Just Like 1974

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2013 aponta para um cenário semelhante ao de 1974. E seremos abençoados se a temporada for ao menos parecida.

2012 nos deixou marcas impressionantes: tivemos o recorde de pilotos com título na pista e o maior número de vencedores diferentes a partir do início de uma temporada. Porém, se olharmos bem, veremos que alguns dos vencedores (Maldonado e Rosberg) não foram candidatos reais, e suas vitórias podem ser consideradas ocasionais.

Para 2013, não temos ainda um cenário claro: haverá  um domínio, como em 2011, ou uma disputa mais aberta, como ano passado? Não costumo me impressionar com testes pré-temporada, e por isso o temporal de Webber ontem não me causa nenhum espanto da mesma forma que Massa (Jerez) e Alonso (Barcelona) terem feito as melhores marcas nas sessões anteriores não quer dizer coisa alguma.

De qualquer forma, graças à ida de Hamilton para a Mercedes, teremos 5 pilotos top em 5 equipes diferentes – e cada um deles tendo fortes coadjuvantes dentro dos times. Isso não acontecia há muito tempo. Márcio relembrou a temporada de 1983, que teve vários candidatos ao caneco e três assim se mantiveram até a penúltima prova. Vou relembrar aqui outra temporada que marcou nesse sentido – mas que não é tão lembrada por isso: 1974.

A começar pelo número de vencedores: foram sete ao longo do ano (o que não é nenhum absurdo, diante de outras tantas temporadas com oito ou mais), sendo seis nas primeiras sete corridas! Oito pilotos diferentes marcaram a melhor volta em GPs (foi um total de 15 corridas).

Os pilotos da McLaren em 1974 eram os seguintes: Emerson Fittipaldi e Denny Hulme, em sua última temporada; a hoje absurda parceria Brasil/Argentina (Carlos Reutemann e José Carlos Pace, que iniciara a temporada pela Surtees) aconteceu na Brabham; a Scuderia Ferrari vinha com Clay Regazzoni e Niki Lauda; a Tyrrel – que perdera seus dois pilotos de uma vez em 1973 – tinha Patrick Depailler e Jody Scheckter; e a Lotus, agora sem Fittipaldi, contava com Ronnie Peterson e Jacky Ickx!

Além disso, havia um Peter Revson (que disputou apenas as duas provas iniciais, R.I.P.) tínhamos o lendário James Hunt, os Jean-Pierres Jarier e Beltoise, sem mencionar as presenças ilustres do maior da história das motos (Mike Hailwood) e do Mr. Mônaco Graham Hill, além do grande John Watson, de Tom Pryce, Hans Stuck e os icônicos Arturo Merzario e Vitorio Brambilla.

Grandes figuras compunham aquele grid, enfim.

Logo de início, tivemos um GP da Argentina que marcou várias estreias e despedidas: era a última pole de Ronnie Peterson, e a última vitória de Denny Hulme. Niki Lauda chegava ao pódio pela primeira vez. E também era o início da jornada “pé-frio do caramba” de Carlos Reutemann. Considero Reutemann um dos campeões sem título da F1, ao lado de caras como Moss, Gilles e Peterson, mas definitivamente o vejo mais para Moss do que para seus contemporâneos: principalmente por esse início de temporada.

O piloto local tinha o sexto tempo no grid, e ao fim da primeira volta era segundo. Mais duas voltas, e assumia a liderança. Foram quase 50 voltas de uma liderança sólida até que, no penúltimo giro, veio a pane seca. O neozelandês Hulme, que não tinha nada com isso, foi o vencedor, também tendo apresentação memorável: largou em décimo e na volta 10 já era segundo. A melhor volta foi do terceiro colocado Clay Regazzoni. Emerson foi apenas décimo.

Em seguida, tivemos o GP do Brasil, onde de novo Reutemann alcançou a liderança mas problemas impediram-no de vencer: partindo em segundo, liderou até a volta 4, quando seus pneus passariam a perder rendimento: Reutemann terminaria apenas na sétima posição, com uma volta de desvantagem.

A briga se concentrou nos ex-companheiros de equipe Fittipaldi e Peterson: o brasileiro era pole, mas caiu para terceiro, sendo ultrapassado pelo argentino e pelo sueco. Foi na volta 16 que Emerson conseguiu superar Ronnie, e lá se manteria até o fim em vitória marcante (é até hoje o único brasileiro a vencer duas etapas seguidas em casa).

httpv://youtu.be/jmq02yejRZ8

Peterson também sofreria problemas de equipamento, despencando para o 10º lugar e fechando em sexto. A segunda posição ficou com Regazzoni, que ia aos poucos se consolidando na disputa pelo título.

