Fórmula 1 e Copa do Mundo, parte 2

Fórmula 1 e Copa do Mundo
11/06/2014
Vitórias da Alemanha
16/06/2014

Relembre todos os jogos de Copa que coincidiram com GPs da F1 desde 1986.

*Relembre os GPs e partidas de Copa ocorridos entre 1950 e 1982.

Não deixa de ser curioso que, entre a primeira vitória de Emerson Fittipaldi e a morte de Ayrton Senna, a seleção brasileira tenha passado por seu maior jejum de títulos numa época em que pilotos brasileiros dominavam o circo da F1.

De certa maneira, parecia que as glórias nas pistas e nos campos não poderiam andar juntas. Salvo algumas vitórias de Barrichello no ano do penta, nunca houve um tempo de domínio nos dois eventos.

1986

A Copa de 1986 inicia-se com um fato raro: foi a única vez que o técnico da seleção brasileira era o mesmo do mundial anterior (Telê Santana). Telê havia deixado o selecionado após a Copa de 82, mas retornou “nos braços do povo”. As esperanças de título eram grandes.

Na Fórmula 1, da mesma maneira: pela primeira vez desde sempre, dois brasileiros – Senna e Piquet – eram vistos como sérios candidatos ao título.

Aos trancos e barrancos a seleção ia avançando: iria enfrentar a Polônia (passaria feito trator, 4×0) pelas oitavas-de-final em 16 de junho. Um dia antes, acontecia o GP do Canadá, prova em que os brasileiros foram coadjuvantes de um infernal Mansell (pole e vitória do leão). Bem perto dali, em León, a União Soviética era derrotada pela Bélgica (4×3) enquanto que o anfitrião México superava a Bulgária (2×0) na capital.

httpv://youtu.be/IGQXPILKZlQ

Exatamente uma semana depois acontecia o GP dos EUA, em Detroit. Um dia antes, a seleção brasileira amargava mais uma eliminação (a quarta copa consecutiva), dessa vez para a França – nos pênaltis. A corrida teve uma vitória sensacional de Ayrton Senna, e pela primeira vez o famoso gesto da bandeira, numa vingança contra os mecânicos (a Lotus era Renault, francesa como Platini e seus comandados).

Naquele mesmo dia, a Espanha empatava com a Bélgica (1×1) e era eliminada nos pênaltis na cidade de Puebla. Pertinho dali, a Argentina passava pela Inglaterra (2×1) naquela que é considerada a maior exibição de Diego Maradona, que também veio a campo querendo vingar a mais triste derrota da história da Argentina – nas Malvinas

A história tem dessas coincidências formidáveis: como perfeitamente descreveu Márcio Madeira em sua coluna, o maior ídolo do esporte argentino e o maior ídolo do desporto brasileiro se eternizaram no imaginário popular no mesmo dia e hora!

Os dois, imbuídos de revanche, marcavam ali o início da mitificação de seus personagens e, curiosamente, encontraram o fim em 1994.

1990

A Copa de 1990 é muito lembrada por ser, até hoje, o torneio com a menor média de gols da história da competição e ter registrado um dos maiores índices de faltas marcadas: foi um mundial onde prevaleceu a arte de defender em vez da habilidade.

No dia 10 de Junho, a seleção brasileira fez sua estreia (ganhou por 2×1) contra a Suécia. Na mesma data, a Tchecoslováquia (5×1) massacrava a seleção dos EUA, e a futura campeã Alemanha Ocidental goleava (4×1) a Iugoslávia.

Enquanto as partidas aconteciam, rolava o GP do Canadá: um espetáculo brasileiro, com a dobradinha de Senna e Piquet (a primeira desde 1987!). A euforia – foi a única vez em que rolou uma vitória da seleção em Copas num dia em que um brasileiro venceu uma corrida na F1 –, no entanto, tomaria um balde de água fria duas semanas depois.

Em 24 de junho Ayrton Senna vinha liderando o GP do México com autoridade, mas um problema nos pneus permitiu que Prost consumasse uma de suas maiores vitórias na F1 (foi de 15º para 1º). Aquela tristeza só não foi maior do que a derrota brasileira para a Argentina (1×0) horas mais tarde, em Milão. Na vizinha Torino, a Holanda – uma esperança de futebol-arte – caiu diante da Alemanha, como em 1974.

