Indianapolis Jones e as Mille Miglia I

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Ciclos
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Um trecho do livro “O capacete verde”, de Jon Cleary, retratando um pouco do automobilismo do passado.

 

“O capacete verde” é um livro sobre automobilismo escrito por Jon Cleary, um dos mais bem sucedidos escritores australianos e aficcionado do automobilismo. Retrata uma época em que este tipo de corrida estava no auge, bem como Fangio e companhia. Seus personagens são Ham Rafferty, piloto consagrado; Taz Rafferty, piloto iniciante; Joe Bartell, ítalo-americano dono de uma indústria de pneus; Richie Launder, mecânico talentosíssimo e apaixonado por automobilismo que constrói um carro biposto com motor Jaguar; Ed Carlin, engenheiro da Bartell Pneus; Charlie e George, mecânicos. Ainda que seja uma obra de ficção, o trecho do livro logo abaixo nos faz viajar no tempo e vivenciar o dia-a-dia dessa prova lendária.

(Imagino que os leitores do GPTotal saibam, mas vamos garantir: o capacete é verde porque o piloto é inglês e, antes da era do patrocínio total, cada país era representado por uma cor. Verde para os ingleses, vermelho para os italianos, branco (ou prata) para os alemães, azul para os franceses. O primeiro F3 brasileiro, construído pela equipe Willys e pilotado por Wilsinho Fittipaldi, ostentava a cor amarela, com uma faixa verde escura. O amarelo se repetiu posteriormente, na equipe Fittipaldi de F1.)

 

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Instalaram um projetor na garagem e passaram os filmes num lençol pendurado à parede. Voltaram à tarde e tornaram a passá-los, e uma vez mais à noite. Seria impossível fixar na memória todo um percurso de mil milhas, mas Ham e Richie ficavam assim com um razoável conhecimento das partes mais perigosas. Saber de cor o percurso era tão importante para Richie quanto para Ham, pois Richie haveria de ser, em boa porção do caminho, nada menos que os olhos de Ham.

 

Às cinco e meia da manhã estavam prontos para a partida. Desta vez corriam mais; havia tráfego na estrada, mas Ham conhecia melhor o caminho. As anotações de Richie haviam sido datilografadas por Kitty e coladas folha com folha, formando agora uma longa tira de papel enrolada em canudo. E ele estava usando as anotações, adiantando detalhes a Ham nos pontos onde o campo de visão era curto; e ainda fazia acréscimos às notas, à medida que passavam.

 

Pararam para almoço numa aldeia a meio caminho entre Ancona e Pescara. Sentaram-se ao ar livre, sob um caramanchão coberto de videira. Enquanto comiam, outros carros facilmente identificáveis como esperançosos candidatos à Mille Miglia pelos seus motores com a descarga aberta, passavam trovejando. Uma Ferrari passou, e Richie parou de comer para escutar a cadência do motor, diminuindo com o carro a sumir de vista, o som demorando no ar muito mais do que a poeira que se levantara e tornava a pousar.

 

_ Isto é que é música! – disse, rindo consigo mesmo. – Fiquem com todos os outros sons já inventados, mas esta é a minha música!

 

Foi só uma parada de meia hora, e logo retomaram o caminho, com a intenção de chegar a Siena e ali passar a noite. Na grande reta que vai até Pescara, Ham abriu mais um pouco, sem contudo levar o carro ao máximo. Atravessaram Pescara e rumaram para os montes Abruzzi. Subiram rapidamente, usando sempre a buzina como um aviso nas curvas. Passaram por Áquila, dando adeuses a um bando de crianças de colégio, e tomaram a descida para Rieti. Fizeram uma série de curvas rápidas, Ham buzinando sempre, certificando-se de que assim não punha em perigo nenhum automobilista que viesse de subida.

 

Aí entrou numa suave curva em S que ia dar noutra, fechada, para a direita. Era uma daquelas em que Ham e Richie haviam parado para estudar, num giro prévio de reconhecimento, e estava anotada para merecer grande cuidado. Ham sentiu Richie tocar-lhe a manga, avisando-o da estreiteza da curva para a direita, e freou.

