
Quando o Grande Prêmio da Espanha era sediado em Barcelona, no circuito de Montmeló, a reclamação era constante sobre a qualidade das corridas de F1 por lá. Não importando carros, pilotos ou regulamentos, a corrida em Barcelona invariavelmente era uma das piores do calendário, levantando questões sobre mudanças de sede, ainda mais com o automobilismo ganhando bastante popularidade na Espanha desde a já distante ‘Alonsomania’ em meados da década 2000. Surgiu a ideia de um circuito de rua em Madri, capital espanhola, e com a grande rivalidade em várias questões com Barcelona, o projeto saiu do papel.
O novo circuito de rua, chamado de Madring estreou em 2026 e manteve a tradição de corridas nada empolgantes na Espanha. A prova realizada nesse domingo em Madri ficou muito a abaixo das expectativas de quem esperava caos num circuito que se provara difícil, mas os pilotos andaram com tanto cuidado, que o máximo de ocorrência que apareceu foi um Virtual Safety Car, que decidiu a corrida a favor de Andrea Kimi Antonelli (foto acima), solidificando ainda mais sua vantagem no campeonato.
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Os jovens pilotos da F3 fizeram um teste em Madring semanas atrás e nada menos que dezenove (!) bandeiras vermelhas apareceram. Ao saber desse número George Russell ficou impressionado, mas ao experimentar o circuito de Madring no simulador da Mercedes, a perspectiva de George mudou: dezenove interrupções era pouco! Construído nos arredores de um centro de eventos e próximo do CT do Real Madri, o novo circuito trouxe um verdadeiro drama para os pilotos, que disseram ter batido em suas primeiras voltas nos simuladores. A combinação de curvas cegas e rápidas, além da já característica ‘El Monumental’, uma curva inclinada de 550m já fazem do circuito de rua em Madri uma das mais complicada do calendário.
Com todo mundo em estado de alerta, pode-se dizer que os treinos livres não foram tão intensos, com apenas três interrupções e domínio completo da Mercedes, principalmente com Antonelli. Para tristeza da torcida espanhola, que lotou as arquibancadas, Fernando Alonso e Carlos Sainz foram eliminados durante o Q1, mesmo Bearman (bateu forte no final do TL3) e Stroll não participando da classificação.
No entanto, são em circuitos seletivos e técnicos onde os pilotos mais avantajados em termos de talento podem fazer a diferença. Já no Q2 Max Verstappen mostrava força e entrava aos poucos na luta pela pole, enquanto Russell saía dela. Lando Norris tivera um problema no câmbio de sua McLaren no TL2 e foi um dos que menos quilometragem acumulou na pista nova, algo essencial num circuito tão traiçoeiro como Madriring. No final do Q3, a dupla da Mercedes fora a primeira a marcar seus tempos, com Antonelli na ponta.

Max Verstappen vinha muito forte, mas antes que o neerlandês completasse sua volta, Lando Norris (foto acima) surpreendeu ao tirar a pole de Kimi, enquanto Max teve que se contentar com a terceira posição.
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O forte calor em Madri trazias alguns receios às equipes. Mesmo o novo asfalto ter provido bastante aderência aos pneus, houve também muita granulação (o que Luciano Burti popularizou como ‘macarrãozinho’) e como consequência, bastante desgaste de pneus. Russell chegou a falar em ‘até seis pit-stops, pela situação atual’, mas quando as equipes tiraram as mantas térmicas dos pneus dos carros no grid, a presença de alguns pilotos com pneus duros indicava que fazer uma parada estava no radar de muitos estrategistas, além do que, um Safety Car em algum momento da prova era quase que uma certeza absoluta.
