Quem quer ser trilionário?

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Vamos supor que, quando tinha uns 10 anos, você se apaixonou por automóveis. Quanto mais via automóveis, mais gostava e mais entendia. Estava no fim dos anos 60.

Era natural que você ouvisse falar, desde criança, de um certo italiano que comandava uma certa equipe que levava seu nome, na Fórmula 1. Você via os carros e achava tudo absurdamente sedutor, empolgante, carismático, ainda que não conhecesse bem essas palavras. A cor, o emblema, os pilotos (sempre entre os melhores), os dramas e os carros esportivos, os mais lindos e velozes do mundo para se andar na rua.

Você começa a sonhar que um dia poderia ter um desses, talvez pudesse ser piloto, competir por essa escuderia… Mas a realidade era bem diferente.

Seu pai tinha fundado uma indústria de roupas, que ia indo bem, é natural que você vá trabalhar com ele. É o que você faz, mas o olho para avaliar carisma, imagem de marca, vai se desenvolvendo. E um dia você consegue trazer uma marca de grande prestígio no mundo da moda para o seu país. Você vai ser o responsável por ela localmente.

Vai gostando e se acostumando com esse novo mundo e de repente percebe que as famílias mais abastadas talvez gostassem de comprar roupas dessa marca para seus filhos. E olha você lançando uma linha kids e vendo ela dar certo.

Aí você percebe que tem uma marca americana que pode ter muito apelo para o público do seu país. Ela é destinada a outro nicho.

Cuidando das duas marcas localmente você percebe que está ganhando muito mais dinheiro do que seu pai poderia imaginar.

Parece que você tem mesmo um talento incomum para trabalhar marcas de nicho no mundo fashion.

Então você resolve operar também na Europa, mercado que você ainda não conhece.

Junto com o amigo investidor Silas Chou, começa a identificar marcas de nicho ou que estão mal das pernas mas que podem ter potencial para crescer.

Você começou com Pierre Cardin, depois Ralph Lauren. Tommy Hilfiger está com preço baixo e é muito pouco conhecida. Agora já tem experiência suficiente para saber que ela tem potencial. E você está no inicio dos seus 30 anos.

Compra o controle da marca, trabalha duro e, em 20 anos, ela está no topo. Hora de vender e realizar um ótimo lucro.

Você e seu parceiro, que afirma que você tem um toque de Midas, investem em Karl Lagerfeld, Pepe Jeans e… opa, Michael Kors está com problemas!

Você e seu sócio repetem a operação. A coisa vai tão bem que vocês até mudam o nome da empresa, Sportswear Holdings para Michael Kors Holdings.

Mais 5 ou 6 anos e está tudo pronto para a venda, a marca está no auge como marca de luxo relativamente acessível. E a agora chamada Capri Holdings ainda tem em seu portfolio a Versace, pela qual pagaram 2,2 bilhões de dólares.

Já são mais de trinta anos trabalhando com afinco e competência.

Você se casou com uma bela e elegante mulher, também do mundo da moda, tem dois filhos e está na lista das 1000 pessoas mais ricas do mundo segundo a Forbes.

Tem um apartamento no “prédio dos bilionários” em New York, pelo qual você pagou R$ 55 milhões de dólares. Tem casa na exclusivíssima ilha Mustique, no Caribe. Tem também o circuito de Mont Tremblant, perto de sua cidade natal, entre outros imóveis.

Conseguiu comprar várias das Ferrari mais cobiçadas do mundo, tanto de rua quanto de competição, como a maravilhosa 330 P4, entre outros carros espetaculares.

Não dá mais para ser piloto, mas seu filho herdou o gosto pelo assunto e está se saindo bem nas categorias inferiores.

O que mais você pode fazer antes de envelhecer?

Você está indo para os 60 anos de idade.

Então digamos que você pode vender tudo e realizar uma fortuna que passa dos 2,5 bilhões de dólares. Pode ficar com tempo e dinheiro de sobra para fazer o que quiser.

Com o currículo do garoto dá para tentar que ele seja aceito na Academia Ferrari. E você consegue.

Opa, a Williams está com o preço baixo…. Além da tradição da marca, tem uma solida retaguarda de engenharia, que desenvolve produtos que não tem nada a ver com F1, como uma scooter elétrica de corrida. Tem potencial para se recuperar, não?

Que tal comprar uma parte dessa equipe? O valor não é nada que vá afetar sua fortuna.

Opa, o Vijai Mallia está enrolado com a policia. Vai ter que se desfazer da Force India.