 

O carro começou a deslizar. Ham sentiu-o escapulir debaixo de si, sem aderência em nenhum dos pneus, e lutou como um desesperado para agüenta-lo na pista. Mas não podia fazer nada: era como se a pista tivesse virado gelo. Com um choque tremendo e um fragor de metais, o carro bateu na muralhazinha de pedra, voltou, houve um momento de aderência enquanto os pneus cruzaram de novo a estrada, e aí o carro varou a barragem de segurança na margem exterior da curva para a direita e já ia se atirando no barranco.

 

Bateu contra uma árvore, virou de lado e rolou. Ham encravo-se no assento, sentindo Richie agarrar-se ali ao lado; o carro girou sobre eles, cobrindo o céu. Depois mais uma batida, um esfrangalhar de metais, e o carro ficou imóvel, de lado em um angulo crítico.

 

A buzina tocava altíssimo, semelhante a um grito imenso de dor. Ham, atordoado mas instintivamente fugindo ao perigo de incêndio, jogou-se fora do carro, gritando a Richie para sair também. Rolou encosta abaixo, agarrando-se à vegetação para atenuar a queda, e foi parar de encontro a uma enorme pedra. Ficou ali, espichado, arregalando os olhos sobre o barranco íngreme que ia dar no leito pedregoso de um rio cem metros mais abaixo. Fez uma oração de graças por não ter ido o carro mais longe do que fora. Ergueu-se nos joelhos, assegurando-se de que não partira nenhum osso, e olhou barranco acima para ver se Richie já saíra do carro.

 

Mas por sua espontânea vontade Richie não sairia daquele carro jamais. Lá estava ele, agarrado no banco, sangue escorrendo de uma das bochechas, uma das mãos pousada no volante como que por acaso. Antes de toca-lo, Ham já sabia que Richie estava morto, com o pescoço quebrado no único rolamento que o carro executara depois de bater na primeira árvore.

 

A mão gorda e manchada de óleo ainda agarrava o canudo de anotações, com pingos do sangue que caía do golpe aberto na face. Ham leu a nota: Curva fechada para a direita, muito cuidado… E o resto era uma mancha de sangue. Ham curvou-se e desligou a corrente elétrica, fazendo calar a buzina. No silêncio súbito, o carro tremia e rangia como um ser vivo, e aí morreu também e silenciou.

Um momento mais tarde passou lá em cima na estrada um clarão vermelho, os pneus gemendo enquanto o volante lutava para fazer a curva, depois a máquina seguindo acelerado. A cadência do motor sumindo pela encosta da montanha – aquela musica que Richie nunca mais haveria de escutar.

 

Foi uma grande poça de óleo que os fez saltar da pista. Algum automóvel ou caminhão, descendo por ali poucos minutos antes, devia ter quebrado a bomba de óleo. A mancha era comprida e larga, e Ham, delizando um pouco ao frear para entrar na curva à direita, escorregara com as quatro rodas sobre a superfície traiçoeira. E assim, afinal de contas, foram também os carros que levaram Richie ao fim: um carro que ele nunca tinha visto e que a essa hora estaria na aldeia, o chofer sem a mínima noção da tragédia que seu veículo causara.

 

Ham tornara a subir para a estrada e fez sinal ao primeiro carro que veio descendo, um Triumph TR3 guiado por um jovem escocês em companhia de outro escocês mais velho e austero. O homem de meia-idade, que se chamava McKechnie, saltou do TR3 e ficou ali com Ham, enquanto o outro descia até Antrodoco, um povoado ao sopé da montanha; de lá telefonou para Rieti, pedindo medico e ambulância. Nessa hora já havia automóveis e caminhões estacionados perigosamente à beira do barranco íngreme, colocaram-se homens acima da passagem para dar aviso aos outros carros que viessem descendo, e a estrada ficou apinhada de gente. McKechnie e o chofer de um caminhão que ia passando tiraram do carro o corpo de Richie, cobriram-no com um oleado e trouxeram para a estrada. Ham, sentado com as costas na barreira de segurança, podia ouvir bem um grupo de mulheres que choravam olhando o carro sinistrado e o corpo imóvel sob o impermeável.

Quando afinal a ambulância partiu, McKechnie ofereceu-se:

 

_ Quer que mandemos recado a alguém?

 

Ham já aceitara carona para Roma, num dos carros parados ali na estrada.

 

_ Não, obrigado. Eu telefono de Roma. Acho melhor eu mesmo avisar à esposa, ao invés de outra pessoa.