A próxima prova aconteceu na África do Sul, onde Lauda inciaria o então recorde de poles num mesmo ano. E Carlos Reutemann finalmente conseguiria sua primeira vitória em outra performance espetacular: largando em quarto, foi a segundo na primeira volta, e na décima ultrapassou Lauda para não mais perder a primeira posição (um total de 78 voltas!).

A prova, porém, ficou marcada pela triste morte de Peter Revson, nos treinos. A equipe Shadow não participou da corrida.

O início do calendário europeu (naquela época, não havia Tilke) passou a mostrar que o mundial se encaminhava para quatro nomes – Emerson, Rega, Lauda e Scheckter. Carlos Reutemann e Ronnie Peterson, mesmo sendo os que mais venceriam corridas (ao lado de Fittipaldi) no fim do ano, enfrentariam uma maré de azar que limou suas chances de disputa.

Para o argentino, foram 5 provas seguidas sem pontuar, basicamente por más classificações; a má sorte de Ronnie Peterson veio na forma de oscilação: três vitórias e um terceiro intercalados com abandonos, quase sempre por problemas de equipamento.

Foi Niki Lauda quem venceu a primeira corrida na Europa: na Espanha, marcaria seu primeiro hat-trick, aliás; completaram o pódio Regazzoni e Emerson, respectivamente. Scheckter completou a prova na quinta colocação. Na Bélgica, uma das grandes corridas de Emerson, a ordem foi a seguinte: Fittipaldi-Lauda-Scheckter-Regazzoni.

Em Mônaco, uma das maiores vitórias de Ronnie Peterson viu Scheckter ser segundo com Regazzoni (quarto) à frente de Emerson (quinto). No GP sueco, Scheckter obteve sua primeira vitória no mesmo dia em que Depailler fazia sua única pole e Hunt subia ao pódio pela primeira vez com a Hesketh. Emerson foi quarto e Rega abandonou.

Na Holanda, novo domínio dos quatro, com a seguinte ordem: Lauda-Regazzoni-Emerson-Scheckter (o sul-africano completou em quinto). Na França, triunfo de Peterson, seguido por Lauda, Regazzoni e Scheckter. Emerson não pontuou.

A partir do GP da Inglaterra, no qual terminou em quinto e se mantinha como líder do mundial, Niki Lauda começaria a se afastar da chance de ser campeão mesmo que isso não se traduzisse matematicamente: vitória de Scheckter, com Fittipaldi em segundo e Regazzoni em quarto. Na Alemanha, Emerson não pontuou e houve um 1-2 do suíço da Ferrari com o sul-africano da Tyrrel.

httpv://youtu.be/DCQEg7VF3KI

Na vizinha Áustria, somente Regazzoni pontuou dentre os top-3: Fittipaldi, Lauda e Scheckter tiveram falhas mecânicas, e Clay foi apenas quinto. A vitória – impressionante – foi de Reutemann (ponta-a-ponta), seguido por Hulme e Hunt.

O circo da F1 chegava em um de seus maiores palcos (Monza) com uma Ferrari liderando (Regazzoni tinha 46 pontos) e outra em terceiro (Lauda somava 38). Cenário perfeito para que os vermelhos despontassem e trouxessem um título que já tardava 10 anos.

E tudo começou do modo mais perfeito: 1-2 no grid, com Lauda na pole. Mas o que se deu foi uma enorme decepção: nem Lauda nem Rega terminaram a prova, ambos por problemas de vazamento (óleo para o suíço, na volta 40, água para o austríaco, na 32ª) quando eram líderes!

httpv://youtu.be/QcUXi0jQqUI

Capricho dos deuses do automobilismo? Peterson venceu e Emerson completou em segundo, seguido por Scheckter. Assim, faltando duas provas para o final, tínhamos os três primeiros colocados (Regazzoni-46, Scheckter-45 e Emerson-43) separados por 3 pontos, e ainda um quarto (Lauda-38) bastante próximo. Sem mencionar Peterson (31) que ainda tinha chances matemáticas. Pouco?

