Microcosmos

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Daqui a muitos anos, quando algum jovem ainda não nascido se debruçar sobre os resultados da cultuada temporada 2021 da Fórmula 1, talvez passe batido pelo GP da Rússia ao imaginar, pelo resultado final, que a prova tenha sido banal e convencional. Vitória de Hamilton, segundo lugar de Verstappen, numa pista onde a Mercedes jamais havia sido derrotada. Tudo normal, não é?

Bom, quisera fosse o caso…

⇒ Resumo da corrida no canal da F1

Porque muitos entre nós, que testemunhamos ao vivo uma prova tão especial, talvez nos sintamos tentados a dizer que a corrida foi tão boa em razão da meteorologia instável – e, no contexto atual, quem poderia descartar tais argumentos? Todavia, se esquecermos as imagens que chegam aos olhos e focarmos nos códigos ocultos da Matrix, veremos que a chuva e a hierarquia atual entre as equipes se combinaram de modo a valorizar alguns pilares fundamentais do esporte a motor que vêm sendo bastante negligenciados em décadas recentes, e que podem atuar regularmente mesmo quando em condições de pista seca, ainda que em intensidades menores do que as que vimos em Sochi.

Essencialmente, o que tornou a corrida especial foi a combinação entre os seguintes fatores: diferenças entre a hierarquia de desempenhos nos treinos e na corrida; dificuldades razoáveis para a realização de ultrapassagens; e sim, a amplitude meteorológica que deu uma embaralhada na formação do grid e nas voltas finais. Vista dessa forma, a prova em Sochi pode ser tomada como um precioso microcosmos de tudo que a Fórmula 1 precisa recuperar, caso deseje produzir sistematicamente corridas e campeonatos interessantes, sem abrir mão dos valores esportivos e da ligação dogmática entre méritos e vitórias.

De fato, a chuva, por si só, não teria bastado para manter a tensão até o fim, não fosse pela forma bastante interessante com que as equipes vêm evoluindo seus respectivos equipamentos neste ano derradeiro do formato que vigora desde 2014. Assim como vimos em temporadas como 1985, 1987 ou 2012, a reta final do campeonato se desenha com uma proximidade rara entre os desempenhos dos principais times, agregando variáveis importantes à disputa central envolvendo Lewis Hamilton e Max Verstappen pelo campeonato mundial. Ao longo dos últimos anos, incontáveis foram as vezes em que um conjunto favorito se viu posicionado entre os últimos colocados e não teve maiores dificuldades para fazer uso das trocas de pneus obrigatórias e do DRS para escalar o pelotão. Nessa reta final de 2021, contudo, fazer uma corrida de recuperação não tem sido tão simples assim.

Levando tudo em conta, e diante da qualidade da corrida que tivemos, lamento ser repetitivo e enfatizar mais uma vez a necessidade de que a Fórmula 1 restabeleça – ao menos parcialmente – as diferenças entre sábados e domingos, preferencialmente através do retorno dos pneus de classificação; que elimine a regra da troca de pneus obrigatória; que suma com o DRS ou torne seu uso muito mais restrito; e que leve em consideração a afinidade com a chuva quando determinar as diretrizes construtivas para seus carros no futuro.

Para entender a dinâmica da prova e a construção de seu resultado é necessário retornar ao grid de largada, afetado por um treino classificatório disputado com pista molhada e que secava nos instantes finais da Q3, e também por punições de diversas naturezas. Confirmando a boa fase da McLaren, e tirando máximo proveito das condições instáveis, Lando Norris conquistou a primeira pole position de sua carreira, seguido pela Ferrari de Carlos Sainz e da Williams de George Russell. Desde o GP do Brasil em 2004 McLaren, Ferrari e Williams não dividiam as três primeiras posições num grid de largada.

Lewis Hamilton partiria da 4ª colocação, à frente de Ricciardo e Alonso. A seguir aparecia Stroll, alçado a sétimo em razão da troca do motor de Valtteri Bottas, que caiu para a 17ª posição. A esse respeito, por sinal, não foram poucas as vozes a especular que a Mercedes trocou o motor do finlandês com o intuito evidente de atrapalhar a progressão de Max Verstappen, que largaria em último. Tendo sido punido com três posições no grid pelo toque com Hamilton em Monza, Max já teria de fazer uma corrida de recuperação de qualquer maneira em Sochi, e a equipe aproveitou o contexto para instalar um novo conjunto motriz, visando reduzir o risco de um abandono por falha mecânica na reta final da temporada. Outras posições importantes: Pérez largaria na 8ª colocação, e Charles Leclerc na 19ª.