 

­_ Não o invejo – comentou McKechnie, e entraram ele e o jovem escocês no carro e foram embora.

 

Ham lançou um último olhar para o Mago avariado, lá embaixo. Sentia-se agora mais forte e o choque estava passando. Com as pernas ainda não muito firmes, desceu até onde estava o carro e passou-lhe uma revista: alguma coisa poderia ser aproveitada, mas não muita. Viu o rolo de anotações manchado de sangue no tapete do carro. Espichou um braço e apanhou-o. As partes enroladas estavam limpas e perfeitas; era o relatório de Richie sobre aquela viagem, e o amigo marcara com o próprio sangue o capítulo da morte. Com o canudo firme na mão, Ham subiu de novo para a estrada. Poucos minutos depois estava a caminho de Roma.

 

De Roma telefonou a Kitty. Da mesma forma que tivera de telefonar a sua mãe, uma vez, para lhe dar a notícia da morte do pai; mas o fato de estar ao telefone pela segunda vez dando más notícias não facilitava a tarefa. Quando Kitty chegou ao telefone, vinha rindo, e o som de outra risada ouvia-se por trás dela.

 

_ Alô, é você, Richie? Ed estava contando uma anedota… Richie?

 

_ Não é Richie quem fala – respondeu Ham, e com a maior delicadeza possível disse tudo a ela. Ouviu-a soluçar, e a risada de fundo cessou de repente.

 

Era mais de meia-noite quando chegou ao hotel. Bartell e Ed Carlin estavam esperando por ele. Ninguém ousou perguntar. Estavam todos preparados para aguardar o momento em que ele próprio resolvesse descrever a catástrofe. Ham comeu, o primeiro alimento que ingeria desde a manhã, e bebeu três xícaras de café forte. Não sentia nenhum gosto em comer e beber, mas sabia que era necessário.

 

E então contou o que sucedera. No fim, Bartell perguntou:

 

_ A culpa foi do pneus ou foi por falha do carro?

 

_ Nada disso, explicou Ham. A culpa foi daquele diabo de óleo espalhado no chão.

 

_ Muito me consola saber, disse Bartell. Eu não gostaria de pensar em Richie morto por algum defeito de meus pneus. Eu gostava do Richie, e era capaz de desistir de fabricar pneus se soubesse que um dos meus o havia matado. Nisso é que eu estava pensando.

 

_ Os pneus estavam perfeitos, Joe, confirmou Ham. O próprio desastre veio provar que eram bons. Demos voltas e quedas bastantes para estourarem todos quatro, mas ficaram perfeitos.

 

Ham olhou para Ed Carlin:

 

_ Vai para Roma?

 

_ Ia, esta noite. Mas resolvi esperar, quando… quando você telefonou.

 

_ E a decisão da FIA sobre os pneus?

 

_ Tivemos permissão para usa-los, informou Carlin. Se ainda entrarmos no páreo.

 

Ham percebeu que todos o fixavam de uma forma que não havia margem a dúvida: até Bartell, o milionário que pagava para lhe fazerem as vontades, deixava-o decidir. Sentiu-se momentaneamente constrangido, reconhecendo os limites de suas forças. Ergueu-se de repente e saiu da mesa, querendo ver-se livre daquelas pessoas.

 

Taz veio vê-lo de manhã na pensione, à hora do café.

 

­_ Soube do Richie agora pela manhã. A face jovem do irmão parecia ter sofrido uma espécie de derrota, a luz da procura desmaiara em seus olhos. Quis ir ver Kitty, mas não tive jeito.

 

_ Pois eu preciso ir vê-la. Volta hoje para casa, para perto dos filhos.

 

_ Como se arranjará? Em matéria de dinheiro, pergunto.

 

­_ Não sei. Mas não creio que Richie tenha lhe deixado muito; tudo que tinha meteu na garagem e no carro.

 

_ Um carro, lembrou Taz. Não é muita coisa.

 

_ É apenas o primeiro. Outros virão. Richie me convidou para ser sócio dele. Pedi para me esquecer, e agora preferia não ter pedido. Ham falava sentindo a presença do amigo, a alegria na cara bochechuda, a voz rouca imprecada contra o tempo. Vou tomar conta do carro e da garagem. Bartell queria associar-se a Richie, talvez comigo ainda queira. Richie não era do tipo que sonha com homenagens, mas creio que a coisa de que mais haveria de gostar seria um par de carros dele cruzando-se na Estrada de Aylesbury.

