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Olá, amigos!

Depois das férias de verão, a F1 retornou para retomar suas atividades no legendário circuito de Spa-Francorchamps. A pista, que é a preferida de vários pilotos, propõe desafios em grande escala e pudemos observar isso durante todo o fim de semana. Com seus sete quilômetros de distância, a pista proporciona um desafio de setup para pilotos e engenheiros, já que possui grandes trechos de reta, mas também um “miolo” cheio de curvas. Durante os treinos vimos a Mercedes testar diferentes configurações de asa traseira, com Hamilton andando com mais pressão aerodinâmica e Bottas com foco em velocidade nas retas.

Não bastasse a dificuldade de acerto que a pista proporciona, temos ainda a interferência do clima, que historicamente proporcionou muitos desafios em SPA. Pelo tamanho do traçado, já tivemos corridas onde chovia em alguns trechos e em outros permanecia seco. Me vem à memória a batalha épica entre Hamilton e Raikkonen, em 2008, onde os pilotos trocaram de posições constantemente nas últimas voltas, com direito a rodadas, saídas de pista e retardatários no meio da briga. Vale a pena relembrar esse grande momento.

O fim de semana também marcou a comemoração de 30 anos da estreia do grande campeão Michael Schumacher, nessa mesma pista. Seu filho, Mick Schumacher fez uma linda homenagem usando o capacete com as cores que o pai usou naquela estreia com o icônico carro verde da equipe Jordan.

A Red Bull resolveu tirar um dos seus problemas da frente e anunciou a renovação de contrato de Sergio Perez. Ainda que o piloto mexicano tenha vencido em seu primeiro ano com a equipe, seu desempenho em 2021 é bastante irregular, mas de qualquer forma já é bem melhor do que a equipe tinha com Albon. Sem essa preocupação, a equipe pode ter foco (quase) total na disputa do título desse ano, a primeira chance real desde 2014.

Falando em renovação, a incógnita sobre o companheiro de Hamilton para o ano que vem segue sem nenhuma das partes confirmar seus acordos. A imprensa pressionou Bottas e Russell nas entrevistas do fim de semana, mas nenhum piloto entregou os planos. Toto Wolff também se esquivou da confirmação quase iminente da substituição de Bottas, dizendo que ambos são parte da família e que devem ser tratados como tal. Cá entre nós, só falta anunciar mesmo.

Nos treinos de sexta-feira tivemos tempo seco e vimos Mercedes e Red Bull muito próximas. A surpresa no segundo treino foi a Alpine de Fernando Alonso a apenas quatro décimos do melhor tempo, conseguido por Verstappen. No sábado de manhã, no último treino livre antes da classificação, a pista estava molhada com a chuva que ia e voltava, mas a ordem não se alterou tanto, com dobradinha da Red Bull, seguidos da Mercedes de Hamilton.

A classificação para o grid de largada foi bastante tensa, com períodos de chuva mais forte e pista secando em alguns trechos. Pilotos usaram tanto os pneus de chuva intensa quanto os intermediários. Com um cenário imprevisível como esse, ir para a pista na hora certa ganha uma importância muito maior. Lando Norris foi o piloto que melhor se adaptou às condições adversas e fez o melhor tempo no Q1 e no Q2. Para o Q3, a chuva apertou e Norris foi pego no que considero um erro de principiante. Vettel alertou pelo rádio que não havia condições, mas o piloto da McLaren abriu volta e teve uma batida muito feia na Eau Rouge. Felizmente o piloto não se machucou seriamente e foi confirmado para disputar a prova no domingo. Para a pole, um incrível George Russell brilhou em condições climáticas adversas e tinha o melhor tempo até o último segundo, sendo superado apenas por Verstappen em sua última volta. Hamilton fez o terceiro tempo e vai largar ao lado de um surpreendente Daniel Ricciardo, que finalmente teve um bom desempenho na classificação.

O domingo começou com muita chuva e, no caminho para o grid de largada, Perez perdeu o controle e bateu no muro. Com isso, a segunda Red Bull nem sequer iria para a prova. A largada foi atrasada e atrás do safety car. Lá se foi boa parte da emoção e perigos da curva 1 de Spa, onde vimos diversos acidentes e toques em anos anteriores. As condições eram extremas e a visibilidade muito baixa. Os carros foram para a pista, atrás do safety car, mas a maioria dos pilotos dizia que não conseguia enxergar nada. Apenas Verstappen queria a corrida em andamento, afinal, ele era o primeiro carro da fila. Em apenas uma volta a F1 recuou e mandou os carros para os boxes.

A Red Bull aproveitou a oportunidade e começou a trabalhar no carro de Perez, enquanto contatava os comissários para pedir autorização para o piloto mexicano voltar à pista. Com um regulamento bastante deficiente e aberto à interpretação, os comissários autorizaram o retorno de Perez. Mais uma brecha de regulamento bem aproveitada.

