MUITO BARULHO POR NADA

“Que tal um treino de F1 assim?”
19/03/2003
Michelin 2 x Bridgestone 0
23/03/2003

Edu,

Por favor, não insista: não vou fazer prognósticos para o GP da Malásia. Prefiro lembrar um caso concreto, ocorrido no primeiro GP disputado naquele país, em 1999. Naquela ocasião, a corrida malaia era a penúltima da temporada e Mika Hakkinen estava dois pontos à frente de Eddie Irvine, da Ferrari. Se vencesse e Irvine ficasse no máximo em 5º lugar, o finlandês garantiria o título por antecipação.

Essa corrida marcava também a volta de Michael Schumacher, que havia quebrado a perna esquerda em um acidente no GP da Inglaterra. A missão do alemão era clara: ajudar Irvine a adiar a decisão do título para o GP do Japão, em Suzuka. E o fez com brilhantismo: largou na pole, liderou as primeiras voltas e deixou Irvine vencer. Hakkinen terminou em 3º. Horas depois, era anunciada a desclassificação das duas Ferrari. Com isso, Hakkinen passava a vencedor e a campeão por antecipação. Dias depois, a FIA anulou as desclassificações, devolvendo a Irvine a vitória e a liderança no campeonato. O título, porém, seria perdido no Japão, onde Hakkinen venceu e Irvine teve atuação apagada, ficando em 3º lugar.

A história dessa desclassificação é mais importante do que parece. Os textos abaixo foram extraídos do www.grandepremio.com.br, que nesta semana resgatou a cobertura dada na época aos fatos:

“Mika Hakkinen é o novo bicampeão mundial de F-1. Por causa de um centímetro, ou pela falta dele numa peça dos carros da Ferrari, o finlandês da McLaren foi declarado vencedor do GP da Malásia, penúltima etapa da temporada 1999, em Sepang. Na pista, ele terminou a corrida em terceiro, atrás da dupla do time italiano, que recebeu a bandeira quadriculada com Eddie Irvine em primeiro e Michael Schumacher em segundo.

Uma hora e cinquenta minutos depois, no entanto, enquanto os ferraristas comemoravam a dobradinha e a volta exuberante de Schumacher às pistas, um comunicado da Federação Internacional de Automobilismo (FIA) informava que irregularidades foram detectadas nos carros vermelhos na vistoria técnica após a prova.

Ali começou o drama da Ferrari, que culminou com a desclassificação de seus dois pilotos e a conquista antecipada do título por Hakkinen, embora ela ainda não seja oficial. A equipe apelou e terá seu recurso julgado, provavelmente nesta semana, no Tribunal de Apelações da FIA. Quase nunca a entidade volta atrás numa
decisão de seus comissários esportivos. Legalmente falando, o resultado ainda depende do julgamento do apelo.

O centímetro que acabou com o sonho da Ferrari estava faltando nos defletores laterais de Irvine e Schumacher. As peças, colocadas logo atrás da roda dianteira, fixadas ao chassi por hastes de fibra de carbono, têm um desenho sofisticado cuja função é otimizar os fluxos laterais de ar.

No caso dos defletores da Ferrari, em sua base há uma espécie de dobra, cuja área deveria se estender ao longo da peça de maneira uniforme. Na extremidade posterior, porém, há um recorte “roubando” cerca de um centímetro dessa área. Ali pegou.

O delegado-técnico da FIA Jo Bauer foi quem notou a irregularidade. A Ferrari desconfia que alguém “dedurou” o time. “Admitimos que há um erro na peça, mas ele não representa nenhum ganho de desempenho”, garantiu o diretor-técnico do time, o inglês Ross Brawn. “Nossos carros estão exatamente na mesma especificação do GP da Europa e foram vistoriados várias vezes desde a corrida de Nürburgring. E ninguém encontrou nada de errado”, defendeu-se Jean Todt, o diretor-esportivo.

No rosto dos dois, que concederam uma entrevista tumultuada e improvisada no escritório da Ferrari atrás dos boxes, quatro horas depois do final da corrida, estava estampada a derrota e a vergonha. Derrota, porque dificilmente a FIA vai rever sua decisão, principalmente depois da admissão de culpa da equipe. Vergonha pelo erro bisonho na construção de uma peça. “Não sei por que não checamos as medidas”, confessou Brawn.

Na pista, durante as 56 voltas do GP malaio, a Ferrari voltou a encher os olhos de seus torcedores com um show de Schumacher do início ao fim, entregando a vitória a Irvine nas últimas voltas depois de segurar Hakkinen na maior parte da prova. Eddie chegaria ao Japão, para a última corrida do ano, com uma vantagem de quatro pontos sobre Mika, praticamente com a mão na taça.

O alemão estava deixando o autódromo quando recebeu a notícia de que havia algo errado em seu carro e que poderia ser desclassificado. “A minha parte eu fiz”, resignou-se. Irvine estava em seu avião rumo a Macau. Todt disse que o avisou da tragédia. Hakkinen, por sua vez, evitou comemorações antecipadas nos boxes da
McLaren. “Vou esperar a decisão final do recurso”, falou o finlandês, que com a desclassificação de Irvine chegou a 72 pontos, contra 60 do rival. A última etapa do campeonato acontece no dia 31, em Suzuka.