Tem mais gente enxergando isso como uma boa oportunidade de negócio, mas você é mais hábil.

Detalhe: não é só o seu dinheiro que foi usado no negócio. Você teve o cuidado de atrair outros investidores e assim dividir o risco, ao mesmo tempo assegurando o controle da equipe.

Não são as condições ideais?

Você agora é dono de uma equipe de F1!

Como Enzo Ferrari, como Bruce McLaren…

Claro que você nunca terá o mérito do desenvolvimento técnico, das soluções inéditas que fascinaram tanta gente ao longo dos anos como eles. Mas você sabe bem como criar uma marca vencedora.

Opa, a Aston Martin está mal das pernas, mais uma vez.

Ela é controlada por um fundo italiano e outro do Kuwait, mas é preciso mais alguém pondo dinheiro para recuperar a operação.

A Geely chinesa se interessou, então você precisa andar rápido.

E novamente você consegue reunir um grupo de investidores e comprar pouco mais de 15%, podendo chegar a 20% se as coisas derem certo.

Novamente você vai dar as cartas, vai ser o CEO.

Novamente vai ter uma marca de prestígio em baixa (75% do valor oficial quando do IPO) com potencial de crescimento nas mãos. Uma marca do segmento luxo, no qual você se sente em casa. Você obteve muito sucesso com Michael Kors e outras marcas adicionando várias outras linhas de produtos, como óculos de sol, bolsas etc., talvez possa funcionar com Aston Martin.

Uma marca que tem tudo a ver com sua equipe de F1. Até agora ela esteve presente, discretamente, na Red Bull. Nada mais natural que colocar seu emblema em uma equipe competitiva só sua, assim

aproveitando ao máximo o carisma e a visibilidade da F1.

Não foi isso que a Mercedes fez quando comprou a Brawn?

Ela não veio investindo pesado para assumir a hegemonia na categoria? O objetivo não é aprimorar ainda mais sua imagem de marca no segmento top e assim vender mais?

 

Quem vai ser seu concorrente como executivo? Toto Wolf? Mas ele não é acionista controlador da Mercedes. Johnny Elkan? Ele tem mais o que fazer, cuidando da FCA. Christian Horner, Helmut Marko, Zak Brown, nenhum deles tem a condição e o poder que você tem.

 

O que você teria como objetivo de vida se estivesse no lugar de Lawrence Sheldon Strulovitch, conhecido pelos amigos como Larry Stroll, aos 61 anos de idade?

 

Acredito que essa combinação de capital e minha experiência, tanto na indústria automobilística quanto na construção de marcas globais altamente bem sucedidas, pode significar, ao longo do tempo, que vamos aproveitar todo o potencial da Aston Martin Lagonda… Estou ansioso para trabalhar com o conselho e a equipe de gestão … para continuar a investir no desenvolvimento de novos modelos e tecnologias e para começar a reequilibrar a produção priorizando a demanda sobre o fornecimento, disse Larry Stroll.”

 

Abraços

 

Carlos Chiesa

 

Carlos Chiesa
Carlos Chiesa
Publicitário, criou campanhas para VW, Ford e Fiat. Ganhou inúmeros prêmios nessa atividade, inclusive 2 Grand Prix. Acompanha F1 desde os primeiros sucessos do Emerson Fittipaldi.

6 Comments

  1. Fernando Marques disse:

    Chiesa,

    o que eu faria eu não sei … aliás nem sei o que faço se ganhasse na mega sena, quanto mais o dinheirão que este cara tem …
    agora já pensou se o filho dele desembestar a ganhar corridas e ser campeão mundial? … com a equipe do pai? …
    E aí ?? … Será que vão continuar criticando o Lance Stroll Junior? …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  2. PIERRE EMILE REUTER disse:

    Muito interessante
    Parabéns
    Abraço

  3. Carlos Chiesa disse:

    Muito obrigado, PH. Dá trabalho hoje, talvez mais do que nunca, distinguir o fato da interpretação, muitas vezes tendenciosa. Fiquei curioso para saber quem esse sujeito efetivamente é.

  4. Carlos Chiesa disse:

    Muito obrigado, PH. Toda matéria sobre este cidadão é negativa. Achei que convinha investigar quem efetivamente ele é.

  5. PH disse:

    Excelente texto e abordagem!
    Parabéns!

  6. Belíssimo texto…que mais a dizer..talvez kkk…muito simples….enfim a vida é bela…segue a guerra…as verdinhas são para poucos…

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