O Fundamento N. 1 sob ataque

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O novo regulamento no qual a Fórmula 1 mergulha a partir de 2022 vai remexer os fundamentos da categoria, ampliando de forma significativa um afluente até agora explorado com discrição: a punição aos melhores. Em texto meu de 2010, a premiação do máximo desempenho técnico e esportivo era o Fundamento n. 1.

De novo a F1 saca o discurso da busca por corridas mais disputadas, a redução da turbulência que dificulta ultrapassagens, blá, blá, blá. Trata-se de mentira velha, usada desde não sei quando e que justificou, por exemplo, a introdução do DRS na categoria em 2011.

É muita cara de pau! Tanto quanto a de Bolsonaro cascateando contra o STF, as urnas eletrônicas, as vacinas, a Globo etc., quando está preocupado apenas com a própria sobrevivência. No caso da F1, o novo regulamento é uma tentativa de romper a hegemonia Mercedes-Lewis Hamilton ao mesmo tempo em que busca atrair mais atenção à categoria. Mas que não se negue a sofisticação crescente da cascata, envolvendo até a construção de um F1 modelo 2022, apresentado solenemente em Silverstone.

O regulamento amplifica o uso do efeito solo em detrimento dos apêndices aerodinâmicos externos, inclusive aerofólios. O resultado é que o carro ficou parecendo um Fórmula Indy e vamos dar graças a Deus que sem aquele para-brisa, que pode ser mais seguro do que a gaiola da F1, mas… fala sério!

Estima-se que os tempos de volta subam entre dois ou três segundos, mas estas previsões nunca se confirmam.

O regulamento técnico é apenas uma parte da história e que nem atingiria diretamente o Fundamento n. 1. A novidade é a ênfase em algo com o qual a categoria convive desde 2003: a limitação severa de testes em pista de carros e pilotos. Atualmente, Lewis Hamilton deve rodar no seu Mercedes por ano o que Michael Schumacher rodava por mês nos seus tempos de Ferrari, dando à F1 uma distinção bizarra: é um esporte no qual é virtualmente proibido treinar. O regulamento chega a tal ponto que mesmo carros das temporadas anteriores não podem ser levados à pista sem motivos bem especificados no regulamento, o que complica até a gravação de filmes publicitários.

A limitação de testes foi sendo gradativamente ampliada pretensamente para conter os custos. Não se notou vantagem para as equipes, pois elas contornaram as limitações com o uso de sistemas de simulação. O mais conhecido deles é o túnel de vento, mas há vários outros, inclusive plataformas sobre as quais os carros de verdade ou seus sistemas são “movimentados”, de forma a simular a sua dinâmica autódromo a autódromo.

Coisa semelhante vale para os pilotos. Agora, eles apuram os sentidos em simuladores que lembram os da aviação e que reproduzem inclusive – imagino que com limitações – as forças G experimentadas ao encararem uma Stowe, por exemplo. Por trás de tudo estão supercomputadores. À medida que a curva de experiência das equipes evolui, os computadores vão se tornando capazes de simulações cada vez mais verazes.

Já há alguns anos, o uso de túneis de vento é restringido por regulamento, que vale para todas as equipes. A partir de agora, porém, o uso de todos os recursos de simulação, inclusive em ambiente virtual, será progressivamente limitado às equipes mais bem classificadas no campeonato. A Mercedes, se entendi bem, terá de reduzir em até 30% o uso dos seus sistemas de simulação enquanto as equipes do fim do grid podem fazê-lo até 15% mais do que atualmente.

Soma-se a isso a obrigatoriedade de férias para as equipes. Se vocês não sabem, os escritórios e oficinas devem necessariamente ser fechadas por algumas semanas ao longo do ano, o monitoramento sendo feito por auditorias externas e as equipes proibidas de artifícios como reuniões virtuais ou uso de estruturas externas para continuar trabalhando.

Talvez o próximo do regulamento seja limitar as horas do dia em que um engenheiro possa pensar em seu trabalho…

Os ataques ao Fundamento n. 1 vão além, com a severa majoração do budget cap, a limitação orçamentária, atingindo frontalmente Mercedes, RBR e Ferrari, as demais equipes já gastando mais ou menos o previsto no novo regulamento.

E aí começam as dúvidas: consertar o RBR de Max Verstappen depois do acidente em Silverstone custou à equipe 1,7 milhão de euros, enquanto a Ferrari contabiliza gastos de 2,5 milhões de euros pra consertos dos carros de Charles Leclerc e Carlos Sainz desde o começo do ano. Como acomodar estes custos imprevisíveis no budget cap?

Em tempo: AutoSprint reporta críticas de projetistas das equipes – Adrian Newey é um deles – às soluções propostas pelo novo regulamento, considerando que os resultados observados podem ter sido distorcidos pelo uso de equipamentos de simulação já superados, resultando em carros difíceis de serem dirigidos.

Outra coisa que li em AutoSprint recente: a Ferrari reconhece não ter, no momento, os melhores equipamentos de simulação da F1.

E pra encerrar: as maiores equipes investem já há alguns anos em equipamentos e instalações de simulação mais modernas, capazes de neutralizar, ao menos em parte, as restrições do novo regulamento. Imagino também que se possa estabelecer algum jogo de desenvolvimento cruzado entre equipes “amigas”, tipo Ferrari e Alfa, RBR e Toro Rosso, Mercedes e Aston Martin. Aliás, difícil imaginar que não haverá jogo entre elas.

Vocês sabem que sou essencialmente um conservador – de esquerda, mas um conservador. Por isso, preferia preservar o Fundamento n. 1 como ele sempre foi. Queria dizer, porém, que não sou totalmente avesso a uma revisão dele.