O DRAMA, MINUTO A MINUTO

A história da desclassificação da Ferrari

15h40 – Irvine e Schumacher recebem a bandeirada e fazem a dobradinha da Ferrari. Hakkinen chega em terceiro.

15h55 – FIA divulga o resultado provisório da prova e a classificação do campeonato, com Irvine em primeiro, 70 pontos, e Hakkinen quatro pontos atrás.

17h30 – FIA divulga o Relatório do Delegado Técnico nº 6, assinado por Jo Bauer, informando que foram detectadas irregularidades nas medidas dos defletores laterais dos carros números 03 e 04, ferindo o artigo 3.12.1 do regulamento técnico da F-1.

17h55 – FIA divulga o Comunicado dos Comissários nº 2, informando que o chefe da Scuderia Ferrari Marlboro estava sendo convocado para comparecer à direção de prova imediatamente.

18h45 – FIA divulga o Relatório dos Comissários nº 3, informando que depois de ouvidas as explicações do representante da equipe e de seu diretor-técnico, além do delegado técnico da FIA, e de a equipe aceitar que os defletores não estavam de acordo com as especificações, os comissários decidiram que os dois carros não
estavam de acordo com o regulamento e os excluíram do resultado final da corrida.

19h40 – Os comissários recebem da Ferrari um documento informando que a equipe tem a intenção de apelar contra a desclassificação de seus pilotos.

19h45 – No escritório da Ferrari atrás dos boxes, Jean Todt (diretor-esportivo) e Ross Brawn (diretor-técnico), este com um defletor nas mãos, explicam o que aconteceu, defendem a equipe e informam a imprensa que o time irá recorrer.

Seis dias depois…

Defesa surpreende e Ferrari vence no tribunal

Não era um centímetro que faltava nos defletores laterais dos carros de Eddie Irvine e Michael Schumacher, desclassificados do GP da Malásia, mas 5 mm. E, por isso, a Ferrari ganhou o recurso contra a eliminação de seus pilotos e recuperou a dobradinha que conquistou na pista domingo passado em Sepang. Assim, Irvine volta à liderança do Mundial de Fórmula 1, com quatro pontos de vantagem sobre Mika Hakkinen, da McLaren. A decisão do título ficou para Suzuka, no Japão.

A vitória nos tribunais foi anunciada pelo presidente da FIA (Federação Internacional de Automobilismo), Max Mosley, em Paris. O julgamento começou na sexta-feira. A Ferrari foi integralmente absolvida pelos cinco juízes encarregados do caso e também recuperou seus pontos no Mundial de Construtores.

O triunfo ferrarista pode ser creditado aos seus advogados, Henry Peter e Jean-Pierre Martel, que fizeram o que ninguém lembrou de fazer: leram o regulamento técnico da F-1 até o fim. A Ferrari havia sido desclassificada porque faltava 1 cm na base de seus defletores laterais, segundo a medição feita pelo delegado-técnico da FIA, Jo Bauer, depois da corrida. O time foi punido com base no artigo 3.12.1, que fala sobre as dimensões das peças colocadas no corpo do carro, na área compreendida entre as rodas dianteira e traseira.

Num primeiro momento, os advogados escarafuncharam o regulamento. Na página 29 do livreto, encontraram o artigo 3.12.6, que fala sobre a tolerância nas medidas. Diz o artigo: “Para amenizar possíveis problemas de fabricação, uma tolerância de +/- 5 mm é permitida nessas superfícies”. Nesse instante, o centímetro que faltava caiu pela metade.

O passo seguinte foi mandar medir a peça direito, de maneira precisa e sofisticada. Usando equipamentos a laser, sob o comando do diretor-técnico Ross Brawn, o defletor foi medido e remedido e a Ferrari descobriu que na verdade faltavam mesmo 5 mm, e não 10 mm. Portanto, o carro estava dentro do regulamento. Foi o que o time disse no tribunal. Colou.

Nos últimos dias, para desviar a atenção da “descoberta” que absolveria a equipe, já que não haveria contestação, os advogados da Ferrari tornaram pública sua suposta linha de defesa: não-intenção de burlar o regulamento e ausência de ganho de performance pela diferença de medida da peça em relação ao que estaria dentro das regras.

Na verdade, era apenas uma cortina de fumaça. No Tribunal de Apelações, a Ferrari mal tocou no assunto. Apenas provou que as medidas estavam dentro do limite de tolerância permitido pelo artigo 3.12.6 do regulamento e aproveitou para criticar os procedimentos dos comissários esportivos nas medições, que deveriam
ser muito mais precisas, já que o regulamento o é.

“As regras serão examinadas profundamente”, admitiu Mosley, diante da argumentação da equipe italiana. “Todas as medidas da peça em questão estavam dentro do limite de tolerância e por isso os juízes decidiram anular a decisão dos comissários e restituir o resultado integral do GP da Malásia.”

+++

Ou seja: a precipitação (ou incompetência mesmo) do delegado técnico Jo Bauer causou uma enorme confusão, que no fim das contas não serviu para nada.

Hoje, Jo Bauer é o “juiz” que tem o poder de decidir se as equipes podem trocar pneus e fazer reparos nos carros guardados em parque fechado após os treinos classificatórios.

Preciso dizer mais?

Abraços,

LAP

GPTotal
GPTotal
A nossa versão automobílistica do famoso "Carta ao Leitor"

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