E a finalíssima do mundial aconteceu no mesmo dia do GP da França: vitória de Alain Prost, sepultando o sonho de Ivan Capelli a três voltas do fim, e vitória da Alemanha sobre a Argentina, com um pênalti inexistente aos 40 do 2º tempo.

1994

O ano de 1994 ficou marcado por duas situações opostas: o tetracampeonato da seleção brasileira, após 24 anos do tri, e a morte de Ayrton Senna. Foram dois eventos que tiveram imenso significado nos esportes, e que impactaram o Brasil de maneira inigualável.

A Fórmula 1 passou por imensas mudanças após o GP de Ímola. Muitas delas relativas à segurança e outras em aspectos técnicos dos carros.

Em 3 de julho aconteceu o GP da França: prova amplamente dominada por Schumacher, que largou em terceiro mas ascendeu à primeira posição num piscar de olhos, o que começou a levantar mais e mais suspeitas sobre o B194. Naquele mesmo dia, aconteceram duas partidas da Copa: A Romênia bateu a Argentina (3×2) em Pasadena – esse nome lembra alguma coisa? – e a Arábia Saudita foi eliminada pela Suécia (3×1) em Dallas.

httpv://youtu.be/tkhR13zPE1E

Uma semana depois, a F1 ia para a Inglaterra, onde Schumacher foi desclassificado por ter desrespeitado uma série de regras em sequência (ultrapassagem na volta de apresentação, e não cumprimento do stop&go e da bandeira preta). Quase na mesma hora, a Romênia era eliminada pela Suécia (2×2 tempo normal) nos pênaltis em Stanford, e a Alemanha sucumbia diante da Bulgária (2×1 para o selecionado de Stoichkov) em East Rutherford.

Dia ruim para os alemães.

1998

60 anos depois de haver sediado seu primeiro mundial, a França voltava a ser anfitriã de uma Copa do Mundo. Se em 1938 a equipe era apenas coadjuvante, agora era protagonista.

Como aconteceu com a Inglaterra em 1966, a França obteve o feito de sediar um Grande Prêmio durante a Copa e, além disso, (como em 66) a corrida aconteceu no mesmo dia de um jogo da seleção local. Em 28 de junho Michael Schumacher chegava à sua 30ª vitória na F1 em Magny-Cours enquanto a Dinamarca goleava (4×1) a Nigéria em Saint-Denis, e a França sofria barbaramente até marcar seu Gol de Ouro contra o Paraguai (1×0) em Lens.

Duas semanas depois, acontecia o GP da Inglaterra: a vitória de Mika Häkkinen era dada como certa, e seria merecidíssima. Mas o triunfo foi de Michael Schumacher, com a aberração de cruzar a linha de chegada nos boxes (!). O alemão havia cometido uma infração na parte final da prova, e o mago Ross “sempre ele” Brawn encontrou uma brecha no regulamento, e Schumy “cumpriu” a punição na volta final!

Horas mais tarde, outro teórico favorito sucumbia: França 3, Brasil 0 em Saint-Denis.

2002

O ano dos pentas, na F1 e na Copa. Já escrevi longamente sobre a temporada e a copa de 2002 no GPTotal (confira clicando aqui), portanto qualquer acréscimo que eu fizer será “chover no molhado”.

Na coincidência de data com a Copa, tivemos o GP do Canadá – vitória de Schumacher em bela performance de Barrichello – acontecendo no dia de jogos da primeira fase: Costa Rica e Turquia (1×1) empataram em Incheon, o México bateu o Equador (2×1) em Miyagi, e o Japão superou a Rússia (1×0) em Yokohama.

