da Pirelli tem dois pontos principais: sustentabilidade e aumentar as paradas nas corridas.

Não vou falar de sustentabilidade, olho essa medida com alguma reserva tendo em vista os gastos suntuosos em “hospitalidade” para Influenciadores e artistas que não têm nada muito de sustentável. Mas falando especificamente de pneus, a análise da Pirelli é que ninguém mais usa os macios durante a corrida por serem… muito macios. Todos tendem a se livrar deles prontamente na classificação e ficam sem opções entre duros e médios pra corrida. Isso leva os times a convergir para uma estratégia igual de uma única parada.

Aguardemos uma nova data para esse teste. Estavam previstas até duas etapas nesse formato, com o próximo já marcado para Hungria.

Além disso, era fim de semana para a F1 receber os novos pneus Pirelli pra chuva. O mais atento leitor pensa que virá um produto habilitado para correr na chuva, tarefa que os atuais pneus azuis não são hábeis o suficiente. Não é o foco.

O foco é ter um pneu pra chuva que não precise de… cobertores elétricos. A borracha vai se aquecer de forma diferente da atual garantindo uma condição de rodagem sem precedentes na história moderna. O benefício secundário é uma vazão maior de água para acomodar condições mais severas de chuva.

Em resumo, dificilmente veremos uma prova de Fórmula 1 em condições competitivas na chuva.

Ainda falando de eventos extremos e fenômenos da natureza. Será essa a classificação para o tamanho do domínio do conjunto Newey + RBR + Max Verstappen?

Essa trinca tem oferecido um nível de precisão e entrega de resultados como poucas vezes vista na história da F1. Sem essa trinca trabalhando junto, teríamos um campeonato mais próximo do normal. Sem julgamentos que degradem a imagem de Sergio Perez, mas é evidente que o campeonato seria mais equilibrado e disputado se ele fosse o piloto referência da equipe.

O cancelamento da prova de Imola também tem algumas outras consequências nos bastidores.

A primeira delas é o “Teto Orçamentário”. As equipes tem seu limite de gastos calculado pela quantidade de corridas. Cada corrida adicionada, USD 1.2000.000 são adicionados ao teto. Se uma é cancelada, o valor é deduzido. Por um “gatilho” das regras o valor só pode ser deduzido do teto se a corrida for cancelada com 3 meses de antecedência. Portanto, não haverá redução do teto para as equipes.

Toto Wolff agradece a economia. Horner vai pedir mais salgadinhos pra receber seus convidados.

Da mesma forma, nenhum limite de componentes vai ser afetado. Tudo permanece como está, com a clara vantagem de menor desgaste no ciclo de vida de cada um deles.

O maior dilema de todos recaí sobre as atualizações dos carros. Havia uma expectativa real de várias equipes com grandes pacotes de atualização para essa prova. Dentro dessa regra de teto orçamentário, novos componentes tem demorado mais para chegar aos carros e, somando-se a isso, existe uma nova regra que a “especificação” do carro apresentada ao público na sexta deve ser a mesma que corre no domingo. Se não for, automaticamente larga-se do box. Isso significa que os times tem que se apresentar no final de semana com dois carros idênticos e peças de reposição para os dois. Não dá mais pra atualizar um carro só, ou voltar pra uma asa dianteira antiga se você espatifar a sua na primeira curva.

A Ferrari usou a chuva pra esconder que não estava totalmente pronta. Logo de cara, antes do cancelamento, mandou avisar que a nova suspensão traseira só fará sua estreia triunfal em Barcelona. Possibilidade de chuva em Imola e as curvas do traçado de Monaco não seriam ambientes propícios para uma avaliação precisa. Oras bolas, um campeonato precisa ser vencido disputando-se todas as provas não?

A turma da Mercedes era a mais esperada no paddock essa semana. Todos querem ver as novas laterais que não são iguais ao conceito atual e não são cópias da Red Bull. Só os resultados dirão para nós se há traços de genialidade no time ou só uma burra arrogância de não copiar o conceito introduzido pelo rival. Em todo caso, a Mercedes entende a gravidade da situação que se encontra e já avisou: tem carro novo em Monaco! Não dá pra esperar e nisso sim estão cobertos de razão.

O restante do grid não fica atrás em atualizações. Tirando a Mclaren que já trouxe um grande pacote duas provas atrás, todas as outras trazem novidades. Muitas represadas pelo limite de gastos, casos mais notórios são da Alfa, Haas e Alpha Tauri, com previsão de novos assoalhos para seus carros.

Esse dado importante: assoalhos novos. A vantagem da Red Bull é sim aerodinâmica e também mecânica. O carro gera muito mais downforce que os demais e com muito menos arrasto, por isso são um foguete nas retas. Grande parte dessa vantagem vem do assoalho da Red Bull, a forma que o carro “trata” o ar que passa por baixo dele é um dos seus segredos mais bem guardados.

Todos correm atrás disso.

O anticlímax do cancelamento da prova não é nada perto dos fenômenos naturais que devastam cada vez mais regiões do nosso planeta. A F1 poderia não só cancelar a prova como oferecer suporte financeiro e/ou logístico para região. Certamente seria a atitude mais valiosa no momento.

Enquanto isso vamos aguardar por mais uma semana o começo da temporada europeia para ter um desenho mais claro das forças e decepções do campeonato.

Ainda que exista um claro e fenomenal domínio da Red Bull e uma surpreendente Aston Martin (nas mãos de Alonso), a lista de decepções é grande. Mercedes, Ferrari, Leclerc, Mclaren, Alpine, Alpha Tauri, Nick de Vries, essa turma toda está devendo no mercado.

Essa lista vai se consolidar na fase europeia ou teremos uma curva de crescimento que retire alguns personagens dela?

Teremos que esperar pelo próximo GP. No final de semana mais fantástico da história, com Grande Prêmio de Mônaco, Indy 500 e Nascar Charlotte 600.

Segura essa expectativa!!!

Abraços
Flaviz Guerra

Flaviz Guerra
Flaviz Guerra
Apaixonado por automobilismo de todos os tipos, colabora com o GPTotal desde 2004 com sua visão sobre a temporada da F1.

2 Comments

  1. Andre Xavier disse:

    Esse é o melhor site sobre corridas! Eu acho uma bobagem os organizadores ficarem se metendo em quantas paradas uma equipe deve fazer, quais compostos usarem. Mas fazer o que né, se até corrida sprint enfiaram no campeonato. Até 2030 eles acham uma maneira de ter 35 corridas por ano.

  2. Fernando Marques disse:

    Flaviz,

    na realidade só quem não decepciona na Formula 1 é a RBR … e Max Verstappen sabe como nunca tirar bom proveito da situação.
    Num comparativo, aproveitando-se do momento, veja os melhores momentos do GP da Austria de 1976 )na bela coluna do Manuel Blanco) e veja como foi as corridas até então realizadas nesta temporada e daí entenda-se por que da Formula 1 inventar tantas regras e regulamentos. O chato nessa história toda é que ninguém entende mais nada, já que a toda hora aparecem novidades no regulamento.
    Pelo que entendi na coluna a FIA/Liberty considera um crime as equipes fazerem só um pit stop durante as corridas. mais o que eles vão inventar.

    Gostei dessa teoria das primeiras corridas serem testes e a temporada começar pra valer de Imola.
    Pena que estes testes não ajudaram em nada as equipes em termos de evolução, exceto a RBR

    Fernando Marques
    Nierói RJ

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