 

_ E você poderá vende-los, sem uma corrida que lhes sirva de anuncio? perguntou Taz. Lá no hotel o velho Bartell estava se preparando para cancelar a inscrição. Ninguém espera mais que você corra.

 

_ Não posso fazer muita coisa, comentou Ham, tentando não demonstrar seu alivio. Não posso correr sem um navegador.

 

Nesse momento Charlie e George entraram no refeitório, ambos com cara de quem não dormiu.

 

_ Vamos leva-lo à cidade, Ham. Ou senão, o Mago está aí fora, se você quiser, disse Charlie.

 

Ham sabia o que queriam dizer: o Mago estaria ali fora se ele quisesse conduzi-lo à cidade para os escrutinadores verem, se quisesse te-lo pronto para corrida de domingo. Encarou-os também, e ouviu seu irmão se oferecendo:

 

_ Se você quer, vou como seu navegador. Ainda hoje perguntei a Ainsworth se ele me dava dispensa. Conheço um pouquinho a pista e há aquelas notas do Richie.

 

E Ham deu-se conta de que, se tivessem que prestar uma homenagem póstuma a Richie, não seria cruzando carros dele na Estrada de Aylesbury: haveria de ser na Itália, na pista da Mille Miglia, um de seus carros correndo à toda por aqueles milhares de milhas com a esperança de chegar primeiro.

 

_ Vamos entrar com o Mago, declarou, levantando-se da mesa e pondo a mão no ombro do irmão mais moço. – Eu e Taz.

 

Ham instalou-se no carro, o pé no freio, esperando soltá-lo no momento em que o starter o chamasse para a rampa. A seu lado, Taz passava a vista no rolo de anotações: era uma copia, pois o original com o sangue de Richie fora incinerado. Em frente a Taz, num largo depósito por baixo do pára-brisa, havia duas garrafas de laranjada e uma caixinha com biscoitos, chocolates e frutas. Durante quase todas as onze horas seguintes estariam sempre em movimento e não teriam paradas para comer. No porta-luvas havia dois óculos sobressalentes, um par de luvas de reserva para Ham, estopa e flanelas. Ambos estavam de capacete verde de aba curta e óculos com vidros esverdeados contra a luminosidade. Trajavam macacão verde, cinturões largos e botinas macias de camurça. E todos dois haviam sacudido uma boa porção de talco por dentro das roupas, para se sentirem mais confortavelmente sentados durante o longo tempo da jornada.

 

Na sexta-feira tinham levado o carro à Piazza Vittoria, esgueirando-se com ele em meio à clamorosa multidão que parecia cobrir até o último centímetro quadrado do vasto logradouro. Nas bandas de leste e oeste da praça viam-se pequenas ilhas vedadas por cercas de madeira. A multidão trepava nas cercas, com a emoção radiante nas faces, sonhando de olhos abertos: algum dia também esperavam entrar naqueles postos levando Alfas-Romeo e Ferraris fulgurantes para serem inspecionados pelos fiscais.

 

Dois carabinieri, exibindo a autoridade como se fosse um fuzil, surgiram do populacho e guiaram Ham e Taz a um dos postos de inspeção. Toda a gente aquietou-se por um momento, enquanto os alto-falantes prestavam informações esperadas.

 

“Encontra-se agora diante dos fiscais o Mago, inglês, de Hamilton Rafferty, competidor da categoria de mais de dois litros”.

 

_ Rafferty! A massa humana ondulou para a frente. – L’ Áquila!

 

O numero com o qual o Mago entraria na corrida, e que indicava também sua hora de partida, foi pintado no radiador e nos flancos: 718. Depois lá foi ele adiante para a inspeção dos fiscais sentados às mesas. Colocaram-se selos em certas partes do motor e do chassi, para garantir que não haveria substituições durante a corrida nem antes, e Ham voltou a tomar o carro. Pos o motor em marcha reduzida, a multidão respondeu com um grito de aprovação, e aí foi tirando o carro do compartimento, por entre milhares de pessoas que conseguiam abrir alas para ele; e assim saiu da cidade e rumou para a garagem.