Voando de volta para a América, Emerson Fittipaldi tratou de quebrar a sequência/recorde de poles de Lauda, deixando o austríaco como seu companheiro de primeira fila. Até metade da prova, tínhamos a seguinte sequência: Lauda, Fttipaldi, Scheckter e Regazzoni. Isto é: caso a linha de chegada tivesse essa mesma ordem, teríamos a prova final com três pilotos empatados (!) e outro míseros dois pontos atrás!

Mas dois acidentes definiram os rumos: com problemas nos freios, Scheckter bateu na volta 49. E Lauda, que tomou a ponta logo na largada e ainda marcaria a melhor volta, liderou sem ser ameaçado até a volta 67, quando… passou por cima de destroços e perdeu o controle do carro. A batida promoveu Emerson à vitória e Regazzoni ao segundo lugar.

Os dois pilotos chegaram à prova final, em Watkins Glen, rigorosamente empatados em pontos (52 cada), com o brasileiro à frente por ter mais vitórias (3 a 1). Scheckter ainda tinha chances simbólicas: 7 pontos atrás da dupla, precisava vencer torcendo para que Clay fosse no máximo quinto e Fittipaldi não passasse de sexto.

Como toda grande prova de encerramento de mundial que se preze, o GP dos EUA foi tenso: não porque houvesse disputa pela liderança (Reutemann deu um banho, fazendo pole e liderando todas as voltas) ou porque tivesse os candidatos ao mundial brigando pelo pódio (Carlos Pace, marcando a melhor volta, foi o segundo e Hunt o terceiro).

Pelo contrário: Fittipaldi largou em oitavo e Regazzoni partiu em nono. O brasileiro fez uma prova burocrática, e conseguiu terminar em quarto. O suíço ganhou duas posições de início, mas enfrentou problemas mecânicos durante a jornada, chegando a cair para vigésimo, mas nunca conseguindo uma recuperação definitiva. Scheckter, que dependia dos dois, largou em sexto e era quarto quando abandonou.

Emerson Fittipaldi, sem ter o melhor equipamento, chegava a seu bicampeonato, batendo o concorrente por três pontos.

A Ferrari foi o carro mais rápido do ano, mas também um dos que mais padeceu de falhas mecânicas. Curiosamente, campeão e vice foram apenas o 5º (Regazzoni, 83) e 6º (Emerson, 77) em voltas lideradas. Era a distância de um GP completo, naqueles tempos. Por outro lado, foram justamente os dois que mais chegaram ao pódio (cada um terminou 7 corridas entre os três primeiros).

Jody Scheckter foi o terceiro que mais subiu ao pódio, e fez uma temporada melhor que aquela que lhe rendeu o mundial (1979) na opinião de muitos. Niki Lauda, por sua vez, pode até reclamar o título de 1974: estabeleceu o que à época era o recorde de poles seguidas (6) e numa mesma temporada (9), foi o piloto que mais voltas liderou (339) e era primeiro colocado no certame até o GP da Inglaterra. No entanto, após aquela etapa (décima) não pontuaria mais!

Tivemos, portanto, seis pilotos (de 5 equipes distintas!) com grandes performances, e pelo menos quatro deles como title-contenders.

Imaginar que 2013 será igual parece viagem, num primeiro momento. Mas Alonso, Massa, Vettel, Webber, Button, Hamilton e Raikkonen têm todas as chances de repetir Emerson, Hulme, Lauda, Regazzoni, Scheckter, Reutemann e Peterson.

Bom fim-de-semana e ótima temporada a todos!

Marcel Pilatti
Marcel Pilatti
Chegou a cursar jornalismo, mas é formado em Letras. Sua primeira lembrança na F1 é o GP do Japão de 1990.

13 Comments

  1. […] memorável temporada de 1974, não teve a constância necessária para uma disputa de título: foram 3 vitórias, mas apenas 1 […]

  2. Mauro Santana disse:

    Temporada fantástica, e no filme que fizeram para o Emerson Os anos do Bi, é possível ver algumas imagens preciosas desta época romântica da F1.

    Belo texto Marcel!

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

  3. Fernando Marques disse:

    Na foto acima do acidente do Peter Revson reparem quem está com uma mangueira nas mãos apagando o incendio do carro … parece muito o Dennis Hulme …

    Fernando Marques
    Niterói

  4. Manuel disse:

    Oi Marcel, muito bom texto !

    Me trouxe boas lembranças a começar pelo titulo pois, naqueles anos o grupo BREAD lançou a cançao ” just like yesterday “.