Depois de horas aguardando condições melhores, os comissários liberaram os carros para a pista, atrás do safety car, mas com a corrida com duração reduzida para apenas uma hora. Nesse cenário, somente metade dos pontos seriam distribuídos.

O inevitável aconteceu. Depois de algumas voltas atrás do safety car e a certeza de que não seria seguro ter uma corrida, os comissários deram a corrida por encerrada. Sem mudanças possíveis na pista e com duas voltas completas, algo previsto no regulamento, os pontos foram distribuídos de acordo com as posições de largada conseguidas no treino de sábado. A decisão foi controversa. Lewis Hamilton foi bastante enfático em suas redes sociais, dizendo que a corrida foi uma farsa e que a F1 deveria devolver o dinheiro para os fãs. Passamos o intervalo das férias aguardando para o retorno triunfante da F1 com o grande espetáculo em Spa, o que recebemos foi uma grande comédia no estilo “pastelão”, proporcionado pelos organizadores do GP.

Com a pontuação dada, Hamilton continua na frente do campeonato, agora com 3 pontos à frente de Verstappen. George Russell conseguiu o seu primeiro pódio na F1, com o segundo lugar no grid de sábado. O fim de semana foi decepcionante para os fãs, talvez Verstappen e Russell sejam os únicos que tenham gostado do resultado de uma quase corrida.

Que a próxima seja melhor.

Abraços,

Rafael Mansano

 

 

Rafael Mansano
Rafael Mansano
Viciado em F1 desde pequeno, piloto de kart amador e torcedor de pilotos excepcionais.

11 Comments

  1. Helena Sophia disse:

    Aos senhores revoltados eu pergunto: Se um grande acidente acontece, se um piloto ficasse hospitalizado, permanentemente incapacitado, morto, ou qualquer alternativa horrenda, estariam os senhores tratariam esse GP como “ridículo”, “palhaçada” e “farsa”??
    Ou só pensam e entendem mesmo de seu interesse no entretenimento?

    • Rafael Mansano disse:

      Olá, Helena. Tudo bem? Obrigado pelo seu comentário. Realmente não acredito ser correto ter uma corrida em detrimento de segurança, talvez o ideal fosse uma corrida cancelada, não somente duas voltas e distribuição de pontos. O que mais importa é que ninguém se machucou, mas fica o pesar pela F1 não reembolsar os fãs que ficaram horas esperando e nada viram.

      Abraço,
      Rafael Mansano

    • Fernando marques disse:

      Helena,

      Em momento algum critiquei o fato da corrida ser realizada debaixo de chuva .
      Apenas critiquei o fato se ter tido um resultado final sem corrida. Daí achar a corrida uma farsa.

      Fernando Marques

  2. Fernando marques disse:

    Rafael,
    A minha opinião é a seguinte:

    1) Realmente não havia condições de ter corrida, dadas aos atuais cuidados em relação com a segurança. O chato é que nós tempos de Piquet, teria corrida, a chuva seria tratada como garoa.

    2) O grande erro deste fim de semana foi o regulamento permitir que a corrida ao fim tivesse um resultado final, sem ter corrida. GP da Bélgica foi uma farsa.
    Por que do regulamento não permitir dela ser realizada na segunda feira. Seria mais justo com quem pagou pra ir e ver uma corrida de fórmula 1?

    3) Quem de deu bem nesta história toda foi a RBR. Venceu uma corrida sem desgastar sua terceira força motriz já em uso. Ganhou uma corrida de sobrevida. Por essa nem a RBR contava .
    Tá rindo a toa.

    No mais GP da Bélgica de 2008. Que bela lembrança. Que final de corrida simplesmente sensacional.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

    • Rafael Mansano disse:

      Oi Fernando, tudo bem?
      A realização da prova na segunda-feira não seria simplesmente questão de aguardar a melhora do tempo. Todos os fiscais de pista são voluntários que trabalham em seus empregos durante a semana, só isso já inviabilizaria a realização. Além desse ponto, tem a questão de logística para a próxima corrida, que seria prejudicada. Enfim, nesse caso não seria tão simples apenas aguardar a segunda-feira.

      Sobre a questão de segurança, não é porque no passado esse ponto era negligenciado que hoje também deve ser. Segurança sempre em primeiro lugar.

      Grande abraço!
      Rafael Mansano

      • Fernando marques disse:

        Rafael,

        Com relação ao adiamento vida corrida para o dia seguinte, penso que a fórmula 1 de precisa rever a sua logística. A Fórmula Indy sempre agiu assim. Mas entendo a suas justificativas.

        Fernando Marques

  3. Este episódio ficará marcado como a maior palhaçada da F-1 ao longo dos seus 71 anos de história. Maior inclusive que as cenas do GP da Áustria de 2002 e do GP dos EUA de 2005.

