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Anunciada como tema de um longa metragem que entrará em produção no futuro próximo, a temporada da Fórmula 1 de 1976 reúne ingredientes dignos de um blockbuster de Hollywood: conflito humano intenso envolvendo personagens atraentes, enigmáticos e sedutores, drama, suspense, toques de sexo e violência, uma grande surpresa no final.

 

Anunciada como tema de um longa metragem que entrará em produção no futuro próximo, a temporada da Fórmula 1 de 1976 reúne ingredientes realmente dignos de um blockbuster: conflito humano intenso envolvendo personagens atraentes, enigmáticos e sedutores, drama, suspense, toques de sexo e violência, uma grande surpresa ao final.

Nos papéis centrais, estão o austríaco Niki Lauda e o inglês James Hunt. Lauda, então com 27 anos, vinha se tornando o primeiro superstar da Fórmula 1 dos anos 70, que ganhava cada vez mais popularidade graças a uma série de fatores a partir do trabalho de organização desenvolvido por Bernie Ecclestone. Os acontecimentos envolvendo Lauda naquela temporada apenas ampliariam o reconhecimento da categoria e dele próprio. Afinal, ele corria pela mítica Ferrari e, mais do que isso, estava conseguindo molda-la à sua imagem, mesmo que, por vezes, tivesse de bater de frente com ninguém menos que o frio e calculista Enzo Ferrari, a quem caberia muito bem o papel de eminência parda da Fórmula 1 da época. Já sentindo o peso da idade, Enzo aceita relutante a força e projeção de Lauda dentro da equipe, na ilusão de estar usando o talento dele na busca pelas vitórias que estavam finalmente resgatando a equipe de um negro período. Mas saber quem estava usando quem era questão que só seria resolvida no futuro.

Muita coisa distanciava Lauda, metódico, sensível, disciplinado e delicado na condução do seu carro, de Hunt, intuitivo, velhaco, perfeito estereótipo do playboy, fumando, bebendo e correndo atrás de mulheres até momentos antes da largada. Não eram raras bebedeiras nas noites de sábado anteriores aos GPs, o álcool vindo a ser um problema grave para o inglês depois que abandonou as corridas, sua vida vivida intensamente, a ponto de perde-la aos 45 anos, vítima de um infarto. Mesmo assim, Lauda e Hunt eram amigos próximos e fraternos, a rivalidade entre ambos contida às pistas e sem lances polêmicos ou minimamente desleais.

 

 

O começo da temporada 76 não foi diferente do que vimos em 2011: domínio completo de Lauda, pilotando inicialmente o Ferrari 312T, que lhe dera o título em 75, e, depois, o T2. Nas seis primeiras provas, ele alcançou um aproveitamento de 89% dos pontos, contabilizando dois 2os lugares e quatro vitórias, três delas de ponta a ponta. Foi um ciclo extraordinário, uma notável prova de força de Lauda mas que lhe cobrava um grande esforço. No pódio de Mônaco, metido em uma coroa de louros que pesava sobre seus ombros magros e arqueados, os sinais de esgotamento físico e mental eram de tal forma evidentes que mesmo eu, então apenas um jovem avoado, imaginei não ser impossível que a vida do austríaco sofresse uma ruptura violenta. No caso da Fórmula 1 da época, isso só podia significar uma coisa…

 

 

Depois de Mônaco, Lauda tinha 48 pontos e Hunt, correndo com o McLaren que levou Emerson Fittipaldi ao título de 74, meros 15. Nas duas corridas seguintes, o inglês esboçou uma reação. Lauda foi 3º na Suécia e abandonou na França, quando liderava, com problemas de motor. Hunt venceu em Paul Ricard e foi 5º na Suécia.

O próximo GP foi disputado na Inglaterra, em Brands Hatch, sendo marcado por uma incrível confusão. Logo na primeira curva, Hunt bateu, destruindo seu carro. A corrida foi paralisada e ele embarcou no carro reserva, o que não era permitido pelo regulamento. Os organizadores, porém, não tiveram coragem de decepcionar o público e fingiram que não viram o inglês alinhar. Lauda partiu na frente e foi perseguido por ele por 45 voltas até ser ultrapassado. Hunt seguiu daí para a vitória consagradora. Nas semanas seguintes, houve intensa batalha nos tribunais e a desclassificação foi, afinal, aplicada e a vitória dada a Lauda. Ele somava, nesta altura, 61 pontos e Hunt, 26.

 

 

Veio então o GP da Alemanha, na temida Nurburgring dos velhos tempos, chamada pelos pilotos de Inferno Verde. Os contornos dramáticos do acidente envolvendo Lauda, a coragem de vários pilotos e comissários no salvamento dele, a sua luta pela vida e a quase que milagrosa recuperação bastariam para um filme. Em minha coluna “42 dias na vida de Lauda”, publicada em 26/11/2007, conto com detalhes esses dias de angustia e valentia.

 

httpv://www.youtube.com/watch?v=jATgKoVkows&NR=1

 

Hunt tirou quase todo o proveito possível da ausência de Lauda. Venceu na Alemanha e na Holanda e foi 4º na Áustria.

