
Decisão da temporada 2021 da F1, Abu Dhabi. Numa das temporadas mais emocionantes desse século, Nicholas Latifi bate seu Williams no muro nas voltas finais, o Safety-Car é mandado à pista e o tira-teima entre Lewis Hamilton e Max Verstappen seria decidido nas voltas finais. Lá na direção de prova, Michael Masi era um homem pressionado e numa decisão polêmica e que para sempre será discutida, o australiano deu ordem para relargar, mesmo com alguns retardatários ainda na pista para retomar uma volta, o que na ocasião era proibido. Voltamos para Silverstone/2026. Nessas coincidências da vida, Max e Lewis são protagonistas, mas em papéis diferentes. Verstappen bateu seu carro no final da corrida, Hamilton foi aos boxes colocar pneus moles para atacar Russell (esse, nada influenciou quatro anos e meio atrás) e, quem sabe, fustigar seu companheiro de equipe numa hipotética luta pela vitória.
Contudo, mesmo a FIA tendo ajustado as regras para permitir relargadas mesmo com os retardatários ainda para retomar suas respectivas voltas e Masi estar escondido em algum recanto australiano, a direção de prova resolveu aparecer novamente, dessa vez não permitindo a relargada, criando um anticlímax numa Silverstone abarrotada de gente. Como em Abu Dhabi quatro anos e meio atrás, Lewis Hamilton foi o prejudicado, mas pelo menos Charles Leclerc, que liderou praticamente a corrida inteira, mereceu a vitória em Silverstone.
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Mesmo após suas recentes reformas, Silverstone se manteve como uma pista de alta velocidade e com curvas rápidas. O que antes era um grande atrativo para os pilotos e fãs da F1, com as famigeradas novas regras de motores híbridos 50/50 isso se tornou uma bela dor de cabeça. Após as mudanças nos motores em Miami a F1 viu o super clipping ser amenizado, porém, muitas das pistas a seguir ao circuito de rua na Flórida eram caracterizadas por ter muitas freadas fortes, diminuindo o fenômeno.
Havia uma expectativa negativa em Barcelona e sua longa reta dos boxes antecedida por curvas rápidas, mas a F1 havia passado no teste. Já em Silverstone a situação mudou de figura. Os pilotos haviam mostrado preocupação quando andaram nos simuladores das equipes em preparação ao Grande Prêmio da Grã-Bretanha e o que vimos na sexta-feira foi uma triste volta das cenas de Suzuka, com carros perdendo bastante velocidade nas retas, principalmente a Hangar.

Photo by Bryn Lennon – Formula 1 via Getty Images)
As primeiras voltas da Sprint foi um show de horrores, com os carros ficando sem bateria e sendo ultrapassados quase que sem querer. Isso ajudou Hamilton e Antonelli (foto acima) se destacarem nas duas primeiras posições e os dois duelarem pela ponta. Com nove vitórias em Silverstone e uma sinergia incrível com a pista, Hamilton foi pole na classificação da Sprint e liderou boa parte da minicorrida, mas Antonelli se manteve por perto e nas voltas finais bateu o veterano, para desgosto da torcida, que viu Norris e Russell chegaram atrás de Hamilton.
Na classificação George Russell deu um susto quando saiu sozinho da pista no Q1 e bateu de leve no muro. O inglês da Mercedes ainda teve condições de tirar o carro da brita e continuar sua classificação, o mesmo não acontecendo com Cadillac e Aston Martin, que ficaram no Q1 e a Aston tomando 1,4s da equipe americana. Gabriel Bortoleto teve uma classificação atribulada, com problemas de câmbio no Q1 e quase foi ao Q3. Mais impressionante foi o brasileiro colocar seis décimos em cima de Hulkenberg, seu veterano companheiro de equipe.