Também haviam pilotos com pneus macios, como Hamilton e Verstappen, o que significava que eles trocariam durabilidade por posicionamento numa pista que tinha tudo para ser bastante complicada para se ultrapassar. No apagar das luzes vermelhas, Lando Norris fez uma largada bem diagonal, lembrando as saídas truculentas de Michael Schumacher nos seus áureos tempos. Tentando manter a ponta na largada, Norris não apenas conseguiu manter Andrea Kimi Antonelli sob controle, como atrasou o italiano, que se viu atacado por Hamilton. Tentando se defender do inglês da Ferrari, Kimi vazou a primeira chicane, ficando com a obrigatoriedade de ceder sua posição para Lando, já que Antonelli assumira a ponta. No entanto, a situação não era tão simples assim.

Lewis Hamilton freou forte por dentro e deixou o carro escorregar. Para evitar o toque com o rival, Max Verstappen (foto acima, com Hamilton) também passou reto na primeira chicane, encostando em Lando. Quando Kimi precisou devolver a posição para Lando, se viu na iminência de ser ultrapassado também por Verstappen. Antonelli ficou numa situação tensa, que o fez vazar a segunda chicane, permanecendo à frente de Norris. E Verstappen. Com receio de uma punição, Antonelli acabou deixando os dois passarem, caindo para terceiro.
No final da segunda volta a Red Bull entrou no rádio de Max o pedindo para ceder sua posição para Hamilton, que à essa altura estava em quarto. Verstappen esperneou, mas o neerlandês acabou tendo que perder duas posições no processo. ‘Minha corrida acabou’, lamuriou-se Max, mas nem tudo estava perdido, como se veria mais tarde. E a vida de Verstappen melhoraria logo em seguida com Lewis Hamilton vazando uma chicane e da mesma forma que Max uma volta antes, ter que ceder sua posição para o piloto da Red Bull. E a razão ficou clara rapidamente. Hamilton queixava-se dos freios e num circuito de rua, isso não era um problema simples. Após sair da pista uma vez, Hamilton ainda ficou na pista uma volta de forma inexplicável antes de abandonar pela primeira vez em 2026 com sua Ferrari sem freios.
Praticamente isso foi tudo o que aconteceu nas primeiras voltas. A situação de ceder posições ajudou muito a causa de Lando Norris, que abriu 3s de vantagem sobre Antonelli, que tinha outros 3s de vantagem sobre Max, que tinha Leclerc e Russell mais atrás, mas sem maiores brigas entre eles. A corrida se estabilizou e ficou claro que somente uma ocorrência poderia mudar o status quo da prova espanhola. E ela veio na volta 14, quando Lance Stroll encostou seu Aston Martin numa área de escape e o Virtual Safety Car deu as caras. Numa falta de sorte tremenda, Lando Norris tinha acabado de passar pela entrada dos pits, no que Antonelli, Verstappen e Russel aproveitaram e trocaram seus pneus. Porém, a McLaren insistiu em parar Norris e trouxe o inglês para os pits na volta seguinte… bem no momento em que a bandeira verde foi dada. Uma das características do novo circuito de Madring é ter o maior pit-lane do calendário e para completar, a McLaren fez um péssimo trabalho, com a roda dianteira esquerda de Lando ter ficado presa. O que seria um pit-stop de 2s se transformou num trabalho de longos 7s.
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Dono da corrida até então, Norris caía para o quinto lugar. Antonelli, contudo, não assumira a ponta da corrida. Charles Leclerc foi na tática inversa do seu companheiro de equipe e largou com pneus duros, preferindo ficar na pista durante o VSC. Leclerc (foto abaixo) assumiu a ponta e não demorou para ter a companhia de Antonelli.

A Mercedes se assustou quando Kimi chegou a perder mais de 1s para Leclerc e o italiano reclamou de algum problema no volante, mas com a Mercedes verificando nada havia acontecido, Antonelli continuou sua perseguição à Leclerc. A pista evoluíra claramente desde o momento em que Russell disse que a corrida teria múltiplos pit-stops e Leclerc ficou na pista esperando por uma ocorrência, algo possível pelo o que foi visto durante o final de semana, tanto na F1, como nas demais categorias de apoio.