Por uma ironia do destino, a 1ª pole conquistada por Lando Norris foi justamente na pista que menos premia quem larga na frente. Com uma enorme zona de aceleração até o primeiro ponto de frenagem, a pista Russa tem a tradição de favorecer a quem larga um pouco atrás e tem o privilégio de ganhar velocidade no vácuo de quem vai à frente. A edição de 2021 não foi exceção, e pudemos ver Carlos Sainz assumir a ponta a despeito de ter largado mal, ao passo que Norris viu a vantagem obtida através de seu ótimo arranque ser engolida rapidamente por seus perseguidores mais próximos. De fato, se o jovem inglês tivesse adotado uma trajetória defensiva em relação ao piloto da Ferrari, então muito provavelmente teria sido Lewis Hamilton a fazer a primeira curva na liderança, a despeito de também ter feito uma largada abaixo da média.

Tendo sido bloqueado por Norris, contudo, Hamilton teve seu avanço cortado e perdeu diversas posições. Completada a primeira volta a classificação mostrava Sainz, Norris, Russell, Stroll, Ricciardo, Alonso e Lewis, com Leclerc já na 12ª posição após excelente início de prova, além de Bottas em 14º e Verstappen o 15º. Na segunda volta Hamilton deixaria Alonso para trás, estabelecendo-se na 6ª posição, em meio a um pelotão que tinha a progressão limitada pelo ritmo de George Russell. À frente, Sainz e Norris distanciavam-se em razão próxima a um segundo por volta, com o inglês nitidamente capaz de andar ainda mais rápido se estivesse com pista livre à frente.

O próximo momento importante se deu na 6ª volta, quando Verstappen superou Bottas sem encontrar qualquer resistência, assumindo a 14ª posição. O holandês havia largado com pneus duros, que se revelariam mais adequados à combinação pista-clima do que os compostos médios, que calçavam os carros de Hamilton e Norris, entre outros.

Já estava claro, nessa altura, que o resultado da prova seria definido pelas capacidades de Max e Lewis escalarem o pelotão, confrontadas à capacidade de Lando Norris de abrir vantagem enquanto os conjuntos mais fortes do ano encontravam-se limitados pelo ritmo de carros mais lentos. Na 13ª volta Lando finalmente superou Sainz para assumir a ponta, numa altura em que Verstappen progredia lentamente e Hamilton continuava trancado por um pelotão em que vários carros abriam asa, anulando qualquer vantagem do DRS e mostrando o quanto as corridas teriam mais variáveis sem a influência do aparato.

Numa certa altura parecia que Max ia finalmente alcançar Lewis – e isso sempre agrega alguma tensão, dado o histórico recente das disputas entre ambos. Os dois chegaram a aparecer na mesma tomada, ainda que separados por alguns carros, antes que Hamilton fosse ao rádio provocar a equipe para que criasse uma oportunidade de undercut em relação a Ricciardo. A partir de então, ficou evidente que Hamilton iria reagir à postura da McLaren. Se ela chamasse seu piloto à troca – como de fato fez – Hamilton seguiria na pista. Do contrário, seria o inglês a parar antes. E como a troca de Ricciardo foi problemática, a disputa entre ambos estava decidida.

A corrida começa a mudar de figura neste ponto. Pela primeira vez com pista livre, Hamilton mostra força inesperada e dá início à caçada a Lando Norris. Na volta 27 ele vai aos boxes, sendo surpreendentemente seguido por Verstappen, cujos pneus duros haviam se desgastado após tantas voltas andando na turbulência de carros mais lentos. A partir de agora, seria a vez de Hamilton estar calçado com a borracha mais adequada às circunstâncias, e feitas todas as trocas ele emerge na segunda posição, descontando a diferença que o separava do líder Norris. Verstappen, por outro lado, parecia sem forças para dar continuidade à própria progressão, tendo sido superado com facilidade por Fernando Alonso na briga pela 6ª posição.