 

Uma vez inscrito na corrida, Ham sentia-se mais à vontade: dera o primeiro passo, que fora o mais difícil. O mais que viesse a acontecer estaria ao sabor de forças superiores às dele.

 

E eis a manhã de domingo, faltando trinta segundos para o relógio marcar 7 e 18. O fiscal de jaqueta branca fez sinal com a bandeira para se dirigirem à rampa amarela. Atrás deles havia cinco carros, e 603 na frente. Desde as nove horas da noite anterior, distribuídos em várias classes, os carros vinham saindo com intervalos de um minuto. Até à meia noite eram simples automóveis de passeio, guiados por automobilistas cuja única façanha no ano era inscrever-se na Mille Miglia. Já clareava o dia quando os primeiros carros de volantes profissionais começaram a longa jornada. O vencedor da Mille Miglia seria o que percorresse as mil milhas no menor tempo; esperava-se que fosse um daqueles doze ou mais carros ainda por sair. Eram os grandes corredores profissionais, e todo profissional sonha vencer a Mille Miglia.

 

O Mago era o ponto de atração, nos trinta segundos de espera concedidos a todo concorrente antes de ser arriada a bandeira, dando-lhe sinal de partir para ser substituído por outro na fila. Ham viu o fiscal levantar a bandeirinha; aumentou as rotações da máquina, afrouxando o pé na embreagem; a bandeirinha foi arriada e ele avançou com o Mago descendo a rampa. Assim que chegaram à pista acelerou, mudando as marchas mansamente ao longo da estreita alameda do Viale Rebuffone, entre escuras cercas humanas, gente de olho vermelho que ali passara toda a noite e que ao meio-dia ali estaria de novo para assistir à chegada dos primeiros competidores.

 

Daí por diante a estrada abria-se, a assistência rareava, e o Mago já corria a toda velocidade rumo a Verona, quarenta milhas distante.

 

Era diferente de quando Ham saíra com Richie no outro carro. Agora iam quase duas vezes mais depressa; o sopro do vento e o ronco do motor eram de ensurdecer. Durante a véspera, Ham e Taz haviam lido e relido as anotações de Richie, visto e revisto os filmes, combinando sinais pelos quais Taz pudesse orientar o irmão. Dali por diante, precisariam confiar inteiramente um no outro. Uma indicação mal dada, um descuido no volante e os dois poderiam ser lançados da pista, para a morte talvez.

 

Quinze milhas adiante viram pela frente um ponto verde crescendo rapidamente até tomar a forma de um Jaguar XK150. Ham saiu-lhe ao encalço com o Mago e Taz esticou-se para tocar a buzina com a mão esquerda. Passaram o Jaguar com uma buzinada longa e quase zombeteira e nesse momento já entravam em um povoado. Taz fez sinal de curva próxima em S, que poderia ser feita a toda máquina, e Ham firmou a direção, passando tão colado ao muro de um jardim que parecia tirar poeira das pedras.

 

Depois de Verona, a caminho de Vicenza, passaram outros carros com facilidade; a 160 levaram a melhor sobre um Austin-Healey que parecia andar em segunda. Entraram em Vicenza. Pádua seria a próxima cidade. Chegaram a Pádua a 150, castigando os freios numa esquina de rua para a direita e raspando nos fardos de capim, porque Ham fez a curva muito aberta. Atravessaram a cidade com um rugido, atentos às sombras da multidão, e aproaram para Ravena, primeiro posto de controle, cem milhas adiante.

 

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Concluo na próxima coluna. Abraços

 

Carlos Chiesa

Carlos Chiesa
Carlos Chiesa
Publicitário, criou campanhas para VW, Ford e Fiat. Ganhou inúmeros prêmios nessa atividade, inclusive 2 Grand Prix. Acompanha F1 desde os primeiros sucessos do Emerson Fittipaldi.

4 Comments

  1. SERGIO disse:

    Sr. CArlos…. vai demorar a segunda parte?

  2. Carlos Chiesa disse:

    É um livro mesmo, Ronaldo. Veja a primeira linha do texto: o autor se chama Jon Cleary e é bem popular na Australia, sua terra natal. Tomara que você encontre O capacete verde, em átomos ou em bits.

  3. ronaldo disse:

    Qual é, isso é um livro mesmo? Me fala o nome que eu vou comprar! Se for seu, parabéns, a história é foda. E se for verídicio, me perdoe a ignorância.

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