Porém, os pilotos estavam ‘vacinados’ e não forçaram demais numa pista quente, com muros em volta e cheia de curvas cegas. Bernd Maylander manteve seu Mercedes guardadinho nos boxes, enquanto Leclerc mostrava a todos que o pneu duro era forte o bastante para se manter várias voltas na pista. Com Leclerc rezando por uma bandeira amarela, Kimi e Max administrando seus pneus, a corrida entrou num marasmo sem fim.
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Russell trocara para pneus médios e argumentava que poderia segurar Norris, que vinha muito mais rápido do que ele em quinto, mas a Mercedes não pensou assim e treze voltas depois da primeira parada de George, o chamou de volta aos pits, colocando pneus duros e fazendo o inglês da Mercedes ir até o fim, com George tendo que ultrapassar Lawson na pista. E mesmo assim porque o neozelandês cometeu um erro. Piastri, que bateu em Russell na primeira curva e quebrou parte da asa dianteira, foi outro que precisou de uma parada extra, mas mantendo a asa danificada. Tendo se livrado de Russell, rapidamente Norris estabeleceu o melhor ritmo da corrida, encostando em Verstappen, forçando o piloto da Red Bull aumentar seu ritmo e encostar em Antonelli.
As voltas foram passando, o SC não veio e a Ferrari constatou que Leclerc poderia perder a posição para Russell com aquele ritmo, trazendo o monegasco aos pits quando faltavam menos de dez voltas. Charles foi ‘calçado’ com pneus macios, mas o equilíbrio da Mercedes é tamanho que Russell, mesmo com pneus duros já desgastados, pressionou Leclerc até o fim, mas o piloto da Ferrari permaneceu em quarto sem maiores arroubos.
Sem Leclerc à sua frente, Antonelli aumentou seu ritmo e se livrou da sempre incômoda presença de Verstappen, até mesmo dando outro susto ao bater no muro na curva 7, mas nada pôde impedir a oitava vitória de Andrea Kimi Antonelli em 2026. Ainda no rádio Antonelli teve a consciência que não teve a brilhante performance da semana passada em Monza, mas o italiano aceitava mais uma vitória e com Russell em quinto e Hamilton abandonando, abrindo ainda mais no campeonato.
Russell fez outra corrida chinfrim, preso atrás de carros mais lentos que o seu pela péssima classificação que fez no sábado. Enquanto Antonelli se posiciona melhor e capitaliza os azares alheios para conseguir vitórias, Russell sofreu a tarde inteira em Madri, vendo Antonelli o superar no número de vitórias no geral na F1. Dentro da Mercedes, a disputa entre os pilotos parece cada vez mais ganha por Antonelli e com a Mercedes tendo o carro mais equilibrado de 2026, isso significa que Kimi já começa a calcular onde comemorará o seu merecido título mundial.
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Após reclamar com a equipe por ceder sua posição, Max Verstappen evoluiu durante a corrida e só teve que segurar Lando Norris nas últimas voltas, sendo que o único susto de Max foi ter se envolvido na briga entre Lindblad e Hulkenberg quando colocava volta em ambos. Verstappen tem um domínio sobre Norris em lutas diretas que lembra um certo clássico no futebol cearense…
Lando foi o grande perdedor do dia, com a sorte não lhe sorrindo, além da McLaren ter pisado na bola tanto na estratégia, como no trabalho de pit-stop. Com Russell claramente batido, se Lando conseguisse a terceira vitória em quatro corridas, poderia haver alguma esperança no campeonato, mas a ‘senhora sorte’ não quis assim e Norris teve que se conformar com um terceiro lugar, mesmo tirando alguns pontos dos compatriotas George e Lewis. Já Piastri continuou sofrendo. O australiano teve que recuperar posições após sua segunda parada, mas ficando atrás de Colapinto. Mais uma atuação abaixo da crítica de Piastri, que nessa época do ano em 2025, era tido como o novo talento geracional da F1. Lawson fez uma corrida atribulada, ficou muito atrás de Verstappen, mas fez o que dele é exigido: marcou bons pontos com o sexto lugar.

