O primeiro – 1

De volta às origens
22/04/2021
O primeiro – 2
29/04/2021

Finalzinho da década de 50.

O pai liga a TV RCA Victor recém-comprada e assiste (em preto e branco) junto com o filho a uma corrida em Interlagos, algumas Ferrari e Maserati presentes.

Pai: Aquele é o Fangio. Argentino, pentacampeão do mundo.

Filho: Penta…?

Pai: Cinco vezes.

Filho: Parece bastante.

Pai: E é. Não tem ninguém perto disso correndo contra ele. Olha… aquele ali é o Chico Landi, o brasileiro que andou correndo na Formula 1 na Europa. Chegou a vencer uma corrida, com uma Ferrari pintada de amarelo, cor que representa o Brasil segundo a entidade que regulamenta corridas internacionais. É o melhor piloto brasileiro.

Filho: Será que ele consegue ganhar do Fangio?

Pai: Difícil, Fangio tem muito mais experiência, corre há muitos anos contra os melhores pilotos do mundo, com os melhores carros do mundo.

A corrida segue, Fangio lidera, como se esperava. Em certo momento Chico vai ficando para trás.

Pai: O cabo do acelerador quebrou e ele está tendo que acelerar com a mão.

O pai era essencialmente um intelectual, sábio em muitas áreas, automobilismo não estava entre elas. Possivelmente estava procurando uma saída honrosa para Chico, de modo a não desestimular o menino a torcer por ele. Funcionou.

Esse foi meu primeiro contato com Chico Landi. Se a memória não falha, corria com o nº 2 e tinha um patrocinador chamado Perfect Circle, fabricante de anéis de pistão.

Coisa infinitamente modesta, comparada com o Gold Leaf Team Lotus, por exemplo.

Na época pré-Emerson, Chico era a referência absoluta como piloto brasileiro.

A começar pelo próprio Emerson.

A esta altura, passado tanto tempo e com a falta de registros confiáveis seu passado é um tanto nebuloso, até porque há relatos talvez exageradamente enviesados.

O que parece certo é que ele tem origem na classe média paulistana, descendente de italianos pelos dois lados. Com a morte prematura do pai Paschoal, o garoto Francisco Sacco Landi seguiu os passos de Quirino, seu irmão mais velho, e foi aprender mecânica em uma oficina perto de casa para ajudar no sustento da família.

Como outros pilotos brasileiros que vieram depois e fizeram sucesso, esse conhecimento mostrou-se extremamente útil. Parece que Chico foi trabalhar depois na General Motors e, talvez por isso, o primeiro carro com que competiu foi um Chevrolet 1928, em 1928. Esse foi o carro que a GM escolheu para comercializar aqui no Brasil, acompanhando os passos de sua rival Ford Motor Company, que já tinha uma operação local com o Ford T.

Este tinha o apelido “Ford Bigode” e o Chevrolet 28 o apelido “Cabeça de Cavalo”.

Um pelo sistema de aceleração, com duas alavancas, uma de cada lado da coluna de direção, o outro por ter sido o primeiro táxi sediado na Estação da Luz, em São Paulo, substituindo charretes e outros veículos puxados por cavalos.

Com esse carro, preparado por ele e pelo irmão, Chico tirava rachas pelas ruas de São Paulo com prêmio de 5 mil réis, a moeda da época. Foi sua escola de pilotagem.

Participou de algumas corridas em São Paulo e no Rio, até que surgiu a oportunidade de competir no II Grande Prêmio da Cidade do Rio de Janeiro (1934), no Circuito da Gávea.

Abandonou na oitava volta, quando estava em segundo.

No ano seguinte, dia 23 de junho, venceu no circuito do Chapadão, em Campinas.

Uma prova importante, que deveria acolher pilotos estrangeiros vindos para o GP do Rio.

Circuito de terra de 4,5km, choveu muito, a prova teve de ser adiada e com isso os estrangeiros não puderam participar.

Chico competiu com um Fiat que tinha participado de GPs da Cidade do Rio de Janeiro.

Usou sua experiência em mecânica para melhorar esse carro, buscando a melhor relação peso/potência e iria verificar o resultado nessa prova.

Foram inscritos três Ford, dois Chevrolet, um Hudson, um Studebaker, um Chrysler, um Bugatti e dois Fiat, um de 6 cilindros e outro de 4 cilindros 1,5L, este o menor entre os inscritos.

Os favoritos eram Benedicto Lopes e Cícero Marques Porto, ambos com Ford V-8, que tinham tido ótima atuação na Gávea.

