Jack Brabham (1926-2014)

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Foi-se um grande, tão grande que é difícil resumir as suas contribuições e conquistas no automobilismo.

Foi-se um grande, tão grande que é difícil resumir as suas contribuições e conquistas no automobilismo. Piloto, construtor, campeão, o australiano Jack Brabram, falecido ontem, aos 88 anos, concluiu uma carreira marcada por vitórias e feitos extraordinários. Correndo com o rosto quase sempre exposto, os lábios firmemente cerrados, era um homem destemido num tempo em que essa era a maior das virtudes, um tempo muito distante da fibra de carbono e das estruturas deformáveis que tudo suportam, tornando a morte uma lembrança felizmente remota do automobilismo.

Tão perigosos eram os idos de Brabham que o primeiro feito dele a ser louvado é exatamente ter sobrevivido.

Brabham estreou na Fórmula 1 em 16 de julho de 1955, no GP da Inglaterra, disputado em Aintree. Pilotando um modesto Cooper de rodas cobertas, equipado com motor Bristol de dois litros (ante 2,5 litros da maioria dos outros carros inscritos), ele marcou apenas o último tempo, quase meio minuto mais lento do que Stirling Moss e Juan Manuel Fangio, os dois primeiros no grid.

Além de Brabham, outros 24 pilotos alinharam para a largada daquele GP; seis deles morreriam na pista nos anos seguintes: Jean Behra, Harry Schell, Luigi Musso, Eugenio Castellotti, Kenneth Wharton e Peter Collins.

Até seu último GP, no México 70, Brabham participou de GPs onde 28 pessoas, entre pilotos, fiscais e espectadores, perderam a vida. A última vítima foi Jochen Rindt, 50 dias antes do australiano abandonar as pistas. Impossível contar quantos outros colegas morreram pilotando em outras categorias durante a carreira do australiano. Certamente mais de uma centena.

Em meio a esta carnificina renovada a cada semana, Brabham somou 14 vitórias em GPs. Ao se aposentar, era o quarto maior vencedor de GPs, empatado com Graham Hill, atrás apenas dos gigantes Jim Clark, Fangio e Moss.

Graças a estas vitórias, Brabham venceu três Mundiais, marca que, em 70, só era superada pela de Fangio. E não foram campeonatos quaisquer: os de 59 e 60, com a equipe Cooper, foram os primeiros conquistados por carros com motor traseiro e o de 66, o primeiro e com toda a certeza o único até o final dos tempos a ser conquistado por um piloto conduzindo um carro construído por ele próprio.

E Brabham quase repetiu o feito no ano seguinte: terminou o Mundial na 2ª posição, atrás apenas do companheiro de equipe, o neozelandês Denis Hulme.

httpv://youtu.be/G8JhWyxekzQ
Brabham foi segundo colocado em Monza, 1967, por apenas 0,2s 

Também coube a Brabham reabrir ao automobilismo europeu as portas de Indianápolis. Foi ele o pioneiro nos tempos modernos a levar às 500 Milhas, em 61, um Cooper com motor traseiro e concepção europeia, competindo contra os dinossauros americanos de motores dianteiros. Já na primeira investida, em 61, terminou a corrida em 9º lugar.

Ao mostrar aos demais construtores e pilotos europeus a viabilidade de competir e vencer nas 500 Milhas de Indianápolis, Cooper e Brabham iniciariam o processo de consolidação da Inglaterra como principal polo produtor de carros de corrida, que perdura até hoje.

E há ao menos mais uma importante distinção na carreira do australiano: ele se aposentou no automobilismo, em 70, ainda bastante competitivo.

Nesta altura, já contava 16 temporadas na Fórmula 1, sendo um dos dois pilotos com mais largadas na categoria, junto com Graham Hill. Ao contrário do inglês, Brabham ainda estava em plena forma, tanto que venceu a primeira prova da temporada, o GP da África do Sul.

Nos GPs seguintes, a bordo de um carro que me lembra uma matrona, dadas as suas curvas e proporções generosas, Brabham sempre andou bem: era 2º na Espanha, quando o motor Ford Cosworth quebrou. Em Mônaco, terminou em 2º, batido na última curva pelo futuro campeão da temporada, Jochen Rindt.

httpv://youtu.be/XC2v4A_y4VI
A última volta de Monte Carlo, 1970

Em Spa, Brabham estava em 3º quando a embreagem quebrou. Não foi bem na Holanda mas terminou em 3º na França e, na Inglaterra – corrida disputada em 19 de julho, estreia de Emerson Fittipaldi na categoria e primeiro GP transmitido ao vivo para o Brasil -, o australiano voltou a terminar em 2º, repetindo quase que exatamente o enredo de Mônaco. Só que, lá, ele perdeu o controle do carro na última curva; na Inglaterra, ficou sem combustível graças a um erro elementar de regulagem do seu motor, imputado durante anos a Ron Dennis, então trabalhando como mecânico de Brabham. (Veja mais detalhes sobre estas e outra incrível corrida perdida por Brabham na última volta em minhas colunas Azar australiano, parte I e a parte II)

Depois do GP da Inglaterra, a brilhante temporada de Brabham sofre uma guinada. Ele não pontua mais e anda sempre no pelotão do fundo.