Quando finalmente alcançou o líder, ficou evidente que Norris tinha a situação sob controle, e reservas suficientes para se sustentar na 1ª posição. E o quadro não mudou essencialmente quando os primeiros pingos começaram a cair e a pista se tornou bastante traiçoeira, a despeito de uma ou outra escapada, sem maiores consequências.

Existem, no entanto, muitas diferenças entre lutar pela primeira vitória ou pela centésima. Enquanto Norris e McLaren acusaram a tensão do momento e não conseguiram fazer fluir informações adequadas a respeito do temporal iminente que se aproximava da pista, a Mercedes – em parte também por ter percebido que dificilmente conquistaria a liderança de maneira convencional – chamou Hamilton aos boxes restando cinco voltas, pouco antes da pista se tornar inviável aos pneus slicks. Apesar de toda a competência e toda a personalidade que demonstrou, o jovem talento de Lando Norris teve de se contentar em dar um cavalo de pau para evitar uma batida contra o muro num momento em que simplesmente fazer o carro se movimentar havia se tornado um desafio de grandes proporções.

A atenção da transmissão ao drama vivido por Norris tornou invisível o ótimo trabalho feito por Max Verstappen e a Red Bull, que souberam tirar o melhor proveito do clima variável para realizar o undercut do ano, saltando da sétima para a segunda colocação instantes antes da bandeirada. No fim, ainda que a chuva tenha rendido a Hamilton aquela que é provavelmente a estatística mais impressionante já alcançada por um piloto na história da Fórmula 1, foi certamente Max Verstappen quem tirou o melhor proveito das circunstâncias, mantendo-se vivo na briga pelo título mais disputado dos últimos anos.

Passada a régua, cabe registrar também as belas corridas realizadas por Sergio Pérez e Fernando Alonso, ambos com ritmo compatível com posições melhores do que a 9ª e a 6ª colocações, respectivamente.

Ao fim de uma prova tão agitada e imprevisível, Lewis Hamilton tornou-se o primeiro piloto na história a vencer 100 Grandes Prêmios. Uma estatística de enorme significado, em que pesem as ressalvas contextuais que precisam ser – e nem sempre são – levadas em consideração.

Numa análise livre de paixões, a verdade é que tanto Michael Schumacher quanto o próprio Hamilton decolaram seus números dos ases do passado em razão de terem sido os pilotos sobre os quais as equipes dominantes de suas respectivas eras construíram suas hegemonias. E, claro, há que se considerar que tais hegemonias foram substancialmente prolongadas e acentuadas pelos diversos “concentradores de números” que já descrevi aqui tantas vezes. De fato, a observação de que Lewis alcançou sua 100ª vitória tendo 101 poles na carreira nos diz muito a respeito do quão simplista e previsível se tornou a categoria ao longo dos últimos anos.

Tais constatações reduzem os méritos de Hamilton? De forma alguma. Assim como Schumacher fez em seus anos de Benetton, o inglês precisou se provar ao volante de um carro não dominante de modo a entrar no radar da equipe de maior potencial. E, uma vez lá, precisou justificar o investimento, os privilégios e a posição de primazia, desejada por todos os outros.

Por outro lado, a mesma razoabilidade nos permite manter os debates e as análises históricas em aberto, sem jamais dar aos números absolutos um peso definitivo a respeito de quem foi maior ou melhor.

Felizmente, o esporte que amamos nos oferece experiências sensoriais que vão muito além daquilo que pode ser traduzido em números.

Uma ótima semana a todos.

Márcio Madeira
Márcio Madeira
Jornalista, nasceu no exato momento em que Nelson Piquet entrava pela primeira vez em um F-1. Sempre foi um apaixonado por carros e corridas.

3 Comments

  1. Stephano disse:

    Sempre excepcional!
    E o sexto parágrafo é simplesmente perfeito. Os valores, os pilares que deveriam ser seguidos pelo esporte que tanto amamos!
    Obrigado, Márcio!!!

  2. Rubergil Jr disse:

    Excelente texto e análise!

  3. Fernando marques disse:

    Márcio,

    Excelente o seu relato e visão da corrida em Sochi, que certamente viu a melhor corrida das já realizadas lá.
    Hamilton 100 vitórias. Corrida historica.
    Segundo lugar do Verstappen e o.kelhor undercut já visto na fórmula 1.
    E como a história da corrida foi cruel com Lando Norris. Se estivesse no lugar dele, faria o mesmo.
    GP de Sochi. Como corridas são corridas.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

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