    Recordemos tambem que durante o GP dos EE.UU. o piloto Helmut Koenigg, com Surtees, perdeu a vida logo no começo da prova num terrivel acidente.

    um abraço Marcel.

  5. Fernando Marques disse:

    E como vai ser a temporada de 2013?
    Bem temos grandes nomes e campeões nas pistas mas quem vai mandar vão ser os pneus. Assim eu acho …

    Fernando MArques
    Niterói RJ

  6. Fernando Marques disse:

    As boas lembranças de 1974 na minha opinião são estas abaixo:

    1) A vitoria de Emerson no Brasil.
    2) A vitoria do Emerson na Belgica. Esta foi talvez a melhor corrida da temporada de 74, pois Emerson praticamente fez toda a prova com Lauda embutido na sua caixa de marchas e com Regazzoni logo atrás. A Ferrari ja era tida como o melhor carro da temporada e LAuda voava nas pistas. MAs na Belgica, mesmo largando nafrente Lauda/Reggazoni tomaram um toco do Emerson que assumiu a ponta logo no inicio da corrida e segurou a pressão até o fim.
    3) O GP dos EUA … disputado no dia 6 de outubro, data de meu aniversário e do Jose Carlos Pace. Ali Emerson mostrou que foi o melhor piloto da temporada mesmo sem ter o melhor carro e o Pace subiu no podium chegando em 2º lugar. Foi uma bela festa lá em casa.
    4) E assim como bem lembrado pelo MArcel, uma temporada com nomes como Emerson. Hulme, Lauda, Reggazonni, Peterson, Ickx, James Hunt, John Watson, Grahanhill. Scheckter, P. Depallier, P. Revson, J.P. Betoise e JArrier não tinha como deixar de não uma grande temporada …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

    • Ballista disse:

      Olá Fernando. Concordo que os pneus serão decisivos em 2013. Mas pelo fato de termos somente uma marca de borracha, o que conta no final é a capacidade do conjunto carro-piloto de usar o pneu da melhor forma possível.

      Abraços

      • Fernando Marques disse:

        Ola Ballista,

        a capacidade do conjunto carro-piloto de usar o pneu será primordial sim mas a unica fornecedora promete pneus mais aderentes e de menor durabilidade o que promoverá mais pit-stop’s numa corrida em relação ao ano passado. Eles querem por que querem repetir em 2013 a mesma coisa que fizeram em 2012. Até as equipes entenderem o funcionamento dos novos pneus de repente poderemos ter vários vencedores e surpresas nas primeiras corridas da temporada. Em termos de estrategia veremos novidades … assim espera-se

        Fernando Marques
        Niterói RJ

        • Ballista disse:

          Se continuarmos nesse ritmo, veremos stints mais longos nos treinos oficiais do que na corrida propriamente dita.

          E se querem tanto embaralhar as estrategias porque não disponibilizam um pneu que dure a corrida toda? Seria mais natural do que os pneus de farelo.

          Abraço.

        • Fernando marques disse:

          Ballista,

          concordo totalmente contigo neste caso

          Fernando Marques
          Niterói – RJ

  7. Ballista disse:

    Belo texto Marcel. Realmente o grid de 74 era de altíssimo nível. E desde 2008 temos um grid que pode fazer jus aos grandes do passado. Vamos fazer um exercício interessante, listando os principais pilotos de algumas temporadas:

    1974: Emerson, Hulme, Lauda, Regazzoni, Scheckter, Reutemann, Peterson, Ickx, Hill, Watson…

    1986: Prost, Mansell, Piquet, Senna, Rosberg, Berger, Alboreto, Arnoux, Laffite

    2000: Schumacher, Hakkinen, Barrichello, Button

    2013: Alonso, Hamilton, Button, Vettel, Raikkonen, Webber, Massa, Rosberg, Maldonado, Perez…

    E aí, podemos dizer que depois do deserto que foi o fim dos anos 90 e início dos 2000, temos emfim um grid recheado de grandes pilotos novamente?

    Abraço

    • Marcos disse:

      Concordo, Ballista.

      Sem a menor dúvida a fase mais terrível em termos de “nível” de pilotos já passou. Hoje temos uma série de pilotos excelentes, embora com menos gênios.

      Dessa lista que você pôs, difícil alguém defender que a de 2000 chegue perto das outras. nem longe!

      • ronaldo disse:

        Se há gênios ou não só o futuro dirá. Aposto que Emerson e cia também correram com o fantasma de Fangio, Moss, Ascari…

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