Expectativa correspondida

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Quando a virada de 1999 para 2000 se aproximava, o mundo aguardava com apreensão o chamado Bug do Milênio. Os computadores da época tinham calendários internos que utilizavam dois dígitos e havia a expectativa do que aconteceria após o ano 99 virar o ano 00. Houve o medo de que os computadores não entendessem a mudança e causassem uma pane geral em todos os sistemas no mundo recém-globalizado de vinte anos atrás. Temia-se que os sistemas de aeroportos e usinas nucleares entrassem em colapso, além de que cofres e cadeados mais sofisticados, que dependiam de computadores, fossem abertos, causando uma onde de saques nas grandes cidades, além das contas de bancos zerassem e imediatamente as pessoas teriam nenhum dinheiro em suas contas.

No mundo da motovelocidade também uma grande expectativa quando o ano 2000 chegou, causada por um italiano que exibia um talento natural abundante e explodia de carisma fora das pistas. Valentino Rossi havia tomado o Mundial da Motovelocidade como um furacão no final dos anos 1990 com uma pilotagem natural e elegante, na mesma medida em que arrebatava fãs com suas comemorações engraçadas e exóticas pelas pistas do mundo. Filho de Graziano Rossi, piloto de destaque no Mundial de Motovelocidade no final dos anos 1970, Valentino entrou no Mundial em 1996 e fez uma trajetória bem similar nas categorias de base. No primeiro ano, uma temporada exploratória, para conhecer a sua moto e seus rivais. No segundo ano, domínio absoluto e título de forma sedutora, atraindo cada vez mais fãs. Rossi foi campeão das 125cc em 1997 e das 250cc em 1999 usando essa tática com sucesso. Fora das pistas, os circuitos eram invadidos por uma onda amarela, cor escolhida por Rossi como a de sua marca e que a sua crescente torcida adotou. Rossi também escolheu o frango como sua mascote e mais tarde, seria conhecido como ‘Il Dottore’.

Com 21 anos de idade Valentino faria sua estreia na categoria rainha, na época conhecida como 500cc, no ano 2000 debaixo de muita responsabilidade e um claro antagonista. Mick Doohan havia dominado o Mundial das 500cc por cinco anos correndo pela Honda, mas ainda no início de 1999 o australiano sofreu um sério acidente durante os treinos para o Grande Prêmio da Espanha em Jerez e teve que encerrar sua carreira. Correndo na sombra de Doohan na equipe Honda, Alex Crivillé venceu o campeonato de 1999, se tornando o primeiro espanhol a fazê-lo nas 500cc, mas a montadora japonesa não confiava que Crivillé seria o futuro da marca da asa dourada. A Honda sabia que além de todo o carisma, Rossi tinha talento suficiente para liderar a Honda nos próximos anos nas 500cc e contratou o italiano a partir de 2000.

Valentino correria com uma moto oficial da Honda, mas não na equipe de fábrica, a Repsol Honda, e sim, com uma moto amarela da marca Nastro Azzurro, que era a marca de Valentino, tendo como diretor técnico o próprio Doohan e seu engenheiro Jeremy Burgess. Rossi ainda nem havia estreado nas 500cc, mas já carregava as esperanças da Honda para o futuro. Já o antagonista seria o seu compatriota Max Biaggi. Após vencer quatro títulos consecutivos nas 250cc, Biaggi subiu para as 500cc tentando ser o anti-Doohan, porém o italiano, de personalidade difícil, brigou com a Honda em sua estreia nas 500cc e se transferiu para a Yamaha. Ninguém poderia negar a velocidade exuberante de Biaggi, mas o italiano não conseguiu derrotar Doohan ou até mesmo substitui-lo na Honda, como era seu objetivo quando subiu para as 500cc e naquele momento via o novato Rossi estar nessa situação. De temperamento completamente diferente de Rossi, Biaggi não via com bons olhos toda a expectativa criada em cima de Rossi e com isso veio o ciúme e a inimizade. Antes mesmos de se enfrentarem nas pistas, Rossi e Biaggi já se detestavam!

Valentino Rossi tinha tanta confiança em si mesmo que resolveu traçar um script bem parecido que fez nas 125 e nas 250 em seus primeiros anos nas 500cc. Primeiro, uma temporada em que vasculharia a sua oposição, além de conhecer seus próprios limites. O início da carreira de Rossi nas 500cc não foi exatamente auspicioso. Duas quedas nas duas primeiras corridas, mas todos enxergavam a velocidade do italiano, que na primeira vez que marcou pontos nas 500cc, foi subindo ao pódio no Grande Prêmio da Espanha, em Jerez, com um terceiro lugar.