Antonelli manteve-se sempre na luta pelas primeiras posições, junto com a dupla da Ferrari. Russell não mostrava muita coisa, mas cresceu um pouco no Q3 e na primeira tentativa ficou muito perto de Kimi, enquanto uma situação curiosa mostrava Mercedes, Ferrari, Red Bull, McLaren e Racing Bulls, nessa ordem, com seus pilotos muito próximos. Na segunda tentativa houve uma certa mistura e algumas situações interessantes. Na Red Bull Hadjar superou Verstappen, numa cena rara de ser vista numa equipe dominada pelo neerlandês a tantos anos. Após o terceiro lugar na Sprint, Norris sofreu um choque de realidade ao ficar sete décimos atrás da pole, mas ao menos superou a dupla da Red Bull, com Piastri fazendo outro treino burocrático.
Na Ferrari, Leclerc mostrou força em volta lançada, derrotando Hamilton na tentativa final na classificação, mas não à Antonelli. Mesmo reclamando por ter sido o primeiro a fazer sua segunda volta no Q3, Antonelli baixou muito o próprio tempo e garantiu mais uma pole. Russell decepcionava e além de não melhorar seu tempo, se viu ultrapassado pela dupla da Ferrari, dificultando sua vida no domingo com o P4 no grid.
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Photo by Jakub Porzycki/NurPhoto via Getty Images
A onda de calor que assola a Europa nesse começo de verão no hemisfério norte fez com que Silverstone, conhecida por suas corridas entremeadas por chuvas e trovoadas tivesse um cenário diferente, com muito sol e calor na velha base aérea inglesa. A Mercedes teve sérios problemas na largada (foto acima) no começo dessa temporada, mas a equipe foi consertando isso aos poucos, porém, Andrea Kimi Antonelli parece ainda não estar totalmente à vontade com os procedimentos. Mais uma vez o italiano não largou muito bem, parecendo que seu Mercedes não desenvolveu velocidade como deveria, fazendo de Kimi uma presa fácil para a dupla da Ferrari, liderada por Leclerc.
Mais atrás Hadjar tentou atacar Russell, mas o inglês manteve a posição, enquanto mais atrás Albon continuava o final de semana tenebroso da Williams ao se envolver num acidente com Bearman, que estragou a corrida de ambos e rendeu uma punição à Albon. Se na corrida Sprint tivemos a volta das ultrapassagens ‘ioiô’, nesse domingo os pilotos revisaram suas estratégias de gerenciamento de energia e felizmente não tivemos isso na corrida principal, mas a transmissão da Liberty Media voltou a década de 1980, quando praticamente não tivemos câmeras on-board. Afinal, o super clipping seria flagrado e não pegaria muito bem…

Leclerc (na foto acima e na que abre esta coluna, à frente de Hamilton) surpreendia ao imprimir um ritmo muito mais forte do que o visto na Sprint Race, não dando chances à Hamilton, que logo teria que encarar dois incômodos no seu começo de corrida. O primeiro era uma investigação, que logo se tornaria uma punição de 5s por queima de largada. O segundo e mais perigoso era a aproximação de Andrea Kimi Antonelli. Assim como ocorreu no sábado, o italiano tinha um ritmo mais forte do que o heptacampeão e na volta 10, mais ou menos na mesma altura em que Antonelli assumiu a ponta na Sprint, o italiano fez a manobra de ultrapassagem na antiga reta dos boxes para ser segundo colocado. Enquanto Antonelli mostrava um ritmo de campeão, Russell mostrava um ritmo de segundo piloto e não acompanhava os três primeiros colocados. Max Verstappen ultrapassou Isack Hadjar na marra ainda no começo da prova e se aproximava de Russell. O piloto da Red Bull usou seu talento para ultrapassar George, mas na logo em seguida foi aos pits. Mesmo fazendo muito sol e calor em East Midlands, a previsão da Pirelli era de apenas uma parada para todos os pilotos, em condições normais.
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Assim que ultrapassou Hamilton, Antonelli tratou de ir para cima de Leclerc, mas o monegasco respondia aos bons tempos de Antonelli, mantendo uma confortável vantagem de 4s. Quando a corrida se aproximava de sua metade, a maioria dos pilotos foram aos pits realizar suas únicas paradas. Antonelli esticou ao máximo sua parada, esperando um SC salvador, mas mesmo um guarda-chuva na pista tendo trazido um rapidíssimo VSC, o italiano entrou nos boxes em bandeira verde quando faltavam dezessete voltas para o fim e voltou à pista em segundo, exatos 7s atrás de Leclerc.