O grid foi definido por sorteio, com os carros alinhados 3×3.

Segadas Viana (Chevrolet adaptado), Ângelo Gonçalves em segundo (Chevrolet adaptado) e Chico compunham a primeira fila.

Landi levou seu Fiat de corrida a uma vitória categórica, na ponta durante as 2h48m de prova. Foram 44 voltas, média horária de 71,429km/h. Cícero Marques Porto passou para segundo ainda no início da prova, seguido por Benedicto Lopes. Este abandonou na 26ª volta e Porto se acomodou, recebendo a bandeirada com dez minutos de diferença.  Quirino Landi, com um Bugatti, teve que abandonar.

Chico correu novamente na Gávea nesse ano mas seu Bugatti quebrou na última volta. Também abandonou em 36 e 37.

Em 38, última edição pré-guerra, só contou com competidores brasileiros e Chico obteve o segundo lugar.

Quando essa corrida voltou ao calendário, em 1941, Chico venceu com Alfa e Quirino fez a dobradinha, com Maserati.

Durante a escassez de combustíveis resultante do conflito mundial Chico tinha uma empresa, Francisco Landi & Cia. Ltda., que fabricava o equipamento para uso de gasogênio, a exemplo da empresa de Nascimento Jr., mencionada em coluna anterior.

Chico foi campeão nacional em 1943, 1944 e 1945, pilotando carros movidos por esse combustível, sendo por isso apelidado de “Rei do Gasogênio”.

Repetiu o feito nas edições seguintes, pós-guerra, em 47 e 48.

Foi terceiro na última edição da Gávea em 1954, para carros esporte e não mais Grand Prix, pilotando uma Ferrari 3,0L.

Em 1947 apareciam sinais de renascimento do automobilismo de alta performance na Europa. Chico foi para lá e teve oportunidade de participar do Grand Prix de Bari, na Italia, com Maserati. Um circuito de rua de 6km, 36 voltas.

Voltou no ano seguinte. Enzo estava definitivamente desligado da Alfa e tinha começado a produzir seus próprios carros. Existem varias versões para a participação de Landi nessa prova. Que Enzo teria vendido um carro usado ao invés de um novo e que Landi brigou com ele para pintar o carro de amarelo, conforme o código de representação dos países nas corridas internacionais. O que parece verdadeiro é que foi a primeira vitória dos dois, com uma Ferrari 166 de Formula 2.

Há a lenda de que os organizadores não tinham se preparado para a eventualidade de um piloto brasileiro obter a vitória e, não tendo o Hino Nacional Brasileiro, executaram um movimento da ópera O Guarani, do consagrado compositor brasileiro Carlos Gomes.

Emerson Fittipaldi conta que, na primeira oportunidade em que esteve no mesmo recinto que o Comendador a primeira coisa que este fez foi perguntar como estava Chico Landi. Então nosso piloto pioneiro deve ter tido mesmo um lugar especial no coração de Ferrari.

Essa corrida não contava pontos para campeonato porque… não havia campeonato.

Em 48 e 49 Chico participou dessa prova, e nesse último ano em Monza também, obtendo dois honrosos quartos lugares.

Concluo em nosso próximo encontro

Carlos Chiesa

Carlos Chiesa
Carlos Chiesa
Publicitário, criou campanhas para VW, Ford e Fiat. Ganhou inúmeros prêmios nessa atividade, inclusive 2 Grand Prix. Acompanha F1 desde os primeiros sucessos do Emerson Fittipaldi.

9 Comments

  1. Mauro Santana disse:

    Top demais, Chiesa!!

    Abraço!!

  2. Que história linda! Que venha logo a segunda parte!

  3. Edu disse:

    Na foto, Chico Rosa, Wilsinho, Fangio, Landi, Luiz Antônio Grego e um técnico da equipe Wiilys, chefiada por Greco. Eles olham muito provavelmente para um Fórmula 3 construído pela equipe, com o qual Wilsinho fez algumas corridas na Argentina

    Edu

  4. Fernando Marques disse:

    Chiesa,

    oportuno e sensacional o GP Total poder contar mais um pouco da historia e carreira de Chico Landi.
    Foi nosso melhor piloto brasileiro até o surgimento de Emerson Fittipaldi. Aliás Emerson e todos os feras brasileiros daquela época reverenciavam Chico Landi como o maior de todos.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

    • Carlos Chiesa disse:

      Sem dúvida, Chico era a lenda. Como sabe, procuro fazer com que a poeira não cubra os nomes desses desbravadores.

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