Pressões abomináveis

Montoya e Zanardi
16/09/2001
Schumy em crise
20/09/2001

Caro Edu,

Eu ia começar esta carta da seguinte maneira: “Não sinta vergonha da F 1 por ter acontecido o GP em Monza”.

Apaga tudo. Isto foi escrito antes de eu saber que Bernie Ecclestone teria ameaçado Schumacher de cassar seu título mundial se ele não corresse. (Isso foi o que saiu na mídia. Imagine o nível das conversas que aconteceram entre quatro paredes.)

Realizar a corrida depois de tudo o que aconteceu na semana passada foi discutível, mas dentro de limites aceitáveis. Usar este tipo de ameaça para pressionar um piloto a correr é simplesmente abominável, mesmo para quem – como nós – saiba que não se pode esperar de dirigentes da F 1 sensibilidade a causas de ordem social, econômica, política ou humanitária. Por isso, achei admirável a coragem da Ferrari. Na impossibilidade de empacotar as coisas e ir embora, demonstrou grandeza ao entrar em acordo com os patrocinadores e retirar todas as inscrições publicitárias dos carros, macacões e capacetes.

A ameaça de Ecclestone a Schumacher mostra bem como os pilotos são fracos no jogo político da F 1. Sempre foram, mas estão ainda mais. Todos os colegas do alemão ficaram de bico calado, não houve uma manifestação contrária sequer.

Voltemos agora a 1982, logo depois da greve dos pilotos no GP da África do Sul. Em protesto contra os desmandos dos dirigentes (Balestre e Ecclestone, principalmente), todos os pilotos boicotaram o primeiro dia de treinos oficiais. A FIA acenou com uma negociação (apenas para enganar os pilotos: depois da corrida, todos tiveram que pagar multas…) e as coisas voltaram ao normal – no dia seguinte, todos treinariam para definir o grid. Mas Ecclestone, ainda dono da Brabham e já tão poderoso quanto hoje, queria impedir Nelson Piquet de treinar.

Mandou colocar nos quatro carros da equipe o número 2, de Riccardo Patrese. Os outros pilotos perceberam a manobra de Ecclestone, encostaram seus carros e só voltaram à pista quando Piquet recebeu seu carro.

Naquela ocasião, os pilotos atendiam por nomes como Nelson Piquet, Carlos Reutemann, John Watson, Niki Lauda, Alain Prost, Jacques Laffite, Gilles Villeneuve e Didier Pironi – para falar apenas dos consagrados. Vamos à lista dos novatos ou menos expressivos e encontraremos Nigel Mansell, Keke Rosberg, Elio de Angelis, Riccardo Patrese, René Arnoux e Michele Alboreto.

Tente imaginar Hakkinen, Coulthard, Villeneuve e Ralf Schumacher em situação parecida. Não dão nem para a saída… Em Monza, Schumacher tentou um pacto coletivo para tornar a largada um pouco mais segura e nem isso conseguiu. O fato de a F 1 correr em Monza depois de tudo o que aconteceu nos EUA não me surpreendeu (é a tal pele dura à qual você se referiu na sua última carta). Dirigentes e chefes de equipe sempre agiram dessa maneira. A frase preferida deles é “O show deve continuar”. Combina bem com “Amanhã a América estará aberta para negócios”, proferida por George W. Bush horas depois dos atentados ao WTC e ao Pentágono. Quem gosta de F 1 deve saber que a postura dos dirigentes é esta. Quem não concordar deve tapar o nariz ou deixar de acompanhar o esporte – até já pensei nisso uma vez ou outra, há muito tempo, mas vai totalmente contra minha natureza.

Nada justifica um plano diabólico como o que foi colocado em prática na terça-feira passada. Mas não posso deixar de citar uma frase do colunista Carlos Heitor Cony, da Folha de S. Paulo: “O terrorismo merece mais do que condenação retórica. Exige combate. Mas continua sendo a arma dos mais fracos quando os mais fortes deitam e rolam no direito de serem grandes”. Aquilo foi o preço que milhares de inocentes pagaram pela política externa que os governos americanos têm há décadas – intervindo em todos os cantos do mundo apenas para preservar seus interesses. Até aqui no Brasil ouvia-se gente simples, na rua, falando coisas como “Eles estão recebendo de volta o que fizeram no Vietnã”.

Não podemos nos esquecer: os Estados Unidos ajudaram a derrubar muitos regimes democráticos e sustentam ou sustentaram ditaduras em dezenas de países – inclusive no Brasil. Inimigos atuais como Saddam e Bin Laden ganharam força e poder quando eram, aliados dos Estados Unidos. As criaturas se voltaram contra os criadores. Tudo isso saiu de controle e as conseqüências são imprevisíveis.

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Um registro histórico, aproveitando o gancho de sua tétrica descrição de uma volta em Monza. A Curva Grande foi palco de um acidente que significou para o Mundial de Motociclismo a mesma coisa que a Tamburello representou para a F 1 em 1994.

Naquela época, a área de escape era minúscula e nas corridas de moto os organizadores colocavam fardos de feno para que os pilotos não se chocassem contra os guard-rails em caso de tombo. Logo depois da largada para o GP da Itália de 1973 (não me lembro se a categoria era a 250 cc ou a 350 cc), cerca de 20 motos caíram nessa curva. Havia óleo no asfalto e este pegou fogo por causa das faíscas, assim como os fardos de feno. Morreram dois pilotos de ponta: o finlandês Jarno Saarinen, campeão mundial e então líder do campeonato, e o italiano Renzo Pasolini. Vários outros se feriram com maior ou menor gravidade.

Ah, sim: o pai de Jarno Trulli colocou esse nome no filho em homenagem a Saarinen.

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Registro histórico. Jean Alesi atingiu em Monza a maior velocidade já registrada por um F 1 em um GP: 363,2 km/h. Achou muito? Então anote aí a velocidade alcançada por Roger Dorchy (quem????) na 24 Horas de Le Mans de 1988 (isso mesmo, mil novecentos e oitenta e oito), no final da reta Mulsanne: 405 km/h. O carro era um WM P-88 com motor Peugeot.

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Edu, todos sabem que os americanos podem atacar o Afeganistão ou outro canto do mundo a qualquer momento. Bases aéreas no Japão seriam usadas para isso. As duas corridas finais são exatamente nos Estados Unidos e no Japão e fala-se que elas podem não acontecer. Mesmo que sejam realizadas, já pensou o clima entre pilotos, chefes de equipe e mecânicos? Muitos vão querer simplesmente que as coisas acabem logo para sair desses lugares e voltar para casa o mais rápido possível.

Boa semana,

Panda

PS – Só uma lembrança. Até os anos 80, uma equipe que tivesse um piloto morto durante os treinos se retirava da corrida. Naquele final de semana trágico de Imola, em 1994, Roland Ratzenberger morreu nos treinos mas David Brabham, o outro piloto da Simtek, correu normalmente. Aquilo “passou batido” porque Senna morreu durante a corrida, mas para mim foi bastante revelador do ponto de insensibilidade a que já havia chegado a F 1.

GPTotal
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A nossa versão automobílistica do famoso "Carta ao Leitor"

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