Olhar de alpinista

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É, de fato, muito mais fácil entusiasmar-se com o estilo extremo e valente de Hamilton, que parece ser, em termos de tocada, o melhor exemplo oposto ao de Button. Ou então entusiasmar-se com Vettel, hoje a melhor tradução do piloto descendente, que é fabuloso em qualificações e passa o maior tempo possível na liderança, para poder administrar o ritmo – escola de Fangio, Clark e Senna.

 

Subindo a pé a comprida e íngreme ladeira da minha casa, após meu jogging de fim de tarde, lembrei-me, num insight ligeiramente ofegante, de uma máxima do montanhismo: um alpinista, em sua trajetória ascendente, jamais ataca uma montanha de uma só vez e em linha reta, ele faz ziguezagues. Tal frase permeou minha mente e me ajuda a explicar o tema desta coluna.

O alpinista traça cada desvio mentalmente, em seu caminho até o topo. Analisa todas as condições para cumprir seu objetivo. Ele observa o desafio à frente. Olha para os céus, para os lados. Checa o equipamento e a equipe em volta. Caso tenha se prontificado a escalar pela face mais difícil, tal preparação é ainda mais minuciosa e intensa, até o fincar da bandeira. Em suma, o alpinista prova que, por várias vezes, o local mais curto entre dois pontos não é uma reta.

 

 

Quarta volta do GP da Itália. Após fazer excelente largada, em que havia pulado de 8º para 4º, Schumacher também relarga muito bem e se coloca em 3º, atrás do melhor largador do dia, Alonso, e o futuro vencedor, o irresistível Vettel. E fica à frente de Hamilton. Enquanto os dois primeiros colocados encontram um ritmo superior e abrem distância, Michael inicia um espetacular combate para manter sua posição, defendendo-se do ataque do campeão de 2008.

O cenário para a batalha ajudava muito. Era uma equação primorosamente balanceada. Michael tinha em sua Mercedes um carro velocíssimo nas retas, com pouco arrasto. Lewis, mesmíssimo motor, tinha a McLaren com mais aderência e rapidez em volta, e cerca de 6 km/h a menos de final, batendo no limitador de 18 mil rpm. E então os dois começam aquele que foi um dos duelos mais empolgantes do ano. Dois cães de briga, se pegando em Monza, um circuito de verdade, de modo absolutamente maravilhoso.

Mas eis que atrás deles, a partir da volta 9, surge um piloto com o tal olhar de alpinista. Este havia largado mal, e se beneficiara do choque entre Webber (ligeiramente autodestrutivo na freada da Parabolica, não acham?) e um Massa que mais uma vez ficou abaixo do que se espera dele. O alpinista, em 5º, viu o tamanho da montanha: dois campeões mundiais, ultracompetitivos, e que carregam um extenso histórico de mau comportamento contra quem quer ultrapassá-los. Mesmo com esse K2 à frente, decidiu que tinha os elementos para superar este desafio. A solução, claro, não era atacar a montanha de frente.

Tratando com gentileza os pneus, esperou pacientemente que os dois fighters à sua frente, detonando a borracha que tinham, apertassem um pouco o jogo e perdessem tempo, ou timing. Na volta 15, em pouco menos de meio circuito, conseguiu superar ambos, que ficariam praticamente o restante do GP se pegando. Este alpinista é Jenson Button, que ainda aceleraria o ritmo para alcançar e superar Alonso, terminando a prova em um excelente 2º lugar.

httpv://www.youtube.com/watch?v=Vp0BD7b5F_Y&feature=related

Foi lindo ver o pega entre Michael e Lewis. Coisa finíssima. Mas acredito que tenha sido ainda mais lindo ver Jenson superá-los com tanta perspicácia. Foi a astúcia se sobrepondo à combatividade. O inglês marca definitivamente o ressurgimento do piloto-computador, técnico, holista, ascendente, algo que aparentemente havia sumido com a aposentadoria do professor Alain Prost, há quase duas décadas, e que tinha entre seus membros gente do calibre de Lauda, Stewart, e Fittipaldi.

 

 

Vimos em diversos exemplos anteriores como Button é diferenciado em situações em que o desgaste de pneus é crítico ou o clima meteorológico é instável a ponto dos pilotos terem que encontrar o limite da aderência a cada curva. Ele tem um trato suave com os comandos do carro, é muito regular e erra pouquíssimo – tanto que, repito: a última vez em que abandonou uma corrida por erro próprio, isto ocorreu no dilúvio de Silverstone 2008, pela Honda (!)…

Evidentemente, a proeminência destas qualidades apareceu por conta da defenestração de algumas regras que detonaram a F1 na era Mosley, como os horríveis pneus sulcados e o reabastecimento, além do fim da “guerra dos apêndices”, que enchia o carro de penduricalhos aerodinâmicos. O inglês passou a maior parte da carreira correndo sob um regulamento que privilegiava, acima de qualquer outro atributo, a rapidez, já que havia pneus e combustível à vontade e as equipes que se virassem nas táticas de como administrar melhor esses dois itens.