Desde que li Quarup, em algum momento dos anos 70, admiro as práticas ditas esportivas associadas à cerimônia que dá nome ao livro de Antônio Calado. Nelas, quem vai à frente numa corrida pedestre, espera e ajuda quem vem atrás. Nem sei se há vencedores no final, ficando apenas a celebração pura e simples de algo feito junto com outras pessoas, em total oposição ao que estamos habituados a ver nos campos, ginásios, autódromos, velódromos e onde mais se disputa um evento esportivo. Há sempre um vencedor, um só, e os demais que mordam o pó.

No entanto, vimos na Olimpíada de Tóquio como perdedores podem ser igualmente honrados. Estamos diante de uma contradição? Não necessariamente.

A Revolução Francesa resolveu a contradição entre Liberdade e Igualdade, elementos intrinsecamente contraditórios como o são Vitória e Derrota, acrescentando a eles a Fraternidade. Algum gênio do Comitê Olímpico Internacional – glória a ele, seja quem for – resolveu a questão acrescentando Together – juntos – ao Citius, Altius, Fortius.

Beatriz Ferreira, nossa prata no boxe, e sua adversária na luta final, a irlandesa Kelly Anne Harrington, deram um exemplo prático de como pode ser honrada uma derrota. Veja a tocante comemoração entre elas depois de o juiz anunciar o resultado da luta.

Houve outros momentos igualmente tocantes em Tóquio, nos quais a Vitória e a Derrota se encontraram de um jeito Quarup.

Se for pra viver num mundo onde vencedores e perdedores sejam como Kelly Anne e Beatriz, eu topo!

Abraços,

Eduardo Correa

Eduardo Correa
Eduardo Correa
Jornalista, autor do livro "Fórmula 1, Pela Glória e Pela Pátria", acompanha a categoria desde 1968

4 Comments

  1. Roland Ratzenberger disse:

    O cara vem aqui ler sobre esportes, automobilismo, F1, mas se depara com um lacrador nojento. Que decadência.

    Engraçado que hoje em dia para dar uma de intelectual, basta atacar Bolsonaro, ser feminista, enfiar “democracia” em qualquer discurso, e pronto: Os retardados inúteis que vivem bostejando no twitter, já começam a aplaudir.

    Realmente, como ninguém percebe? Bolsonaro é o maior culpado pelos males do mundo. Antes dele, aqui era um paraíso. Não havia filas em hospitais, havia pleno emprego, a criminalidade era menor que a da Suíça, a educação era uma das melhores do mundo!! Quem são Harvard, Oxford, MIT, perto da USP, Unicamp?? kkkkkkkkkkkkkk

    Vai lacrador, continua. Homens, héteros, de 30 anos ou mais, que é o público aqui do site adora isso, SÓ QUE NÃO.

  2. Manuel disse:

    Caro Edu,

    O lema da revolução francesa em sua totalidade era: “ Liberté, Egalité, Fraternité… ou La Mort ! “ ( Liberdade, Igualdade, Fraternidade… ou a Morte ! ). Por motivos “estéticos” só as três primeiras condições se recordam.
    Realmente, morte foi o que mais acabou causando. Esperemos que não aconteça o mesmo com a formula 1.

  3. Fernando de Carvalho disse:

    Não entendo porque colocar o Presidente dentro da F1, assunto que você escreve tão bem.

    O STF desrespeita a Constituição, coisa que o Presidente até o momento não rasgou em nenhum momento. E quanto a “própria sobrevivência ” veremos nas eleições do ano que vem, isso se não houverem fraudes (vide USA).

    Voltando ao que interessa, realmente, a F1 o auge em pilotos, tecnologias, Engenheiros e não pode testar? Surreal.

    Saudações

  4. Fernando Marques disse:

    Edu,

    quanto mais a Formula 1 evolui, mais distante ela fica daquela Formula 1 dos 60/70 e 80 que passei a adorar, apesar de ainda gostar muito de ver acompanhar as corridas e noticias relacionadas.
    Não sei se por influência dos regulamentos cada vez mais complexos, ou diretamente sim, a Formula 1 segue o caminho para virar uma categoria mono marca … fico olhando os carros atuais, de tão parecidos, se não fosse as cores dos patrocinadores, não distinguiria uma Ferrari e de uma Mercedes, de uma RBR, e por aí vai … não vejo mais o DNA das marcas …
    A prova disso foi a apresentação do carro para 2022 … é de qual marca? … quem apresentou seu primeiro protótipo: a Ferrari, a Mercedes, a RBR, a Renault? … opa!!! não tem marca? … todas as equipes terão que copiar este modelo?
    A cada novo regulamento … novas promessas e premissas … e assim a Formula 1 vai caminhando
    Não me vejo como conservador mas a cada dia mais saudosista em todos os sentidos. No caso do automobilismo , do tempo que bacana era sujar a mão de graxa …
    O esporte em geral, seja lá qual for, exige tanto do ser humano ser um atleta de alto rendimento que por mais individual que seja o esporte, se não tiver uma boa equipe por trás , ser vencedor sempre será uma realidade distante …
    Estes dias li na internet que um garoto americano da Califórnia de apenas 9 anos de idade, bateu o recorde mundial dos 1500 metros no atletismo com um tempo abaixo 15 segundos do recorde. Tempo inferior aos dos atletas com 15 anos … com certeza um fenômeno … que certamente não terá nenhuma infância decente se quiser um dia ser campeão olímpico … concorda? … Se este garoto não tiver uma boa equipe jamais será um campeão …
    O bacana no esporte é exatamente o fato de haver vencedores e perdedores … sempre houve e haverá os grandes vencedores e grandes perdedores. Mas o esporte apenas acompanha a vida … a vida é assim ….

    Fernando Marques
    Niterói RJ

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