Reage, no entanto, em seu último GP, disputado no México, em 25 de outubro, passando mais da metade de prova em 3º lugar. Uma vez mais, porém, tem de abandonar por quebra do motor. Foi a última corrida de Brabham. Uma semana antes, ele havia vencido, em dupla com François Cevert, os 1000 km de Paris, disputado em Montlhéry, pilotando um Matra.

Encerrada a carreira, Brabham vendeu sua equipe, criada por ele em 62, recolheu-se à Austrália e lá criou três filhos que se tornaram pilotos. Dois deles, Geoff e David, venceram em Le Mans, em 93 e 2009.

Jack Brabham era reputado como um piloto duro, da mesma forma que pode ser um zagueiro que não se intimida em botinar os atacantes adversários. Nunca, no entanto, ninguém ousou levantar contra ele acusação de deslealdade ou atitude antiesportividade.

Esta também é uma distinção que lhe cabe e que, como o destemor, parece ser apenas uma vaga lembrança do passado.

Eduardo Correa

Eduardo Correa
Eduardo Correa
Jornalista, autor do livro "Fórmula 1, Pela Glória e Pela Pátria", acompanha a categoria desde 1968

8 Comments

  1. Mário Salustiano disse:

    amigos

    As lembranças que essa época proporciona na gente, é que pessoas comuns podiam se aventurar e conseguir se sobressair, não era uma tarefa fácil construir seu próprio carro, mas era bem mais plausível que hoje, ganhar então como conseguiu Brabham é uma honra que jamais deverá se repetir

    O amigo Fernando fala com propriedade e eu assino embaixo, ganhar três mundiais concorrendo com botas da estirpe de Clark, Moss, Stewart, Hill dentre outros não era para qualquer um.

    A volta final de Monza 67 é uma das mais antológicas da história

    Descanse em paz Jack

    abraços

    Mário

  2. Mauro Santana disse:

    Mais uma lenda que esta no autódromo do céu colocando em dia o papo com os velhos amigos que por lá já estavam.

    Concordo com o Fernando, pois ser tricampeão numa época em que alinhavam no grid umas 8 Feras, e sem saber se iria chegar vivo ao final de um GP, realmente era para muito poucos.

    Lap Jack Brabham!

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

  3. Fernando Marques disse:

    J. Brabham realmente foi um monstro na Formula 1. Conquistar 3 campeonatos disputando corridas com J. Clark, D. Hulme, G. Hill, J. Surtees, J. Stuwart, E. Fittipaldi, J. Rindt, F. Cervert, entre outras feras e numa época em que ninguém sabia se terminaria uma corrida vivo é sem duvidas algumas um feito histórico.
    Era uma época romântica, dramática e cheia de heróis.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  4. Sandro disse:

    R.I.P. Jack Brabham! 🙁

    Em 66 Brabham foi campeão com Brabahm! 😉 Impressionante!

    E bota na conta do Ron Dennis!

    P.S.: Num tenho certeza… mas o primeiro GP a ser transmitido ao vivo para o Brasil foi pela Rede Record em 1969 (Monaco).

  5. Mendes disse:

    O nosso tricampeao ! Nelson Piquet é admirador do Jack Brabham, só isso diz tudo …descanse em paz eterno tri campeao Jack !

    • Geraldo Flávio Chaves disse:

      O engraçado é que Brabham, assim como Piquet, são sempre pouco lembrados quando se fala nos melhores de todos os tempos!
      Descanse em paz Velho Jack!

      • Carlos Chiesa disse:

        Lista de melhores de todos os tempos cada um faz como quer. Depende do critério. Se for pelo critério piloto e construtor ele sempre será o nø 1. Como piloto era duro, sim, seu apelido era Black Jack. Como construtor, soube recrutar um bom projetista, Ron Tauranac, e criar um motor confiável, em um momento em que o regulamento tinha zerado o grid. O trabalho da Repco sobre um V8 de rua (Olsdmobile, acho) correspondeu, o chassis também e o piloto não negou fogo: campeão como piloto e construtor. Francamente? Prefiro ele a um Gilles Villeneuve.

        • Manuel disse:

          Perfeito, Chiesa !

          Vale lembrar tambem sua integridade ao nao aproveitar sua condiçao de dono da equipe para se impor a Denny Hulme em 1967.

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