Mas a F1 foi buscar, em conceitos de um passado nem tão distante, a complexidade que evidenciava os estilos – e principalmente eficácia – de pilotagem de cada um. Se infelizmente o consumo de combustível não se mostra crítico como na saudosa Era Turbo (elemento que por vezes apimentava o fim das corridas), o trato com os frágeis Pirelli tornou-se fator relevante em algumas ocasiões. Tudo ajudado pela proibição do reabastecimento, que faz com que o comportamento dinâmico do carro seja alterado volta a volta, até ficar levíssimo e arisco no fim da corrida. E se livrassem os pilotos da regra do uso obrigatório de cada composto durante a corrida, o cenário seria ainda mais divertido.

 

 

É, de fato, muito mais fácil entusiasmar-se com o estilo extremo e valente de Hamilton, que parece ser, em termos de tocada, o melhor exemplo oposto ao de Button. Ou então entusiasmar-se com Vettel, hoje a melhor tradução do piloto descendente, que é fabuloso em qualificações e passa o maior tempo possível na liderança, para poder administrar o ritmo – escola de Fangio, Clark e Senna. Jenson não é piloto de manobras espetaculares ou poles improváveis, não é de arrancar aplausos durante a prova. Entretanto, ver o ressurgimento de um estilo aparentemente extinto, o do piloto ascendente, que sabe poupar-se para chegar o mais forte possível ao fim de uma prova, é algo que tem que ser comemorado.

Quando levamos em conta a diversidade – sempre benéfica quando falamos de competições de qualquer gênero -, torcemos muito para que a F1 tenha o cuidado de evidenciar mais e mais o estilo de cada piloto. Uma das soluções – felizmente já cogitada – é a da volta dos pneus de qualificação. Com uma mudança tão abrupta nos níveis de aderência que esses efêmeros pneus oferecem, as chances de um embaralhamento natural do grid torna-se muito maior: nem sempre um bom conjunto carro-piloto em treinos é bom de corrida. E vice-versa.

Competidores encarariam um desafio que vimos em várias ocasiões na História. E entre ascendentes e descendentes, parece que todos só têm a ganhar.

 

 

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Aquele abraço!

Lucas Giavoni
Lucas Giavoni
Mestre em Comunicação e Cultura, é jornalista e pesquisador acadêmico do esporte a motor. É entusiasta da Era Turbo da F1 e das 24 Horas de Le Mans.

5 Comments

  1. […] Marina Bay foi muito interessante por ressaltar justamente o que eu havia escrito anteriormente, na Olhar de alpinista, sobre estilos de pilotagem que ressurgiram com o fim do reabastecimento e pneus sulcados. Vettel […]

  2. Fernando Marques disse:

    Rangel,

    obrigado pelo esclarecimento …

    Fernando Marques
    Niterói-RJ

  3. Rangel disse:

    Fernando, o motor estava limitado a 18 mil RPM porque todos da F1 tem essa limitação, por regulamento. O que acontecia é que Lewis estava usando uma relação de marchas mais curta e o carro batia no limitador antes do final da reta. A vantagem dessa abordagem é ter maior velocidade de retomada, na saída das curvas.

  4. Fernando Marques disse:

    O interessante nesta historia é saber por que o motor do hamilton estava limitado a 18 mil giros … será que ele corre algum risco de ficar sem motor antes do fim da temporada por causa do regulamento? … A Formula 1 atualmente precisa ser analisada também por este ponto … de repente a gente vai ver o Massa andando na frente do Alonso por este motivo se tiver mais gordura para queimar em termos de motores … O Jason Button vem mostrando, desde que ganhou o campeonato pela Brawn, que é um piloto de ponta … mas no momento em que ele chegou na briga do Hamilton com Schumacher, deixou bem claro que tinha muito mais carro que eles … o texto foi bem esclarecedor neste aspecto … creio que qualquer análise em relação ao desempenho dos pilotos, exceto Vettel que já botou o titulo da temporada no bolso, tem que partir da situação que cada um está em relação a limitação dos motores para o resto da temporada … principalmente quem está no sufoco e quem não está … a meu ver a limitação de giros do motor de Hamilton deixa claro que ele está na berlinda … ou economiza ou fica sem motor antes do fim da temporada …

    Fernando Marques
    Niterói-RJ

  5. Paulo Z. disse:

    Que belo texto! Button é na minha opinião o piloto do ano. As melhores corridas do ano ele foi protagonista. Lembro que há alguns anos atrás ele era tido como piloto mediano e hoje sem dúvida é um dos melhores do grid!! O mundo dá voltas……

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