Pilotos Olímpicos – Parte 1

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Acabam-se de celebrar em Tóquio os XXXII Jogos Olímpicos de Verão. Foram uns jogos atípicos, pois deveriam ter sido disputados no ano passado, mas, devido à pandemia que padecemos, foram adiados até este ano, ainda que continuassem sendo chamados como os jogos de Tóquio 2020.

Assim a grandiosidade habitual do evento, ficou minguada pelas limitações de assistência impostas em prol da segurança. De fato, era habitual que as notícias se referissem mais aos efeitos dessas restrições do que à competição em si.

No que a mim respeita, devo dizer que os jogos cada vez me entusiasmam menos e, com tanta política e “reivindicações” contaminando tudo e chegando a ter até mais repercussão mediática do que a própria competição, faz tempo que nem lhes presto nenhuma atenção.

Algo parecido também me acontece com a Formula 1 nestes últimos anos, onde o entusiasmo de antanho foi se esvaindo conforme tanto regulamento (alguns até absurdos) e interesses espúrios foram abrumando a categoria, despindo-a de sua esportividade e de seu halo de excelência.

Ainda que a competição a motor nunca tenha estado presente nas olimpíadas, houve alguns casos de pilotos que, antes ou depois de sua passagem pelo automobilismo, também participaram em algum jogo, fosse este de verão ou de inverno, em alguma de suas disciplinas. Em algumas ocasiões conseguiram a vitória, em outras não, mas nunca deixaram de ansiar por ela. Como disse Bruce Lee:

Uma meta nem sempre significa que deva ser alcançada, muitas vezes serve simplesmente como algo a ser ansiado”.

Todos eles ansiavam o mesmo, tanto que alguns até morreram na tentativa de chegar a essa meta. A lista é bastante reduzida, mas vale citar os seus casos, pois alguns são muito interessantes e nos mostram quão diferentes são as coisas (ou não tanto).

Numa época em que era frequente a presença de milionários e de aristocratas, cuja fortuna lhes permitia dar-se ao luxo de comprar um lugar no grid, um daqueles pilotos diletantes foi um príncipe tailandês chamado Birabongse Bhadunej Bhanubandh, ou simplesmente Prince Bira, como seria conhecido.

Bira tomaria parte em 19 GPs de Formula 1 entre 1950 e 1954, em varias ocasiões com equipe própria. Em 1950, na temporada inaugural do campeonato, Bira participaria com a equipe de Enrico Platé, cujos carros eram os Maserati 4CLT, conseguindo um 5º lugar em Mônaco e um 4º lugar na Suiça.

Em 1951, novamente com Maserati, ainda que de sua própria escuderia, Bira participaria apenas na última corrida da temporada – Espanha – onde teve de abandonar. Para 1952, Bira passa a formar parte da equipe Gordini e participa em 4 GPs, terminando em 10º na Bélgica e 11º na Inglaterra. Em 1953, novamente participaria em apenas uma corrida: O GP da Itália. Naquela ocasião, Bira competiria com a equipe Milano e teria como companheiro a Chico Landi. Bira terminaria na 11º posição enquanto que o brasileiro teve de abandonar.

Finalmente em 1954, sua última temporada na Formula 1, Bira começa com a equipe Maserati com um 7º lugar na Argentina, mas para o resto da temporada continua com equipe própria, conseguindo um sexto lugar na Bélgica e um quarto lugar na França, no circuito de Reims, onde só não subiu ao pódio por ficar sem gasolina na antepenúltima volta.

Já fora do automobilismo, o príncipe se dedica à sua outra paixão: as regatas. Nessa especialidade, participaria nas olimpíadas de 1956, em Melbourne; 1960, em Roma, na classe Star; em 1964, em Tóquio na classe Dragon e em 1972, em Munique, na classe Tempest. Sua melhor colocação seria um 12º lugar em Melbourne, enquanto que em 1960 terminaria em 19º posição, duas atrás do nosso seguinte piloto: Roberto Mieres.

Roberto formava parte de uma abastada família da alta sociedade argentina, cuja fortuna lhe permitia dedicar-se a uma vida de autentico dandy. Bem dotado fisicamente, Mieres destacava em vários esportes, como tênis, rúgbi ou remo.

Com o automobilismo em plena expansão, Mieres também se sente atraído pelas pistas e em sua primeira participação numa prova de carros Sport em 1947, Roberto consegue a vitória. Em 1950, Roberto se consagra campeão da categoria e, junto a J. M. Fangio e Froilán González, e com patrocínio do governo Argentino, se dirige à Europa. Mieres obtém um 6º lugar em Aix-Les-Bains e um 4º em Geneva, em provas de F2.

Em 1953, Mieres entra a formar parte da equipe Gordini e consegue o sétimo lugar no GP de Bordeaux, prova extracampeonato, enquanto que em Monza seria sexto. Nessa mesma temporada, Roberto seria 4º no GP de Albi, outra prova extracampeonato. Em 1954, com Maserati, Mieres alcança o 2º lugar no GP de Buenos Aires e ainda em provas extracampeonato, seria 3º em Pau e 4º no BRDC Trophy, enquanto que em provas oficias, conseguiria o 4º lugar na Suíça e na Espanha.

Para 1955, Mieres continua com Maserati, mas não consegue nas provas de campeonato os bons resultados que obtinha fora dele. Assim, enquanto que foi 2º em Torino e 3º em Pau e em Bordeaux, em provas oficiais não teve tanto sucesso, sendo 7º em Monza e 4º na Holanda (com volta rápida).