Com a saída de Doohan, o ano 2000 não tinha um favorito destacado ao título. O norte-americano Kenny Roberts Jr havia surpreendido com sua Suzuki, sem patrocínios, em 1999 e fora vice-campeão. Com mais apoio e acostumado a andar no pelotão dianteiro, Roberts liderava o campeonato de 2000 quando o certame chegou à Donington Park, para o Grande Prêmio da Grã-Bretanha. Seguindo o que imaginava, a Honda viu o trio da Repsol Honda decepcionar e Rossi se tornou o principal piloto da montadora. Crivillé nem de longe repetia o ano consagrador que lhe viu conquistar o título em 1999, Sete Gibernau ainda não mostrara a que veio, enquanto Tadayuki Okada anunciava sua aposentadoria ao final da temporada. Biaggi fazia uma temporada irregular, com várias quedas, enquanto seu companheiro de equipe, o espanhol Carlos Checa, era um distante vice-líder de Roberts.
O dia 9 de julho de 2000 começou com um clima tipicamente britânico em Donington Park, com chuva e tempo fechado. No sábado Alexandre Barros confirmava sua ótima forma, após vencer a corrida anterior em Assen, e ficava com a pole, onde teria ao seu lado na primeira fila Roberts, Garry McCoy e Valentino Rossi em quarto.

No momento da largada, a pista estava molhada, mas não chovia. Quando as luzes vermelhas se apagaram, Rossi larga pessimamente, com sua moto deslizando sem aderência na traseira. Valentino caiu para 13º na primeira volta. No primeiro pelotão, o norte irlandês Jeremy McWilliams, correndo com uma Aprilia, se aproveitava do seu conhecimento da pista e das condições traiçoeiras para ganhar terreno até assumir a segunda posição da corrida, atrás de Roberts. Imediatamente Valentino Rossi imprimiu um ritmo fortíssimo e vai ultrapassando quem aparecia pela frente, na medida em que a pista secava e um trilho seco ficava claro no asfalto de Donington. Na metade da corrida Rossi já vinha em quinto lugar, se aproximando da batalha pelo terceiro lugar entre a Suzuki de Nobuatsu Aoki e a Yamaha de Norick Abe. Após ultrapassar Abe, Rossi viu Aoki cair e num ritmo claramente superior, Rossi partiu para cima dos dois líderes. Roberts, McWilliams e Rossi brigaram intensamente pela liderança numa pista já seca e como haviam largado com pneus para chuva, o desgaste era bem acentuado na medida em que o final da corrida se aproximava. Faltando três voltas para a bandeirada, Rossi assumia a ponta pela primeira vez e mesmo tendo Roberts e McWilliams por perto, ele não seria ameaçado até o fim.

Com os pneus em frangalhos, Valentino Rossi recebia a bandeirada com três décimos de vantagem para Roberts e comemorava sua primeira vitória nas 500cc. A torcida de Valentino invadiu a pista e comemorou loucamente com ‘The Doctor’. Roberts cumprimentou Rossi pelo triunfo e garantia preciosos pontos para que ele conquistasse o título daquele ano. A confiança com o primeiro triunfo faz com que Rossi subisse ao pódio constantemente naquela segunda metade de temporada, com mais uma vitória no Rio, garantindo ao novato o vice-campeonato.

A primeira vitória de Valentino Rossi na categoria principal do Mundial de Motovelocidade parecia algo natural para o italiano e era bastante esperado para todos que acompanhavam as 500cc vinte anos atrás. Como havia acontecido nas categorias de base, após um ano de aprendizado muito forte. Rossi garantiu o título das 500cc na sua segunda temporada, no ano de 2001. Foi o primeiro de cinco títulos consecutivos!

O chamado Bug do Milênio não cumpriu as expectativas. Tirando pequenos problemas aqui e ali, o mundo continuou praticamente igual quando 31 de dezembro de 1999 mudou para 1 de janeiro de 2000. No Mundial de Motovelocidade, as expectativas em cima de Valentino Rossi se tornaram reais e a própria categoria havia mudado em torno de Valentino. Rossi se tornaria uma lenda do esporte mundial, conquistando nove títulos, sendo sete na categoria principal, que poucos anos depois passaria a se chamar MotoGP. O carisma de Rossi trouxe novos torcedores para o Mundial de Motovelocidade, ávidos pelas comemorações que Rossi sempre bolava após uma grande vitória, além de exibições de altíssimo nível. A MotoGP se transformou em torno da fama de Rossi, que atravessou gerações sempre se mostrando competitivo e tudo começou naquela tarde fria em Donington Park vinte anos atrás.

Abraços,
João Carlos Viana

JC Viana
JC Viana
Engenheiro Mecânico, vê corridas desde que se entende por gente. Escreve sobre F1 no tempo livre e torce pelo Ceará Sporting Club em tempo integral.

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