Com pneus duros novos e poucas voltas pela frente, Antonelli ia destruindo sua desvantagem para Leclerc, fazendo que sua ultrapassagem rumo à vitória fosse questão de tempo. Então, Kimi ficou lento na entrada da reta Hangar. Não era um problema de bateria, que tanto assombrou a Mercedes nas últimas semanas, mas fez Antonelli ir aos pits duas vezes, destruindo a corrida do italiano, que mal conseguia fazer curvas e tantas saídas de pista o fizeram ser punido em 5s por causa dos limites de pista.
Isso deixava Leclerc com a corrida nas mãos. O monegasco sustentava uma vantagem de 20s sobre Hamilton, que lutava para manter a dobradinha da Ferrari, pois Verstappen havia parado uma segunda vez durante o VSC causado pelo carro quebrado de Hulkenberg e vinha claramente mais rápido do que Lewis, podendo repetir outra luta fratricida com o inglês. Russell fazia uma corrida ordinária e quando brigava com Lewis e Max pela terceira posição, a Mercedes identificou um furo lento em seu carro, fazendo com que George fizesse uma parada não-programada. Mesmo com pneus médios mais novos, ainda assim Russell não se destacava e era um burocrático quarto colocado quando Verstappen perdeu o controle do seu Red Bull no final da reta Hangar.
Faltavam quatro voltas para o fim. Pensando na relargada, praticamente todo o pelotão foi aos boxes colocar o pneu macio. A Mercedes foi a única a não trazer seus carros, fazendo com que Russell se tornasse um alvo fácil, mesmo o inglês tendo subido para segundo. No entanto, causando um anticlímax terrível, a direção de prova preferiu não permitir a largada, terminando a corrida do jeito que estavam, para tremendo alívio de George Russell.
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Mesmo com a presepada da FIA e seus blue caps, Charles Leclerc mereceu a vitória ao liderar a maior parte da corrida e mesmo com a sorte do problema de Antonelli, o monegasco deu uma volta por cima após uma má fase recente, onde marcou meros quatro pontos em três corridas, tendo visto Hamilton vencer e começar a tomar as rédeas da Ferrari. A diferença entre Leclerc e Hamilton era tamanha que uma ordem de equipe, pensando que Lewis estava reassumindo a vice-liderança do campeonato, não foi cogitada.
No entanto, Lewis foi prejudicado com a manobra da FIA e não pôde completar a dobradinha da Ferrari, perdendo uma posição para Russell e assim, não ultrapassou o compatriota no campeonato. Sua cara de poucos amigos no pódio revelava a frustração disso, mesmo que uma vitória seria complicada vide o ótimo desempenho de Leclerc no domingo. A performance da Ferrari em Silverstone mostra que os italianos estão em ascensão, enquanto a Mercedes coça a cabeça atrás de melhorar a confiabilidade dos seus carros.
Antonelli estava com a vitória nas mãos quando ele foi traído pelo seu carro mais uma vez. Mesmo Russell tendo diminuído ainda mais sua desvantagem no campeonato, ficou claro mais uma vez que Antonelli está com um ritmo bem superior ao de Russell, que subiu ao pódio pela primeira vez em Silverstone, mas contando com uma sorte absurda.

Verstappen estava prestes a conquistar um resultado acima do potencial do seu carro quando perdeu o controle do seu Red Bull (foto acima), para desgosto do neerlandês, que não economizou nos palavrões no rádio. Depois da corrida a Red Bull identificou que o mesmo problema que fez Verstappen bater na classificação na Áustria reapareceu em Silverstone: a asa traseira móvel não voltou como deveria, tirando downforce de Max e fazendo-o se tornar passageiro do seu carro. Depois da corrida Verstappen reclamou dos dois fortes acidentes de que foi vítima por culpa de um problema no carro. Lembrando que as negociações de Max com a Red Bull não estão muito fáceis e problemas assim não ajudam a causa de Laurent Meckies e seus blue caps.