Ao todo, Roberto havia disputado 17 corridas oficias quando se retira para se ocupar de seus negócios na Argentina, e poder satisfazer sua paixão pela náutica, participando em 1956 da regata Buenos Aires / Rio de Janeiro.

Mieres fundaria o requintado “Boating Club de San Isidro” e se dedicaria de cheio às regatas, chegando a ser oito vezes campeão argentino de yachting. Em 1960, Mieres representaria a náutica Argentina nas olimpíadas de em Roma, onde terminaria na 17º posição na classe Star, coincidindo com o príncipe Bira, que terminaria na 19º posição.

Naqueles mesmos anos destacaria o espanhol Alfonso Antonio Vicente Eduardo Angel Blas Francisco de Borja Cabeza de Vaca y Leighton. Pertencente a uma das mais distintas famílias da nobreza espanhola, Alfonso, entre outros, ostentava o titulo de “Marquês de Portago” e tampouco teve restrições econômicas, podendo se dedicar a uma vida de Playboy sem problemas, sendo popularmente conhecido apenas como Alfonso de Portago.

Alfonso passou a maior parte de sua infância e adolescência na casa que a família tinha no litoral sudoeste da França, perto da fronteira espanhola e mostrou desde muito jovem excelentes qualidades para os esportes, destacando em vários como o golf, natação, hockey, tênis, esgrima, polo etc.

Em equitação, chegaria a ser campeão francês Junior em 1950, 1951 e 1952, além de participar em duas ocasiões no “Grand National” de Aintree, em Liverpool, a prova mais importante da hípica europeia. Nos esportes invernais, também se desenvolvia muito bem.

Alfonso se casaria com uma rica norte-americana, passando a morar em Nova Iorque. Em 1953, durante o Paris Car Show, conheceria os pilotos Harry Schell e Luigi Chinetti, este último, o importador da Ferrari nos Estados Unidos, quem lhe convida a ser seu copiloto para a Carrera Panamericana no México. Não conseguem terminar a prova, mas o automobilismo já havia se apoderado de Alfonso.

Alfonso compraria de Chinetti um Ferrari 250 MM e, em parceria com Schell, ganha os 1000 km de Buenos Aires de 1954 em sua categoria, sendo segundo na classificação geral. Alfonso já era um assíduo das pistas e outros bons resultados viriam, como as vitórias em Metz, no Nassau Thophy e a Bahamas Automobile Cup. Em 1955, volta a vencer em Nassau e também o Governor’s Trophy, além de terminar segundo no GP da Venezuela, sendo apenas superado por Fangio.

Em 1956, sempre com Ferrari, a temporada é ainda melhor com vitória no circuito do Porto, no Tour de France e na Coupes de Salon, em Montlhéry, além de outras boas classificações como 2º na Suécia e no Governor’s Trophy. No British GP, Alfonso largaria 12º, mas quando estava já em 3º, lhe pediram para deixar o carro a Peter Collins, que estava em condições de disputar o titulo e que terminaria 2º. Assim, ambos constam como 2º classificados naquele GP.

Nesse mesmo ano de 1956, Alfonso, que não havia abandonado as suas outras inquietudes, decide competir nos jogos olímpicos de inverno em Cortina d’Ampezzo, na Itália, na modalidade de Bobsleigh, apesar de contar com muito pouca experiência na especialidade, mas animado pelo fato de, pouco antes, haver batido o recorde da pista de Saint Moritz, na Suiça.

O caso é que Alfonso conseguiria o 4º lugar na modalidade de dois, sendo ele o piloto e perdendo o pódio por apenas 0,14 segundos. Pouco depois, seria 3º no campeonato do mundo, e uma semana mais tarde, ganharia o campeonato suíço da especialidade.

Para 1957, as suas boas atuações convencem ao comendador e Alfonso é chamado para formar parte da equipe oficial da Ferrari, tanto nos “Sport Car” quanto na Formula 1. A temporada começa bem, com um 3º lugar nos 1000 km de Buenos Aires, 3º no GP de Cuba e vitória em Montlhéry, enquanto que no Havaí abandonaria.

A próxima prova seria a “Mille Miglia”, que também seria sua a última. Alfonso encontraria a morte quando faltavam apenas 50 km e ocupava a 3ª posição.

 

Nas próximas colunas, mais pilotos olímpicos.

Grande abraço.

Manuel Blanco
Manuel Blanco
Desenhista/Projetista, acompanha a formula 1 desde os tempos de Fittipaldi É um saudoso da categoria em seus anos 70 e 80. Atualmente mora em Valência (ESP)

1 Comment

  1. Fernando marques disse:

    Manuel,

    Com relação aos jogos olímpicos, ainda tenho bastante interesse em acompanhar principalmente por ver esportes da qual não tenho o hábito de ver. Mas entendo que a evolução dos esportes amadores deixaram de ser amadores faz muito tempo. E isso a meu ver diminui as glórias conquistadas nós esportes olímpicos.
    Quanto a Fórmula 1, sua evolução tanto na segurança quanto pelo lado business , creio que ainda nos proporciona boas corridas. Como amante do automobilismo e saudosista, agradeço por ter visto as corridas dos anos 70 e 80. Meus ídolos são dessa época
    Com relação a sua coluna, só aplausos. Adoro conhecer as histórias do automobilismo, pilotos e equipes. Imagino o quanto vem de coisa boa na segunda parte.

    Parabéns mais uma vez.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

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