O Ramo de Ouro

Pilotos Olímpicos – Parte 1
30/09/2021
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07/10/2021

A 100ª vitória de Lewis Hamilton, alcançada no eletrizante GP da Rússia da semana passada, marca o apogeu da sua carreira. Difícil imaginar que possa voar ainda mais alto, mesmo ganhando este ano seu oitavo mundial – é minha aposta – e ampliando seu rol de vitórias.

Imagino, porém, que Hamilton, inteligente como é, possa estar sentindo uma ponta de tristeza por saber que o melhor da sua carreira como piloto foi atingido. Max Verstappen já está em seus calcanhares e não será surpresa se conseguir tomar-lhe o título deste ano. E vêm aí George Russell, futuro companheiro na Mercedes, Lando Norris, Charles Leclerc e, talvez, Esteban Ocon, todos jovens desafiantes sedentos por roubar o Ramo de Ouro a Hamilton.

Ramo do quê?

De Ouro. Ele anda fora de moda ultimamente, inclusive porque não é lá muito politicamente correto. Deixei-me, para explicá-lo, transcrever um breve trecho da apresentação de O Ramo de Ouro, livro de James George Frazer, edição da Zahar de 1982:

Em Nemi, perto de Roma, havia um santuário onde, até os tempos imperiais, Diana, deusa dos bosques e dos animais e promotora da fecundidade, era cultuada com seu consorte masculino, Vírbio. A regra do templo era a de que qualquer homem podia ser o seu sacerdote e tomar o título de rei do bosque, desde que primeiro arrancasse um ramo – o ramo de ouro – de uma certa árvore sagrada do bosque em que ficava o templo e, em seguida, matasse o sacerdote. Era essa a modalidade regular de sucessão no sacerdócio. O objetivo do livro é responder a duas perguntas: por que o sacerdote tinha de matar o seu predecessor e por que devia, primeiro, colher o ramo?

Frazer, um antropólogo escocês nascido em 1854 e falecido em 1941, escreveu – acreditem! – treze volumes em busca das respostas. Analogias à lenda foram notadas por ele em todo o mundo e em toda a história. As respostas alcançadas remetem à magia, que ora assombra, ora abençoa nossas existências, e à forma como o homem do passado buscava controlar e regular o mundo. A morte do sacerdote, por exemplo, é considerada necessária para assegurar a fertilidade da natureza e também para expiar os males da humanidade.

Desnecessário dizer que li apenas um breve resumo da obra, mas creio que ela sirva bem para explicar o fascínio humano pelo esporte: primeiro, idolatramos a um Campeão; depois, aguardamos por aquele que vai destroná-lo torcendo, claro, para que as coisas terminem em termos amigáveis.

Isso, sabemos por experiência própria, nem sempre acontece. Em Imola 94, tínhamos um Campeão e um desafiante…

Aprendi a admirar Hamilton aos poucos.

Gostei da sem-cerimônia com a qual encarou Fernando Alonso em 2007 e, no ano seguinte, a maturidade que demonstrou, aproveitando cada oportunidade para somar pontos e derrotar a dupla da Ferrari. Eu estava em Interlagos 2008 e testemunhei aquela incrível corrida na qual Hamilton garantiu o título a menos de um quilômetro do final.

Nos anos seguintes, ele foi um piloto, digamos, normal, suportando calado a zebra Jenson Button e a impiedosa ditadura Vettel-RBR. Não se pode dizer que o movimento de Hamilton rumo à Mercedes em 2013 tenha sido um salto arriscado, mas exigiu desprendimento. O maior monopólio da história da F1 ainda estava no futuro. O novo regulamento de motores, em vigor a partir de 2014, poderia favorecer, como favoreceu, a Mercedes, mas também poderia ter beneficiado Renault ou Ferrari.