Após largar na frente de Max, Hadjar não teve o mesmo ritmo de corrida do companheiro de equipe, mas fez o que dele se espera, que é marcar bons pontos para a equipe, terminando em quinto. Num final de semana onde homenageou a pintura em que estreou na F1 sessenta anos atrás, a McLaren colocou John Watson para correr com seu carro de 1981 em Silverstone antes da largada e talvez este tenha sido o melhor momento da equipe. Piastri teve um toque na primeira volta e tendo que trocar a asa dianteira, caiu para os confins do pelotão intermediário e só conseguiu uma 11º posição na bandeirada. Lando Norris (foto abaixo) não fez muito melhor, executando uma corrida discreta e com os problemas alheios, ainda beliscou uma quarta posição.

Photo by Alastair Staley/LAT Images
A Racing Bulls novamente dominou o pelotão intermediário e seus dois pilotos foram os melhores do resto o tempo inteiro. Com os problemas de Verstappen e Antonelli, Lawson foi sexto, seguido de perto por Lindblad. A novidade em Silverstone foi o forte desempenho de Gabriel Bortoleto. Após uma classificação muito boa, Gabriel conseguiu não perder posições na largada, o que é um feito com a Audi, e rapidamente se colocou na zona de pontuação, andando próximo de Lawson e Lindblad. Fazendo o trivial e se aproveitando dos problemas alheios, Bortoleto fez sua melhor corrida do ano e marcou pontos depois de algum tempo.
A Alpine fechou a zona de pontos, com Colapinto superando Gasly em ritmo de corrida, com ambos andando sempre próximos. Sainz fez uma ótima largada, mas seu Williams não lhe permite grandes ilusões e o espanhol terminou apenas em 12º. Mesmo rodando na primeira volta, Bearman ainda chegou na frente de Ocon, a Cadillac dessa vez chegou à bandeirada com seus dois carros inteiros e a Aston Martin teve outro final de semana miserável, com Alonso ficando parado na volta de apresentação, mas o espanhol conseguiu reiniciar tudo para terminar em penúltimo.
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Quando criança eu sempre ouvia que as três seleções de futebol mais temíveis do mundo eram Brasil, Itália e Alemanha. Passados mais de trinta anos, a Itália não foi para essa Copa do Mundo, a Alemanha ficou pelo caminho na segunda fase e o Brasil foi eliminado nas oitavas de final, na pior colocação em Copas em 36 anos.
Perdemos para um país europeu mais uma vez. A Noruega está abaixo de Bélgica e Croácia, nossos dois carrascos mais recentes, mas os nórdicos tem o melhor centroavante do mundo: Haaland, que nos eliminou com dois gols.
Independentemente quem vencer essa Copa do Mundo, estamos vendo um momento histórico, onde o Brasil, Itália e Alemanha estão sendo ultrapassadas por França e Espanha como as grandes referências do futebol mundial. A vida continua, os boletos chegarão para serem pagos e enfrentaremos os perrengues do dia a dia, mas ficar 28 anos sem conquistar uma Copa do Mundo é chato. Uma geração inteira não sabe o que é comemorar o Brasil sendo o melhor futebol do mundo.
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O público que lotou Silverstone merecia um final melhor para celebrar. Mesmo com dois ingleses no pódio, a torcida inglesa saiu com um gosto ligeiramente amargo na boca com a vitória do monegasco Leclerc e da Ferrari.
No final a Ferrari comemorou sua vitória de número 250 na F1 com a sensação de que os italianos estão em viés de alta e, principalmente, podem capitalizar os vacilos constantes da Mercedes, que vê seu principal piloto, Antonelli, perder pontos por culpa da equipe, enquanto o segundo piloto (Russell) não consegue andar no mesmo nível de Antonelli. Mesmo com um regulamento ruim, uma FIA sem critério, ainda temos um campeonato em aberto e que pode surpreender muita gente.
Abraços!
João Carlos Viana