2006

Foi um ano marcado, tanto na F1 quanto na Copa, por duas situações: um ídolo já em seus dias finais de glória competindo em altíssimo nível, e esse mesmo ídolo sucumbindo ao final de modo surpreendente: Michael Schumacher e Zinedine Zidane.

httpv://youtu.be/RvseNeN1lDw

Já as coincidências de jogos e corridas não foram tão marcantes assim: em 11 de junho Alonso vencia o GP da Inglaterra em Silverstone enquanto a Holanda superava a Sérvia (1×0) em Liepzig, o México batia o Irã (3×1) em Nuremberg, e Portugal ganhava de Angola (1×0) em Colônia.

Duas semanas mais tarde, nova vitória de Alonso no GP do Canadá, com a Inglaterra eliminando o Equador (1×0) e Portugal mandando a Holanda pra casa (1×0).

2010

Se o 2006 da Copa e da F1 coincidiram porque o vice-campeão brilhou intensamente, mas não levou, 2010 pode ser lembrado como o ano em que um campeão anunciado por muito pouco não deixou sua grande chance escapar: a seleção espanhola e Sebastian Vettel.

Três corridas de F1 coincidiram com data de jogos: em 13 de junho tivemos uma ótima vitória de Lewis Hamilton no Canadá, num dia em que a Eslovênia (1×0) bateu a Argélia em Polokwane, Gana superou (1×0) a Sérvia em Pretória e a Alemanha (4×0) massacrou a Austrália em Durban.

Duas semanas depois, grande vitória de Vettel em Valência  a corrida do “looping” de Webber num dia em que a Argentina (3×1) se classificou diante do México em Joanesburgo e a Alemanha (4×1) mandou embora sua arquirrival Inglaterra desde Bloemfontein.

E a finalíssima daquele mundial (Espanha 1×0 Holanda, em Joanesburgo) aconteceu em 11 de julho, quando horas antes aconteceu o GP da Inglaterra, que teve Mark Webber como vencedor.

2014

2014 marca o retorno da Copa do Mundo ao Brasil e o retorno do ótimo GP da Áustria (fora desde 2003) ao calendário da F1.

Como 64 anos atrás, teremos uma partida da seleção americana em dia de corrida de F1: os EUA enfrentam Portugal, em Manaus; no Maraca, a peleja será entre Bélgica e Rússia; e a última partida do dia acontecerá entre Coreia do Sul e Argélia, no Beira-Rio.

Promessa de um domingo sem sair da frente da TV. Ou não?

Abraços!

Marcel Pilatti
Marcel Pilatti
Chegou a cursar jornalismo, mas é formado em Letras. Sua primeira lembrança na F1 é o GP do Japão de 1990.

4 Comments

  1. Tassio Bruno disse:

    Oi marcel, outro excelente texto do Gptotal. Banho de pesquisa em?
    Mas vi um errinho na copa de 90:

    “Na vizinha Torino, a Holanda – uma esperança de futebol-arte – caiu diante da Holanda, como em 1974. – See more at: http://gptotal.com.br/?p=8615#sthash.13Oq7Q1c.dpuf
    Holanda x Holanda, rs.

    Quando puder dá uma olhadinha. E sim, parabéns pelo ótimo trabalho, e q ao menos ganhemos o Hexa, já q pelo q vi, muitos times q sediaram sagraram-se campeões — tipo a Inglaterra em 66. E sim, mais facil ela ser novamente campeã, do q outro piloto ser com carro feito por ele mesmo!

    Abração!

  2. João Oscar disse:

    Você disse que Senna foi o maior ídolo do desporto brasileiro. Está sendo modesto, pois, na realidade ele foi o maior ídolo da história da humanidade, muito acima dos Beatles, Michael Jackson, Elvis Presley, Michael Jordan, Valentino Rossi, etc.

  3. Fernando Marques disse:

    Marcel,

    “Não deixa de ser curioso que, entre a primeira vitória de Emerson Fittipaldi e a morte de Ayrton Senna, a seleção brasileira tenha passado por seu maior jejum de títulos numa época em que pilotos brasileiros dominavam o circo da F1.”

    E desde 1994 o inverso acontece … o Brasil venceu duas copas, foi vice em outra e na Formula 1 tivemos que ficar vendo o Barrichello e o Massa servindo de escudeiros na Ferrari.

    Fernando MArques
    Niterói RJ

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