É tentador atribuir o sucesso de Hamilton à superioridade da Mercedes e à tibieza de seus companheiros de equipe. Isso é verdade, mas este mesmo nariz torto pode ser associado a supercampeões como Juan Manuel Fangio, Alberto Ascari, Jim Clark, Jackie Stewart (seus títulos de 69 e 71 foram vergonhosamente fáceis) e Michael Schumacher.

Entre gente deste quilate, não se pode dizer o mesmo de Nelson Piquet, Niki Lauda, Alain Prost e Ayrton Senna, ainda que alguns deles tenham tirado proveito de carros largamente superiores à oposição, tendo de derrotar apenas companheiros de equipe hostis.

A tentação de minimizar Hamilton ocorre também porque é mais difícil, agora, avaliar a contribuição de um piloto para o desenvolvimento do carro, que se dá predominantemente nos simuladores e supercomputadores. Mesmo com a multiplicação no número de GPs por temporada, Hamilton roda por ano num F1 (certamente menos de 20 mil km) o que Schumacher rodava em uns três meses nos seus tempos de Ferrari, quando chegava a dormir na pista de testes da equipe.

Este é, a meu ver, um dos grandes méritos de Hamilton: chegar na pista na 6-feira, entender-se com os engenheiros e transformar os resultados do simulador em vitórias em repetição – e sorte dele que a Mercedes tenha sido mais competente que as demais equipes em dominar o desenvolvimento dos carros em laboratório. Hoje, a interação entre piloto e engenheiros é essencial. Já reclamei aqui de ouvir o inglês perguntando pelo rádio “o que faço agora?”. Não é legal ouvir uma coisa dessas, mas são os tempos e Hamilton tira proveito das informações que recebe de uma forma que Sebastian Vettel, por exemplo, não consegue. 

E que ninguém o compare a um robô: Hamilton cresce na dificuldade. Muitas das suas vitórias, como na Rússia, foram obtidas em condições adversas, mutantes, perigosas, exigindo coragem, discernimento e técnica superiores, como Senna em Donington 93.

A expressão política e de comunicação também contam a favor de Hamilton. O mundo é, agora, das redes sociais e quem não entender isso (como eu, por exemplo), está condenado à irrelevância. Hamilton, com a sua sintonia com o público mais jovem, está ajudando a estender a validade da F1, ao mesmo tempo em que apoia ideias progressistas, algo nunca visto na categoria.

E mesmo com tudo isso, o Ramo de Ouro que lhe pertence de todo direito está em risco. Hamilton terá um sucessor: quem será ele e quando se dará o encontro decisivo?

A única coisa que se pode dizer é que, a cada dia, este encontro está mais próximo.

Boa semana a todos

Eduardo Correa

Eduardo Correa
Eduardo Correa
Jornalista, autor do livro "Fórmula 1, Pela Glória e Pela Pátria", acompanha a categoria desde 1968

2 Comments

  1. Carlos disse:

    Vejo Hamilton de forma muito similar. Mas acho que Max vai obter seu primeiro título este ano.

  2. Fernando Marques disse:

    Edu,

    sem precisar recorrer a números e cálculos de estatística, sua coluna retrata fielmente a era Hamilton na Formula 1.
    Aplausos!!!
    Sensacional!!!

    Obs: Uma coisa me chamou a atenção, não sei se tem a ver com o intuito da sua coluna, com relação ao tri campeão Jack Brabham. Isso por que Brabham abriu mão de poder se tornar um tetra campeão de Formula 1 em 1967, em favor de desenvolver o novo carro da sua equipe. Abriu mão da vaidade e possivelmente de suas ambições como piloto, o que certamente lhe renderia mais prestigio e dinheiro na época. D. Hulme, seu companheiro de equipe foi o campeão com o carro antigo. Será que Hamilton, caso alcance seu oitavo título na carreira, abriria mão de ganhar mais e ajudar a preparar o George Russel ser o futuro campeão da Formula 1 pela Mercedes? Isso em razão de ser sabedor que sua carreira na Formula 1 está chegando ao seu fim.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

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