Além de Leclerc, alguns pilotos do pelotão intermediário tentaram ficar na pista o maior tempo possível para tentar dar o pulo do gato quando o SC aparecesse, mas como ele não apareceu, Pierre Gasly e Gabriel Bortoleto (foto acima), que ficaram boa parte da corrida na zona de pontuação usando pneus duros, ficaram fora dos pontos por terem que fazer suas paradas, sendo que Gasly foi até o limite, antes de fazer sua parada na penúltima volta, indicando que os pneus duros aguentariam as 57 voltas de corrida.
Colapinto superara Gasly na classificação e após a decepção de Monza, onde o portenho chegou a chorar na entrevista pós-corrida, o piloto da Alpine conseguiu uma corrida consistente para ser sétimo, mesmo tendo bastante trabalho para superar Bortoleto, que estava com pneus no bagaço no final. Quando Gabriel fez sua parada, quem melhor se aproveitou foi Nico Hulkenberg, que conseguiu o último ponto do dia, mesmo não conseguindo ultrapassar Lindblad nas voltas finais. Correndo em casa, Carlos Sainz e Fernando Alonso se tocaram e ambos não lembrarão com saudade da primeira corrida em Madring, onde estiveram longe de se destacar.
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O começo da temporada 2026 da MotoGP mostrava uma Aprilia muito forte, superando a Ducati depois de anos de domínio da montadora sediada em Borgo Panigale. Para completar, Marc Márquez se recuperava de um grave acidente na Indonésia e não começava bem a temporada. Marco Bezzecchi parecia a ponta de lança da Aprilia, mas não demorou muito para o italiano fraquejar dentro e fora das pistas.
Então a Aprilia viu o crescimento de Jorge Martín, trazido à equipe em 2024 e que mantém uma relação conturbada. Mais experiente, Martín se aproveitou inicialmente dos pontos baixos de Bezzecchi, mas já tendo anunciado que irá para a Yamaha em 2027 e com alguns problemas com a moto, Martín também começou a vacilar.
Marc Márquez (foto abaixo) teve problemas físicos, perdeu corridas para realizar mais uma cirurgia e na semana do Grande Prêmio de San Marino, expôs uma foto onde seu ombro direito está claramente atrofiado pelas seguidas cirurgias no braço direito desde 2020. O cirurgião foi claro no relato: Marc Márquez está correndo com um braço e meio.

E com um braço e meio Marc Márquez deu show em Misano, local sempre hostil a ele, pois ali fica o ‘setor duro’ da torcida de Valentino Rossi, rival histórico de Márquez. Porém, o piloto da Ducati varreu o final de semana. Na Sprint superou o pole Bezzecchi na primeira curva para vencer com tranquilidade. No domingo, Bezzecchi ainda manteve a ponta, mas caiu ainda na primeira volta. Martín tentou se manter na briga pela vitória, mas a Aprilia foi perdendo rendimento e Jorge acabou apenas em quinto. Marc controlou a aproximação do seu irmão Alex rumo a vitória, que o deixou empatado com Martín no campeonato, mas como tem mais vitórias, Marc assumiu a liderança do campeonato. Seis meses atrás ninguém poderia imaginar a Aprilia perdendo o campeonato. Somente o talento impressionante de Marc Márquez para essa reviravolta. E com um braço e meio…
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Quando se pedia uma nova opção para as corridas sempre chatas em Barcelona, todos esperavam por um circuito bem melhor do que foi visto em Madri. Não tivemos uma corrida boa de se assistir, algo que poderá mudar nos próximos anos, mas no momento, a primeira sensação do Madring não foi das melhores.
Andrea Kimi Antonelli não teve do que reclamar e contando com a sorte que sempre acompanha os campeões, pôde superar Lando Norris, dono do conjunto mais forte do dia, para vencer e cimentar ainda mais sua liderança no campeonato. O campeonato para Kimi já se tornou uma questão de ‘quando’, não mais ‘se’. E pelo o que vem fazendo ao longo da temporada 2026, Andrea Kimi Antonelli merece.
Abraços!
João Carlos Viana