    Se isto tivesse ocorrido nas categorias norte-americanas (seja na F-Indy ou na NASCAR), a corrida teria sido adiada para segunda-feira.

    Que isto não se repita novamente.

    Marcelo C.Souza
    Dias D’ávila – BA

  4. Sandro disse:

    Mazepin pode estufar o peito e dizer: “Eu fiz a melhor volta da corrida “não-corrida”! 😝
    Agora, falando sério: talvez tenha sido o PP (Pequeno Prêmio) mais esquisito, mais estranho, mais constrangedor da história da F-1!
    Palmas para Russel: segundo lugar no qualy sabe lá como ele fez isso! Impressionante!
    Piloto do dia: Mailander! 😁

    • Sandro disse:

      Errata: mais um recorde bizarro para F1! 🤔
      Com duas voltas, a volta mais rápida foi de Mazepin, com 3’18”016, sem direito ao ponto pois terminou em décimo-sétimo lugar, ao percorrer 7004 metros.
      E como a corrida teve uma volta, por causa da bandeira vermelha, a melhor volta foi para Verstappen, com 3’27”071, ao percorrer… 6880 metros! 🤔 Nem sempre a linha de largada coincide com a linha de chegada!
      Oficialmente, pela primeira vez na história, desconsiderando as 500 Milhas de Indianápolis (1950-1960), não teve volta mais rápida da corrida! 🤔 Será que esse pontinho (ou meio-pontinho?) vai fazer falta para Verstappen? 🤔
      Perez abandonou a corrida ao rodar na volta de apresentação! Mas como a largada foi adiada, deu tempo dos mecânicos rubro-taurinos consertarem o carro e de uma brecha do regulamento! 🤔
      Stroll conseguiu a façanha de ser punido e terminou em último (vigésimo-lugar)!
      E para o ano que vem tem o boato de uma reforma em Spa-Francorchamps, diminuindo o trecho de 7004 m para algo entre 4500 a 5000 metros, por obra e graça de Hermann Tilke, exterminando a Curva Eau Reage ou algo do tipo! Deus me livre! 😵 Aliás, já era para o Tilke ter estragado, digo, reformado a pista belgicana mas os organizadores do Grande Prêmio da Bélgica não deixaram.., ainda!

  5. MarcioD disse:

    Ontem o ”circo” da F1 promoveu a sua maior palhaçada nos mais de 70 anos de historia da categoria. É a farsa que jamais será apagada, a corrida da mentira e pasmem com direito a entrevista e pódio! Ridículo! O publico e os telespectadores foram feitos de otários. Seria mais respeitoso e honesto um adiamento ou cancelamento da corrida do que ficar inutilmente tentando achar uma “janela” de corrida numa condição de tempo instável e para se cumprir um regulamento ficar dando voltas atrás de Safety Car para falar que a corrida valeu. E infelizmente tudo isso ocorreu numa pista lendária como Spa que tem curva a mais emblemática da F1, a Eau Rouge.

    O único fato digno de nota neste fim de semana nefasto foi a 2ª posição obtida por Russell com a Williams em pista molhada. E isto coincidindo com 30 anos da estreia de Schumacher na F1 quando conseguiu o 7º posto no grid com uma Jordan nessa mesma Spa. A propósito qual dos dois fatos foi mais impactante? Schumacher tem a seu favor : 1) O fato de ser estreante 2) Nunca havia andado de carro em Spa. Russell por outro lado tem a seu favor : 1) 2º é melhor que 7º 2) A Jordan foi a quinta colocada nos construtores daquele ano e quando Russel marcou o 2º tempo a Williams era a oitava colocada. 3) O companheiro de equipe de Schumacher, De Cesaris largou em 11º, 4 posições atrás, enquanto o de Russell , Latifi conseguiu o 12º tempo, 10 posições atrás 4) Schumi ficou atrás de 3 campeões mundiais com carros superiores ao dele: Senna pole, Prost 2º e Piquet 6º, imediatamente á sua frente. Mansell em 3º ainda não havia sido campeão. Russell ficou á frente de 3 campeões mundiais: Hamilton em 3º, imediatamente atrás dele, Vettel em 5º, esses 2 com carros superiores e Kimi em 19º com um carro inferior. 5) Essa classificação de Russel foi obtida em condições muito adversas, pista de alta com trechos perigosos em tempo muito chuvoso e com spray. Isto exige muita coragem, concentração e talento na pilotagem. Feitas essas considerações, a meu ver, o feito de Russell foi mais impactante que o de Schumacher

  6. Manuel disse:

    Quando a gente pensa já haver visto tudo…

    Para que diabos existem os pneus de chuva e os de “Heavy Rain” ( chuva forte ) se depois nao se atrevem a usá-los ?

    O principal elemento de segurança é o próprio piloto e tratá-los como criancinhas irresponsáveis que nao sabem por si mesmos até onde podem chegar, nao ajuda à imagem da categoria.

    Enfim…

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