Lauda retorna no GP da Itália, em Monza, em condições dramáticas. Ele ainda estava em convalescença, as queimaduras no rosto e mãos em cicatrização. Na sexta-feira, sob chuva, simplesmente se recusou a treinar, lutando contra uma crise de pânico. No dia seguinte, sem chuva, consegue marcar o 5º tempo, um feito esportivo e humano magnífico, à frente de seus dois companheiros de equipe, Regazzoni e Carlos Reutemann, recrutado às pressas por Enzo Ferrari, que não acreditava que o austríaco se recuperaria dos ferimentos.

Lauda parte atrasado por um motivo incrível: haviam mudado os procedimentos de largada e não o avisaram. Ele cai para 12º mas se recupera brilhantemente, até terminar em 4º lugar. Hunt enfrentou problemas desde os treinos, tendo abandonado a corrida por acidente.

 

httpv://www.youtube.com/watch?v=DmnJ-_rbz_I&feature=related

 

O inglês venceu com autoridade os GPs do Canadá e EUA, provas em que Lauda marcou apenas um 3º lugar. A distância entre eles reduziu-se a três pontos em favor do austríaco. Tudo teria de se resolver na prova final, no Japão, na primeira que o país sediava um GP.

Um dilúvio bíblico se abateu sobre o autódromo de Fuji no dia da prova, não muito diferente do que vimos em 2007. Os organizadores retardaram por várias horas a largada até um ponto em que começou a se temer pela falta de luz natural para a corrida.

Enquanto aguardava, Lauda convida os pilotos a visita-lo no interior de um Rolls-Royce emprestado pelos organizadores. Ele pede a cada um que abandone a prova espontaneamente depois da largada, pois as condições da pista, repleta de poças d´água, era demasiado perigosas. O teor das conversas nunca ficou perfeitamente claro mas podemos imaginar o que cada interlocutor de Lauda pensou: “este cara esta tentando me passar a conversa, para ele ganhar o título no mole, ou está apenas preocupado com a minha sobrevivência?”

Fossem quais fossem estes pensamentos, apenas Lauda, Emerson Fittipaldi e José Carlos Pace abandonaram a corrida. Mais tarde o austríaco explicaria a sua decisão: “Ferrari me paga para correr, não para me jogar pela janela”.

 

httpv://www.youtube.com/watch?v=EBkNqJVe28k

 

Hunt escapa na frente e constrói sólida liderança. Nas voltas finais, a pista seca e ele é obrigado a fazer um caótico pitstop, longo quase trinta segundos. Volta e passa vários pilotos mas, ao receber a bandeirada, tinha a certeza de que não havia conseguido recuperar as posições necessárias, tanto assim que sai do carro xingando o seu chefe de equipe. Só depois entendeu que havia conseguido cruzar em 3º lugar, deixando Lauda para trás por um único ponto.

 

Bom final de semana a todos

 

Eduardo Correa

 

Eduardo Correa
Eduardo Correa
Jornalista, autor do livro "Fórmula 1, Pela Glória e Pela Pátria", acompanha a categoria desde 1968

3 Comments

  1. Rogerio disse:

    Realmente foi uma temporada extremamente dramatica.
    Lauda superou todos os limites e acho que ele fez o correto em não correr no Japão.
    Lauda tinha o melhor carro e era um piloto extremamente eficiente. O troco dele veio em 84 com aquele titulo por meio ponto……

    Voltas da vida….

  2. Outros detalhes sobre esta temporada podem ser vistos no texto que publiquei no início de 2008, através do link: http://gptotal.com.br/2005/Leitores/Help/20080312.asp
    Vale notar que no fim do texto eu questiono por que esta temporada ainda não havia se transformado em filme. Parece que queimei a língua.

  3. Fernando Marques disse:

    Enquanto as colunas lembrarem os bons tempos da Formula 1 estarei aqui dando uns pitacos … a temporada de 76 foi definida na Alemanha no acidente que quase vitimou o Lauda … a sua Ferrari era muito superior aos demais carros … e Lauda dava um banho no Regazzoni que tinha um carro igual mas não vencia … Lauda estava acima de todos … a atutude de Emerson e Pace, atendendo o pedido de LAuda fez sentido … em 74, na Espanha, Emerson fingiu que treinou para não largar numa pista totalmente sem segurança … os demais treinaram a vera largaram e todos se lembram do que aconteceu … Rolf Stomelen liderava a frente do Moco e se envolveram um acidente onde Stomelen saiu muito machucado e mataram varios espectadores por causa dos precarios guard rails … Emerson manteve sua posição em relação a segurança e Pace não quis ser protagonista de outra tragedia no Japão … apesar da bravura do James Hunt, que pouco ligou para segurança em troca de um titulo mundial, a recuperação de Lauda face ao que sofreu, demonstrou quem foi o verdadeiro campeão daquele ano na minha opnião … ele era o melhor tinha disparado o melhor carro …

    Fernando Marques
    Niterói – RJ

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